terça-feira, 30 de junho de 2015

CONFERÊNCIA DE LUZ EM LISBOA

É já esta quinta e sexta-feira que o Pavilhão do Conhecimento recebe a grande conferência internacional Light, from the earth to the stars, organizada pela Ciência Viva e pela Academia Europaea - Barcelona Knowledge Hub.

 O papel da luz nos nossos dias e a sua ligação com a arte, a ciência, a tecnologia, as comunicações ou a história serão discutidos por um painel de investigadores, artistas e empresários portugueses e estrangeiros. Desde o fotão, que o investigador do CERN Álvaro de Rújula chama "a partícula da vida", até ao satélite Hipparcos da ESA que mapeou mais de 100 000 estrelas, passando pelas células solares e LEDs de baixo custo que mudarão a forma como iluminamos as nossas casas e a vida nos países emergentes, todo um arco-íris de temas se abre à nossa curiosidade. De que forma a luz deu origem à vida, como é que a natureza comunica através da bioluminescência e de que forma a arte faz uso da luz, serão outras questões que irão iluminar estes dois dias de discussão viva e aberta.

 Reserve já o seu lugar em www.cienciaviva.pt

OS MARCIANOS SOMOS NÓS - INTRODUÇÃO

Trancrevo a Introdução do livro "Os Marcianos somos nós" de Nuno Galopim, que acaba de sair na colecção Ciência Aberta na Gradiva:

Creio que o meu interesse por Marte terá começado com Carl Sagan. Num episódio da série Cosmos,
que ele concebeu e apresentou, a sua grande nave da imaginação caminhava sobre o Valles Marineris, ao som da suite Os Planetas, de Gustav Holst. Sagan dava então conta de uma história feita de ligações entre o mundo real que a ciência vai descobrindo e o mundo imaginário que há muito ali tínhamos sonhado (e continuamos a sonhar). Num episódio centrado no Planeta Vermelho, tanto evocava as observações de Percival Lowell no seu observatório em Flagstaff, no Arizona, ou nas (então) recentes revelações das duas sondas Viking, como lembrava as histórias de invasores criadas por H. G. Wells em A Guerra dos Mundos ou o mundo de aventuras tendo John Carter por protagonista, que Edgar Rice Burroughs inventara com cenário em Barsoom, o nome ficcionado que em 1912 deu ao quarto planeta do sistema solar, no qual falou, entre outros povos, de homens verdes, nascendo aí uma das mais célebres ideias da representação do que poderiam ser os marcianos, que assim quase usurparam uma cor de pele antes já referida entre gnomos e outros seres imaginários de histórias do folclore de várias culturas ocidentais (note‑se que a pele verde não seria nunca um exclusivo marciano e foi frequentemente atribuída pela literatura e cinema a outros povos alienígenas igualmente ficcionados).

Sagan sublinhava nesse episódio como tinham sido estas aventuras entre John Carter, a princesa Dejah Thoris e os gigantes e verdes tharks que o levaram a desenvolver um encanto especial por Marte, que acabaria por guiar boa parte do seu trabalho como astrofísico. Para contar a história de Marte é por isso importante juntar os factos que a ciência tem observado e interpretado não só às antigas mitologias mas também às numerosas histórias de ficção que, sobretudo a partir do século xix, usaram esse planeta para falar de lugares e seres exóticos, lançar utopias, temer invasores, respirar o fulgor das aventuras, acreditar na força da tecnologia que nos pode lá levar um dia (e mesmo permitir habitar a sua superfície) ou lançar o debate ético sobre se devemos ou não agir sobre o seu ambiente com vista à sua eventual adaptação às nossas exigências biológicas. No fundo, e como sempre em ficção científica, usámos Marte para falar de nós, do nosso mundo e dos nossos desejos e medos. Entre a literatura, o cinema e a música, inventámos, para além da ciência — mas sempre tendo em atenção a história das suas descobertas — um mundo que ainda não visitámos. Mas que nos habituámos assim a conhecer.

Ao longo destas páginas cruzamos as várias narrativas, notando como a ficção científica se foi sempre adaptando e reinventando à medida que a ciência trazia, primeiro, novas observações e, depois, conclusões baseadas nelas.

Não se trata de uma história da exploração científica e tecnológica de Marte. Nem de uma abordagem do foro da crítica literária à muita (e muitas vezes bem interessante) ficção científica que se foi escrevendo. Os filmes e discos que aqui se evocam juntam‑se aos livros escolhidos entre uma vasta literatura «marciana» e também aos dados colhidos pela ciência para, acima de tudo, assinalar como evoluiu a nossa representação de Marte e como fomos tomando este planeta como cenário para falar do que somos, do que nos seduz ou nos assusta e do que queremos ou não queremos ser.

Nuno Galopim

LUZ INVISÍVEL

Texto primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Há mais luz para além da luz visível. Para além do arco-íris, há muita mais luz que é invisível aos nossos olhos.

A luz solar influenciou e permitiu o desenvolvimento da vida tal qual a conhecemos no planeta Terra. A vida adaptou-se ao intervalo de energias em que a radiação emitida pelo Sol é mais intensa. A evolução dos olhos, iniciada há cerca de 560 a 520 milhões de anos durante o Câmbrico (caracterizado por uma intensa revolução na vida na Terra em que se formaram quase todos os grandes grupos de animais), permitiu aos seres vivos detectar essa luz solar, torná-la um sentido visível e receber muita informação sobre o meio envolvente. Permitiu aos seres que desenvolveram olhos localizar predadores e prezas à distância, evitar obstáculos, potenciar uma ágil mobilidade. 

À luz solar a que os nossos olhos são sensíveis e que está belamente resumida no arco-íris, chamamos naturalmente luz visível. Mas esta constitui um pequeno intervalo no largo espectro de luz (ou radiação electromagnética) que hoje conhecemos e detectamos científica e tecnologicamente.

A zona visível do espetro, compreendida entre o vermelho e o violeta, situa-se entre o infravermelho (invisível, de frequência ou energia menor que a radiação visível) e a luz ultravioleta (também invisível, mas de frequência ou energia mais elevada que a radiação visível). Diga-se que frequência é o número de repetições, ou ciclos, da onda por unidade de tempo. Os cientistas descobriram que há uma relação proporcional entre a frequência e a energia: quanto maior a frequência de uma dada radiação electromagnética (aqui genericamente designada por luz) maior a sua energia.

Foi em 1800 que o físico inglês William Herschel descobriu a luz infravermelha. Um termómetro colocado na zona invisível, perto da zona vermelha do espetro visível, revelou uma nova radiação. Esta experiência clássica expandiu o conhecimento para a existência de luz invisível. A luz infravermelha é usada hoje, por exemplo, nos comandos da televisão. 

Em 1801, o físico alemão Johann Wilhelm Ritter investigou o outro lado do espectro visível e detectou a existência do que ele chamou de "raios químicos" (raios de luz invisíveis que provocavam reações químicas). Estes raios comportavam-se de forma semelhante aos raios de luz violeta visíveis, mas estavam para além deles no espectro. O termo "raios químicos" foi posteriormente mudado para radiação ultravioleta. A luz ultravioleta, tal como outros tipos de radiações, é emitida pelo Sol. Mas é absorvida pela atmosfera, excepto no famoso “buraco de ozono” na Antártida.

O espetro eletromagnético compreende ainda radiações invisíveis de mais baixa frequência como as ondas de rádio, de televisão e as micro-ondas – com aplicações nas telecomunicações - e de muito mais elevada frequência, como os raios X e os raios gama – que têm aplicações médicas tanto em diagnóstico como em terapia.

Os raios X foram descobertos em dezembro de 1895 pelo físico alemão Wilhelm Roentgen, quando estudava a passagem de correntes elétricas em tubos cheios de determinados gases (tubo de Crookes). Essa experiência foi repetida em Coimbra cerca de um mês depois, uma vez que os instrumentos necessários (bobina de Ruhmkorff e o tubo de Crookes) existiam no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra.

Os raios gama foram descobertos em 1900 pelo químico e físico francês Paul Ulrich Villard, ao estudar uma das propriedades do Urânio. Mas foi só em 1910 que o físico britânico William Henry Bragg mostrou que essa forma de energia era realmente radiação electromagnética muito energética. Por outras palavras, os raios gama são a luz invisível que conhecemos com a frequência mais elevada.

Temos assim e simplificadamente o espectro de luz que conhecemos no universo, distinguido em regiões, ordenadas da menor para a maior energia: ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho, visível, ultravioleta, raios X e raios gama.


António Piedade

segunda-feira, 29 de junho de 2015

OS MARCIANOS SOMOS NÓS




Sessão de lançamento do livro OS MARCIANOS SOMOS NÓS de Nuno Galopim – LISBOA

A Fnac Chiado, o Autor e a Gradiva têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento do livro
A sessão terá lugar no dia 29 de Junho, pelas 18h30, na Fnac Chiado (Rua Nova do Almada, 102, lj. 3.02.), em Lisboa.
A apresentação da obra ficará a cargo de Eurico de Barros e de Carlos Fiolhais. O autor convida-nos depois a recordar algumas viagens marcianas feitas com livros, filmes e música.
Seguir-se-á uma sessão de autógrafos.
ENTRADA LIVRE
Para contar a história do planeta Marte temos de juntar o que a ciência descobriu ao que a ficção imaginou ao longo dos séculos. Porque uma aprendeu sempre com a outra, como o observou.
Carl Sagan.


Para contar a história do planeta Marte temos de juntar o que a ciência descobriu ao que a ficção imaginou ao longo dos séculos. Porque uma aprendeu sempre com a outra, como o observou Carl Sagan.

Marte desperta a curiosidade desde há séculos. As descobertas científicas que se têm vindo a fazer em muito contribuem para manter aceso o interesse sobre o planeta vermelho. Dos tempos em que era apenas um ponto avermelhado nos céus ao momento em que uma sonda descobriu água no solo deste astro, a história da nossa relação com Marte somou séculos de fantasias e descobertas. Ao que se conhece do passado, associa-se o que se espera do futuro, onde parece abrir-se um mundo de possibilidades. É a oportunidade de viajar até lá, no momento presente, através de páginas cheias de referências, exemplos e histórias, que este livro oferece.

As visões dos invasores de H. G. Wells ou dos seres imaginados por Edgar Rice Burroughs cativaram muitos jovens para a ciência. Mas se Marte continua a despertar a ficção, capta igualmente o interesse de cientistas, cujas observações têm permitido acumular conhecimento sobre o planeta.

Carl Sagan defendeu que para contar a história de Marte é preciso juntar a ciência e a imaginação. Este livro faz essa reunião de modo convincente. O olhar do autor cruza as sondas Viking ou Mariner com as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, as canções de David Bowie com o hilariante Marte Ataca!, de Tim Burton. E fornece bons motivos para manter o leitor atento às páginas, incluindo pequenos marcianos que chegam à Terra maldispostos e colónias humanas que encontram em Marte uma nova casa.

SOBRE O AUTOR


Nascido em Lisboa em 1967, começou por projectar um futuro na ciência, e chegou a apresentar comunicações em encontros científicos, mas o jornalismo, a rádio e, sobretudo, a música e o cinema falaram mais alto. Tem 25 anos de carreira na rádio (Antenas 1, 2 e 3, XFM e Radar) e na imprensa (Independente e Diário de Notícias, escrevendo hoje no Expresso, Blitz, Time Out e Metropolis). Tem trabalho na música (do álbum Humanos à série O Melhor do Pop-Rock Português) e no cinema (como actor, produtor, consultor e programador).

Nos livros, estreou-se, era ainda aluno de Geologia, com Vida e Morte dos Dinossáurios, em co-autoria com o pai, o Professor Galopim de Carvalho. É o autor de Retrovisor: Uma Biografia Musical de Sérgio Godinho e colaborou na Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa. É autor dos blogues Sound + Vision e Máquina de Escrever.

domingo, 28 de junho de 2015

LUGARES PARA DEFICIENTES, GRÁVIDAS E VELHOS EM PARQUES DE ESTACIONAMENTO


"O dever é a necessidade de realizar uma acção por respeito pela ordem moral".
Emmanuel Kant

A imagem acima reporta-se a uma ocorrência de que se fez personagem involuntária um cidadão brasileiro (ao que me atrevo a pensar, capaz de correr os 100 metros planos) por ter estacionado a sua viatura num lugar destinado a deficientes.

Segundo Fernando Pessoa, “o civismo é simplesmente o medo agudo da opinião dos outros”. Por isso, perante o batalhão de assistentes que o receberam a tirar fotos dessa viatura coberta de cartões azuis e brancos, não acredito que ele não tenha jurado a si próprio  não voltar a repetir a façanha. E se ao caso me refiro fica-se a dever a situações de cidadãos portugueses useiros e vezeiros neste tipo de esperteza saloia, por exemplo, em locais de estacionamento do  Coimbra Shopping .

Uma vez, quando era bem mais novo e, como tal, menos sujeito a que me partissem a cara pela mania de querer endireitar o mundo, dirigi-me a um espertalhão, advertindo-o: “O senhor desculpe mas este lugar destina-se a deficientes físicos e não a deficientes mentais!” Em voz quase inaudível ruminou ele impropérios, que não me chegaram aos ouvidos sequer, afastando-se, embora eu acredite ter ele, em outros dias, voltado ao mesmo local para arrumar a viatura, a exemplo dos criminosos dos livros policiais que se diz voltarem sempre ao local do crime.

Outra ocorrência vulgar nestes locais é ver indivíduos do sexo masculino, ainda que viajando sozinhos, estacionarem o automóvel em lugares destinados a grávidas, em declarada gravidez que não consta dos registos de maternidades de qualquer parte do mundo ou sequer dos chamados fenómenos do Entroncamento. Ipso facto, serei eu obrigado a confessar não estar à la page com o que se virá a passar num futuro mais ou menos próximo em países conservadores como a Velha Albion? Concedo que sim, a fazer fé na leitura da seguinte notícia:
“O médico britânico Robert Winston, um dos maiores especialistas em inseminação artificial da Grã-Bretanha, afirma que os homens podem engravidar e ter filhos. Winston diz que a Medicina evoluiu tanto nos últimos tempos, que já existem técnicas capazes de implantar um embrião no abdômen de um homem, possibilitando que ele tenha um filho, se for submetido a um tratamento à base de altas doses de hormônios femininos” (Jornal “O Dia”, Rio de Janeiro 24/02/99).
Pois é, incrédulo leitor que, porventura, esteja a ler esta notícia: a mim já nada me espanta desde que vi um porco a andar de bicicleta e mulheres no circo com barbas de fazerem inveja ao nosso Guerra Junqueiro! Mas não pense o leitor, que os actos de falta de civismo, a que se assiste diariamente nesses locais, se quedam por aqui. Há corredores de acesso aos lugares de estacionamento, uns num sentido, outros noutro sentido. Pois não é que, sempre que um lugar está vago num corredor com a placa de acesso proibido, certos espertalhões, ou espertalhonas, avançam lampeiros por ele dentro em prejuízo do automobilista cumpridor das regras de trânsito, sujeitando-se este, ainda por cima, a passar por parvo?

Ao contrário de certos filmes que avisam o espectador que “qualquer semelhança com a realidade é pura ficção”, garanto que este meu relato é a realidade dos factos que se pode transformar num filme do far west sem um alto e espadaúdo John Wayne que imponha um mínimo de justiça em situações que correm o risco da força dos punhos se fazer lei!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Delfim Santos Studies

Informação chegada ao De Rerum Natura.

É com enorme satisfação que os Editores da revista internacional Delfim Santos Studies anunciam a edição das Atas do Colóquio sobre Joaquim de Carvalho.

Os artigos estão disponíveis em versão digital aqui.

A edição em papel está disponível para venda aqui.

Algumas informações úteis sobre a DSS:

1. A Delfim Santos Studies é uma Revista Internacional consagrada ao estudo da "geração de ouro" dos anos 30 em Portugal, de que Delfim Santos foi indiscutivelmente um dos maiores expoentes. Deste modo, a DSS publicará textos sobre todos os autores, obras e temas pertinentes a este período da nossa história cultural, que atrai cada vez mais investigadores, quando Portugal, apesar do contexto desfavorável dos anos da Grande Depressão e depois da Guerra, conseguiu colocar-se efetivamente a par da Europa: em Medicina, a descoberta da angiografia e o primeiro Nobel português, a introdução no país das matemáticas modernas, do movimento psicanalítico, dos debates em torno da escola nova, o surgimento de trabalhos pioneiros nas ciências, nas artes, em engenharia, os anos de ouro do cinema nacional, ou a renovação literária do Segundo Modernismo (a geração da "presença"), etc.

2. A periodicidade da revista é anual. O próximo número está previsto para Dezembro de 2015. Neste momento está aberta a chamada de artigos para o próximo número.

3. As normas de edição da DSS podem ser encontradas aqui.

4. A DSS é uma publicação registada com ISSN, possui Conselho Científico e funciona em sistema de peer review. A par da edição online será disponibilizada uma versão em papel.

5. O próximo número reflete o lançamento da evocação dos 50 anos da morte de Delfim Santos, que decorrerá ao longo de 2016, tendo como tema principal o balanço da obra, pensamento e estudos de / e sobre o autor portuense.

6. As propostas de artigos são recebidas em fluxo contínuo e devem ser enviadas para: arquivodelfimsantos@gmail.com

CREME DE ALHO E PIMENTO ENCARNADO

Deliciosa receita que o Professor Galopim de Carvalho enviou ao De Rerum Natura.


(Para 4 adultos)

Para um litro de água, corte em pedaços um pimento encarnado de tamanho médio (depois de lhe retirar as sementes) e 4 dentes de alho.

Introduza esta mistura no copo da varinha mágica, junte 0,5 dl de bom azeite, uma pequena golada de água (para ajudar a operação) e reduza tudo a um batido muito fino.

Dilua o batido na restante água, juntamente com uma colher de sopa de maizena e leve-a ao lume a abrir fervura e engrossar. Sobre este caldo, logo que esteja a ferver, verta lentamente um ovo bem batido e mexa rapidamente com um garfo, a fim de fazer fios e obter um caldo cremoso e aveludado.

Tempere de sal (facultativo).

Junte, por fim, uma porção a gosto de coentro picado, com o propósito de aromatizar e alegrar o colorido.

Para que cada conviva se sirva na quantidade que desejar, coloque na mesa um recipiente com pequeninos (0,5 cm) cubos de pão frito.

Sempre que tenha cozido bacalhau, peixe ou marisco, aproveite a água da cozedura para confecionar este saboroso creme

Experimente usar pimento verde, amarelo ou cor de laranja.

Bom apetite e dias felizes!

Manuel Bandeira: Teadoro, Poesia






 
 
 
 
 
A estrela e o Anjo

Vésper caiu cheia de pudor na minha cama
Vésper em cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade

 
Enquanto eu gritava seu nome três vezes
Dois grandes botões de rosa murcharam

 
E o meu anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo

Insatisfeito de Deus.

A realidade e a imagem

O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
e desce refletido na poça de lama do pátio.

Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,

quatro pombas passeiam.


A Lua

A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira

Do luar sobre as águas mansas.


O mar jaz como um céu tombado
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,

A só, silente louca emerge

Das ondas-nuvens toda nua.

 
Lua Nova

Meu novo quarto
virado para o nascente:

meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.


Depois de dez anos de pátio
volto a tomar conhecimento da aurora.

Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.


Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.


Hei de aprender com ele
a partir de uma vez

— sem medo,
sem remorso,

sem saudade.

 
Não pensem que estou aguardando a lua cheia
— esse sol da demência

vaga e noctâmbula.
O que mais quero,

o de que preciso
é de lua nova.


Onda

a onda anda
aonde anda

          a onda?
a onda ainda

 ainda onda
ainda anda

          aonde?
aonde?

 a onda a onda

 
Satélite

Fim de tarde.
No céu plúmbeo

A lua baça
Paira.

Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,

Desmitificada,

Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,

O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão-somente

Satélite.


 Ah! Lua deste fim de tarde,
 Demissionária de atribuições românticas;

Sem show para as disponibilidades sentimentais!


Fatigado de mais-valia,
gosto de ti, assim:

 Coisa em si,
—Satélite.

SUUM CUIQUE TRIBUERE


“Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste”  (Sigmund Freud).

Indo contra a corrente que entende, ou mesmo defende, que a entrada de leão da Grécia, em despique com a troika e a Alemanha (ou vice-versa), lhe traria uma vitória estrondosa, ocorre-me à lembrança o conselho de um  ditado português: "Com o teu amo não jogues às pêras, porque ele dá-te as verdes e come as maduras”.

Assim penso que a gravidade do problema da Grécia (melhor, do povo grego), vítima de elevadíssima corrupção e descontrolo governativo, não se coaduna com o ar blasé e sorriso permanentemente despreocupado do respectivo primeiro-ministro, Alex Tsiparas, quando se apresenta em areópagos decisivos para o destino do país, em perigo de bancarrota, como quem vai a uma recepção oficial em dia festivo. E mais discordo da chantagem do género ou vocês, Comunidade Europeia, Alemanha e troika, cedem às nossas condições ou vamos bater às portas de Moscovo…

Passado este (des)ajustado intróito, porque aos gregos o que é dos gregos e aos portugueses o que é dos portugueses nativos de um país que ainda  passa “as passas do Algarve” com a ameaça da espada de Dâmaclos do Fundo Monetário Internacional (FMI), numa Europa vítima de uma política  em que os países mais pobres se ajoelham perante o trono de Rei Midas, ocupado pela chanceler alemã Angela Merkel, vou tentar clarificar e fundamentar, mais detalhadamente, com exemplos concretos, o que pretendi denunciar no meu post “O Fundo Monetário Internacional e as Reformas de Aposentação” (DRN, 15/06/2015).

Para evitar mal-entendidos, ou seja aquilo que podemos traduzir, ainda que um tanto forçadamente, pela expressão francesa honny soit  qui mal y pense, desde já assumo a minha identificação  com uma direita democrática que não ressumbre  vestígios de ditadura que se perdura contra a vontade do povo. Condição política essa que não me exime, no entanto, e por vezes, de ao  falar com amigos da esquerda, lhes confessar: - “Eu é que pareço de esquerda e vocês de direita!” Tal o statu quo  a que chegou a política portuguesa em que as pessoas chegam a  não saberem as águas turvas da política em que navegam!

Concedendo que as exigências do FMI são medidas inamovíveis, qual Rochedo de Gibraltar, vamos ao cerne da questão no que tange aos cortes cegos, repito, cortes cegos, nas pensões dos actuais aposentados. Recuemos a tempos em que os licenciados ganhavam mais do que os bacharéis e o bacharéis, por sua vez, mais do que os diplomados com cursos médios, cifrando-se os escalões de vencimentos,  respectivamente, nas letra A, B e C da carreira docente. Evidentemente, que os descontos para a Caixa Geral de Depósitos  seguiam essa linha gradativa, sendo menores para as letras C e B e maiores para a letra A.

Tudo mudou! Em vésperas de se reformarem os antigos diplomados com cursos médios, equiparados a bacharéis, para continuação de estudos, procuraram o negócio de escolas  superiores privadas que escancararam as  portas para venderem licenciaturas “ignominia causa” (adjectivação com direitos de autor da minha pertença). Que diacho, se há doutoramentos “honoris causa” de toda a respeitabilidade, porque não  atribuir a estas licenciaturas, embora de nenhuma respeitabilidade, o papel (ou mesmo pergaminho) de maná caído do céu aos pés dos respectivos usufrutuários?

E se assim o pensarem, assim o fizeram para que lhe fossem oferecidas de bandeja reformas idênticas aos licenciados, mas com um capital de descontos incomparavelmente menor, como se uma conta bancária, de milhares de euros devesse dar os mesmo juros de uma conta de escassos euros. E se tudo isto ainda fosse pouco, foi este statu quo agravado por a lei permitir a esses docentes bacharéis a reforma aos 52 anos de idade e aos licenciados aos 56 anos, sem, por outro lado, qualquer benefício para os que se reformaram aos 70 anos de idade empurrados à força para fora da função pública.

Façamos um exercício sobre este bónus que pesa nas bolsas dos contribuintes em jogadas de puro oportunismo que a lei consente em conquistas sindicais defendidas nos gabinetes ministeriais ou/e na praça pública. Resumindo, prevendo a hipótese de Portugal ser obrigado a cumprir directivas do FMI, que esses cortes sejam feitos com os olhos bem abertos e em respeito pelos descontos atribuídos ao longo de uma carreira livre de  qualquer género de oportunismo..

Como diria Teilhard Chardin, “o barbarismo da nossa época é ainda mais estarrecedor pelo facto de tanta gente não ficar realmente estarrecida”. Estarrecida por haver cortes cegos nas reformas dos actuais aposentados mais idosos, e que mais descontaram para a sua reforma perante a resignação de quem suporta tanta e tamanha injustiça. 

Estes cortes mutatis mutandins, assemelham-se à accão de arrecadar impostos exemplificada por Jean-Baptiste Colbert: "O acto de tributar é idêntico ao depenar de um ganso, procurando obter o maior número de penas com a menor gritaria"!  E assim, perante a apatia de uns tantos reformados, decorre o triste e insólito mundo das aposentações em Portugal em que tudo o que é legal nem sempre é moral!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ESTA É A EXCELÊNCIA DA FCT

Ler aqui os atrasos de uma FCT displicente, que zela muito pelos atrasos dos outros mas que não cuida de evitar os seus, mesmo quando eles prejudicam gravemente jovens em formação.

Porque é que o que se passa na Antártida é importante para ti?

Na próxima 3ª feira, dia 30 de Junho de 2015, pelas 18h00,"Porque é que o que se passa na Antártida é importante para ti?", com José Carlos Caetano Xavier, Biólogo Marinho, Investigador do MAR-CMA - Marine and Environmental Research Centre da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. 
Esta palestra encerra o ciclo "À Luz da Ciência" dinamizado pelo Bioquímico 
António Piedade, que decorreu de Fevereiro a Junho de 2015.

Público-Alvo: Público em geral
ENTRADA LIVRE

SINOPSE DA PALESTRA:
A palestra pretende evidenciar, através de uma viagem à Antártida, a importância da ciência que é feita na Antártida no nosso dia-a-dia. Nesta palestra serão abordadas questões como as alterações climáticas, o degelo, o camada do ozono, o que vai acontecer aos pinguins e a relevância cientifica, política, diplomática e educacional desta parte do planeta. Serão ainda dadas respostas às seguintes questões: “Como a Antártida poderá influenciar o resto do planeta?”; “O que se passa lá pode afetar Portugal também? Se sim, como?”; “O que é que já se descobriu lá de importante?”

 
Para mais informações: ccvromulocarvalho@gmail.com

ALGUNS MISTÉRIOS DA LUZ



Na próxima 6ª feira, dia 26 de Junho de 2015, pelas 21h15, o Prof. Doutor José António Paixão, do Centro de Estudos da Difracção dos Raios X da Universidade de Coimbra, vem ao RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra falar-nos de "Alguns Mistérios da Luz".

Inserida no Projecto Quark! - Escola de Física para Jovens (http://quark.fis.uc.pt/), este ano 2015 dedicado ao tema "Ano Internacional da Luz", esta conferência é a que encerra a Escola Quark! 2015.

Público-Alvo: Alunos do ensino secundário e público em geral
Entrada livre
Para mais informações: ccvromulocarvalho@gmail.com

Corrupção que mata crianças

Vale a pena ver este vídeo sobre a corrupção angolana.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL E AS REFORMAS DE APOSENTAÇÃO


Meu artigo de opinião saído hoje no "Público":

“Os velhos são os verdadeiros rebeldes”.
Miguel Esteves Cardoso

Num tempo em que voltam a pairar nuvens negras sobre a economia nacional com o Fundo Monetário Internacional (FMI) a assestar baterias para a necessidade do “controle da massa salarial e despesa com as pensões” (PÚBLICO; 13/06/2015), foram os portugueses defrontados, por um lado, com declarações apocalípticas da ministra das Finanças, que puseram os actuais aposentados em polvorosa, e, por outro lado, com esperança renascida por possíveis soluções vindas do Partido Socialista para evitar uma hecatombe nas suas bolsas num país devoto de milagres de Santo António.

E assim, muito se disse, escreveu e polemizou sobre declarações de Maria Luís Albuquerque quase deixando na penumbra possíveis soluções de António Costa para o  futuro da Segurança Social. Ora, este diz-tu-direi- eu, seria evitável se, para além dos assessores de imagem que tentam melhorar a fotogenia dos políticos, houvesse assessores das suas declarações públicas para evitar aquelas que são verdadeiros tiros nos pés de quem as profere. Isto, para além do facto de em campanhas pré-eleitoral ou eleitoral, os políticos, normalmente, fazerem juras de um mundo de rara felicidade em namoro a possíveis e ingénuos votantes.
  
Pela excepção, a declaração pública de Marisa Luís Albuquerque teria assumido o papel de invulgar honestidade em elucidar os portugueses sobre o que o PSD seria obrigado a fazer no caso de vencer as próximas eleições. Até aqui tudo bem, não se desse o caso de logo ter dado o dito por não dito utilizando, a contrario sensu, a metodologia de Maurice Tayllerand, político do tempo de Napoleão, com rara habilidade em se manter no poder. Sentenciou ele: [A política] “é a arte de estar contra, mas com uma habilidade tal que logo se possa estar a favor”.

Ou seja, para a actual ministra das Finanças a política é a arte de estar a favor do corte das actuais reformas de aposentação, mas com uma habilidade tal que logo se possa estar contra desdizendo o que disse sem qualquer pejo em passar um atestado de ignorância aqueles que não conseguiram descodificar a “subtileza” da sua mensagem televisiva.

Para além da “erosão de valores éticos”, apropriando-me de uma expressão do reputado constitucionalista Jorge Miranda, mesmo que se queira tapar o sol com a peneira, a questão reside no verdadeiro nó górdio de princípios estabelecidos na Constituição Portuguesa impeditivos de cortes em pensões actuais contratualizadas entre o Estado e os seus servidores. Sustenta, ainda, Jorge Miranda  que “qualquer esquema desse género, de aplicação aos já aposentados de qualquer regime restritivo das pensões a que têm direito, é manifestamente inconstitucional, é violação do princípio da protecção da confiança e até do direito de propriedade, porque as pessoas contribuíram, deram dinheiro, em larga medida é dinheiro das pessoas”.

Suponhamos, por hipótese, haver um partido político (sozinho ou em coligação), vencedor das próximas eleições, que chegado ao poder desembainhasse a espada capaz de desfazer este nó górdio constitucional. A questão que se continuaria a pôr seria a forma como esses cortes se processariam. A continuação de cortes cegos para antigas reformas sem ter em linha de conta o montante dos descontos efectuados para o efeito e a respectiva duração?

Por exemplo, detendo-me sobre as pensões de quem se tenha reformado aos 52 anos de idade com uma reforma por inteiro (não se trata de mera hipótese mas de casos concretos), pleno de saúde mental e vigor físico, não deveria ter cortes maiores na sua aposentação de que um outro que o tenha feito no tempo limite obrigatório: 70 anos de idade?

Isto é, numa espécie de perversa injustiça, o dever para os que mais contribuíram para a sua reforma durante mais anos e os direitos para os que menos contribuíram e durante menos anos. Aliás, é o que tem acontecido, por exemplo, com os cortes feitos nas actuais reformas da Caixa Geral de Aposentações. E se errare humanum est persistir no erro dos cortes cegos que têm incindindo sobre as reformas  actuais  será, no mínimo, atentatório do princípio da igualdade que, segundo Rui Alarcão, antigo reitor da Universidade de Coimbra, está na Constituição significando que “o que é igual deve ser tratado igualmente e o que é desigual deve ser tratado desigualmente”. Tão simples como isto!

Mas o que mais nos deve impressionar nisto tudo é a apatia de quem cala consente de uns tantos  reformados que na terceira idade deveriam ser mais rebeldes nas suas reivindicações, ainda que pessoais, e o não fazem perante a actuação de um Governo despreocupado com as doenças próprias da terceira idade e despesas de saúde a elas inerentes. Chegou, portanto, a altura de evocar, junto de quem nos governa, ou venha a governar, a força do voto reconhecida por Abraham Lincoln: “Um boletim de voto tem mais força do que um tiro de espingarda”!

A cerveja e a Europa do século XXI

"Os casos de sucesso de portugueses no estrangeiro multiplicam-se de dia para dia", assim começa a notícia de um jornal online, onde se conta o de dois jovens empreendedores, com formação superior, que "viram" uma oportunidade de negócio ainda não explorada no mercado internacional: fabricar a "cerveja do século XXI".

Imigrantes ilegais retidos na Líbia quando tentavam ir para a Itália pelo Mediterrâneo (aqui)
Comecei por ouvir parte de uma entrevista na rádio a um desses jovens. Muito entusiamado contava que, com um amigo de infância, teve a ideia fabricar uma cerveja diferente de todas as outras. E o que poderia fazer mesmo a diferença numa cerveja? O mel e o ouro! Sobretudo, o ouro.

Esta declaração não fez estremecer os entrevistadores da rádio e do jornal. Ambos continuaram a perguntar e o jovem a explicar que era uma cerveja destinada aos mercados internacionais de luxo, que tem de ser feita na Bélgica, porque, como se sabe, é a casa-mãe da cerveja, que o fabrico artesanal passa por umas tantas etapas... que o ouro usado é ser 24 quilates, "o grau máximo de pureza do ouro alimentar"... Sim, há clientes, muitíssimos por todo o mundo: Europa, Ásia, Américas...

Esta é, tal como a cerveja, a Europa do século XXI: um sítio onde não se acha estranho (nem os jornalistas que se formaram para estranhar) que quem tenha o dinheiro não lhe baste mostrar o ouro: tem de o ingerir.

O simbolismo é fortíssimo, admitamos!

Nota: A imagem que ilustra o texto não tem nada (ou, terá tudo?) a ver com ele, razão porque o escolhi.

COIMBRA SPACE SUMMER SCHOOL

Mensagem recebida do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra:

COIMBRA SPACE SUMMER SCHOOL

13 a 17 de Julho de 2015
Observatório Geofísico e Astronómico
da Universidade de Coimbra


A Coimbra Space Summer School é uma escola de Verão de 5 dias onde empreendedores, estudantes ou investigadores exploram uma ideia de negócio em torno do Espaço. A ideia é aproveitar conhecimento, tecnologias e recursos gerados nas missões espaciais e nas actividades científicas de exploração do Espaço para conceber negócios para outras áreas: cidades inteligentes, transportes, turismo e lazer, saúde e bem-estar, agricultura, ambiente, media, etc..

UM TRIBUTO AO JARDIM BOTÂNICO DE COIMBRA

Mensagem recebida de Ana Cristina Tavares:

Para celebrar o 2º  aniversário da Universidade de Coimbra e seu Jardim Botânico como Património da Humanidade, venho, com muito gosto, partilhar a publicação do Livro BILINGUE:

“UM TRIBUTO AO JARDIM BOTÂNICO DE COIMBRA, Património Mundial da Humanidade, 2013”.

Registado com ISBN-13: 978-84-16399-23-9, o livro é gratuito e está disponível on-line :



Três factos “notáveis” sobre o financiamento pela FCT


Com a devida vénia transcrevo artigo de opinião no Público de hoje sobre o inacreditável processo da pseudo-avaliação da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que o ministro Nuno Crato ainda não emendou como lhe competia. O comportamento da FCT e do ministro não configura apenas um caso de desonestidade intelectual- é também um caso e grave de desonestidade material:

  Em Portugal, como tem sido divulgado pela comunicação social, o financiamento dos centros de investigação científica é efetuado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e decorre dos resultados da avaliação realizada periodicamente. É esse financiamento que sustenta uma parte da sua atividade científica; a outra parte decorre da capacidade de investigadores/as obterem financiamento em concursos nacionais e internacionais muito competitivos. 


A última avaliação dos centros de investigação tem suscitado, nas diversas várias fases do processo, reações muito críticas por parte da comunidade científica, às quais os órgãos de comunicação social têm dado alguma cobertura, em particular o jornal PÚBLICO, que dessa forma tem contribuído para que os próprios centros — e a sociedade em geral — fiquem cientes do que têm sido as ilegalidades e a falta de transparência que caracterizam este processo de avaliação. Nessas críticas tem sido realçada uma política de destruição da investigação científica no país, depois de anos em que a aposta na ciência foi visível e impulsionadora de um desenvolvimento sustentado. 

O centro que representamos — o CIIE-UP (Centro de Investigação e Intervenção Educativas/Universidade do Porto) — passou com sucesso todas as fases do processo de avaliação, mas, mesmo assim, encontrou motivos que justificaram a contestação da sua avaliação em sede de audiência prévia, como fizeram 123 dos 178 centros que passaram à segunda fase. 

Dos 17 centros de investigação em Ciências da Educação existentes em Portugal, e que se sujeitaram ao processo de avaliação, apenas 3 passaram à segunda fase. O CIIE, embora tendo o 2.º lugar na classificação final, obteve um financiamento incompreensivelmente baixo, o que inviabiliza o cumprimento do plano estratégico que lhe permitiu atingir esse 2.º lugar, com a classificação de Muito Bom. 

 Este é o primeiro facto notável deste processo: melhorar para piorar. Em 2007, o CIIE-UP foi avaliado pela FCT com a classificação de Bom. Com essa classificação, o CIIE teve, entre 2008 e 2014, um financiamento muito superior ao que agora a FCT lhe quer atribuir. Tendo no passado (com a classificação de Bom) 124.820 euros por ano, com Muito Bom, a FCT quer atribuir-lhe 38.854 euros, ou seja, menos de um terço do financiamento anterior. É notável, de facto, que um centro de investigação que, em resultado do trabalho desenvolvido, melhora claramente a sua classificação, tornando-se o segundo centro com classificação mais elevada a nível nacional na área da Ciências da Educação (21 pontos, num total de 25), tenha o seu orçamento reduzido em mais de 2/3. A uma melhoria clara do ponto de vista científico, a FCT faz corresponder, paradoxalmente, uma deterioração expressiva do apoio financeiro atribuído para a realização dos trabalhos previstos e avaliados. 

 Segundo facto notável: a seriedade orçamental não compensa. Para o período 2015-2020, o CIIE-UP, no plano estratégico classificado com Muito Bom, apresentou uma proposta de orçamento de “financiamento estratégico” que teve em conta não apenas os trabalhos a realizar nesse período, mas também a difícil situação económico-financeira do nosso país. Esta proposta envolvia valores anuais idênticos aos que tinham permitido ao CIIE melhorar a sua atividade e a sua classificação no período anterior. O próprio painel de avaliação da FCT qualificou o orçamento apresentado como “modesto”. Em contexto de crise, entendemos tal qualificativo como um elogio. Ser modesto é estar consciente de que, num contexto de grave crise económica, o financiamento que sustenta a produção científica deve ser tratado com muito respeito. Aliás, o CIIE obteve nota máxima no Critério D “Exequibilidade do programa de trabalhos e razoabilidade orçamental proposta”. Desconhecíamos que, a posteriori, a FCT iria introduzir uma regra “cega” que definiu que aos centros de investigação avaliados com Muito Bom seriam apenas atribuídos 36 a 44% do financiamento estratégico proposto. Por outras palavras, em vez de fazer, como lhe competia, uma avaliação orçamental que considerasse em que medida as verbas indicadas pelos centros eram justas e razoáveis em função dos objetivos propostos, a FCT aplicou um critério “administrativo”. Quem tinha um orçamento irrealista e irrazoável, com quantitativos muito “alargados”, teve 36 a 44%; quem tinha um orçamento realista e razoável, teve também 36 a 44%, mas, porque apenas indicou o financiamento necessário, não tem condições para cumprir o plano com que se comprometeu. Conclui-se que a seriedade orçamental não compensa. 

 Terceiro facto notável: o financiamento base desapareceu. O Regulamento da FCT distinguia claramente entre “financiamento base” (o montante mínimo a atribuir pela obtenção de uma determinada classificação, e que visa assegurar os “serviços mínimos” de funcionamento) e “financiamento estratégico” (o montante variável e que serviria para financiar o programa estratégico que esteve na base da avaliação). Estranhamente, quando divulga os resultados da avaliação dos centros, a FCT faz desaparecer o “financiamento base”, declarando que o financiamento atribuído integra ambas as parcelas, sem apresentar qualquer justificação. Presumimos que o possa ter feito para escapar ao ridículo. De facto, por exemplo, no caso do orçamento do CIIE, qualificado de “modesto” na avaliação, se fosse aplicada a distinção entre “financiamento base” e “financiamento estratégico”, a FCT seria forçada a reconhecer que atribui cerca de 500 euros por ano para o financiamento da investigação constante do plano estratégico, valor obviamente risível. Nada risível é aquilo que consideramos constituir uma violação clara do princípio da transparência, questão grave em procedimentos desta natureza, fazendo desaparecer por baixo dos nossos olhos elementos do Regulamento definido pela própria FCT. 

Estes factos notáveis não podem deixar de ser expostos publicamente. O sentimento de justiça assim o exige. Há neste processo injustiças de ordem diversa: da insensibilidade ao mérito, num sistema supostamente meritocrático, às injustiças processuais, passando pela “simples” desconsideração da razoabilidade e do bom senso. Estes factos “notáveis” não podem passar sem que lhes seja manifestada oposição. Aqui e em todas as instâncias que se revelem adequadas. 

Helena C. Araújo, Amélia Lopes, Isabel Menezes, Carlinda Leite e Tiago Neves 
Direção do Programa Estratégico do CIIE-UP (Centro de Investigação e Intervenção Educativas/Universidade do Porto)

MEMÓRIAS DE PROFESSORES

Meu depoimento no jornal de I de hoje:
 
Devo tudo aos meus pais. E para além deles devo tudo aos meus professores, desde a escola primária (que foram duas, a Escola da Voz do Operário em Lisboa e a Escola dos Olivais em Coimbra) até à universidade (também duas: a Universidade de Coimbra e a Universidade de Frankfurt, na Alemanha), passando pelo liceu (que foi só um, o Liceu de D. João III, hoje Escola Secundária José Falcão, em Coimbra). Se os pais me transmitiram as primeiras noções do mundo e da sociedade, os professores transmitiram-me o melhor do património da humanidade. Sem os pais e sem os professores não poderia ser quem sou.

Guardo gratas memórias de todos os meus professores, sendo difícil fazer o que me pedem: distinguir alguns. Mas não fujo ao desafio. Na Escola Primária dos Olivais, lembro a exigência do Prof. Nobre. Fazia-se exame da quarta classe e de admissão aos liceus e pude passar nos dois com facilidade, porque sabia na ponta da língua o que ele me ensinou. Era o tempo em que se ensinavam as serras (o monte Ramelau, em Timor, era o pico maior) e os reis portugueses das várias dinastias (com os cognomes, claro).

No liceu lembro-me com saudade do Padre Urbano Duarte, professor de Moral. Aos quinze anos atribuiu-me a mim, e a um colega (o António Pedro Pita, hoje professor de Filosofia), a responsabilidade de uma página no Correio de Coimbra, o jornal que ele dirigia. A página, intitulada Início, foi o meu início na imprensa. O Padre deu-nos total liberdade de escrever o que entendêssemos, mas já o mesmo não se passou com a censura…

Por último na Universidade, quero homenagear o Doutor Joaquim Domingos, falecido há pouco tempo. Muito sábio, atento ao mundo e dono de um humor extraordinário ensinou-me a mecânica quântica e a física nuclear nos atribulados tempos da Revolução. Lembro-me tanto da Física que ele fez por transmitir como das suas histórias de vida, que tinham por cenário Oxford ou Lourenço Marques.


O que são bons professores? Aqueles que jamais esquecemos.

Ingresso no ensino superior: o antigo exame ad hoc e as actuais provas de acesso para maiores de 23 anos

JÁ AGORA, para não deixar cair no esquecimento a minha promessa feita no meu comentário ao artigo de Guilherme Valente, Educação, o ‘Regresso’ do que nunca saiu de lá (23/06/2015), transcrevo integralmente o meu artigo de opinião, com o título em epígrafe, saído no “Público” (04/11/2011) e transcrito no DRN nesse mesmo dia. Nele escrevi:

"O pior governo é o que exerce a tirania em nome das leis e da justiça. 
(Barão de Montesquieu, 1689-1775).

Num sistema educativo, com fracos caboucos de uma deficiente “instrução primária”, abrindo brechas nas paredes do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e em que o ensino secundário tenta que as suas traves de madeira não sejam atacadas pelo caruncho da ignorância, com a Lei de Bases do Sistema Educativo, corporizou-se a louvável exigência que deve presidir à entrada no ensino superior com o seguinte articulado: “O acesso a cada curso do ensino superior deve ter em conta as necessidades em quadros qualificados e a elevação do nível educativo, cultural e científico do País, podendo ainda ser condicionado pela necessidade de garantir a qualidade do ensino” (Lei 46/86, de 14 de Outubro, art.º 12, n.º 3). Todavia, não descortina vestígios dessa qualidade “legal” a professora universitária Maria Filomena Mónica quando escreve: “Devido à irresponsabilidade dos governos, ao populismo dos parlamentares à cobardia dos docentes, a universidade degradou-se para além do razoável (PUBLICO, 08/12/2003).

Porém, e lamentavelmente, anos depois, o Decreto-Lei 64/2006, de 21 de Março, passa a atribuir “a organização e realização das provas da competência a júris nomeados pelo órgão legal e estatutariamente competente do estabelecimento de ensino superior a que se destinam”. Ou seja, passam-se a abrir, de par em par, janelas de ignorância a escolas de ensino superior que se debatiam com a falta de candidatos à respectiva matrícula deixando-os, agora, entrar à balda para não terem que encerrar portas criadas em quase cada esquina em tempo de vacas gordas.

O ensino superior, que eu denomino de pré-facilitismo (mesmo deixando de fora as exigências do Estado Novo) por não pactuar com atentados à sua seriedade, exigia, como condição,
sine qua non de acesso, o curso do ensino secundário ou equivalente ou, em alternativa a verdadeiros autodidactas, o exame ad hoc. Em contrapartida, o ensino superior pós-facilitismo contenta-se com "provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos” elaboradas e levadas a efeito nas próprias escolas como que a modos de um salto à vara com a fasquia a um palmo do solo.

Ou seja, o Estado, ele próprio, fomenta todo este processo que constitui um verdadeiro atentado para com o esforço e a própria dignidade de todo e qualquer aluno que se tenha sujeitado em árduo trabalho a um ensino secundário regular que nada tem a ver com a escandalosa facilidade das Novas Oportunidades.

Mas detenhamo-nos, agora, sobre o exame ad hoc para maiores de 25 anos a quem o laissez faire, laissez passer do actual sistema de ensino superior passou uma criminosa certidão de óbito sem atender ao facto de que “não há nada mais relevante para a vida social do que a formação do sentimento de justiça”, como sentenciou o jurisconsulto Ruy Barbosa, co-autor da Constituição da Primeira República do Brasil. 

A responsabilidade da elaboração da prova de Língua Portuguesa do exame
ad hoc era cometida a um júri nacional, constituído por seis individualidades que, para além disso, procediam à classificação das provas tendo poderes para decidirem sobre os pedidos de reapreciação. Sem classificação positiva nesta prova era o candidato eliminado à partida por se considerar que quem não dominasse suficientemente esta importante matéria não devia transpor os umbrais do ensino superior. Depois seguiam-se provas específicas versando matérias dos programas do ensino secundário. Por exemplo, para a Faculdade de Direito de Coimbra essas provas determinavam conhecimentos de História, Filosofia e uma Língua viva. Os dados relativos ao exame ad hoc do ano de 2001 dão-no conta da inscrição de 3658 candidatos ao ensino superior tendo sido admitidos para a prova de Língua Portuguesa 1135 e aprovados apenas 647.

Mas para que se não pense poder eu estar a tirar conclusões depreciativas, por um qualquer
parti pris, das provas de acesso para maiores de 23 anos, trago ao conhecimento público elementos que não são ignorados pelas instâncias oficiais por a lei determinar expressamente que “o Observatório da Ciência e do Ensino Superior deve ser informado com dados estatísticos relativos aos resultados das provas de acesso para maiores de 23 anos”.

Um desses exemplos reporta-se aos resultados de uma escola superior de gestão do ensino politécnico em que os resultados das provas de acesso para maiores de 23 anos foram os seguintes (2011/2012): candidataram-se 43 indivíduos, não compareceram 2 , tendo sido aprovados, portanto, 41, o que em termos estatísticos dá 100% de aprovações. E, quiçá, por se tratar de um escol de verdadeiros” autodidactas” houve um 18, um 17, dois 16, senso a média geral dos candidatos de 14 valores.
Não se fosse dar o caso de se tratar de excepções “excepcionais” debrucei-me, depois, sobre os resultados, desse mesmo ano lectivo, de uma escola superior de tecnologia também do ensino politécnico. Os resultados foram ainda mais reveladores: dos 34 candidatos houve uma percentagem de 100% de aprovações, destacando-se nas classificações mais elevadas dois 19, quatro 18, seis 17, sendo a média geral dos candidatos de 15 valores.

Sem necessidade de mais comentários, porque, como diz o povo, pelo andar da carruagem se vê quem vai lá dentro, perante estas duas situações que não me atrevo, sequer, a adjectivar quando comparadas, por exemplo, com os exames do 12.º ano, só me resta evocar Albert Einstein:
“É fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores”.

Mas será possível “uma percepção nítida dos valores” com as “Provas Especialmente Destinadas a Avaliar a Capacidade de Frequência do Ensino Superior dos Maiores de 23 anos”? Mesmo com esta nova e extensa nomenclatura, como se fosse possível que mudando o nome às coisas elas mudassem também. Não mudam! Mesmo que a nudez do rei tenha a cobri-la uma cabeça coroada à medida das suas conveniências.