quinta-feira, 30 de abril de 2015

Para quê saber alguma coisa se há o Google!?

O meu silêncio neste blogue em matéria de educação deve-se muito a coisas como a que consta na notícia que reproduzo de seguida (os destaques a azul são meus):
Está instalada a polémica no Reino Unido. O líder da Oxford, Cambridge e RSA Examinations (OCR), um dos organismos responsáveis pelas classificações e qualificações dos estudantes britânicos, considera que o Google devia poder ser usado pelos alunos durante os exames. Mark Dawe defende que os alunos deveriam ter a possibilidade de usar o motor de busca durante alguns momentos, à semelhança do que acontece já com as máquinas calculadoras (...) os professores devem avaliar a forma como os alunos interpretam as respostas e não tanto a forma como as obtêm. Mark Dawe considera que o ensino já é muito baseado na Internet, pelo que parte do conhecimento dos alunos já vem deste meio de comunicação (...). Mark Dawe considera que em alguns exames seria permitido, enquanto noutros isso não seria possível. No entanto as críticas não tardaram e de acordo com os meios de comunicação britânicos foram já algumas as personalidades que vieram criticar a ideia e a postura descontraída do líder da OCR (...)
http://tek.sapo.pt/noticias/internet/especialista_britanico_diz_que_o_google_devia_1439617.html
Que comentários se podem fazer a declarações como esta, de um especialista em pedagogia (será)?
Pelo desconcerto que lhe é inerente, nenhum!

Contudo, não se trata de um caso isolado, mas, sim, de um padrão. Um padrão que se impôs e agora se revela e alastra. Está presente em todos os sistemas educativos ocidentais. Para acabar com eles, digo eu.

OPINIÃO no jornal PÚBLICO: "cRato (com “c” mudo) e a privatização do Iave"

Texto de opinião saído no Público da autoria de Madalena Homem Cardoso – Médica, escritora e activista cívica:

A única surdez, aqui, é a do poder político perante o clamor do senso comum.

Nuno cRato, com “c” mudo e com um drive yuppie análogo ao de Zeinal Bava, escolheu o seu target para promover o portuguesing. (Esta palavra é pesquisável no YouTube, e o resultado é imperdível!) Assistimos manietados à falência da PT, à falência de Portugal, à falência do português.

O target de cRato tem latitude máxima, desde o primeiro ciclo do ensino básico, em que as crianças desestabilizam a aprendizagem da ortografia da sua língua materna (já prejudicada pelo “acordo ortográfico”) através dos testes escritos do Inglês obrigatório, até ao ensino superior, com as aulas leccionadas em Inglês obrigatório (por professores portugueses e para alunos portugueses) dos cursos superiores com denominações em Inglês, em universidades que contam agora com uma saloia designação “international” também, para não destoar. Assim se pretende preparar uma geração para ser “mentalmente colonizada”. Consenti-lo-emos?

Uma nódoa “assertiva” e “pró-activa”, que “implementa” coisas, pode ter barbas. Neste caso, tem barbas (em ambos os sentidos), e estará há muito em estado demissionário-vegetativo, mas consegue manter um esgar vagamente sorridente, invertebradamente autista.

Diante disto, resta a uma cidadã indignada atrever-se a abrir algumas “caixas de Pandorra” (cRato dixit “twice”!). Se não resgatar o património colectivo que mais valoriza (o Português-padrão consuetudinário), pelo menos conservará intacto o seu mais precioso património individual (uma consciência tranquila). Importa ver além da opacidade das paredes dos gabinetes das Avenidas 5 de Outubro e 24 de Julho…

Para as questões relacionadas com o ensino da Língua Portuguesa, cRato socorre-se da opinião de duas linguistas, cada uma delas gerindo “feudos próprios” há muito instalados no Ministério da Educação. Uma delas é Inês Duarte, com uma grande quota de co-autoria na TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), sigla para o monstro, ora ligeiramente atenuado (em versão revista), que ainda persiste em pretender substituir a gramática tradicional, para desgraça dos alunos. A outra é Maria Helena Mira Mateus, à frente do ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional), instituto universitário incumbido pelo Governo de produzir um “acordês oficial” em constante reformulação.

Estes “feudos” envolvem poder, envolvem empregos, envolvem subsídios e… envolvem fazer concessões. Inês Duarte pugna pela TLEBS, mas abomina o “acordo ortográfico”. Maria Helena Mira Mateus produz o “acordês oficial” deste reino sem rei nem roque, mas abomina a TLEBS. A solução para as objecções de ambas foi simples: um pacto de não-agressão. Assim, no lodo, florescem ambas as monstruosidades e “atola-se” a aprendizagem e o ensino do Português. «Tu não te opões ao ‘acordo’, eu não me oponho à TLEBS…», e vice-versa. cRato sabe bem disto, cuja lógica matemática é linear. Não se trata de um matemático ultrapassado por duas linguistas, não, é ele o ministro. Apenas se demite, demite-se do seu dever, mas não sai de cena.

cRato sabe igualmente que o Ministério da Educação e a aprendizagem do Português nas escolas estão reféns da multimilionária negociata dos livros escolares, cujo monopólio pertence a dois grandes grupos editoriais (apesar da multiplicidade de chancelas sob as quais os manuais são dados à estampa): o Grupo Porto Editora e o Grupo Leya. Trata-se de gastos avultados e inadmissíveis que as famílias são coagidas a fazer. Se estas não puderem, há sempre o dinheiro dos contribuintes, através da Acção Social Escolar. Os interesses instalados é que não podem ser incomodados. cRato não perturba este saque anual, não institui o livro único por concurso público, demite-se quanto a isto também, mas não arreda pé.

Quem ouviu o actual Presidente da República fazer um discurso inolvidável sobre produtos “láteos” patrocinado pela Nestlé, quem soube da proposta da actual presidente da Assembleia da República de que este órgão de soberania arranjasse patrocinadores para as comemorações oficiais do 25 de Abril, em 2014, não poderá de forma alguma abismar-se ao ver (como eu já vi) uma embalagem de Chocapic numa roda-dos-alimentos afixada numa escola primária algures em Portugal.

Em 2014, cRato resolveu privatizar o Iave (Instituto de Avaliação Educativa), ou seja, dar autonomia administrativa a este organismo, que, por sua vez, diligenciou a obtenção de patrocínios para o “PET” (Preliminary English Test), um exame obrigatório no 9.º ano de escolaridade, após uns anos de estudo obrigatório de uma língua estrangeira específica pelas crianças portuguesas (enquanto a língua nacional é delapidada activamente). Onde pára a soberania?

Desconfio que, na óptica destes patrocinadores e da “tutela” que subsidiam, “pets” (animais de companhia) são as crianças deste país de gente passiva, são os futuros eleitores, já potencialmente amestráveis a existir num vácuo cultural de negação de si mesmos sob os auspícios de qualquer idioma franco que esteja “em alta” nos mercados globais.

Os patrocinadores do “PET” são a Universidade de Cambridge, o banco BPI, duas empresas de software (a Connexall e a NovaBase – “like life” –, portuguesíssima da Silva) e, claro, a Porto Editora. Esta está em todas, faz mesmo questão.

A globalização iniciada por Vasco da Gama foi a do encontro de culturas, não foi esta com que nos deparamos, a da massificação, a da fast-food. Em Agosto passado, tivemos a Porto Editora em megapromoção nos individuais de papel dos tabuleiros, nos McDonald’s: poupe dinheiro, faça já a encomenda dos livros escolares dos seus filhos através da Wook (empresa do grupo Porto Editora) e tenha grandes descontos! Eis o local escolhido pela empresa que mais lucra com a educação dos nossos filhos, nesta cultura do descartável, do consumismo, do facilitismo… Nenhum local poderia ser mais adequado, de facto.

Nós, pais, sabemos que todas as tabelas dos manuais escolares adoptados para cada ano de escolaridade, em cada ano lectivo, afixadas em cada escola, têm em comum um importante “pormaior”: o asterisco que remete para a recomendação de adquirir o manual apenas após confirmação da necessidade deste pelo professor da disciplina. Com promoções destas, a Porto Editora pretende retirar aos professores uma liberdade que ainda têm: a de não adoptar nenhum manual, a de utilizarem os seus próprios materiais para cumprir os programas que lhes são impostos.

Não nos espantaremos quando tivermos governantes fazendo conferências de imprensa em cenários revestidos com logótipos, como sucede no futebol. Falta pouco. Parece que não há “dignidade do Estado” (?) capaz de se sobrepor à força do dinheiro.

O Iave, em comunicado recente, veio insurgir-se contra quem afirmou poder o uso do português costumeiro pelos alunos implicar um desconto de quatro valores (em 20) nos próximos exames nacionais de 12.º ano, dizendo que se trata de uma improbabilidade. Ora, se se tratasse de uma impossibilidade, o Iave afirmá-lo-ia. Não o fazendo, paradoxalmente, vem confirmar as alegações que pretendia contestar, mas já se sabe da incompetência científica que por lá grassa. A colecção de erros crassos da PACC (Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades) de Física, por exemplo, veio demonstrá-la à exaustão, se dúvidas ainda houvesse.

Entretanto, saúda-se a novíssima Associação Nacional de Professores de Português (Anproport). Finalmente há, assim, uma alternativa credível à famigerada APP (Associação de Professores de Português) da inefável Dona Edviges das “ações de formatação em acordês”, segundo a qual os professores não serão pagos para pensar, mas sim para acatar acriticamente as ordens da tutela, tutela essa que subsidia as “ações de formatação” e convoca a Dona Edviges para a “informar” sobre o que os professores de Português… não pensam.

A APP não divulga o número de associados, o que não se estranha, poderia alguém aferir da sua (não) representatividade. Com a recém-criada associação, certamente essa representatividade agora existirá, ouvir-se-ão vozes legítimas e extra-sindicais na defesa do ensino e da aprendizagem da Língua Portuguesa. Há luz ao fundo do túnel, os professores não se demitem.

Fora de brincadeiras tragicómicas muito sérias e sentidas, como as do título deste artigo, e a despeito do que dizem por aí, não há nem nunca houve “consoantes mudas”, porque as consoantes pertencem à escrita, não à fala. Todas as consoantes se lêem, mas nem todas se dizem ou, se se dizem, dizem-se de tal forma que não se ouvem ou mal se ouvem. No máximo, seriam portanto “consoantes surdas” cujo lugar visual numa língua de matriz europeia, antiga, logo supostamente civilizada, não pode estar em causa.

A única surdez, aqui, é a do poder político perante o clamor do senso comum. A única mudez, aqui, é a que resulta da inexistência de verdadeira representação popular nesta pseudo democracia partidocrática perante a qual a própria consciência individual dos actores políticos, seja no Governo, seja na Assembleia da República, de pouco ou nada parece valer-nos.

Aquando da carta aberta que lhe dirigi, fez agora três anos, tive ocasião de falar com cRato em privado. Não digo o que me disse, nem o que lhe respondi. Venho pública e repetidamente chamar-lhe cRato e, para melhor compreensão, três anos volvidos, acrescento no inglês mais português e imperativo de que sou capaz: “Prove me wrong!”

Madalena Homem Cardoso

SOLOS DE PORTUGAL

Mais um texto de Galopim de Carvalho no Ano Internacional dos Solos:

 Os solos de Portugal O conhecimento sistemático dos solos de Portugal teve início nos anos cinquenta do século XX com os trabalhos inerentes à elaboração da Carta dos Solos de Portugal na escala de 1:50 000 e da Carta de Capacidade e Uso do Solo, na mesma escala. Destes trabalhos resultou, ainda, uma sistemática dos solos nacionais, editada pelo antigo Serviço de Reconhecimento e de Ordenamento Agrário (SROA), actual Centro Nacional de Reconhecimento e Ordenamento Agrário (CNROA). Nesta carta que, na sua concepção e bases de classificação, reflecte a “filosofia” da agricultura nacional em meados do séc. XX., são propostas como categorias taxonómicas: ordens, subordens, grupos, subgrupos, família e séries.

À semelhança das cartas ou mapas geológicos, os pedólogos elaboram cartas ou mapas dos solos nas quais se desenham, a uma dada escala, e se explicam as unidades pedológicas (unidades-solo) consideradas, para o efeito, pertencentes a um escalão taxonómico compatível com essa escala. Assim, , quanto maior for a escala adoptada, maior será a pormenorização e, portanto, mais baixa será a categoria taxonómica da unidade cartografada. Na Carta dos Solos de Portugal, a unidade–solo adoptada é a família. Em complemento da parte gráfica, há uma parte descrita versando todos os elementos susceptíveis de possibilitar e, até, valorizar a leitura da carta, entre os quais, por exemplo, indicações no sentido da sua melhor utilização para fim agrícolas, planeamento, etc.

Todavia, nas notas que aqui deixamos à disposição do leitor, apenas serão referidas os primeiro e segundo escalões hierárquicos, num caso ou noutro o terceiro (grupos), dado que são estes que definem e caracterizam os grandes tipos de solo.

 I – SOLOS INCIPIENTES (ordem) – Solos não evoluídos, praticamente reduzidos à capa de alteração da rocha-mãe, sem horizontes pedológicos bem diferenciados. Inclui quatro subordens.

 1.- Litossolos – de muito pequena espessura (? 10cm), esqueléticos, derivados de rochas consolidadas.
2.- Regossolos – de muito maior espessura, derivados de rochas arenosas e areníticas não consolidadas. (Do grego regos, cobertura).
3.- Aluviossolos – instalados sobre aluviões, não embebidos de água (não hidromórficos). Podem separar-se em dois grupos: Modernos e Antigos.
4.- Coluviossolos ou de sopé – instalados na base das vertentes

 II – SOLOS LITÓLICOS – Designação proposta por Botel

1. -Solos litólicos húmicos – com epipédon úmbrico (do latim, umbra, sombre).
 2. -Solos litólicos não húmicos - sem epipédon úmbrico.

 III – SOLOS CALCÁRIOS – Solos pouco evoluídos derivados de rochas carbonatadas, com duas subordens:

1.- Solos calcários pardos – de cores castanho-escuras.
2.- Solos calcários vermelhos – de cores vermelhas e avermelhadas.

IV – BARROS – Solos evoluídos, muito argilosos, com três subordens.

1.- Barros pretos – de cor negra, geralmente muito escuros, como acontece com os barros de Beja, bem conhecidos como campos de trigo.
3.- Barros castanho-avermelhados – de tons variados.

 V – SOLOS MÓLICOS – Solos evoluídos com epipédon mólico (do latim, mollis, fofo, macio).

 1.- Castanozemes - próprios de climas secos de regime xérico (do grego xeros, seco). As rendzinas são castanozemes (do latim castanea, castanha, e do russo zemlja, solo.), ricos de carbonato de cálcio.

 VI – SOLOS ARGILUVIADOS – Termo introduzido por J. Carvalho Cardoso na literatura pedológica internacional. Dele foi retirada a designação luvisol adoptada na Carta dos Solos do Mundo (FAO – UNESCO). Correspondem a solos evoluídos comuns nas regiões mediterrâneas, com duas subordens:

1.- Solos mediterrâneos pardos – de cores pardacentas.
2.- Solos mediterrâneos vermelhos ou amarelos – de cores avermelhadas ou amareladas. Alguns destes solos derivam de rochas-mãe calcárias, sendo conhecidos por terra rossa, de que temos bons exemplos em associação com os mármores de Vila Viçosa – Estremoz - Borba.

 VII – SOLOS PODZOLIZADOS – Solos evoluídos, com diferenciação de um horizonte espódico. Inclui duas subordens:

1.- Solos podzolizados não hidromórficos – sem características de embebimento de água (encharcamento).
2.- Solos podzolizados hidromórficos – com características próprias de hidromorfismo.

 VIII – SOLOS HALOMÓRFICOS – Com excesso de sais solúveis.
1.- Solos salinos – em geral, com cloreto de sódio.

 IX – SOLOS HIDROMÓRFICOS – Com encharcamento temporário ou permanente de água, sujeitos a gleização (do russo gley, termo que refere uma massa de solo resultante da redução do ferro pela matéria orgânica.) , com duas subordens:
1.- Sem horizonte eluvial.
 2.- Com horizonte eluvial (planossolos).

 X – SOLOS ORGÂNICOS HIDROMÓRFICOS – Solos com epipédon hístico (do grego histós, tecido orgânico), em condições de saturação de água.

1.- Solos turfosos – com horizontes de matéria sáprica (apodrecida).

 Convidado a participar na Carta de Solos do Mundo, na escala 1/5 000 000, Portugal contribuiu com a Carta de Solos de Portugal, na mesma escala. Para tal houve que estabelecer correspondência entre as unidades taxonómicas adoptadas pela FAO e as utilizadas no CNROA, na Carta do Solo de Portugal 1/50 000. Assim, às unidades pedológicas adoptadas pela organização da Unesco (à esquerda) correspondem as respectivas designações taxonómicas do CNROA (à direita).

 Luvissolos - solos argiluviados pouco insaturados. Do latim luere, lavar.
Planossolo - planossolos
. Podzóis - solos podzolizados.
Lixissolos - solos mediterrâneos não calcários, com materiais lateríticos. Do latim lixiviare, lavar.
Alissolos - solos argiluviados muito insaturados. Do latim alumen, alumínio, elemento essencial na composição das argilas.
Histossolos - solos orgânicos hidromórficos.
Fluvissolos - aluviossolos e coluviossolos.
Gleyssolos - solos hidromórficos sem horizonte eluvial.
Leptossolos - litossolos, rankers e rendzinas. Do grego leptós, delgado.
Arenossolos - regossolos psamíticos.
Vertissolos – barros. Do latim vertere, entornar, verter.
Cambissolos - solos calcários.
Calcissolos - solos calcários.
Kastanozems – castanozemes.

Galopim de Carvalho

Conversas na Aldeia Global em Oeiras

Conversas na Aldeia Global 

Uma Biografia da Luz ou a Triste História do Fotão Cansado, 
por Carlos Fiolhais e José Tito Mendonça
quinta-feira. 07 de maio, 21h30

Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras

Celebra-se em 2015 o Ano Internacional da Luz (AIL) e os 100 anos da Teoria da relatividade geral de Einstein. Deste modo, as Conversas na Aldeia Global dedicam a próxima sessão à importância da luz na ciência e na vida, e debatem diversos temas apaixonantes da física num diálogo aberto com os Professores Carlos Fiolhais e José Tito Mendonça.

Assim, a pretexto do lançamento da obra «Uma Biografia da Luz ou a Triste História do Fotão Cansado», da autoria do Professor José Tito Mendonça, convidamo-lo para uma conversa sobre este ensaio dedicado à natureza e às propriedades da luz como matéria da ciência e do desenvolvimento tecnológico.
 
«À luz devemos a maior parte da informação que recebemos do Universo. Graças às tecnologias baseadas na luz conseguimos hoje viver melhor na Terra. Por tudo isso, é bom que, neste Ano Internacional da Luz, se faça mais luz sobre a luz. Uma Biografia da Luz conta-nos o essencial sobre a luz de um modo assaz cativante. Um livro que ilumina», escreve Carlos Fiolhais. É professor de Física da Universidade de Coimbra e coordenador do AIL. Licenciado em Física na Universidade de Coimbra e doutorado em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt, Alemanha, em 1982, é Professor Catedrático de Física na Universidade de Coimbra. Ganhou em 1994 o Prémio União Latina/JNICT de tradução científica. Ganhou o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência de 2004 atribuído pela televisão SIC e pela revista Caras em 2005. Investiga Física da Matéria Condensada e Ensino e História das Ciências. Foi fundador e Diretor do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, onde instalou o maior computador português para cálculo científico («Centopeia»). Dirigiu a revista Gazeta de Física da Sociedade Portuguesa de Física e é membro da comissão editorial das revistas Europhysics News, da Sociedade Europeia de Física, e Física na Escola e Revista Brasileira do Ensino da Física, da Sociedade Brasileira de Física. Foi diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e é responsável pela áea de Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
 
José Tito Mendonça é professor catedrático reformado do Instituto Superior Técnico (IST) e antigo presidente do Departamento de Física deste Instituto. É também professor convidado da Universidade de São Paulo, no Brasil, e da Universidade de Strathclyde, em Glasgow, no Reino Unido. Tem um doutoramento de estado (doctorat ès-sciences) pela Universidade de Paris–Sud Orsay, em França, e foi consultor científico do projeto europeu JET em Culham, no Reino Unido. Foi ainda responsável pela criação de duas novas equipas de investigação no IST, uma em fusão nuclear e outra na interação de lasers intensos com a matéria. É atualmente responsável pelo laboratório de átomos frios e plasmas quânticos do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN-IST).


Contamos consigo!

Teatro: "As rãs", de Aristófanes


Informação chegada ao De Rerum Natura.

Hoje, dia 30 de Abril de 2015, às 21h30, no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

O grupo Thíasos estreia a nova peça: As Rãs de Aristófanes, na tradução de Fátima Sousa e Silva e encenação de Ricardo Acácio.


A ESCANDALOSA "AVALIAÇÃO" DA ESF-FCT AINDA VALE?

Nunca se deve perder a oportunidade para causar uma primeira impressão. Não há outra. Maria Arménia Carrondo, a cristalógrafa que sucedeu a Miguel Seabra na Presidência da FCT, não causou uma boa impressão quando, após tomar posse, não se distanciou das ilegalidades e abusos de poder do seu antecessor.  Talvez não tenha percebido bem a razão porque ele caiu. Diz que está a estudar dossiers mas devia conhecê-los pois as questões da "avaliação" (vai entre aspas pois se trata de uma pseudo-avaliação) são públicas e notórias desde há muito tempo (ver o Expresso da última semana, onde a posição dela sobre o futuro da ciência não aparece). Há inúmeras reclamações pendentes e há vários processos pendentes nos tribunais e no Ministério Público aos quais terá de responder em nome da instituição. A ciência exige transparência e rigor, precisamente o que não tem havido. A ciência nacional necessita de uma avaliação séria e credível e não a caricatura grotesca de uma avaliação que tivemos e estamos a ter, pois ainda não acabou. A Presidente da FCT ou preza a transparência e o rigor, reconhecendo os erros e corrigindo-os,  ou ficará rapidamente sem a réstia de confiança que alguns ainda depositam nela.

SOS AZULEJO EM AVEIRO


PLANETÁRIO DO PORTO


PRÉMIO NOVOS

3ª Edição dos Prémios Novos

06 de Maio | 21.30h | Fundação Calouste Gulbenkian

Ao todo são 15 categorias, desde o Cinema à Literatura, das Artes Plásticas à Arquitectura, do Teatro à Televisão, da Inovação à Gastronomia, da Ciência à Moda, da Internet à Música, que irão estar em destaque na terceira edição dos Prémios Novos, uma cerimónia anual que visa distinguir os talentos emergentes em cada uma destas áreas, até aos 35 anos.


A edição de 2015 será apresentada por Fernando Alvim e Catarina Wallenstein e contará com as actuações e performances de vários convidados: D’Alva, Alice Joana Gonçalves (vencedora na categoria de Artes Plásticas em 2014), Quarteto Erudito , e ainda O Humorista e exibição de uma curta-metragem.

A entrada é livre, apenas sujeita à lotação do auditório.

O evento tem o patrocínio oficial da Guronsan e Sagres 0,0% Radler, e conta com o apoio da RTP e da Antena 3.

Mais informações:
facebook.com/PremiosNovos

E. premiosnovos2015@gmail.com
T. 917 064 946 / 966 008 185 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Mostra de projectos recusados pela FCT para combater a “destruição da ciência”




"Investigadores das Ciências Sociais e Humanas que viram os seus projectos serem recusados pela FCT vão mostrá-los em Lisboa. Iniciativa quer "resgatar" ideias e denunciar a actual “conjuntura assassina” da Ciência em Portugal"

A iniciativa foi intitulada "Há ciência para além da FCT?" e até 30 de Abril os investigadores podem inscrever o seu projecto recusado neste sítio:


É uma iniciativa interessante que se podia alargar para além das ciência sociais. Com taxas de aprovação na ordem dos 10%, reina a aleatoriedade e ficam de fora muitos projectos com qualidade e candidatos com mérito.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pistas para a redução da despesa das universidades

A proposta surgida no proto-programa económico de um dos possíveis vencedores das eleições deste ano quanto ao financiamento das universidades do estado é uma coisa admirável. Alegadamente produto de alguns professores universitário de Economia, a proposta prevê que o financiamento das instituições de ensino superior do estado seja feita a partir do IRS dos antigos alunos, não se reduzindo o total da dotação orçamental do estado, nem se aumentando a carga fiscal dos ex-alunos. Alegam os autores da proposta que tal incentiva as instituições a produzir alunos com valor porque receberão uma maior dotação quanto maior for o rendimento do seu alumni. 

Eu, para ser franco, gostava de classificar a proposta com uma expressão melhor que “estupidez” mas não consigo. É mesmo uma estupidez. É uma admirável peça de ignorância matemática conjugada com disparate económico, para além de reforçar que a universidade do estado é cada vez menos uma universidade pública. Do ponto de vista matemático é um processo multiplicativo. Um curso que produza muitos alunos vai captar muito IRS, independentemente do valor do curso. Qualquer pessoa que contacte minimamente com o fenómeno económico saberia dizer que a proposta é um disparate, mas vamos concretizar. Se produzir 3000 advogados por ano porque os recursos necessários para os produzir são comuns (como qualquer universidade de vão de escada poderia mostrar aos autores) eu vou conseguir um retorno fantástico porque esses ex-alunos farão tudo para fugir ao ordenado mínimo, a fazer seja o que for. Portanto, serei financiado para produzir aquilo que menores recursos me exija. Economicamente a explicação é óbvia, o valor do curso é só uma das parcelas do valor económico da pessoa. No limite, até posso produzir APENAS advogados que o financiamento universitário é garantido na mesma, apenas num nível de riqueza da sociedade muito inferior.

Portanto, para conseguir um bom retorno basta-me conseguir muitas pessoas e com isso gerar um processo multiplicativo em que os outros cursos ficam vazios. Se os senhores professores quiserem uma explicação mais formal do ponto de vista matemático eu até posso dar, mas bastava terem ido aquele ex-ministro que tirou um curso em 3 dias para terem uma explicação intuitiva.

O outro erro grotesco é confundir valor económico com ordenado. É até tão infantil. O valor económico de um médico é substancialmente superior à seu ordenado até porque cada vida que salva dificilmente poderia ser substituída gastando esse dinheiro. Não há um mapeamento entre valor económico e valor monetário quando se fala de educação(*). Aliás, a proposta contradiz a necessidade económica de educar porque se o IRS dos ex-alunos pode pagar a educação dos presentes, isto significa que se financia mais aquilo que já se sabia, em detrimento daquilo que ainda não se sabe. 

Em resumo, uma estupidez. Mas a proposta dá pistas valiosas para a redução da despesa das universidades do estado. Tantas quantos os autores do estudo, para sermos mais rigorosos...

(*) Ou ciência, coisa que já tentei explicar aqui milhares de vezes, sem sucesso. 

Uma palavra ao Prof. Victor Gil

Texto recebido de João Paiva, professor da Universidade do Porto, a cujo espírito me associo (foi publicado no Diário de Coimbra de hoje:

 Começo com uma declaração de interesses: colaborei desde há 30 anos e ainda colaboro com o Prof. Victor Gil, tempo que foi mais do que suficiente para conhecer e usufruir das suas singulares qualidades tanto humanas, como pedagógicas, científicas e culturais. Sobre a recente polémica que o afastou do Exploratório Infante D. Henrique em Coimbra, confesso que, apesar de não ter acompanhado em pormenor todo o processo, partilho a sensação dos que reconhecem que, no mínimo, ele foi não só mal conduzido como até lamentável. Queria nesta ocasião sublinhar alguns aspectos do passado e lançar um olhar sobre o futuro.

Não são todos os cientistas que pintam ou fazem poemas, nem todos os químicos que se entregam ao árduo, difícil e gozoso trabalho de promover o ensino e a divulgação da ciência para todos. Na sequência de uma carreira brilhante como químico, com destaque particular para o seu doutoramento em Sheffield, na Inglaterra, e para a responsabilidade pelo primeiro laboratório de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) português, Victor Gil foi o primeiro (jovem) reitor da Universidade de Aveiro. A par da sua atividade científica sempre teve intervenções na educação e na divulgação da ciência. São inúmeras as suas obras publicadas no país e no estrangeiro, não só na investigação química mas também em domínios educativos e culturais. Sou coautor de algumas dessas obras, pelo que posso testemunhar o empenhado, competente e original papel daquele que foi e é o meu mestre na minha profissão.

Na parte mais avançada da sua carreira, como aliás acontece com muitos cientistas, o Prof. Victor Gil dedicou-se quase em exclusivo ao ensino e à divulgação científicas. A forma como emprestou a esta causa a sua inteligência e criatividade foi impressionante. Colaborei nos primeiros passos do Exploratório: as nossas conversas inspiradas em algumas visitas a Centros de Iniciação Científica estrangeiros, as ideias que íamos tecendo e algumas noitadas a manufacturar as montagens de demonstrações e pequenas exposições deixam-me uma grata saudade. Foi com base nesses primeiros humildes mas ousados gestos que a ciência, com novos edifícios, foi colocada na praça pública e nas mãos de todos as pessoas curiosas, principalmente dos mais novos.

Com o tempo as construções foram-se cimentando (no duplo sentido da palavra). Primeiro na Rua Pedro Monteiro e depois na margem do Mondego, o Exploratório Infante D. Henrique ofereceu-se à cidade e ao país, num espaço onde o “mexer” para questionar era incentivado.

Juntamente com a Prof.ª Helena Caldeira e outros colaboradores interessados e interessantes, o Prof. Victor Gil contribuiu durante décadas para erguer uma das estruturas culturais mais relevantes da cidade, um pólo competente e cativante da Ciência Viva do nosso país.

Este legado tem um óbvio e reconhecido valor (não seria preciso ser discípulo, como é o meu caso, para concordar). A cidade, a universidade, o país, a ciência e a cultura devem ao Prof. Victor Gil uma sentida palavra de grande reconhecimento.

A química, sua pátria primeira e apaixonada, interessa-se pela transformação. A natureza oferece-nos exemplos notáveis de mudança e de renascimento, como acontece com sementes que, na dor do confronto com a terra agreste se abrem para mais tarde dar o fruto que as justifica. Victor Gil já nos deu frutos enormes da semente que sempre foi mas o meu repto de amizade e cidadania é para que interprete o eventual deserto de descontinuidade como a terra em que novos desafios se lançarão. Já lhe devemos muito mas eu desejo saborear a sombra de mais árvores que ele poderá plantar. Eu, como muitos outros, estamos profundamente agradecidos e estamos também na expectativa de tudo aquilo que nos poderá ainda dar.

 João Paiva
Professor no Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Lançamento de "Uma Biografia da Luz"


No âmbito do Ano Internacional da Luz
a Gradiva lança  Uma Biografia da Luz de José Tito Mendonça

O livro Uma Biografia da Luz será apresentado no dia 28 de Abril pelas 18h30m no Pavilhão do Conhecimento — Ciência Viva, na Alameda dos Oceanos, Lote 2.10.01, em Lisboa. A sessão, que será presidida por Teresa Peña, Presidente da Sociedade Portuguesa de Física, contará com as seguintes intervenções:

  • 18h30 | Gonçalo Figueira, «Como Construir um Laser Ultra‑Intenso, uma Experiência Pessoal»
·         19h00 | Carlos Fiolhais, coordenador em Portugal do Ano Internacional da Luz.
·         19h15 | António Cruz Serra, Reitor da Universidade de Lisboa, «Apresentação do livro Uma Biografia da Luz ou a Triste História do Fotão Cansado, de José Tito Mendonça»
·         19h45 | José Tito Mendonça, «Breves Comentários sobre o Fotão Cansado»

Celebrando-se em 2015 o Ano Internacional da Luz, este ensaio sobre a natureza e as propriedades da luz divulga o conhecimento sobre este apaixonante tema da física, reflectindo sobre ele de um modo acessível e cativante.

Uma Biografia da Luz é um ensaio sobre a natureza e as propriedades da luz, bem a propósito do Ano Internacional da Luz celebrado em 2015. José Tito Mendonça, professor e investigador de reconhecido mérito, aborda os conceitos com recurso a histórias e a exemplos. Inclui testemunhos sobre a ciência e a vida, bem como episódios pessoais da sua actividade científica.

«A luz é um dos grandes mistérios, perseguido tanto por pintores como por físicos. Mas também os insectos e os místicos são atraídos por ela. Vamos sabendo alguma coisa, mas ainda não sabemos nada», escreve José Tito Mendonça. O autor usa uma linguagem acessível e aborda os temas de modo interessante. «Não usei fórmulas, e evitei fazer referência directa a trabalhos especializados», refere nas primeiras páginas deste livro que, interessando a especialistas, pode ser lido por um público não especializado.
S
ão vários os temas que aborda relacionados com a luz. Entre eles encontram-se a análise da relação entre a luz e a visão, os lasers – incluindo uma introdução à óptica não linear e os novos conceitos de aceleradores de partículas usando lasers intensos – e a noite, entre outros. No capítulo 8, por exemplo, «os fotões são colocados no seu devido contexto, como uma parte importante mas não única da chuva cósmica que chega à superfície da terra, e onde se incluem também os raios cósmicos, os neutrinos e os gravitões».

Carlos Fiolhais, Coordenador em Portugal de 2015 – Ano Internacional da Luz, assina a contracapa deste livro, chamando a atenção para o facto de devermos à luz a nossa origem e a nossa sustentação. «À luz devemos a maior parte da informação que recebemos do Universo. Graças às tecnologias baseadas na luz conseguimos hoje viver melhor na Terra. Por tudo isso, é bom que, neste Ano Internacional da Luz, se faça mais luz sobre a luz. Uma Biografia da Luz, de José Tito Mendonça, cumpre, com mestria, esse objectivo. Conta-nos o essencial sobre a luz de um modo assaz cativante. Um livro que ilumina», escreve Carlos Fiolhais.

SOBRE O AUTOR

José Tito Mendonça é professor catedrático reformado do Instituto Superior Técnico (IST) e antigo presidente do Departamento de Física deste Instituto. É também professor convidado da Universidade de São Paulo, no Brasil, e da Universidade de Strathclyde, em Glasgow, no Reino Unido. Tem um doutoramento de estado (doctorat ès-sciences) pela Universidade de Paris–Sud Orsay, em França, e foi consultor científico do projecto europeu JET em Culham, no Reino Unido. Foi ainda responsável pela criação de duas novas equipas de investigação no IST, uma em fusão nuclear e outra na interacção de lasers intensos com a matéria. É actualmente responsável pelo laboratório de átomos frios e plasmas quânticos do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN-IST).

Uma Biografia da Luz
Ou a Triste História do Fotão Cansado
José Tito Mendonça
Colecção: «Ciência Aberta»
Ano de edição: 2015
ISBN: 978-989-616-642-7
276 pp. € 13,50


 
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A INTERDISCIPLINARIDADE DA CULINÁRIA


Novo texto de Galopim de Carvalho:

Quem, como eu, desde sempre curioso dos saberes da cozinha, entre muitos outros do dia-a-dia do cidadão comum, acabou por fazer vida entre a comunidade científica, tem matéria para divagar em torno dos muitos pontos de ligação existentes entre os sabores da cozinha e os saberes, tidos por eruditos, cultivados por esta comunidade. Sabores e saberes andam assim de mãos dadas e até porque saber é conhecer mas também é ter sabor. 

No domínio das ciências humanas, como a história, a geografia, a etnografia, a sociologia, a pedologia a gricultura e silvicultura, são particularmente evidentes as profundas ligações entre os respectivos saberes e os sabores próprios dos hábitos alimentares das populações ao longo dos tempos e nas várias latitudes e longitudes. 

Uma rápida passagem sobre a multitude dos “cheiros” e “temperos”, das hortaliças, dos cereais e de tudo o mais que consumimos entre os produtos vegetais, basta para evidenciar a grande e imediata ligação entre os saberes da botânica e os sabores dos nossos cozinhados. Poderia começar por evocar Garcia de Orta, contemporâneo das Descobertas e de Luís de Camões, e falar da sua contribuição na introdução das ervas aromáticas do oriente na cozinha regional do Alentejo. Grande botânico, este alentejano de Castelo de Vide é igualmente conhecido entre os mineralogistas pelas referências às pedras preciosas (gemas) que nos deixou no seu livro “Colóquio dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia”, publicado em Goa, em 1563. Dentro desta ciência poderiam os seus cultores dissertar sobre a fisiologia e a bioquímica do mundo vegetal e das implicações de toda essa fenomenologia nas sensações que nos atingem o cérebro através da pituitária e das papila
s gustativas. O raminho de hortelã escaldado nas “sopas da panela” e o aroma que, de imediato, se espalha no ar tem por base essências elaboradas pela respectiva planta e que são diferentes das dos orégãos, dos poejos, da hortelã da ribeira, do louro, dos cominhos e do alho de todos os dias. E a couve do caldo verde, o feijão da feijoada, a alface, o pepino e os pimentos das saladas, a cebola e o tomate das ceboladas e tomatadas, não são todos eles produtos do “Reino Vegetal”? E o azeite, o vinho, o pão de milho, de trigo ou de centeio, não são eles parte desse grande reino?

 No que se refere à zoologia, outro grande domínio do mundo biológico, são igualmente imediatas as associações que se podem fazer entre a gastronomia e o saber que aqui se cultiva. Nesta ciência o difícil é seleccionar os exemplos, tantas são as fantasias alimentares dos habitantes dos quatro cantos do mundo. Das tradicionais “tripas” à moda do Porto, à expectativa de risco para a saúde face ao espectro da tão falada encefalopatia espongiforme bovina ou “doença das vacas loucas”, das perfumadas e gostosas sardinhas na brasa e dos benefícios da respectiva gordura na regulação do colesterol, à caldeirada comida ali, na fragata, a meio do Tejo e a saber a maresia, muitos são os pontos de conexão entre o “Reino Animal” e muito daquilo que comemos. 

Aos químicos, também eles com “muito pano para mangas” numa dissertação deste teor, não faltam temas. O sal, cujo valor na culinária ficou glorificado no conto da princesa que, à pergunta que o rei lhe fizera e às irmãs, respondeu “Eu quero tanto ao meu pai, como a comida quer o sal...”, é cloreto de sódio, um apenas entre os ácidos, as bases e os sais da ciência, mas também os da poesia de António Gedeão (ou Rómulo de Carvalho). Os ácidos oleico e acético têm total cabimento no portuguesíssimo bacalhau cozido ou nas saladas bem temperadas. Carbo-hidratos, lípidos e prótidos, álcoois e aldeídos, e suas propriedades organolépticas, isto é, os seus odores e sabores, a sacarose, bem docinha, em excesso no pacotinho de açúcar e a cafeína que faz a delícia da “bica”, dois perigos para a saúde, mas também dois prazeres, têm aqui o seu espaço. Todos estes produtos e muitos mais, e as reacções que possibilitam, fermentação, hidrólise, oxidação, redução, etc., são a ponta do iceberg da participação dos saberes da Química na arte de cozinhar. 

Os físicos têm, aparentemente, menos por onde se movimentar e tal acontece apenas porque as ligações dos seus saberes aos sabores não são tão evidentes. Podem explicar o aquecer e o arrefecer, condução e convecção térmicas, gelo e degelo, a fervura e as diferenças entre cozer e assar. Podem discorrer acerca do verde da alface e das couves, do vermelho do tomate e das beterrabas, do laranja da cenoura ou do amarelo do limão, outros tantos “sabores” para os olhos, cores estas que sabem explicar pelo conhecimento que têm da natureza policromática da luz branca e do modo como os corpos lhe absorvem algumas das suas radiações. Podem, ainda, a partir da sempre apetitosa “tarte de maçã”, fazer a ponte para a gravitação universal que Isaac Newton tão bem explicou no séc. XVII, ou ainda aventar que esta era a sobremesa preferida de Albert Einstein e criar assim pretexto para falar da obra de uma das figuras mais ilustres da humanidade, não só como físico, mas também como homem. 

No domínio do conhecimento em que profissionalmente me envolvi, tirando as águas minerais ou de mesa, não são muitos os temas de índole geológica que permitam a continuação do exercício que tenho vindo a fazer. O sal do nosso saleiro, cujo uso não é demais acautelar, produzido nas salinas à beira-mar, praticamente não difere do sal-gema que se explora em Loulé e Matacães. Intercalado nas séries sedimentares da base do Jurássico, este mineral testemunha um tempo, há cerca de 200 milhões de anos, em que a Eurásia ainda estava unida às Américas e se começou a esboçar o que é hoje a parte norte do Oceano Atlântico. O perfumado cozido que se faz nas caldeiras das Furnas, em S. Miguel, num ambiente marcado pelos odores do gás sulfídrico das fumarolas locais, só é possível graças à actividade vulcânica ainda existente nas ilhas açorianas e à energia geotérmica com ela relacionada, dois temas indesligáveis da dinâmica interna do globo terrestre, hoje bem explanada na Teoria da Tectónica de Placas. Saberes acerca de rochas e sabores com elas relacionáveis, só se forem os possíveis de abordar a propósito dos tão apreciados “nacos na pedra”, posto que há rochas boas para o efeito, como é o caso do basalto, que suporta bem a elevada temperatura a que tem de ser aquecido, outras más, como são o mármore e o calcário, que se decompõem facilmente pelo calor, e outras assim-assim, com é o vulgaríssimo granito. Mas se se optasse por dissertar em torno do gás natural, que consumimos no fogão, ou das matérias-primas com que se fabricam os barros, faianças e porcelanas,  os vidros, os tachos e panelas de ferro, de cobre ou de alumínio, os talheres, desde os vulgaríssimos “inox” aos christofle ou aos de prata, os estanhos, os cristais e todos objectos das cozinhas e das mesas de pobres a ricos, ter-se-iam de referir os combustíveis fósseis, a 
calcopirite, a cassiterite, o quartzo, o caulino e outras argilas, o bauxito e um nunca mais acabar de minerais e rochas.

Galopim de Carvalho

domingo, 26 de abril de 2015

EM LOUVOR DO PROF. VICTOR GIL


Num processo cujos contornos ficaram algo confusos mesmo para os observadores mais atentos, o Prof. Victor Gil foi há poucos dias substituído na direcção do Exploratório Infante D. Henrique, o mais antigo centro Ciência Viva de Coimbra e certamente o primeiro do país. Ainda me lembro bem do Centro de Iniciação Científica que começou, com o seu impulso, na forma de uma exposição na Universidade de Coimbra, mostrando actividades de descoberta científica para os mais jovens que procuravam emular o que de melhor se fazia lá fora, em centros como o Palais de la Découverte em Paris ou o Exploratorium de São Francisco. E lembro-me também bem como esse Centro de Iniciação cresceu quando se transformou em 1995 - há vinte anos, ainda não existia a Agência Ciência Viva para a  Promoção da Cultura Científica e Tecnológica  nem a rede de centros Ciência Viva espalhados pelo país - no Exploratório Infante D. Henrique, no piso de baixo da Casa Municipal da Cultura de Coimbra. A certa altura, em 1998,  tomou o nome de centro Ciência Viva, tendo sido visitado pelo ministro José Mariano Gago que admirou muito a capacidade bem manifesta de criação de módulos científicos. Gago, que defendia o ensino experimental da ciência, logo percebeu que havia ali um pólo com capacidades notáveis nesse domínio. E o Exploratório revelou também desde muito cedo capacidade para a concepção de brinquedos científicos.

Vi crescer a ideia seminal, original a arrojada, de Victor Gil, que era a alma do empreendimento, tendo colaborado com ele em tudo o que me pediu. Muitas crianças e jovens passaram por aquele sítio adjacente ao Jardim de Santa Cruz e era sempre uma surpresa agradável para quem lá ia a primeira vez. Eu próprio lá levei vários convidados, que ficavam admirados com o espaço numa época em que os outros centros Ciência Viva quase não existiam.

Não demorou a verificar-se que eram necessárias instalações mais amplas e funcionais. Foi isso que foi conseguido em 2009 no Parque Verde do Mondego, muito perto da zona de intervenção do Polis, graças a importantes fundos europeus, sempre  com a ajuda da Câmara Municipal e o amparo da Câmara Municipal, para além da Agência Ciência Viva, que não era associada da instituição sem fins lucrativos e de utilidade pública que estava e está por detrás do Exploratório. O foco expositivo era o corpo humano, mas havia actividades multidisciplinares em áreas fora da biologia e da medicina. Lembro-me de uma outra visita, realizada pelo ministro Mariano Gago, num lindo dia onde festejámos a cultura científica num terraço do Exploratório, com os olhos no Mondego.  Não eram apenas jovens que ali passaram a concorrer em muito maior número do que no Jardim de Santa Cruz, eram também menos jovens (quer dizer, jovens há mais tempo) atraídos pelas "Lojas do Saber", dinamizadas  pelo professor de Física jubilado João José Pedroso de Lima (que não era só um espaço para oradores mais seniores prova-o o facto de eu lá ter proferido uma palestra sobre história da Medicina no ano do Vesálio).

Mais recentemente e ainda com a ajuda de fundos europeus  foi erguido um novo edifício, que ainda não pude oportunidade de visitar. Nem eu nem o público geral, pois o espaço tarda, por motivos que de todo desconheço e que  lamento, a não abrir para o usufruto de todos. Infelizmente este é um problema nacional repetido: faz-se uma obra pública envolvendo avultados meios e esta tarda a abrir.

Tenho tido parcerias com o Prof. Victor Gil, até há poucos dias director do Exploratório de Coimbra, quer na divulgação científica no quadro da rede de Centros Ciência Viva quer na autoria de manuais escolares de Físico-Química, não serei a pessoa mais independente para falar dele. Mas não será essa condição que me impede de publicamente dar expressão da viva admiração pelos seus mais de vinte anos de dedicação quase plena e sempre incansável à causa da cultura e da divulgação científica. Entre nós, poucos dedicaram tanto tempo e tanto empenho a essa causa como ele. A sua porfiada acção será decerto inspiração e exemplo para quem lhe sucede.

Obrigado, Prof. Victor Gil!

25 de Abril foi o dia do DNA

Do sítio da a empresa 23and me, retirei este infográfico sobre o DNA, a molécula cuja estrutura foi descoberta a 25 de Abril de 1953:

J. M. GAGO: UMA VIDA COM SENTIDO

Informação da Fundação Mário Soares (clicar para ler melhor):

MENSAGEM DE PAULO GAMA MOTA


Mensagem recebida de Paulo Gama Mota, um dos fundadores deste blogue, a quem é devida publicamente uma palavra de reconhecimento por tudo aquilo que conseguiu fazer no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra. Obrigado, Paulo!

Após 8 anos a dirigir o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e outros 7 a preparar o projecto, deixo o Museu da Ciência, por iniciativa do Reitor, que procurará alguma mudança. Foram anos de trabalho intenso para construir um projecto de elevada qualidade, com forte impacto na sociedade e capaz de criar um grande museu e centro de comunicação de ciência em Portugal.

Este foi um dos mais gratificantes e bem sucedidos projectos em que estive envolvido e que me deu um imenso prazer desenvolver. Um projecto destes deve-se sobretudo às pessoas; deve-se à equipa de pessoas com que tive o prazer de partilhar as ideias e o dia-a-dia de um projecto tão absorvente quanto recompensador e deve-se à extraordinária colaboração de um imenso número de cientistas e não-cientistas que, com grande generosidade e muita motivação e entusiasmo, contribuíram com ideias, actividades e iniciativas que foram determinantes para construirmos um projecto verdadeiramente singular no panorama dos museus universitários.

A todos quero expressar o meu profundo agradecimento.


Não poderei enumerar aqui tantas pessoas que participaram em comissões, projectos, iniciativas, organizaram e proferiram conferências ou realizaram ateliers e demonstrações de ciência, pelo que o agradecimento terá que ter esta forma genérica.

O Museu da Ciência ultrapassou largamente as melhores expectativas quanto ao que se pensava ser possível fazer do fantástico acervo científico da Universidade de Coimbra, que se encontrava em larga medida por explorar, por divulgar e por estudar. Contribuir para criar cultura científica numa sociedade tão necessitada dela, tirando proveito destas excepcionais colecções e das possibilidades que têm, através da criação de uma ligação emocional, para a compreensão dos fenómenos que a ciência nos possibilita, foi uma missão que fazia e continua a fazer todo o sentido. E tenho que agradecer aos vários Reitores da Universidade de Coimbra o apoio que nos permitiu concretizá-lo.

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra é, de facto, um projecto singular, que teve um forte impacto a nível nacional e internacional. A atestá-lo estão os inúmeros prémios conseguidos ao longo dos anos: Prémio Micheletti 2008 para melhor museu de ciência técnica e indústria da Europa (em 19 edições só uma vez foi atribuído a um museu universitário), prémios nacionais da Associação Portuguesa de Museologia para o melhor serviço educativo dos museus portugueses, em 2010 e 2013, para o melhor software de gestão de colecções, em 2010, para o melhor website de museus, em 2014. A estes juntam-se dois prémios de arquitectura para a equipa de arquitectos.

Em números, foram 200 mil visitantes, envolvidos em 1300 iniciativas, numa média superior a 150/ano, envolvendo mais de 200 cientistas por ano ( estes considerando os últimos 5 anos).

Do ponto de vista financeiro, também se conseguiram resultados invulgares. Por exemplo, em 2013, a receita total  do Museu correspondeu a 28% de toda a despesa, incluindo todos os encargos com salários. Um valor que apenas um número muito reduzido de museus consegue atingir.

Os últimos anos foram particularmente difíceis para os portugueses e, por arrasto, também para os museus.
Apesar do contexto particularmente difícil, foi possível resistir e manter níveis elevados de actividade no Museu da Ciência, encontrando-se esta, actualmente, já em franca recuperação.

Entre 2012 e 2014, o Museu da Ciência esteve envolvido em vários projectos internacionais, como o projecto de ciência cidadã, SOCIENTIZE, financiado pela UE, que teve um enorme impacto nas comunidades escolares e seniores e serviu de base para o estabelecimento de linhas de orientação para a promoção da ciência cidadã na Europa.

O Museu da Ciência integra ainda dois consórcios vencedores do concurso (2014) para grandes infra-estruturas de investigação científica, a serem financiados pela FCT: o PORBIOTA para a monitorização da biodiversidade em Portugal e o PRISC que visa criar uma infraestrutura de investigação e recursos sobre as colecções dos principais museus das universidades portuguesas. Integra também o consórcio NATCOL visando o acesso dos cientistas às colecções dos principais museus com colecções de história natural.

Foi ainda criado um programa doutoral em história da ciência, partilhado entre a UC e a UA, em larga medida pela dinâmica criada em torno do projecto do Museu da Ciência.

Foram muitas as ligações e sinergias criadas ao longo deste anos. Assim, creio estarem criadas as condições para que o projecto do Museu da Ciência se mantenha no futuro, assim se saiba manter manter os elevados padrões de qualidade estabelecidos. Obrigado.


Paulo Gama Mota

O MEDO DO CONHECIMENTO


Introdução do livro "O Medo do Conhecimento. Contra o Relativismo e o constrtutivismo" de Paul Boghossian que acaba de sair na Gradiva, uma leitura que recomendo vivamente tal como outras da muito boa colecção "Filosofia Aberta". Têm sido defendidas neste blogue de ciência posições antirelativistas e anticonstrutivistas, pelo que esta é mais uma:

Igual validade

A 22 de Outubro de 1996, o New York Times publicou um artigo invulgar. Intitulado «Criacionistas de Tribos Índias Contrariam Arqueólogos», descrevia um conflito surgido entre duas concepções sobre a origem das populações nativas americanas. Segundo a concepção tradicional, extensivamente confirmada por estudos arqueológicos, os seres humanos entraram nas Américas vindos da Ásia, atravessando o estreito de Bering, há cerca de 10 000 anos. Inversamente, alguns mitos de criação nativos americanos afirmam que os povos nativos têm vivido nas Américas desde que os seus antepassados emergiram à superfície da Terra, vindos de um mundo subterrâneo de espíritos. Como um representante dos Cheyenne River Sioux, uma tribo Lakota com base em Eagle Butte, Dakota do Sul, disse:

- Sabemos de onde viemos. Somos descendentes do povo Búfalo. Eles vieram do interior da Terra depois de os espíritos sobrenaturais terem preparado este mundo para que a humanidade aí vivesse. Se os não‑índios preferem acreditar que evoluíram de um macaco, seja. Nunca encontrei nem sequer cinco Lakotas que acreditassem na ciência e na evolução.

O New York Times continuava o artigo observando que muitos arqueólogos, divididos entre o seu compromisso com o método científico e a sua apreciação da cultura nativa, «têm sido atraídos para um relativismo pós‑moderno no qual a ciência é apenas mais um sistema de crenças». Roger Anyon, um arqueólogo britânico que trabalhou para os Zunis, foi citado dizendo:

- A ciência é apenas uma das muitas maneiras de conhecer o mundo. [A mundivisão dos Zunis] é tão válida quanto a perspectiva arqueológica sobre a pré‑história.

Outro arqueólogo, o Dr. Larry Zimmerman, da Universidade de Iowa, foi citado apelando a um tipo diferente de ciência, na fronteira das formas ocidentais de conhecer com as formas índias de conhecer.

O Dr. Zimmerman acrescentava:

- Pessoalmente, rejeito a ciência como forma privilegiada de ver o mundo.

Por muito impressionantes que sejam estas afirmações, teriam um interesse meramente episódico se não fosse a enorme influência da perspectiva filosófica geral que representam. Em especial na academia, mas também e inevitavelmente fora dela, a ideia de que existem «muitas formas igualmente válidas de conhecer o mundo», sendo a ciência apenas uma delas, tem criado raízes muito profundas. Em muitos campos das humanidades e das ciências sociais, esta espécie de «relativismo pós‑moderno» sobre o conhecimento alcançou o estatuto de ortodoxia. Chamar‑lhe‑ei (tão neutralmente quanto possível) a doutrina da

Igual validade:

- Há muitas maneiras radicalmente diferentes, mas «igualmente válidas» de conhecer o mundo, sendo a ciência apenas uma delas.

Vejamos alguns exemplos representativos de académicos que aceitam o pensamento básico por detrás da igual validade:

- Quando reconhecemos o estatuto convencional e artefactual das nossas formas de conhecer, ficamos em posição de perceber que nós próprios, e não a realidade, somos responsáveis por aquilo que conhecemos.

- A ciência do primeiro mundo é uma ciência entre muitas outras...

- Para o relativista, não há sentido na ideia de que algumas normas ou padrões são realmente racionais, distintos dos meramente aceites como tais. Como pensa que não existem normas de racionalidade sem contexto ou supraculturais, não vê as crenças racionais ou irracionais como duas classes de coisas distintas e qualitativamente diferentes.

Haveria muitas mais passagens que poderíamos citar.

O que há na doutrina da igual validade que parece tão radical e contra‑intuitivo?

Bem, normalmente pensamos que, numa questão como a da pré‑história americana, há uma maneira de as coisas serem que é independente de nós e das nossas crenças sobre isso — um facto objectivo sobre a questão, por assim dizer, do local de origem dos primeiros americanos.

Não somos necessariamente objectivistas acerca de factos neste sentido em relação a todos os domínios do juízo. Em relação à moralidade, por exemplo, algumas pessoas, incluindo filósofos, tendem a ser relativistas: afirmam que há muitos códigos morais alternativos que especificam o que é considerado uma boa ou uma má conduta, mas não há factos em virtude dos quais alguns desses códigos são mais «correctos» do que os outros. Outras pessoas podem ser relativistas em relação à estética, em relação àquilo que é considerado belo ou artisticamente valioso. Estes tipos de relativismo sobre questões de valor são discutíveis, obviamente, e continuam a ser discutidos. No entanto, mesmo que os consideremos em última instância implausíveis, não nos chocam de imediato como absurdos. Mas, sobre uma questão factual como as origens dos primeiros americanos, tendemos a pensar, sem dúvida, que há algum facto objectivo sobre a matéria.

Podemos não saber que facto é esse, mas, tendo formado um interesse na questão, procuramos conhecê‑lo. E temos uma variedade de técnicas e de métodos — observação, lógica, inferência a favor da melhor explicação, e assim por diante, mas não a leitura de folhas de chá ou o olhar para uma bola de cristal — que consideramos serem as únicas maneiras legítimas de formar crenças racionais sobre o assunto. Estes métodos — os métodos característicos daquilo a que chamamos «ciência», mas que caracterizam também os modos normais de procurar conhecimento — conduziram‑nos à concepção de que os primeiros americanos vieram da Ásia através do estreito de Bering. É claro que esta concepção pode ser falsa, mas é a mais razoável, dados os indícios — ou assim somos normalmente levados a pensar.

Porque acreditamos em tudo isto, submetemo‑nos aos resultados da ciência: atribuímos‑lhe um papel privilegiado ao determinar o que se ensina às nossas crianças na escola, o que se aceita como probatório nos nossos tribunais e o que serve de base às nossas políticas sociais. Aí encaramos como facto aquilo que é verdadeiro. Queremos aceitar apenas aquilo sobre o qual há boas razões para acreditarmos ser verdadeiro; e vemos a ciência como a única boa maneira de chegar a crenças razoáveis sobre o que é verdadeiro, pelo menos no domínio do puramente factual. Por isso, submetemo‑nos à ciência.

Contudo, para que este tipo de deferência à ciência seja correcto, o conhecimento científico tem de ser privilegiado — é melhor não haver muitas outras maneiras radicalmente diferentes, mas igualmente válidas de conhecer o mundo, e em que a ciência seja apenas uma delas. Se a ciência não fosse privilegiada, teríamos de atribuir tanta credibilidade à arqueologia como ao criacionismo zuni, tanta credibilidade à evolução como ao criacionismo cristão — que é exactamente a concepção defendida por cada vez mais académicos e cada vez mais repetida por pessoas fora da academia.

Assim, a igual validade é uma doutrina de importância considerável, e não só dentro dos limites da torre de marfim. Se os numerosos académicos nas humanidades e nas ciências sociais que a subscrevem estão certos, não estamos apenas a cometer um erro filosófico de interesse para um pequeno número de especialistas na teoria do conhecimento: enganámo‑nos fundamentalmente nos princípios segundo os quais a sociedade devia ser organizada. Por conseguinte, há mais urgência do que o habitual em questionar se estão certos.

A construção social do conhecimento

Como é que tantos académicos contemporâneos acabaram por se deixar convencer de uma doutrina tão radical e contra‑intuitiva como a da igual validade?

Trata‑se de uma questão interessante, saber se a explicação para este desenvolvimento é primariamente intelectual ou se é de natureza ideológica; há indubitavelmente um elemento de cada.

 Ideologicamente, a atracção pela doutrina da igual validade não pode ser dissociada do seu aparecimento na era pós‑colonial. Os defensores da expansão colonial procuraram muitas vezes justificar o seu projecto com o argumento de que os sujeitos colonizados tinham muito a ganhar com a ciência e a cultura superiores do Ocidente. Num clima moral que virou definitivamente as costas ao colonialismo, é tentador dizer não só — o que é ver dade — que não se pode justificar moralmente a subjugação de um povo soberano em nome da difusão do conhecimento, mas também que não existe uma coisa como o conhecimento superior, mas apenas conhecimentos diferentes, cada um apropriado ao seu contexto particular.

Em termos intelectuais, a atracção pela igual validade parece derivar da convicção de muitos académicos de que o melhor pensamento filosófico do nosso tempo afastou as concepções objectivistas da verdade e da racionalidade que assinalei há pouco e substituiu‑as por concepções de conhecimento que reclamam igual validade. Quais são estas concepções?

A ideia no centro destas novas concepções «pós‑modernas » do conhecimento está concisamente expressa na seguinte passagem:

- As epistemólogas feministas, em comum com muitas outras correntes da epistemologia contemporânea, já não vêem o conhecimento como uma reflexão neutral e transparente estabelecida por processos transcendentes de avaliação racional. Ao invés, a maioria aceita que todo o conhecimento é conhecimento situado, que reflecte a posição do produtor de conhecimento num certo momento histórico e num dado contexto material e cultural.

Segundo esta ideia central, a verdade de uma crença não é uma questão de como as coisas se relacionam com uma «realidade que existe de forma independente»; e a sua validade não depende da sua aprovação por «processos transcendentes de avaliação racional». Ao invés, a possibilidade de uma crença ser conhecimento depende, pelo menos em parte, do contexto contingente social e material em que essa crença é produzida (ou mantida). A qualquer concepção do conhecimento que incorpora esta convicção central chamarei concepção do conhecimento da dependência social.

Recentemente, as versões mais influentes das concepções do conhecimento da dependência social têm sido formuladas nos termos da agora ubíqua noção de construção social. Todo o conhecimento, dizem, é socialmente dependente porque todo o conhecimento é socialmente construído. Assim, irei debruçar‑me sobretudo sobre as concepções socioconstrutivistas do conhecimento.

No entanto, seja como for fundamentada a dependência social do conhecimento, deve ser imediatamente claro como essa concepção do conhecimento pode ajudar a reclamar a igual validade, se fosse admitida. Se o facto de uma crença ser conhecimento fosse sempre uma função do contexto social contingente em que é produzida, então poder‑se‑ia muito bem dizer que aquilo que é conhecimento para nós não é conhecimento para os zunis, apesar de termos todos acesso às mesmas informações (falarei mais sobre isto).

Filosofia na academia

Sublinhei a influência que as ideias construtivistas exercem actualmente sobre as humanidades e as ciências sociais. Contudo, há uma disciplina de humanidades em que a influência dessas ideias é muito fraca, que é a própria filosofia, pelo menos tal como é normalmente praticada nos departamentos de filosofia analítica no mundo de língua inglesa.

Isto não significa que essas ideias não tenham recebido apoio de filósofos analíticos. Pelo contrário, em sua defesa, poderíamos citar uma boa parte dos filósofos mais proeminentes desta tradição — por exemplo, Ludwig Wittgenstein, Rudolf Carnap, Richard Rorty, Thomas Kuhn, Hilary Putnam e Nelson Goodman. Estes filósofos, por sua vez, poderiam evocar alguns precedentes intelectuais importantes.

Immanuel Kant negava que o mundo, na medida em que o podemos conhecer, pudesse ser independente dos conceitos segundo os quais o apreendemos. David Hume questionava o nosso direito de pensar que existe apenas um conjunto correcto de princípios epistémicos que captam aquilo que faz uma crença ser racionalmente sustentada. E Friedrich Nietzsche pode ser lido como questionando se alguma vez somos realmente levados à crença por meio de provas, em oposição a outros motivos não epistémicos — interesse próprio ou ideologia — que podem agir sobre nós.

No entanto, apesar de todo o seu passado intelectual distinto e de toda a atenção que receberam nos tempos recentes, é justo dizer que estas concepções anti‑objectivistas da verdade e da racionalidade não são geralmente aceites nos departamentos normais de filosofia no mundo de língua inglesa.

O resultado foi um afastamento progressivo da filosofia académica em relação ao resto das humanidades e das ciências sociais, levando a níveis de acrimónia e de tensão nas universidades americanas que mereceram o nome de «guerras da ciência».

Os académicos simpatizantes do pós‑modernismo queixam‑se de que a defesa da revisão das concepções tradicionais do conhecimento é esmagadoramente clara desde há muito tempo e que só a intransigência habitual da ortodoxia estabelecida pode explicar a resistência com que estas novas ideias têm sido recebidas. Os tradicionalistas, por outro lado, têm ignorado impacientemente os seus colegas inclinados para a filosofia nas humanidades e nas ciências sociais mais por considerações de correcção política do que por verdadeiras considerações filosóficas.


30 Anos de Portugal no CERN


Informação recebida do Ciência Viva:

Na tarde do domingo, 26 de abril, o LIP e a Ciência Viva celebram os 30 anos da adesão de Portugal ao CERN, no Auditório do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

Esta tarde será agora também dedicada à memória de José Mariano Gago, impulsionador dessa adesão, fundador e presidente do LIP e fundador da Ciência Viva. José Mariano Gago empenhou-se pessoalmente na preparação desta celebração, trabalhando no programa até ao fim.

Às 15.00 será apresentada a estreia nacional do documentário Particle Fever, do realizador Mark Levinson, sobre o CERN, o arranque do acelerador LHC e a procura e descoberta do bosão de Higgs. Para responder a questões sobre os temas abordados no filme e sobre a presença de Portugal no CERN estarão presentes os investigadores João Varela, Patrícia Conde Muíño, Augusto Barroso, Jorge Romão e Gaspar Barreira, Director do LIP e Delegado de Portugal no Conselho do CERN.

Às 17.30 terá lugar a sessão dedicada à celebração oficial da adesão de Portugal ao CERN e à memória de José Mariano Gago, com depoimentos de personalidades nacionais e do CERN. Destacamos a participação de Luigi Rolandi e de Pier Giorgio Innocenti, do CERN, de Christian Fabjan, da Academia Austríaca das Ciências e ainda de representantes das instituições associadas do LIP (FCT, IST, Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade do Minho, ANIMEE). O passado, presente e futuro do CERN marcam presença nesta sessão através das mensagens de Herwig Schopper, Director Geral aquando da adesão, Rolf Heuer, actual Director Geral, e Fabiola Gianotti, futura Directora Geral.

No final da sessão será atribuído o nome de José Mariano Gago ao Auditório do Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva.

Informação recebida do Rómulo - Coimbra:

Na próxima 3ª feira, 28 de Abril de 2015, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Sistemas de gestão de energia: oportunidades e desafios", com Jorge Landeck, Co-fundador e CTO da ISA Energy e Professor do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. Esta palestra insere-se no ciclo "À Luz da Ciência", dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, que decorre de Fevereiro a Junho de 2015.

ENTRADA LIVRE

SINOPSE:

A gestão dos recursos energéticos constitui atualmente um fator crítico para o crescimento sustentável da sociedade. Torna-se indispensável promover a adoção de políticas, ferramenta e comportamentos que garantam a redução dos consumos, dos custos e dos desperdícios.

Por outro lado, a liberalização do mercado da energia em curso está a promover o aparecimento de novos operadores (modelos de negócio) e, com estes, esquemas tarifários mais complexos e mecanismos de gestão da procura.

Neste contexto, a evolução dos sistemas de gestão de energia tem sido rápida, surgindo atualmente como ferramentas poderosas de análise e processamento de informação que tiram partido das mais recentes tecnologias de comunicação sem fios e de computação móvel.

Nesta palestra, descrevemos as principais características e tendências dos sistemas de gestão de energia, bem como, os desafios que persistem à sua utilização em larga escala.


Todos iguais, mas uns mais iguais do que outros


Informação recebida do Ciência Viva:

A bióloga Patrícia Beldade é a convidada da próxima conferência Ciência Viva, intitulada "Todos iguais, mas uns mais iguais do que outros", que terá lugar no próximo dia 30 de Abril, quinta-feira, às 19.30, no Pavilhão do Conhecimento.

O que está escrito no nosso DNA? Como se lê esse texto? Não existem dois organismos exactamente iguais. Entre os seres humanos, por exemplo, existem pessoas de diferentes alturas, pesos, cores de pele e de cabelo, formatos de cara e de olhos. Esta variação - diferenças entre indivíduos de uma mesma espécie - é a matéria-prima que permite à evolução produzir a extraordinária diversidade de organismos que habitam a Terra. Patrícia Beldade virá falar-nos do seu trabalho sobre os mecanismos responsáveis por diferenças entre indivíduos da mesma espécie e entre espécies diferentes e que contribuem para a variação genética.

Patrícia Beldade é Investigadora Principal no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e doutorou-se na Universidade de Leiden (Holanda), onde foi professora entre 2005 e 2011. Trabalha em Biologia Evolutiva e do Desenvolvimento, área em que tem publicado numerosos artigos em revistas científicas internacionais de renome.

A entrada na conferência é gratuita mediante inscrição prévia na página do Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva.

O Ciclo de Conferências Ciência Viva tem como media partner o jornal Público.

Próximas conferências:

28 de Maio: Nuno Ferrand (Universidade do Porto) | Biodiversidade

25 de Junho: Lia Vasconcelos (Universidade Nova de Lisboa) | Ilhas de Plástico - Que Fazer?

A ARTE DOS SABORES


Texto recebido de Galopim de Carvalho: 

Ver fazer, experimentar e conseguir fazer foram constantes ao longo da minha vida. Já o escrevi e já o disse vezes sem conta. Praticamente tudo me cativava, menos a escola, desinteressante, austera, repressiva e enfadonha. Aprender gramática escrevendo no caderno diário, a mando do professor, as definições de sujeito, predicado, complemento circunstancial de lugar, nome predicativo do sujeito e mais uma infinidade de conceitos não explicados, sem sentido, ditados monótona e monocordicamente, nada tinha de apelativo. Pior ainda era ter de decorar tudo aquilo e repeti-lo, tim-tim por tim-tim, frente ao semblante carregado do mestre, de régua na mão a bater na perna a cadência da recitação.

           - Dá cá a mão, meu madraço. Agora levas já três para alegrar a festa. E, amanhã, se não me trouxeres tudo na ponta da língua, sem gaguejar, apanhas com mais meia dúzia de cada lado...´

Era muito mais atraente ficar horas a ver o Maurício, de joelho no chão, a escolher e a afeiçoar as pedras da calçada, enfiando-as de seguida em covinhas que fazia na terra com a peta do martelo e que, por fim, ajeitava com três ou quatro pancadinhas de mestre, rematando sempre com uma mão cheínha de terra a colmatar as imperfeições dos ajustes. Impressionante era, depois, ouvir o baque pesado e cavo do maço a calcar o chão, numa repetição ritmada pelo respirar ruidoso saído do peito do calceteiro, num vigor condizente com o esforço posto em cada batida. Nessa altura eu já distinguia os diversos tipos de martelos dos vários ofícios abertos à minha imensa curiosidade no pequeno universo que foi a cidade e os seus arredores. Martelo de sapateiro, com que brinquei na oficina do meu tio Almaça, de funileiro, como o do Teófilo, à Porta Nova, de pedreiro, de estofador, de ferrador, de carpinteiro, que aprendi a usar, pregando e tirando pregos, com o mestre Roberto, na Rua do Segeiro, todos os martelos eram diferentes entre si e nenhum era igual ao do Maurício, mais parecido com o martelo de geólogo, profissão que nessa altura, já lá vão mais de sete décadas, ninguém em Évora sabia o que era. Ferramenta esta que nem eu sabia que ia ser a minha a partir do ano em que, já adulto, decidi cursar Geologia, um gosto antigo só tarde concretizado. Bonitos e em tamanho a condizer com a minha estatura de criança eram os martelinhos do senhor Rego, relojoeiro, e o do senhor Sales, conceituado ourives da cidade. Uma tal curiosidade e interesse por tudo o que era manual, levou-me, mais tarde, nos anos cinquenta, a frequentar a oficina de encadernação do Brito, um jovem da minha idade com quem estabeleci amizade e me iniciou na arte. Grande mestre e referência entre os últimos encadernadores douradores ainda vivos, com ele aprendi a coser os cadernos, a fixar as capas de cartão e a armar as lombadas encordoadas. Ali me adestrei no corte com a cesária mas nunca tive ordem de usar a guilhotina. Sob a sua simpática e sábia orientação, cheguei a encadernar alguns dos meus livros em meia-francesa, em pano e em percalina, peças que guardo religiosamente.

 Entre os inúmeros pólos de atracção, alvos predilectos desta minha vocação de ver fazer e, assim, aprender como se fazia, estava também a cozinha. Vários factores foram determinantes deste meu interesse. Sendo o mais novo de cinco filhos só fui para a escola aos nove anos, para a terceira classe. A primeira e a segunda fi-las em casa, numa modalidade designada por Ensino Doméstico, tendo por mestres a mãe, o pai e os irmãos mais velhos. A minha mãe sabia como era a escola e achava-me demasiado pequeno para enfrentar um tal desconforto. Com ela aprendi a ler na «Cartilha Maternal» de João de Deus e toda a tabuada, a mesma que ainda hoje me dispensa do abuso das calculadoras de bolso dos nossos actuais estudantes. Assim, só com aquela idade enfrentei as “virtudes pedagógicas” dos mestres-escola de então. Havia excepções, deve ressalvar-se, mas eram poucas.

Nesse tempo era quase sempre eu que, diariamente, fazia as compras na praça, no talho, na mercearia, para além de outros mandados indispensáveis a uma casa de família. Tal azáfama foi-me ensinando a conhecer os produtos alimentares, dos legumes à fruta, passando pelas carnes e pelo peixe, a tal ponto que podia ir para a rua com uma nota de vinte escudos na algibeira e ser eu que destinava. Destinar era um verbo muito usado pela mãe para dizer, com uma só palavra, uma porção delas: pensar o que iria ser o almoço ou o jantar desse dia, em função do que havia e não havia, das qualidades e dos preços, e decidir, na hora, ali, frente às bancas.

            - Destina lá tu. Se as favas estiverem em conta – dizia-me, já eu ia escada abaixo – não te esqueças de pedir coentros e rama de alho fresca. Compra três quilos que, depois de descascadas, ficam por menos de metade. E não queiras das grandes. Têm a pele dura e são farinhentas. Pede das miudinhas. Se não houver das boas, traz ervilhas. Escolhe das mais cheínhas e gradas. Tens é então de comprar uma dúzia de ovos. E certifica-te que são frescos. Na semana passada deram-te um gorado...

Era assim todos os dias. Peixe espada para grelhar, carapau para fritar, pescada para fazer com arroz e espinafres. Ciba (choco grande) para guisar com batatas. Tomate rijo para a salada ou bem maduro para a tomatada. Da galinha viva para a cabidela (não te esqueças dos cominhos), às ervas de cheiro e aos ingredientes para o cozido de abóbora e grão, acabei por aprender muito do que todas as mães sabiam no seu quotidiano de dar de comer à família. Na mercearia do Anselmo onde, a brincar, dava ajuda de caixeiro, aprendi os usos a dar às especiarias, a distinguir o bacalhau do escamudo, a avaliar as qualidades de tudo o que se vendia a granel, tirado a corredor das tulhas, do açúcar às massas, do arroz ao feijão e ao grão. Aprendi a estimar o grau do azeite pela cor e pelo cheiro. Um outro factor influente no meu gosto pela culinária tinha-o em casa, na cozinha, ouvindo a mãe que falava das quantidades, dos tempos e dos cuidados a ter e me explicava todos os porquês e os para quês, os quando e os quantos, os como e os onde.

- A asa da frigideira fica sempre lá para trás, não vá a gente dar-lhe um encontrão. E, olha – advertia, de dedo em riste e olhar muito sério – não há queimadura pior do que a do azeite a ferver. Para engrossar o caldo com farinha nunca é o frio sobre o quente, pois dessa maneira formam-se umas bolinhas de farinha cozida que já não se desfazem. Olha, é sempre assim, - dizia, enquanto tirava com o caço o caldo a ferver da panela e o vertia em fio sobre uma tigela onde diluíra a farinha em água fria. Outras vezes, estando a preparar um cozido, alertava-me – A couve tem de ser escaldada primeiro – e, mais adiante, – os enchidos são cozidos à parte, senão deixam um cheiro a fumeiro que estraga tudo.

Um terceiro factor de interesse pela arte de Pantagruel foi talvez a minha própria natureza de grande apreço pelos bons paladares e a convicção de que não há melhores aromas do que os que se exalam dos tachos e panelas ao lume, aromas que enchem as cozinhas e dilatam as narinas. E todos sabemos como os aromas prenunciam os paladares...

 Quando os onze anos me levaram para o liceu, acabou-se para a minha mãe a ajuda que lhe dava em casa neste capítulo do aprovisionamento alimentar e terminou, para mim, o contacto diário com a cozinha, um saber que, sem me ter dado conta, mantive guardado como uma semente que só muito mais tarde germinou e deu frutos. Depois de adulto, já casado, em todas as situações em que se proporcionou pôr o avental, todo esse repositório veio ao de cima. Três anos em Paris, cada um a estudar para seu lado e a residirmos na vizinhança da velha e conhecida rue Mouffetard, onde ainda decorre o mais tradicional mercado parisiense, deram-nos, agora aos dois, novas possibilidades de explorar a arte dos sabores.

 Galopim de Carvalho