sexta-feira, 20 de novembro de 2015

JOSÉ ESTEVES, O HOMEM E A OBRA


 Acabo de tomar conhecimento do falecimento de um Mestre (no sentido mais nobre da palavra) e grande (e já saudoso) Amigo. Há o hábito de homenagear as pessoas depois de mortas. Não me pesa na consciência homenagem tardia a José Esteves. No passado dia 10 de Julho de 2010, publicava eu o texto que transcrevo integralmente de um PEDAGOGO que exerceu a sua docência no antigo Liceu D. João III de Coimbra.
José Esteves, o Homem e a Obra

“Ora aqui está, se não me iludo, uma pedra violenta de escândalo para muitos dos nossos leitores anti-desportistas: o desporto como peste contemporânea até agora, invade heterodoxamente o belo templo de Minerva e vem sentar-se, de face descarada, no banco dos doutorandos, perante um areópago sapientíssimo e soleníssimo” (Sílvio Lima, “O Primeiro de Janeiro”, 25/11/43).

Numa época em que tudo e todos são postos em causa, mas que, em contrapartida, se homenageia, a torto e a direito, muito imbecil e se galardoa a eito tanto incompetente, foi com muito agrado que li um comentário de Carlos Medina Ribeiro no meu post “Seleccionador nacional de futebol e jogadores: culpados ou vítimas?” (04/07/2010).

Nele escreveu o seu autor: “Guardo como verdadeira relíquia (ou Bíblia?) o livro - aqui referido - do Prof. José Esteves, que devia ser de leitura obrigatória para muito boa gente, a começar por todos os candidatos a comentadores'desportivos'". Reporta-se este comentário a um pequeno excerto do livro “O Desporto e as Estruturas Sociais”, da autoria de José Esteves, professor de Educação Física, bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, doutor honoris causa pelas Universidade Técnica de Lisboa e Universidade Lusófona, por mim então transcrito: “Só há uma forma de entender o fenómeno desportivo: na perspectiva das estruturas sociais. O que há de característico e fundamental no desporto é, justamente, o que define e caracteriza a sociedade em que ele se realiza” (Prelo Editora, 1.ª edição, 1967, p. 15).

Repare-se que este livro foi publicado sete anos antes de 25 de Abril, com os riscos de natureza política que existiam na altura. Recordo, a propósito, a constante preocupação de José Esteves em dignificar o INEF (actual Faculdade de Motricidade Humana) no seu estatuto de estabelecimento de ensino superior. Aliás, foi esse o motivo principal que o levou a partilhar a respectiva direcção, corria o ano de 58, com José Anderson Leitão, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, sob determinadas condições por si impostas que não sendo cumpridas o levariam a abandonar esse prestigiado cargo.

Por serem do domínio público as suas opções políticas de católico de esquerda serviram elas de denotador para a miserável denúncia de que se utilizava das aulas para politizar os alunos contra o Estado Novo. A simples suspeição que esta cabala levantou foi motivo suficiente para que fosse exigido o seu imediato pedido de demissão. Não o fez.

Em contrapartida, reivindicou que fosse levantado um processo de averiguações às suas actividades directivas e docentes, sendo apurada a infâmia duma mesquinha e sórdida mentira que pretendeu macular a honra de um homem probo que tudo fizera para prestigiar uma escola gerada por um estado autoritário que ele combatia à luz do dia e não em corredores esconsos de traição. Provada a sua inocência, em misturar docência com política sórdida, foi-lhe concedida a “graça” de poder continuar no exercício do cargo. A isso, respondeu com o pedido de demissão.

Anos mais tarde, figuras de destaque da vida portuguesa houve que, quando confrontadas com o facto dos elevados cargos exercidos antes de 25 de Abril e a sua reconversão imediata a ideários políticos vindos de Moscovo, argumentaram terem aceitado essas nomeações para minar as estruturas fascistas! Não sei se passaram, depois, a minarem as estruturas comunistas: "cesteiro que faz um cesto..."

Conta a lenda que Pigmalião se perdeu de amores por Galeteia, estátua de rara beleza por si esculpida, em tão grande e sofrida paixão que Afrodite condoída lhe deu o sopro da vida. Émulo seu, José Esteves cinzelou com o bater do coração e o escopo da alma a grande paixão da sua vida – a Educação Física.

Breves pinceladas da sua actividade profissional: nos anos 40, dedicou-se ao ensino no antigo Liceu D. João III de Coimbra e na Associação Académica desta mesma cidade como treinador/educador da modalidade de basquetebol, depois no Liceu de Oeiras e no Sport Lisboa e Benfica , como secretário técnico. Foi respeitado e admirado por colegas e dirigentes desportivos, alunos e atletas, todos educandos seus, porque a obra educativa - e o respeito pela ética desportiva - não depende do sítio onde se realiza, mas de quem a realiza.

O livro “O Desporto e as Estruturas Sociais”, notável tese académica no âmbito da sociologia desportiva, justifica bem a denúncia de um deplorável status quo feita por António de Paula Brito, também ele professor de Educação Física, hoje professor catedrático jubilado de Psicologia Desportiva, da Faculdade de Motricidade Humana, quando escreveu na altura: “Quando, a propósito da Educação Física e Desporto se fala de Cultura, de Ciência, de Sociedade, de Política, etc., é frequente enfrentar-se um sorriso descrente ou ouvir gritar a Heresia!”

José Esteves suportou, com o estoicismo dos mártires e a paciência de Job, a heresia e fê-lo em hora em que falar de Sociedade (de uma certa sociedade) ou de Política (de uma certa política) era bem mais perigoso e arriscado sob o ponto de vista de segurança pessoal do que enfrentar a ironia dos néscios ou sofrer a dúvida de uma certa intelectualidade ciosa da sua massa cinzenta que desprezava o Corpo.

Autor de outros livros sobre Sociologia do Desporto, estudo académico emergente em Portugal, José Esteves assume em acto de coragem uma posição crítica e uma luta constante (poucas vezes, a consagrada expressão de Séneca, “viver significa lutar” terá tido aplicação tão nobre), perante os problemas sociais portugueses, em particular, e da Educação Física nacional, em geral.

Isso mesmo reconheceu Jorge Sampaio, então Presidente da República, quando escreveu: “José Esteves tem a qualidade de nos fazer pensar. As suas perguntas são uma fonte inesgotável de reflexão…. As suas práticas não contradizem nunca as suas teorias. …É sempre o mesmo cidadão que não se demite do seu papel de”consciência critica” e que não cala a sua indignação perante “todos os racismos...”

Chega o 25de Abril.

José Esteves vive a hora em recolhida religiosidade.

Não bate palmas! Não se cola ao pelotão da frente! Não aceita elevados cargos para que é convidado!

Tem as mãos calejadas do trabalho. Tem os pés sofridos em longa e dura caminhada. Tem o corpo alquebrado por uma luta política intensa.

Não!, para mim, José Esteves não é um ídolo – porque não tem pés de barro. Um semideus – porque não pertence à mitologia grega. Um super-homem – porque não é, de forma alguma, personagem de Nietzche, em satisfação dos instintos vitais lutando contra o homem moral, um fraco, um degenerado.

Numa época planetária de exacerbado nacionalismo nas pugnas desportivas profissionais, em nome de uma bandeira ou de uma ideologia política, que formosíssima utopia a sua: “Não troco a promoção desportiva duma centena de crianças das nossas escolas primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

A um simples mortal, os deuses do Olimpo, jamais, poderão perdoar tanta e tamanha afronta. E não nos diz o adágio que “a vingança é o prazer dos deuses
”?



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