quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Herbert Zbigniew: O Senhor Cogito


 
Georg Heym
Uma aventura quase metafísica

1.

Se é verdade
que a imagem precede o pensamento
podemos imaginar
que as ideias de Heym
nasceram enquanto patinava

-facilidade de movimento
Sobre o gelo

entregava-se a esse vai e vem
rodava à volta de centro instável
não era um planeta
nem um sino
nem um camponês atrelado à charrua

- a relatividade do movimento
refletia sistemas que desapareciam

a margem esquerda mais próxima
(os tetos vermelhos de Gatow)
fugia para trás
como uma toalha violentamente arrancada

a margem direita pelo contrário
permanecia aparentemente no mesmo lugar
-inversão do determinismo
maravilhosa coexistência de possibilidades


- a minha grandeza –
dizia Heym para si próprio
(recuava agora
a perna esquerda levantada)
repousa na minha descoberta
que no mundo contemporâneo
os resultados
a tirania das consequências
a ditadura das relações de causa e efeito não existem
todos os pensamentos
ações
fenómenos
estão lado a lado
como os traços dos patins
sobre a superfície branca

uma afirmação de peso
para a física teórica
uma afirmação perigosa
para a teoria da poesia

2.

os que permaneciam na margem direita
não viram Heym desaparecer

o estudante que acabava de a cruzar
via tudo em ordem inversa

o pullover branco
as calças apertadas nos joelhos
por dois botões
as pernas com meias cor de laranja
a causa da infelicidade dos patins
dois polícias
afastavam a multidão de transeuntes
que rodeava o buraco no gelo

(o buraco parecia a entrada de uma masmorra
a boca fria de uma máscara)

humedecendo o lápis
tentavam registar o que se tenha passado
e pô-lo em ordem
conforme a ultrapassada
lógica de Aristóteles
exibindo como todo o poder
uma indiferença obtusa
para com o descobridor
e os seus pensamentos
que agora
vagueavam confusamente
sob o gelo

 

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