segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Em favor de António Sampaio da Nóvoa

Meu discurso no jantar-comício de sexta-feira passada em Coimbra como Presidente da Comissão de Honra Distrital da Candidatura de António Sampaio da Nóvoa a Presidente da República, lugar que aceitei por dever de cidadania:

Caras Amigas e Amigos

 O meu candidato – o nosso candidato a Presidente da República – é António Sampaio da Nóvoa. Sou como ele independente – nunca militei nem sequer nunca apoiei qualquer partido político -, mas isso nada me diminuiu nem diminui como cidadão. A eleição à Presidência da República é uma ocasião da nossa democracia onde podemos escolher candidatos que vêm de fora dos partidos. Vou votar em Sampaio da Nóvoa porque a possibilidade hoje bem real de termos um cidadão independente a ocupar a Presidência da República significa o amadurecimento da democracia portuguesa. Nada tenho em abstracto contra os partidos – embora tenha algumas coisas em concreto contra o que tem sido o comportamento dos partidos nacionais ao ocuparem por vezes de forma tão excessiva quanto fútil a totalidade do espaço político. Mas uma democracia que se esgote nos partidos não o é verdadeiramente. Precisamos de uma participação mais alargada. Ora a eleição uninominal do Presidente da República é uma excelente altura para que mais cidadãos sintam que a democracia é com eles. Em 1995 participei na res publica apoiando a candidatura de Jorge Sampaio, que ganhou à primeira volta a Aníbal Cavaco Silva. Se em 2016, como espero, Sampaio da Nóvoa ganhar será a segunda vez que eu voto num Presidente Sampaio...

 Rompido o cerco atrofiador da austeridade, abriu-se ontem um novo ciclo político – finalmente temos discussões relevantes na Assembleia da República, que deixou de ser uma mera caixa de ressonância do governo, e finalmente pudemos ver todos os partidos presentes na tomada de posse de um governo. Estamos a entrar num tempo de normalidade e acho perfeitamente normal – direi mesmo o apogeu da normalidade - que seja eleito um independente para árbitro do jogo político. Tenho a certeza de que o Presidente António Sampaio da Nóvoa será isento: deixará a Assembleia da República e o governo exercerem as funções que constitucionalmente lhes estão cometidas. Do Presidente da República espera-se independência e isenção em eventuais alturas de crise (ninguém as deseja mas podem ocorrer e, quando ocorrer, esperamos que o Presidente represente os portugueses que os elegeram e não os mercados).

Mas não votarei em Sampaio da Nóvoa apenas por ele ser independente e isento. Votarei nele porque tenho a certeza que saberá representar bem os portugueses e transmitir-lhes ideais mobilizadores. O Presidente pode não ter, fora de situações de crise, muitos poderes no nosso sistema político, mas tem sempre o poder da palavra. E as palavras importam, as palavras traduzem ideias e determinam o futuro. São as palavras que nos orientam no meio da incompreensão e da incerteza. Há palavras salvadoras. Há palavras que trazem futuro. As palavras que queremos ouvir como determinantes de futuro são, decerto, democracia, liberdade, solidariedade, mas também ciência, educação e cultura. E todas essas palavras têm sido proferidas, sem dúvidas nem equívocos, por Sampaio da Nóvoa.

 Sampaio da Nóvoa como Reitor da Universidade de Lisboa, uma universidade que ele reformou a partir de dentro (não é, portanto, verdade, que as universidades não se auto-reformem!), colocou à cabeça a ciência. A ciência é o conhecimento do mundo, mundo do qual faz parte o homem. A ciência é feita pelo homem e para o homem. Ciência é uma boa palavra e gostaria de viver num país onde as boas palavras determinassem as boas acções. Antero de Quental, no manifesto de 1871 que anunciava as Conferências Democráticas, texto co-assinado por Eça de Queiroz, falava da necessidade de “agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna”, um modo de falar da necessidade de desenvolvimento. Na conferência Causa da Decadência dos Povos Peninsulares Antero escreveu:“A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos.” Hoje, se queremos ter futuro temos de ter conhecimento. Ninguém pode viver bem num mundo que não conhece. A extraordinária aceleração recente do desenvolvimento da sociedade humana deveu-se preciosamente à ciência. Mas, se o nosso atraso vem da falta de ciência, de onde vem a falta de ciência? Continuo a ler Antero: “Dessa educação, que a nós mesmo demos durante três séculos, provêm todos os nossos males presentes.” A nossa falta de ciência proveio da nossa falta de educação. Quando falamos de ciência, temos sempre de referir a escola. Os nossos avôs e bisavôs não frequentaram a escola ou, quando a frequentaram, receberam dela uma educação deficitária. Ficámos feridos com a nossa falta de escola.

 Sampaio da Nóvoa conhece bem a História da Educação em Portugal e no mundo, pois tem um doutoramento em Educação em Genebra e outro em história em Paris. Poucos portugueses estarão tão bem preparados como ele para compreender o nosso país. O caso do atraso educativo português faz aliás parte dos manuais de história do desenvolvimento. O livro do professor de Economia da Universidade de Harvard, David Landes, "A Riqueza e Pobreza das Nações", com o subtítulo "Por que é que alguns países são ricos e outros pobres", põe o dedo na nossa ferida, identificando o problema do analfabetismo: “O contraste no analfabetismo entre os países do Sul e os do Norte da Europa é indubitavelmente grande. Por volta de 1900, 3 por cento da população da Grã Bretanha era analfabeta, o número para a Itália era 48 por cento, para Espanha 56 por cento, e para Portugal 78 por cento”. O nosso défice de qualificações é o grande drama nacional que urge ultrapassar. Ainda hoje há 5% de analfabetos. E, apesar dos grandes progressos sos últimos tempos, estamos na cauda da Europa na qualificação da população activa. Sampaio da Nóvoa lembra-nos que ainda nos falta escola, falta-nos uma escola que persista no trabalho e prepare para o trabalho persistente. Numa entrevista recente citou uma carta de protesto dos pais de alunos de liceu 1933, estava o Estado Novo a nascer. Diziam os pais sobre a sua prole: “Os nossos filhos são capazes de esforços mentais intensos mas curtos, são rebeldes ao esforço lento, à tenacidade, à persistência e à continuidade (...) são vontades facilmente vencidas e tornadas inertes pela monotonia das ocupações mentais.” Hoje a questão persiste, pois numerosas mentes permanecem inertes, ocupadas com a televisão e as redes sociais.

 A condição e o resultado da ciência e educação é a cultura. Sampaio da Nóvoa é um homem culto: leu Antero de Quental e os republicanos como Bernardino Machado que, no começo do século XX, se preocupavam com a ciência, a educação e a cultura. Leu António Sérgio, que conhece especialmente – cito Sérgio sobre a cultura: “a cultura não é um enchimento, uma recepção, uma absorção de ideias, uma ingestão de noções: é uma ginástica, um trabalho de espírito sobre si proprio, um aguçamento das faculdades críticas” e, noutro trecho, “o problema da cultura, o problema da mentalidade: este é, se me não engano, o problema característico de Portugal moderno, e o mais grave dos problemas da sociedade portuguesa.” Mas leu também Miguel Torga, o médico e grande escritor coimbrão que escreveu “mesmo absurda, a esperança é sagrada” - e Sophia de Mello Andresen, a poetisa que escreveu “a cultura é uma das formas de libertação do homem”. Leu Jorge de Sena (engenheiro civil, como Fernando Seabra Santos) e Alexandre O´Neill. Voto em Sampaio da Nóvoa porque também gosto desses autores e gostaria que eles tivessem, entre nós, mais leitores. Apreciei uma resposta de Nóvoa numa entrevista onde ele diz que trocava um jantar social por umas horas numa biblioteca. Eu também troco, excepto o jantar de hoje claro.

 Por último, falemos de Coimbra. Sampaio da Nóvoa teve um período de formação em Coimbra. Entrou aqui no curso de Matemática, julgo que dois anos antes de eu entrar no de Física. Matemática, vejam bem, um homem de letras aprendeu matrizes e integrais! Ao mesmo tempo que cursava Matemática, fez aqui um curso prático de futebol, quase chegando a profissional da Académica, que foi e é o seu clube. E entrou aqui num curso prático de teatro, no TEUC (haveria de terminar em Lisboa o Curso do Conservatório para depois ir ensinar artes na Escola do Magistério Primário de Aveiro). Nos anos 60 e 70 quando eu era aluno do Liceu D. João III ia assistir aos treinos de futebol no campo pelado de Santa Cruz, paredes meias com o liceu, e lá estavam craques como Maló, Rui Rodriguies e Crispim. Se calhar foi lá a primeira vez que vi Sampaio da Novoa e, nesse tempo em que o presidente era Américo Tomás, nunca me terá passado pela cabeça que aquele miúdo com jeito para a bola seria um dia candidato a Presidente da República. Estou em crer, contudo, que foi no campo de Santa Cruz que aprendeu algumas qualidades necessárias para a Presidência. Cito uma entrevista de Crispim, que o treinou: “não era um jogador muito veloz, mas era técnica e tacticamente perfeito. Como médio atacante tinha uma visão de jogo incrível e sabia muito bem o terreno onde pisar. Era um moço impecável, educadíssimo, sempre leal, mesmo com os adversários. Nunca, nunca, faltava aos treinos, mesmo com os ensaios do teatro.” Querem melhor recomendação do que esta para votemos nele? O nosso candidato prepara-se, respeita os outros, sabe posicionar-se em campo...

 Nunca convivi muito tempo seguido com Sampaio da Nóvoa. Mas basta conviver um pouco com ele, como eu já fiz, para perceber, além dessas qualidades, a sua inteligência, o seu carácter e a sua afabilidade, que não demora a derivar em afecto. E, faço notar, o seu gosto pelas coisas simples, o que explica o seu enorme desprendimento por coisas que a outros são muito apetecíveis (como jantares sociais, por exemplo). Em Inglaterra, num encontro com estudantes portugueses lá residentes, tive o gosto de ser guiado por ele, pois ele tinha alugado uma viatura e posso assegurar-vos que guia muito bem pela esquerda. Em Portugal pude também testemunhar que também guia muito bem pela direita. E, conta quem o viu de bicicleta na Universidade, guia tão bem em quatro rodas como em duas rodas. É este homem, com grande conhecimento de toda uma variedade de caminhos no país e no mundo, que queremos que guie o país.

 Convoco o poeta O´Neill: “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo/, golpe até ao osso, fome sem entretém.” Temos de resolver a questão de Portugal. Estamos aqui precisamente para resolver esse problema. Precisamos do Presidente Sampaio da Nóvoa porque precisamos de mais democracia, mais liberdade, mais solidariedade, mas também de mais ciência, mais educação e mais cultura. Se tivermos alguns ou todos desses acréscimos, não só seremos melhores como seremos mais ricos, intelectual e economicamente mais ricos. Saúdo a coragem dele ao candidatar-se e proponho que juntemos à dele a nossa coragem ao elegê-lo Presidente da República. É para mim uma honra presidir à Comissão de Honra Distrital de Coimbra. Muito obrigado.

3 comentários:

  1. Retenho a passagem seguinte: “Sampaio da Nóvoa como Reitor da Universidade de Lisboa, uma universidade que ele reformou a partir de dentro (não é, portanto, verdade, que as universidades não se auto-reformem!), colocou à cabeça a ciência.”
    Lamento dizer, mas a suposta “reforma” da Universidade de Lisboa não impediu, por exemplo, um gritante escândalo ocorrido em 2011-2012 num concurso para professor catedrático de Geologia: http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.pt/2015/08/escandalo-revisitado.html.

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  2. É muito difícil para mim entender como é que um suposto cientista produz afirmações como "Nóvoa reformou a UL" sem produzir qualquer argumento/facto que suporte tal afirmação. Palavras leva-as o vento, e, tal como o discurso de Nóvoa, o seu texto está cheio de palavras e poesia, mas não é isso que é necessário a um Presidente para governar Portugal. A título de exemplo, Nóvoa utilizou uma manobra aritmética para colocar a UL nos rankings, mas isso só durará até as agências de ranking normalizarem as classificações per capita. É um Presidente com este tipo de atitude que Portugal precisa?

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  3. Um presidente da República NÃO governa Portugal.

    Além disso, é melhor esse tipo de presidente (Das palavras e da poesia) do que um populista que a única coisa que faz é servir pastéis, fazer uma cama, e comprar uma gravata (!), como se todos os outros candidatos não fossem capazes de fazer o mesmo.

    Ridículo. Até prefiro o Tino ao Marcelo. Ao menos é genuíno.

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