terça-feira, 6 de outubro de 2015

NOBEL PARA OS NEUTRINOS

Adivinhar os laureados com o Prémio Nobel da Física é muito mais difícil do que adivinhar o resultado das eleições em Portugal. Para já, ao contrário das eleições portuguesa, há muitos bons candidatos potenciais. O processo é conduzido no meio do maior segredo, mas a comunidade mundial dos físicos é escutada, sendo inquiridos em cada ano físicos de um grupo de diferentes universidades e institutos de investigação (os inquiridos têm de manter sigilo sobre as sugestões que apresentaram). Depois a Academia é que decide, só havendo acesso às actas décadas volvidas.

No entanto, há quem não se canse de tentar adivinhar quem serão os laureados. A revista Physics World do Institure of Physics inglês, faz esse exercício todos os anos. Falhou mais uma vez: previu a a entrega do prémio a Deborah Jin, uma  americana a trabalhar em condensados de fermiões
(seria apenas o 3.º Prémio Nobel da Física dado a uma mulher, após a francesa Madame Curie e a alemã Maria Mayer), ao francês Aspect, ao austríaco Zeilinger e ao americano Clauser por experiências relativas á teoria quântica, ao russo Aharonov ao britânico Berry por tabalhos também de física quântica, e a um pequeno grupo de líderes mundiais no domínio da caça de exoplanetas, um dos domínios de maior actualidade da astrofísica. Mas, honra lhe seja, tinha previsto, um prémio para os pesquisadores de neutrinos em 2013. Com o prémio dado aos descobridores da massa dos neutrinos, o ramo da física mais laureado - a Física Nuclear e de Partículas - avança o seu avanço em relação aos outros ramos. Neste momento tem 36 prémios e 70 laureados. Ver um infográfico  aqui.

O que são neutrinos e por que razão o prémio deste ano está mais uma vez bem atribuído (não interessa muito o ano da atribuição, os nomes atrás referidos continuam candidatos no próximo ano)?
Desde sempre que o ser humano se tem perguntado de que são feitas as coisas? A resposta actual a esta pergunta é que tudo no mundo, incluindo nós próprios, somos feitos de electrões (de carga negativa) e quarks (de carga positiva e negativa) e neutrinos (sem carga). Os neutrinos são os mais enigmáticos destas três qualidades de partículas de que tudo é feito. Até há cerca de 15 anos pensava-se que não tinham massa e, portanto, viajavam à velocidade da luz. Depois das experiências nos dois grandes detectores subterrâneos no Japão e no Canadá, capitaneados pelos dois Nobel de hoje Takaaki Kajita e Arthur MacDonald, concluiu-se que os neutrinos tinham afinal massa. Muito pequena mas tinham. O puzzle que eles resolveram foi o da falta de neutrinos, vindos por exemplo do Sol, relativamente às previsões. Conhecemos relativamente bem a física dos processos nucleares no interior do Sol e parecia que havia neutrinos produzidos no Sol e que não chegavam à Terra. A solução consistiu em admitir uma mudança de identidade (oscilação) entre vários tipos de neutrinos e essa mudança só é possível por os neutrinos terem massa. A massa dos neutrinos tem implicações cosmológicas, pois o Universo está cheio de neutrinos (nós estamos constantemente a ser atravessados por um chuveiro deles; essas minúsculas partículas não interagem connosco por não terem carga e quase não terem massa!), pelo que as investigações sobre a massa dos neutrinos continuam. Além disso, a massa dos neutrinos sugere fortemente que o actual modelo padrão da física de partículas não é a última palavra.

O Nobel da Física deste ano premeia, dado a representantes de duas equipas concorrentes, premeia mais um passo no esforço humano de compreender a organização e a história do Universo.  É um esforço continuado e que está muito longe de ter obtido resultados que nos satisfaçam.

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