domingo, 27 de setembro de 2015

"Reprodução"

Vale a pena ler uma entrevista de Isabel Lucas a Bernardo Carvalho, saída há dois dias no jornal Público (aqui).

Bernardo Carvalho escreveu um livro cujo título é Reprodução e que diz ser "uma reacção a este mundo que privilegia o discurso único, a leitura de primeiro grau, sem ironia nem imaginação, a ideia de que existe uma verdade num meio que parece absolutamente democrático, quando a democracia tem pouco a ver com absolutos".

Localizado no presente, o seu centro é uma reflexão sobre a comunicação, os meios de suporte privilegiados (com destaque para a internet) e as relações que daí decorrem. A tendência, defende, é a reprodução, sem mais.

Dessa interessantíssima entrevista destaco vários passos.
"Acabei reconhecendo em pessoas que abomino, em discursos que odeio, coisas com as quais concordo. Acontece ouvir alguém, estar de acordo e acompanhar o discurso, acreditando que é bom, e de repente dar-me conta de que quem falava era um representante da extrema-direita, por exemplo. Essa mobilidade dos discursos, o terem saído do lugar de conforto no qual eu podia reconhecê-los, inquieta-me. O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual" 
"Questiona-se a autoridade do jornal porque tem na origem um interesse económico preciso. A ideia é que a Internet pulveriza essa autoridade dos media, o que parece bom, dá um sentido de democratização à informação, mas perdem-se noções de hierarquia, padrões, modelos, e é difícil estabelecer qualquer tipo de diálogo se não houver um parâmetro… Esses parâmetros perderam-se na barafunda de opiniões e de informações e acreditamos em absolutamente tudo o que se publica na Internet. Tudo o que surge na Internet vira facto. Talvez isso estivesse nos media, mas lá há mediação, uma auto-censura que não permitia reproduzir qualquer coisa. Isso põe muitas coisas em causa, sobretudo a ideia da verdade, é como se fosse uma segunda natureza.  
"Acredito que, de alguma forma, se pode chegar à verdade por meio da literatura e da ficção literária. Acho que a verdade só pode ser alcançada de uma maneira indirecta, transversal, mediada, e vejo a literatura como uma forma de reflexão muito sofisticada. Uma forma não só de retratar a realidade, ou de ser reflexo da realidade, mas também de aceder à verdade. Com a Internet isso foi pelo ar, não há ironia na Internet. É sempre um discurso de primeiro grau. Cria leitores iletrados para a literatura, para a ironia, para a reflexão. 
"(A Internet muda o leitor?) Muda, mas para um leitor mais burro e mais violento. É o mesmo leitor que não suporta ver uma caricatura do profeta Maomé, que a ficção possa ser uma reflexão sobre a realidade e não a própria realidade. Acho assustador esse leitor que a Internet incentiva, sem instrumentos para entender a ironia e o distanciamento. A ideia de romance que defendo é uma resistência a essa facilidade, a essa naturalidade da Internet. O romance, como o entendo, é um instrumento de guerra contra a percepção naturalista do texto em geral, como se a letra fosse necessariamente a verdade e não uma reflexão sobre o mundo."

1 comentário:

  1. Deste, interessante e oportuno post, transcrevo:

    "Acabei reconhecendo em pessoas que abomino, em discursos que odeio, coisas com as quais concordo. Acontece ouvir alguém, estar de acordo e acompanhar o discurso, acreditando que é bom, e de repente dar-me conta de que quem falava era um representante da extrema-direita, por exemplo. Essa mobilidade dos discursos, o terem saído do lugar de conforto no qual eu podia reconhecê-los, inquieta-me. O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual" .

    Dessa transcrição, relevo sua parte o último período - “O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual” –, por julgar poder encontrar , semelhança com o meu estado de espírito denunciado numa resposta a um comentário que foi feito ao meu post, aqui publicado no passado dia 10 deste mês, titulado: “O debate televisivo entre Passos Coelho e António Costa”

    Nele escrevi:

    «Por vezes, falando com amigos da esquerda, chegamos a rirmo-nos de eu defender princípios da dita esquerda e eles concordarem com princípios meus de direita. Ou seja, o estado calamitoso a que chegou a Política em que, segundo Kruschev, “os políticos em qualquer parte são os mesmos. Eles prometem construir pontes, mesmo quando não há rios”!»

    Apesar de tudo, sei como me "posicionar politicamente nesse mundo actual". Isto porque o mal, a maior parte das vezes, não está na canção da Direita mas em uns tantos maus intérpretes.

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