quinta-feira, 27 de agosto de 2015

GEOMONUMENTO DA PRAIA DO TELHEIRO (VILA DO BISPO, ALGARVE)

Texto do Professor Galopim de Carvalho na continuação de post anterior.


À semelhança de qualquer objecto, um um seixo que se apanha na praia. uma simples pedra da calçada, um afloramento rochoso ou uma imensa montanha, são ocorrências geológicas e, ao mesmo tempo, documentos naturais que os geólogos aprenderam a ler no pormenor, mas que o cidadão comum, por triste deficiência do nosso sistema de ensino, olha "como boi para palácio" ou, nem sequer, olha. Isto porque a escola não lhe soube despertar o interesse.

Acontece que muitos destes documentos encerram significado e têm grandiosidade que nos levam a considerá-los como monumentos, palavra construída a partir do verbo latino “monere”, que significa, não só fazer recordar ou não deixar esquecer, mas também, “instruir”. Foi nesta óptica, que surgiu, entre nós, há 22 anos, a figura oficial “Monumento Natural” (Decreto-Lei 19/93, de 23 de Janeiro) uma “ocorrência natural contendo um ou mais aspectos que, pela sua singularidade, raridade ou representatividade em termos ecológicos, estéticos, científicos e culturais, exigem a sua conservação e a manutenção da sua integridade”.

A competência para proceder a esta classificação incumbe ao Instituto da Conservação da Natureza (agora ilogicamente acrescentado “e das Florestas”, como se estas não fossem parte importante da Natureza), como tenho dito e escrito muitas vezes, tem desempenhado bem a sua competência na defesa da biodiversidade, sendo insignificante a sua vocação na defesa e valorização do nosso património Geológico. Não fora a obra, já significativa, realizada ao nível da Universidades, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, do grupo ProGEO-Portugal e de mais uns tantos cidadãos empenhados, o nosso desconhecimento nesta área era total e alguns destes monumentos já tinham sido arrasados pelo “progresso”.

Em Portugal estão classificados os Monumentos Naturais de Cabo Mondego, das Portas de Ródão, no Geoparque Naturtejo, e mais cinco relacionados com jazidas de pegadas de dinossauros: Pedreira do Galinha, no antigo Parque Natural das serras de Aire e Candeeiros, Carenque, na região de Sintra, e Pedreira do Avelino, Pedra da Mua e Lagosteiros, no antigo Parque Natural da Arrábida.

Em 1999, numa edição da Liga de Amigos de Conímbriga, inclui o termo Geomonumento no discurso da geoconservação, por adaptação do conceito oficial de Monumento Natural às ocorrências especificamente de natureza geológica. Todas elas geossítios só algumas, porém, se revestem da monumentalidade implícita do referido neologismo.

Mais do que um simples geossítio, insisto em dizer que o Geomonumento da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) é muito mais importante do que o internacionalmente conhecido, de Siccar Point, na Escócia, descrito em 1788, pelo “pai da moderna Geologia” e que figura em tudo o que é manual de geologia, por esse mundo fora, como exemplificação de uma discordância angular.

Por todas as razões urge defendê-lo do camartelo do progresso, que o desinteresse, quase sempre, fruto da ignorância, de quem decide, põe em risco.

Em traços muitíssimo gerais, o Geomonumento da Praia do Telheiro conta a seguinte história:
Houve aqui, há centenas de milhões de anos, um muito antigo oceano entre dois continentes em aproximação, que acabou por se fechar na sequência da colisão que os uniu, dando origem à formação de uma grande cadeia de montanhas, parte dela estendendo-se pelo que é hoje o sul da Europa, incluindo a Península Ibérica. Acabada de elevar há cerca de 280 milhões de anos, foi em grade parte arrasada pela erosão, num processo que terminou criando planuras no interior, relativamente árido, de um vastíssimo continente.

Foi sobre uma destas planuras que, há uns 210 a 220 milhões de anos se depositaram areias avermelhadas (por impregnação de óxido de ferro). As dezenas de milhões de anos, que levaram à erosão da citada cadeia de montanhas, estão representadas no dito geomonumento pela superfície de descontinuidade que separa as camadas (xistos e grauvaques) enrugadas da citada montanha, das camadas de arenito (areia consolidada) vermelho, que se lhes sobrepõem. Tal superfície de descontinuidade é, pois, uma discordância que adjectivamos de angular, uma vez que não há paralelismo entre as camada das duas entidades.

Nem toda a gente tem ideia de como nasce uma montanha. Trata-se, porém, de um processo muito simples de explicar. Vamos imaginar uma série de lençóis, mantas de diversas qualidades e espessuras, cobertores um édredon e o mais que se quiser, tudo bem esticadinho e empilhado em cima da cama. Imaginemos que este empilhamento representa a espessura de camadas de sedimentos depositados no fundo de um oceano, ao longo de muitos e muitos milhões de anos, como é, por exemplo, o que está a acontecer no Oceano Atlântico, aqui ao nosso lado. Vamos agora abrir bem os braços e agarrar esta pilha de roupa, uma mão de cada lado, e apertá-la para o meio da cama. Fica tudo amarrotado, com dobras para cima e outras para baixo. Com a força dos nossos braços, em metro e meio de extensão desta roupa e em um ou dois segundos, fazemos, assim, o que a Terra faz, com todas as forças do enorme brasido do seu interior, em milhares de quilómetros de fundo de um oceano e ao fim de muitos milhões de anos. “Então uma montanha são rochas dobradas”.

Podemos dizer. Sim, mas é mais do que isso. A porção das dobras que fica para cima representa a parte de uma cadeia montanhosa que se eleva à superfície do terreno, como está a acontecer nos Alpes, por exemplo. A porção dobrada que fica para baixo representa a parte que se afunda na crosta terrestre, como se fossem as suas raízes. Acontece ainda que, em virtude das elevadas pressões e temperaturas a que passam a estar sujeitas, as rochas sedimentares que assim se afundam na crosta, se transformam em rochas metamórficas.

Na parte mais profunda destas raízes, com temperaturas na ordem dos 800 a 900 oC, as rochas começam a fundir, gerando um magma que, arrefecendo ao longo dos milhões e milhões de anos, se transforma em rochas magmáticas como os granitos e outras menos conhecidas.
Uma boa descrição do significado geológico desta magnífica ocorrência, feita por profissionais para profissionais, pode ser lida aqui.

1 comentário:

  1. Uma pedrada no charco27 de agosto de 2015 às 14:30

    Poema geológico

    “Então uma montanha são rochas dobradas”,
    Ajoelhadas à força de um céu escultor,
    Redimidas pela erosão, cinzeladas
    de descomunal beleza e esplendor.

    Dobradas, as rochas são sinos de tempo
    Tocadas pelo vento, chuva e calor...
    Da natureza, cada montanha é templo
    Digna de compaixão, respeito e louvor!

    Porque em si, rochas planas ou dobradas,
    Formatos de fácil ou difícil conclusão,
    Pequenas pedras de grandes nadas,

    Somos então montanhas do sagrado
    Cada qual esculpida pela invisível mão
    De Deus empedernido ou acaso deificado.

    FMC

    Cumprimentos, Professor Galopim.

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