domingo, 9 de agosto de 2015

A SOCIEDADE E A UNIVERSIDADE

“A ideia de democratizar o ensino superior pela via da banalização do acesso e pela crescente degradação da sua qualidade não é somente um crime contra a própria ideia de ensino superior, é também politicamente pouco honesta.”
Vital Moreira

No post, publicado neste blogue no passado dia 8 deste mês, da autoria da Professora Helena Damião, intitulado “Convicções  que deram origem e identidade à Universidade”, teve esta ilustre professora universitária a gentileza de se referir à minha modesta contribuição para a polémica instalada sobre  os dois subsistemas de ensino superior: universitário e politécnico.

Cumpro, portanto, com grato prazer, o agradecimento devido a essa referência que apenas se justifica pelo pertinácia (outros a apelidarão, porventura, de teimosia) com que me tenho debruçado sobre uma temática longa e antiga que, todavia, parece ainda ir no adro da igreja.

Mas, para além do cumprimento de um dever que a gratidão impunha, devo agradecer-lhe a referência que faz a um estudo, da autoria de uma outra professora universitária espanhola, de seu nome Maria Garcia Amiburu, com o sugestivo título (eu diria mesmo provocatório!): “Tiene futuro la universidade?”
Como é óbvio, sofregamente o li, e, como tal, receoso em  dar razão a Eça quando disse que “em Portugal não se lê, folheia-se”, ficando, contudo, a promessa de vir a dar-lhe a atenção de um atento médico legista que tudo disseca.

Entretanto, seja-me permitido umas tantas achegas que me levam a pensar que bem mais venturoso seria este país, se não afogado em vagas de textos de natureza jurídica que se instalaram  no ensino superior português sem  o tempo necessário  para comprovar a respectiva  eficácia  como quem ata e põe ao fumeiro, encarregando o tempo que tudo cura que se compadeça de um “corpus” universitário acossado por um ensino politécnico que espera encontrar a palavra “abre-te Sésamo" da respectiva valorização  como que a modos de quem pode "agarrar, da noite para o dia, a sociedade, torcer-lhe o pescoço e fazer uma nova", em crítica de Fernand  Brandel.Ou seja, começa a ser deveras preocupante que os politécnicos pretendam ser chamados de universidades por  dizerem fazer o mesmo que elas como se entre o dizer e o fazer não existisse uma diferença abissal. Na vox populi, ” presunção ou água benta cada um toma a que quer”!

Talvez porque, como escreveu Maria Filomena Mónica, “devido à irresponsabilidade dos governos, ao populismo do parlamentares, à cobardia dos docentes, a universidade degradou-se para além do razoável” (Público, 08/12/2003), escrevi:
"Assiste-se a um certo desencanto pela sombra tutelar da universidade, a ponto de se ouvir que o Instituto Superior Técnico (IST) tem manifestado vontade de se tornar numa escola independente da Universidade Técnica de Lisboa. Pensamos que essa intenção se manifesta nos anúncios avisos que faz publicar na imprensa apresentando-se como IST, tout court. Em contrapartida, todos os outros institutos superiores ou faculdades desta universidade, antecedem à respectiva designação o nome da  instituição universitária a que pertencem” (“Diário de Coimbra”, 13/11/2004).
 Reforço! Bem mais venturoso seria o ensino superior deste extremo ocidental europeu se  os verdadeiros responsáveis governamentais e das bancadas de S. Bento  por este statu quo dedicassem o tempo e a atenção necessários  que se não compadecesse com interpretações de legislação  dúbia referente aos ensinos universitário e politécnico em que os seus autores parecem não terem pensado o que escreveram ou escreveram o que não pensaram. E desta forma, deixando ao livre arbítrio de uma das partes envolvidas neste lamentável estado de coisas serem senhores do seu destino, retirando à outra parte um destino alcançado com "sangue, suor e lágrimas", através da criação e funcionamento de cursos politécnicos a simples pedido dos respectivos interessados, por vezes, em proveito próprio de uma carreira docente, ou exigência das populações de grandes urbes, pequenas cidades  ou simples  burgos  com o poder reivindicativo  de serem berço de nascimentos de personagens ilustres que tudo querem e tudo podem. Até uma forma de fazer reviver "Novas Oportunidades", para uns tantos eleitos,  antecederem, enquanto o diabo esfrega um olho, o seu nome com o ouropel de "doutor" ou "engenheiro"!

E esta situação mais se agudiza, e torna em escândalo público, se for tomada em linha de conta o facto de o ensino politécnico ter sido criado para ser implantado em regiões ou cidades carenciadas de  um ensino superior capaz de outorgar simples bacharelatos, como se fosse esse o caso de Coimbra, Lisboa e Porto, cidades universitárias, onde assentaram arraiais, fincaram os pés no chão, e não cessam de novas exigências.

Et pour cause, vejo com apreensão que  o ensino superior se possa tornar numa zurrapa em que a água  cristalina de um dos subsistemas se misture com o vinho de boa colheita do outro subsistema, em vez de ambos  dignificarem  a cepa da sua colheita ou a limpidez cristalina da referida fonte. Podendo, com isso, serem abalados seriamente os caboucos multisseculares culturais, humanísticos e científicos  da Universidade Portuguesa  transformado  o ensino superior politécnico num ensino universitário de segunda classe(não entrando  aqui  em conta com a maioria das universidades privadas de mais do que duvidosa qualidade, como é óbvio) ou num caricato travesti fora dos festejos carnavalescos.

Embora, merecedora das inquietações ou mesmo críticas da Professora Maria Garcia Amiburu, comungo do seu final esperançoso: “”La institución universitaria tiene mucho futuro, porque la sociedad sigue necesitanto  de ella!”

2 comentários:

  1. A silly season em todo o seu esplendor...

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    1. Apesar do estilo telegráfico do seu comentário, numa época de escassez de notícias, não posso deixar de me congratular com ele, porque , distraindo-o, porventura, de um merecido período de repouso se deu ao trabalho em ler o meu "post".

      Aliás, as grandes tiradas das figuras históricas da humanidade, como César, por exemplo, ficam na memória pelo impacto produzido em meia dúzia de palavras: "Veni, vidi, vici". Ou seja, a sua tirada apenas peca por ter sido escrita em inglês para lhe dar um ar de poliglota, porque no fundo, atrevo-me a pensar, ter sido essa a mensagem que quis passar: CHEGUEI, VI E VENCI!

      Se for esse o caso que o retirou da moleza estival, e não apenas uma previsível suposição minha embora as suas palavras por si falem: Votos de uma boa continuação de férias!

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