quarta-feira, 22 de julho de 2015

DESONESTIDADE


Já nada me admira neste país actualmente sem rumo. Ouço na rádio o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, num auto-elogio próprio da campanha eleitoral a gabar a sua política de ciência. Referiu até num hipotético acréscimo de meios que teria havido no seu mandato.

Já sabíamos que muitos políticos mentem e que Crato passou em quatro anos de um prestigiado cientista e divulgador de ciência a um vulgar político dos muitos que há por aí a dizer coisas. De facto, como tem sido amplamente demonstrado, ele deixa a ciência muito pior do que a recebeu das mãos de Mariano Gago.

Abateu centros de investigação e cortou bolsas, após processos de "avaliação" indignos e por isso largamente contestados (em várias instâncias, incluindo os tribunais; o processo está longe de ter terminado). A actuação do ministério não é apenas de desonestidade intelectual mas também de desonestidade material.  As leis da República foram atropeladas para que só um certo grupo, de tamanho definido à partida por um viés inexplicado e inexplicável, pudesse ser mantido. Chegou-se a tirar meios públicos do sector público para os dar ao sector privado.

As palavras do ministro de uma coligação avessa à ciência, ditas aliás num atropelo próprio da demagogia, ficam apenas como uma tentativa falhada de justificar o  injustificável.

Em breve Nuno Crato passará à história da educação e ciência nacional, ocupando um lugar nos antípodas da proeminência. Por acção e inacção Crato conseguiu a proeza de ser um mau ministro da educação e um péssimo ministro da ciência, o pior de sempre.

6 comentários:

  1. Nuno Crato é Tolstoi! Um pólo oposto a Mariano Gago e Carlos Fíolhais.

    “Mas é lá possível que haja pessoas tresloucadas para contestar a utilidade das ciências e das artes? Há operários manuais, operários agrícolas. Nunca ninguém teve a ideia de lhes contestar a utilidade – e jamais passará pela cabeça de um operário provar a utilidade do seu trabalho. Ele produz; a sua produção é necessária e um bem para os outros. Todos lucram com ela e ninguém duvida da sua utilidade. E, ainda menos, ninguém a prova.

    Os operários das artes e das ciências estão nas mesmas condições. Como é possível que haja pessoas que se esforçam por lhes provar a sua utilidade?

    A razão disto está no facto de que os verdadeiros operários das ciências e das artes não se atribuem nenhuns direitos; dão o produto do seu trabalho, esse produto é útil, e não necessitam direitos e provas dos seus direitos. Mas a grande maioria daqueles que se dizem sábios e artistas sabe muitíssimo bem que aquilo que produzem não vale o que consomem; e é por isso mesmo que desenvolvem tantos esforços, à semelhança dos padres de todos os tempos, para provar que a sua actividade é indispensável ao bem da humanidade.

    A verdadeira ciência e a verdadeira arte existiram sempre e hão-de sempre existir como todos os outros modos da actividade humana; é pois impossível e inútil contestá-las ou prová-las.

    O falso papel que, na sociedade, desempenham as ciências e as artes provém do facto de que as pessoas que se dizem civilizadas são uma casta privilegiada como os sacerdotes, tendo à testa os sábios e os artistas. E essa casta, tem todos os defeitos de todas as castas. Tem o defeito de degradar e de rebaixar o principio em virtude do qual se organiza. Em vez de uma verdadeira religião, uma falsa religião. Em vez de uma verdadeira ciência, uma falsa ciência. O mesmo se passa com a arte. - Ela tem o defeito de pesar nas massas e, ainda por cima, de privá-las do que se pretende propagar. E o maior defeito é o da contradição consoladora do principio que elas professam com a sua maneira de actuar.”
    [Tolstoi – revista Vértice, 1960]

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  2. "um mau ministro da educação e um péssimo ministro da ciência, o pior de sempre."

    Em que país uma Educadora de Infância (com habilitações para o pré-escolar e 1.º ciclo do ensino básico)

    exerce funções educativas no 3.º ciclo e ensino secundário e é avaliadora do desempenho docente dos

    professores de áreas curriculares do 3.º ciclo e ensino secundário (Português, Matemática, Geografia,

    Inglês, Biologia, Física e Química, Geometria Descritiva, História da Arte, etc., etc.)?


    Que credibilidade transmite o Ministério da Educação e Ciência acerca das qualificações do sistema de

    ensino em Portugal?


    Situações destas geram desconfiança no próprio sistema, desqualificam algumas das maiores e mais

    prestigiadas instituições de ensino superior universitário em Portugal, tais como a Universidade de

    Lisboa e a Universidade do Porto, entre outras.


    Numa escola de ensino secundário (com 3.º ciclo e ensino secundário) está uma educadora de infância (com

    bacharelato em Educação de Infância e um DESE para o pré-escolar e 1.º ciclo do ensino básico) que é

    avaliadora do desempenho docente dos professores de todas as áreas curriculares (Português, Matemática,

    Inglês, Geometria Descritiva, História da Arte, etc., etc.).

    Dois dos docentes (com mais de 25 anos de serviço) avaliados pela Sra. Educadora de Infância têm

    doutoramento (anterior a Bolonha) na área científica de docência, pela Universidade de Lisboa e pela

    Universidade do Porto.

    E o Sr. Ministro da Educação já sabe há bastante tempo mas nada faz contra esta perversão científica e

    pedagógica sem qualquer enquadramento legal. PORQUÊ?

    E o Conselho Nacional da Educação já sabe.
    E a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares já sabe.
    E a Direcção-Geral de Administração Escolar já sabe.
    E a Inpecção-Geral de Educação e Ciência já sabe.
    E o Conselho Científico e Pedagógico da Formação Contínua já sabe.

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  3. A Sra. Educadora de Infância não tem habilitações para avaliar professores do 3.º ciclo e ensino secundário
    https://twitter.com/jfilipev/status/623988815082967040

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  4. Assim como os professores de 3º ciclo e secundário não têm habilitações para avaliar educadores de infância e professores do 1º CEB.

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    1. Claro! Nem sequer para exercício de funções educativas no pré-escolar nem para leccionar no 1.º ciclo do ensino básico e alguns nem para leccionar no 2.º ciclo do ensino básico.

      https://twitter.com/apaulagils

      https://twitter.com/apaulagils

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  5. Veja-se a notícia que saiu recentemente sobre a avaliação da FCT:

    http://www.sapo.pt/noticias/comissao-que-avaliou-fct-defende-lancamento_55b69f175a0c188f1420aefa

    De acordo com a notícia, a comissão foi nomeada pelo Governo... isso diz tudo sobre a sua independência. Mas o mais curioso é que nada é dito sobre a avaliação das unidades de investigação...

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