quarta-feira, 8 de julho de 2015

ALGUMAS ADENDAS AO MEU POST: "GRAUS ACADÉMICOS E TÍTULOS DE NOBREZA"


“A vida é um pouco mais complexa do que se diz, e também as circunstâncias. Há uma necessidade premente de mostrar essa complexidade” (Marcel Proust).
Escreveu Fernando Caldeira: “Como se vê, nunca houve nenhum “caminho curto” (facilitismo) para que as pessoas oriundas do antigo ensino técnico pudessem obter o grau de bacharel ou de licenciado. Esses facilitismos aconteceram sim noutros cursos, após a extinção das escolas técnicas, e, mais tarde, graças ao processo de Bolonha”.
Embora o seu comentário não deixe dúvidas sobre a intenção que presidiu ao parágrafo supracitado (por ter escrito, “como se vê” e não como vê, se se referisse à minha pessoa), a minha resposta começa por um espécie de auto-de-fé para que não seja queimado na fogueira de uma ingratidão que não mora em mim ou um elitismo bacoco que não perfilho: da minha longa  e variada docência (cerca de 40 anos) nos ensinos técnico, liceal, médio e nas universidades do Porto e Coimbra, exalto  o enorme respeito que sempre me mereceu o primeiro destes ensinos de que guardo saudosa recordação pelo  testemunho constante e amigo de antigos alunos que  viram em mim qualidades só justificadas porque ampliadas pela lupa de uma amizade que muito prezo e tudo tentei fazer por merecer.
Reportando-me ao ensino médio profissional (essencialmente, institutos industriais por serem do meu melhor conhecimento) gostaria de me reportar ao difícil e espinhoso caminho que  os seus alunos tiveram que percorrer para a  entrada em cursos de engenharia universitários específicos cujo acesso lhes era facultado. Enquanto os alunos oriundos dos liceus ingressavam nesses cursos universitários depois de 11 anos de escolaridade anterior (4  anos do antigo ensino primário e 7 anos de liceu) os alunos do ensino técnico industrial, para o respectivo ingresso perfaziam 13 anos (4  do antigo ensino primário, 5 anos do curso geral industrial, 2 anos de curso complementar de acesso a antigos institutos industriais e 2 primeiros anos dos antigos Institutos Industriais).
Mas porque pouco ou nada valem palavras escritas “de pena ao vento”, como diria Eça, arrolo em minha defesa o que escrevi  algures (e de que posso fazer prova) sobre o respeito que mereceu à própria  e exigente Ordem dos Engenheiros o curso, salvo erro, de Química,  do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) - que sucedeu ao extinto Instituto Industrial - com acesso reconhecido aos seus licenciados e vedados a determinados cursos universitários de Engenharia da Universidade da Beira Interior. Por outro lado, numa altura em que alunos do ensino politécnico, em desrespeito pela dignidade dos cursos que frequentam, se referem às suas escolas, por vezes, como faculdades nunca um aluno, que seja do meu conhecimento, das escolas industriais se “arvorou” em aluno liceal (colho exemplo na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque da antiga Lourenço Marques). Tinham eles um esprit de corps, aquilo a que na linguagem desportiva se dá o nome de “amor à camisola”, que não se vê hoje nos alunos do politécnico em que, para eles, e seus docentes, por vezes, a dignificação dos cursos respectivos passa pela palavra mágica “universidade” como se o hábito, por si só, fizesse o monge (mas isto são contos largos para outra ocasião e em outro local).
Por acreditar num ensino técnico devidamente dignificado me fiz seu defensor, por várias vezes, com inúmeros posts publicados aqui no blogue De Rerum Natura e artigos de opinião nos media. Por ser o mais recente (ou dos mais recentes), destaco  excertos de um meu artigo de opinião (com ligeiríssimas adaptações que não lhe alteram  o sentido) com o título “Medina Carreira e o antigo ensino técnico” (Público, 15/05/2014). Nele escrevi:
“(…) Mas ouçamos, sobre esta temática, a voz de Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard e festejado autor da Teoria das Inteligências Múltiplas:
“Chegou a hora de alargar a nossa noção do espectro dos talentos. A contribuição mais importante que a escola pode fazer para o desenvolvimento de uma criança, é ajudar a encaminhá-la para a área onde os seus talentos lhe sejam mais úteis, onde se sinta satisfeita e competente. É um objectivo que perdemos completamente de vista. Em vez disso, submetemos toda a gente a uma educação em que, se somos bem sucedidos, a pessoa fica preparada para ser professor universitário. E, ao longo do percurso, avaliamos toda a gente de acordo com esse estreito padrão de sucesso. Devíamos passar menos tempo a classificar as crianças e mais tempo a ajudá-las a identificar as suas competências e dons naturais, e a cultivá-los. Há centenas de maneiras de ser bem sucedido e muitas, capacidades que nos ajudarão a lá chegar”.

(…) Sabendo-se que as aprendizagens de determinadas profissões tem um determinado período da vida do aluno  para uma melhor e mais rápida aquisição, não posso deixar de considerar que colocar indivíduos no actual ensino técnico-profissional depois de terem falhado anos consecutivos num ensino direccionado unicamente para o ingresso em escolas de ensino superior desacredita aquele ensino tornando-o numa escolha de último recurso.

(…) Consubstanciam os meus testemunhoso facto de ter iniciado a minha carreira docente de 18 anos na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, da então Lourenço Marques, e ter-me deparado com uma pontinha de orgulho, décadas volvidas, com um site da autoria de seus antigos alunos que homenageiam o respectivo corpo docente pela formação académica recebida e pelo seu não menos importante desenvolvimento como pessoas, em cumprimento do princípio defendido por Albert Einstein: É fundamental que o estudante adquira uma percepção nítida dos valores. Escreveram esses alunos com o fundamento de um dever cumprido e inadiável (que destaco em bold):

“Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca. (...) Ainda hoje, e eu faço notar isso aos meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.

É este ensino técnico,  sem complexos de inferioridade de ser "filho de um Deus menor”, viveiro de profissionais briosos e de homens reconhecidos pelo ensino que receberam e os preparou para o mundo do trabalho, que deve merecer o respeito dos cidadãos e o remorso de políticos que, em nome de uma sociedade sem classes, a transformaram numa sociedade desclassificada académica e profissionalmente.

Só desta forma sairá reforçada uma educação que não tenha como finalidade um descarado facilitismo, ainda que para fins meramente estatísticos, na obtenção de diplomas de ensino superior à Relvas que envergonham as instituições privadas que os outorgaram e desvirtuam os políticos seus possuidores em cargos ministeriais ou “sentados de cócoras nas bancadas de São  Bento”, para fazer uso da mordaz crítica social de Eça de Queiroz”.
Reiterando o meu apreço pelo seu comentário, meu caro Professor Fernando Caldeira,  que me deu ensejo de esclarecer  alguns pontos, porventura,  nebulosos do meu post “Graus académicos e títulos de nobreza” (De Rerum Natura, 06/07/2015), por último, como escreveu o padre António Vieira, “no uso da licença e da liberdade de quem não pede favores senão justiça”, retenho para mim apenas a justiça de ser interpretado por aquilo que escrevi e não por aquilo que possíveis contraditores, porventura, desejassem que eu tivesse escrito ao serviço de desígnios em estabelecer uma polémica com exagero de ataques pessoais e carenciada de argumentos para gáudio de leitores boçais.

Mas se, porventura, a culpa for minha, por eu não fazer uso de uma boa linguagem que, para Franklin  Pierce, “é a própria essência do pensamento”, estou pronto a encostar o peito à barra de um tribunal, de que me faço réu, pedindo  aos meus antigos alunos da “indústria”  que me desculpem o fraco engenho de medíocre defensor público do seu merecido estatuto. O veredicto apenas a eles, e só a eles (passe a redundância), compete!

2 comentários:

  1. Caro Prof. Rui Baptista
    Obrigado por ter respondido ao meu comentário.
    Sempre que posso leio os seus artigos, nomeadamente aqueles em que defende o reconhecimento da qualidade do antigo ensino técnico industrial e partilho a maioria das suas posições sobre o assunto. Mas nem tudo era bom nesse ensino, sei-o por experiência própria.
    Sem querer ser exaustivo, começando pelas coisas positivas, o facto é que, graças a ele, pela primeira vez, uma grande camada da população pôde ver os seus descendentes estudar, ir além do ensino primário, e ter uma perspectiva real de um futuro melhor para eles, apesar dos enormes sacrifícios que isso representava param muitas famílias. Não era, de todo, um ensino de recurso para alunos com fraco aproveitamento ou chumbos sucessivos. Aliás, nessa época, nenhum ensino era para esse “tipo” de alunos.
    Tal como o ensino liceal exigia muito estudo, particularmente nas disciplinas científicas e técnicas, e muito trabalho nas oficinas; tinha como “vantagem” ao fim de apenas cinco anos (9 anos de escolaridade), conceder um diploma profissional, que era o objectivo principal da grande maioria, pois já representava um salto enorme relativamente às habilitações médias do seu meio social.
    No entanto, no respeitante às letras e às humanidades, os alunos saíam do ensino técnico com grandes lacunas. Não se estudavam línguas estrangeiras, nem literatura e, no último ano (9º de escolaridade), já nem havia a disciplina de língua portuguesa. Talvez por isso, alguns professores destas áreas acabavam por não ser muito exigentes: estávamos ali para aprender a trabalhar, não para pensar ou escrever. Para os que prosseguiam os estudos e pretendiam fazer exame de admissão ao Instituto Superior Técnico, por exemplo, além dos dois anos que tinham de fazer no Instituto Industrial, como refere, necessitavam ainda de fazer cadeiras de opção, que não faziam parte do plano normal dos cursos – Filosofia I (Psicologia), Filosofia II e Mineralogia.
    Aproveito para referir ainda um pormenor que não é muito conhecido. Nos cursos industriais, era possível aos bons alunos do 4º ano (8º de escolaridade), “saltar” um ano e passar para o 1º ano da Secção Preparatória (acumulando com algumas disciplinas do ano que não frequentaram, distribuídas pelos dois anos da Secção). Podiam ainda, no final do primeiro ano da Secção, candidatar-se aos exames de admissão aos Institutos Industriais (sujeitando-se a sete exames, na época de Outubro). Era assim legalmente possível reduzir os dois anos de desvantagem relativamente ao ensino liceal. Claro que nessa altura ninguém punha em causa a necessidade dos exames nem de trabalho (estudo) árduo para se concluir qualquer curso. Infelizmente hoje criou-se a ideia, em muitos cursos profissionais, que basta “andar por lá” e “não fazer muitas ondas” para, ao fim de dois ou três anos de frequência, se receber o diploma.
    Saudações cordiais.
    Fernando Caldeira

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    1. Caro Professor Fernando Caldeira

      Muito me honra o facto de, sempre que pode, ler os meus artigos. Aliás, o último dos quais merecedor de um seu comentário que enriqueceu o meu texto com as achegas que trouxe sobre, ao que deduzo, a sua vivência docente no ensino técnico.

      Dele, permito-me concluir que, a exemplo da letra de uma canção de Rui Veloso, são mais os testemunhos que nos unem do que aqueles que nos separam. Da minha docência no ensino técnico na ex-Lourenço Marques (18 saudosos e longos anos) retenho a exigência do ensino do português ministrado por uma exigente professora, de seu nome Emília Madureira. Este facto, leva-me a crer que a forma correcta como escrevem os seus antigos alunos a ela muito se fica a dever, como, aliás, constato em comentários que eles fazem a posts meus e outros textos que me escrevem.

      Não podia deixar de terminar este meu comentário sem enaltecer os seus esclarecimentos sobre os programas do ensino industrial, como diz, relativamente ao ensino liceal, de maior natureza técnico-científica e menor suporte humanístico.

      Seja como for, por uma causa me continuo a bater sem desfalecimentos: a têmpera de carácter de quem escreveu este parágrafo laudatório do seu corpo docente , subscrito por outros colegas seus:

      “Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca. (...) Ainda hoje, e eu faço notar isso aos meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.
      Retribuo, com muito gosto, os cordiais cumprimentos enviados.
      Rui Baptista

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