terça-feira, 7 de abril de 2015

Sim, é pura falta de vergonha...

Se há coisa que não suporto é que se coloque a dignidade profissional das pessoas em causa, só para aparecer nos jornais. Este é um caso de tal modo chocante que resolvi dedicar a ele uma hora da minha vida.

Alguma polémica parece ter surgido nos últimos tempos sobre os números do desemprego e uma discrepância entre aquilo que o INE publica e aquilo que o IEFP publica. Esta é uma história de anos, os sites do IEFP e do INE até têm esclarecimentos destacados sobre as diferenças e qualquer pessoa que não queira por em causa o profissionalismo alheio, pode verificar o que quiser em 15 minutos. Mas gente como o Prof. Louçã entende colocar nos jornais que a diferença é uma pouca vergonha, insinua que se deve ao facto de serem organismos chefiados por gente nomeada pela "coligação" e outros insultos à dignidade profissional alheia e à independência dos profissionais que se dedicam à produção destes números. O gráfico abaixo foi dado como demonstrativo de que os números são espantosos ao ponto de não se verificar diferenças grandes antes de 2013.




Pois, custava muito pouco. Basta abrir um dos relatórios do IEFP (eu nunca tinha aberto um) e procurar a rubrica "pedidos de emprego". Abri um perfeitamente ao calhas, saiu-me um de 2008 , e, sem dificuldade verifiquei os seguintes números: Pedidos de emprego: 486565 dos quais 408598 de desemprego registado, 41580 de empregados, 23783 de ocupados, 12605 de indisponíveis temporariamente. Perdi 2 minutos a chegar a esta informação. E perceber que as métricas são diferentes até na sua natureza.

Mais tempo, uns 20 minutos, levei a fazer outra análise. Eu, por razões profissionais, em tempos tive que lidar com as diferenças entre o desemprego do INE e o desemprego do IEFP. Na altura lembro-me de ter optado pelo INE por ser um organismo independente do governo. E fui ver o histórico entre o desemprego registado pelo INE e o IEFP (fui ao Pordata ver este que o do IEFP ia demorar mais de 20 min), coisa que se sabe que existe e que é esclarecida pelos dois organismos há anos e anos. O resultado é o que se mostra no gráfico abaixo. Como os dados do INE e do IEFP têm periodicidade diferentes, o gráfico usa as médias anuais, o que dá jeito porque é o que o Pordata tem:


Na realidade, a coincidência não é a regra, é a excepção. Sem grande esforço dá para suspeitar que o estudo fez "cherry picking" dos dados que apresentou para ter uma boa história para contar.  Perdia-se mais 20 minutos e chegava-se à conclusão que a afirmação do Prof. Louçã é mentira. Não há qualquer parecença entre as duas métricas porque elas são diferentes. São assumidamente diferentes, há páginas de esclarecimentos nas duas instituições a dizer que são diferentes e porquê.

Os profissionais que trabalham no INE e no IEFP a produzir estes números não merecem ser ofendidos da forma como estão a ser por pessoas que querem aparecer no jornal. Mas numa coisa acho que podemos estar todos de acordo. É tudo uma questão falta de vergonha.
 
 PS: Não tenho interesses nem no IEFP, nem no INE nem em nenhum organismo do estado, tirando ser colaborador não remunerado do Centro de Física Teórica e Computacional da Universidade de Lisboa.

8 comentários:

  1. Estou na dúvida se percebeu o artigo do Louçã ou se percebe realmente alguma coisa daquilo que fala. O ponto é:por algum motivo os pedidos de emprego no IEFP e os desempregados registados pelo INE eram idênticos até 2013 e depois deixaram de o ser. E eram idênticos porque embora sejam métricas muito diferentes, tratam do mesmo assunto, tanto que o contato com o IEFP é uma das diligências que contam para um individuo ser considerado desempregado e não inativo. A discrepância aponta para um crescimento do número de inativos, sabendo qualquer pessoa que os inativos desencorajados ou os inativos disponíveis são categorias claramente duvidosas.

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    1. Não. O apuramento do desemprego pelo INE, que é feito de acordo com o inquérito para o emprego, uma sondagem gigantesca. O IEFP regista os pedidos das pessoas de emprego para efeitos de subsídio, onde se incluem pessoas que estão empregadas de facto e esses que podem ser duvidosos mas são os critérios que existem desde sempre e são comuns com os demais membros do eurostat, creio.
      As diferenças estão explicadas nos sites de ambas as instituições, esta discussão existe há décadas e não entendo como se pode ser professor de Economia e ainda não ter batido de frente com isto.

      O ponto do Louçã é pateta. Os dados eram idênticos por acaso. Basta ver desde 1999 (leu alguma coisa do que escrevi???) e vê-se que só por acaso foram parecidos em 2011 e 2012. Até podia ter chegado à conclusão que a pluviosidade também era parecida em 2013...

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  2. Ou seja, segundo os dados que apurou, havia proximidade entre 2006 e 2011...e a partir daí os valores "estranhamente" começaram a divergir. Curiosamente, isto coincide com dois ciclos governativos. De facto, é preciso ter vergonha!

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    1. Portanto, o seu ponto, como o do Louçã, é que os institutos públicos são povoados de gente manhosa que fabrica os dados de acordo com os ciclos políticos. Parece-me uma hipótese razoável... Porque é que não lhes vai dizer isso na cara?

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    2. Não. O meu ponto é aquele que mencionei e os dados por si apresentados justificam. Aliás, é preciso ser-se um pouco infantil (ou indecorosamente falacioso) para saltar logo para essa coisa dos "institutos públicos são povoados de gente manhosa que fabrica os dados de acordo com os ciclos políticos". Até parece que não sabe nada de estatística (embora viva disso). É preciso ter vergonha.

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    3. Pois...mas ao contrário do João Pires, eu não afirmo que "institutos públicos são povoados de gente manhosa que fabrica os dados de acordo com os ciclos políticos". Digo - e nem sequer tentou contra-argumentar - que: "segundo os dados que apurou, havia proximidade entre 2006 e 2011...e a partir daí os valores "estranhamente" começaram a divergir. Curiosamente, isto coincide com dois ciclos governativos."

      A diferença nem sequer chega a ser subtil...

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  3. Sou tentado a "acreditar" no pressuposto de Louçã quando diz que os números são influenciado pelo governo.
    Mesmo que os profissionais da instituição sejam honestos pode ser adotado "politicamente" um método que favoreça o resultado que o decisor pretende.
    O que me surpreende é ser o Dr.Louça a dizer isto. Parece que lá no seu intimo sabe que qualquer coisa que dependa do "governo" será manipulado por este. Ou seja surpreende-me que o Dr. Louça pense como eu, que onde politico mete a mão temos tudo estragado.
    Será que ainda veremos o Dr. Louça a pedir que estes números deviam ser produzidor por empresas privadas ?

    cumps

    Rui Silva

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