quarta-feira, 8 de abril de 2015

“JE SUIS GARISSA”

Texto que nos foi enviado pela leitora Dulce Marques da Silva, professora de Filosofia, e que o De Rerum Natura muito agradece.


A 7 de janeiro do corrente ano, um ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, provocou 12 vítimas mortais e fez a Europa revoltar-se contra a violação de direitos humanos elementares: o direito à liberdade de expressão e o direito à vida.

A frase emblemática “JE SUIS CHARLIE”, configurou a condenação colectiva daquilo que adjectivámos como barbárie, denotando uma força conjunta na luta contra todas as suas formas. Os políticos mostraram-se unidos no repúdio ao que, muito correctamente, se considerou um atentado criminoso.


Na altura, congratulei-me pelo facto de se fazerem ouvir milhões de vozes em defesa de valores universais, já que se não estivesse subjacente a convicção de que eles existem, essas vozes não fariam sentido, perderiam qualquer legitimidade.


Mas, identificando-me com Singer (2008, p.123), tenho agora de afirmar, com veemência e indignação, que se aceitamos a “imparcialidade, universalizabilidade, igualdade ou outra coisa do género, não podemos discriminar desfavoravelmente uma pessoa pela razão de ela estar longe de nós (ou de nós estarmos longe dela)”.



Estudantes abatidos em Grassisa (imagem retirada daqui)
Servem as palavras deste filósofo para dizer que me enganei no juízo que fiz ainda há tão pouco tempo: afinal, os padrões morais do Ocidente são mais superficiais e limitados do que eu, de modo optimista, supus. Chego a esta deprimente conclusão ao perceber a indiferença com que, no dia 2 do corrente mês, encarámos o hediondo massacre de 148 jovens, estudantes de uma universidade do "longínquo" Quénia.

Não vi em nenhuma cidade, de nenhum país europeu, qualquer manifestação, mesmo pequena, com representantes políticos, de braço dado, à frente, a marcar o ritmo da marcha contra a mesma barbárie que agora assolou o Quénia. Não vi ninguém empunhando cartazes com a frase “JE SUIS GARISSA".


Lamentavelmente, digo que temos por mais importantes 12 vidas na Europa do que 148 em África!


A nossa caminhada rumo à efectiva defesa dos valores universais é mais longa do que eu pensava.



Dulce Marques da Silva

Referência: Singer, P. (2008). Escritos sobre uma vida ética. Lisboa: Dom Quixote

5 comentários:

  1. Também me choca a indiferença pelo sofrimento dos que estão longe de nós!
    vidademulheraos40.blogspot.com.

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  2. A humanidade é cheia de contradições. E nesta "aldeia global" em que vivemos continuam a existir os "privilegiados" e os "desfavorecidos", aqueles a quem choca mais uma pequena dor de cabeça de um vizinho que o massacre de tantos seres humanos mais "distantes". É a subjectividade do "perto" e do "longe" que nenhuma tecnologia aproxima porque essa diferença está no íntimo de cada um e não nos mais sofisticados meios de comunicação.

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  3. Suponho que o problema não é estarem longe, é serem pretos.

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    1. Talvez, caro Anónimo, seja as duas coisas. E, se nos esforçarmos um pouco, encontramos mais algumas... Para considerarmos o outro um "estrangeiro" não precisamos de muitas nem de substanciais razões. Tudo serve. Como Europa, de modo mais restrito, e como Ocidente, de modo mais alargado, temos um duro trabalho de pensamento a fazer para percebermos, por exemplo, esta frase tão simples de Sebastião Salgado “Somos todos um povo. Provavelmente um só homem.”
      Cordialmente, Maria Helena Damião

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    2. Inteiramente de acordo consigo (costumo ler os seus comentários e posts).
      Anónimo das 15:46.

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