domingo, 29 de março de 2015

Charlie Don't Surf...



Em júbilo e orgulho, chegaram ao fim os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito ao caso BES, ou mais rigoroso, caso GES. Os jornalistas festejam o aparecimento de "novas estrelas” da vida parlamentar que, para os jornalistas, lhes deu a oportunidade de publicarem em orgãos de informação internacional como a Bloomberg ou o Financial Times. E, como em quase tudo o que acontece quando o estado português se envolve, o resultado é uma grotesca asneira com consequências enormes para o futuro do país e de milhares de famílias associadas a pequenos investidores, no GES e na PT.

Da esquerda à direita, nenhum dos deputados envolvido imagina o que seja um banco. Mesmo aqueles que se orgulhavam de “terem estudado os aspectos técnicos” fizeram uma enorme figura de parvo de frente a gestores várias vezes mais inteligentes que eles e substancialmente mais espertos. Os media festejaram em júbilo o facto de uma jovem deputada ter chamado de “amador” um antigo CEO da PT por este ter a liquidez demasiado concentrada no GES quando era óbvio para qualquer pessoa ligada ao tema que o problema estava longe de ser esse. Reduzir a questão à concentração é uma estupidez como há poucas. Aliás, o sujeito estava com aquele ar de não acreditar a sorte que estava a ter e, mantendo a regra que qualquer pessoa inteligente segue, se a coisa estava a favor dele, porquê interromper? “Amador” era mesmo o melhor que lhe podiam chamar e, estou certo, ainda hoje deve estar a rir às bandeiras despregadas. Questionaram-se vários reguladores para se perceber se tinham regulado bem e estes, como bons amanuenses, só tinham a responder que cumpriram com todas as regras e mais algumas. Mas ninguém se questionou se o problema poderia estar nas regras. E as regras vão continuar até ao próximo caso...

O serviço que os deputados fizeram ao país foi fazerem uma lavagem aos envolvidos, meter uma camada de terra por cima dos reais problemas  e causas, garantindo que daqui a uns anos estarão a fazer a comissão de inquérito ao Qualquer Coisa, depois de terem feito a do BES e a do BPN. Porquê? Porque se resolveram substituir a centenas de profissionais, a quem nós pagamos para serem especialistas do assunto, para aparecerem nos telejornais a falarem de um assunto que não sabem, confrontando pessoas muito mais inteligentes e muito experientes que eles. Para o português normal, que sabe tanto do assunto como os próprios deputados, a coisa até não correu mal. Para os envolvidos na cabeceira da mesa, foi um sucesso. Afinal, no meio de centenas de processos a que provavelmente poderiam estar a responder nesta altura, que vão desde crimes bancários no âmbito do BES a abusos de confiança no âmbito da PT, ser chamado de “amador” não se pode dizer que seja exactamente mau.

Achar que ler uma porcaria de um pdf do site do Banco de Portugal, dá para confrontar um gestor com duas décadas de experiência à frente de uma boa percentagem do PSI20 ou um regulador com milhares de pessoas, é bem pior que achar que consegue pilotar um A380 só porque teve um primo piloto. E uma coisa pode o país agradecer a estes voluntariosos deputados. Vamos ter mais comissões destas e mais famílias a protestar nas ruas pelas poupanças perdidas. Só porque resolveram ler uns pdfs e estragar o trabalho dos profissionais que deveriam estar eles a investigar os casos sem este festim à volta.

9 comentários:

  1. Este João Pires da Cruz (que antes usava o «nick name» Tony Blair, quando era bronco e insultava toda a gente no defunto blog Arrastão) é de estalos.
    Não sei por que vive esta inteligência rara na Terra, quando o seu lugar seria a comandar a galáxia.
    É um autêntico galáctico.
    Já todos tínhamos percebido (de outros posts da criatura) que o problema é do socialismo, isto é, da existência de regras de regulação.
    Esta gente superior da finança, supercompetente, especializada em gerir (em seu proveito) o que é dos outros (esperem aí, mas isto de gerir o que é dos outros não é socialismo? Mau Maria, por onde quer que nos viremos há só socialismo, essa terrível praga que invadiu o mundo desde o tempo do tio Carl), dizia eu, essa gente superior da finança devia poder agir em completa liberdade, comandados pelas superiores directizes emanadas deste crânio, da inteligência rara deste galáctico Pires da Cruz.
    Coitados dos deputados: «já o rabecão quer ir além da chinela».
    Ó Pires, dedique-se à pesca em Marte, deixe de ofender a nossa inteligência.

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  2. Peço desculpa João P. Cruz, mas simplesmente não se percebe o que preconiza exactamente:
    Defende que se devem atacar as regras e não as pessoas, é isso?! (Também) concordo, mas não eram precisos tantos rodeios para dizer isso, nem atacar os deputados, que fizeram mais ou menos o que tinham a fazer numa comissão que, à cabeça, não servia para nada.

    Aliás, não era suposto estar já em curso, ou perto do fim, um qualquer processo judicial?!
    Ah, isso não, que é muito incómodo e pode dar chatice...é por isso que, ainda hoje, não existe um único preso associado ao BPN.

    Eu acho porreiro é não haver indignação sobre a inoperância da "justiça", isso é que é curioso...

    Dervich

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    1. Não. Preconizo que os deputados deixem trabalhar quem sabe e quem é pago para investigar casos destes porque o que está em causa é importante o suficiente para não ser feito por curiosos.

      Isto não quer dizer que os deputados se alheiem da questão. Devem fazer aquilo para que são eleitos, proteger os cidadãos do estado, e interrogar os organismos públicos na eventualidade de os acharem inoperantes.

      Como pode um processo judicial avançar se temos amadores, com o poder de o fazer, a "produzir provas" todos os dias?

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  3. Entre acusações de estupidez e asneirada (que nada adiantam e qualquer pessoa inteligente evita), só existem duas opiniões: 1) a culpa é das regras (claro está! Todos sabem que a culpa de alguém marcar um golo em fora-de-jogo não é nem da arbitragem, nem do infractor: é da regra. Se não houvesse regra do fora-de-jogo, não haveria nunca quem marcasse golos em fora-de-jogo - e aqui quase que se esgota a totalidade do "pensamento" de Pires); 2) Deixem trabalhar quem percebe da poda (... em falências)

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  4. Caro João Pires da Cruz,

    Parabéns, mesmo na muche.

    cumps

    Rui Silva

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  5. No meu livro, os "auditados" pelo parlamento não são especímens particularmente interessantes a não ser de um ponto de vista psicológico, se se estiver para aí virado.

    É para mim mais ou menos claro que aquilo que conseguem fazer advém fundamentalmente das suas limitações ao nível da imaginação, de uma enorrme falta de escrúpulos e de, na verdade, terem lata para fazer uma série de coisas. Nem mais, nem menos.

    Que haja alguém que considere estes exemplares da espécie humana "inteligentes" diz-me mais sobre esse alguém do que sobre os animais em causa.

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    1. Pronto, se está no seu livro então deve ser verdade...

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    2. A única coisa que posso recomendar é que faça um esforço para tentar descubrir o que quer dizer a expressão "No meu livro"...

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