quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"Pseudociência" na Time Out

Recensão de José Carlos Fernandes sobre o meu livro "Pseudociência", publicado na Time Out de hoje


Pseudociência
David Marçal Fundação Francisco Manuel dos Santos, 5€  

A publicação deste livrito é um verdadeiro serviço público que a Fundação Francisco Manuel dos Santos presta ao país e seria ainda mais louvável se tivesse feito imprimir dez milhões de exemplares e oferecesse um a cada português. Claro que o livro, por si só, será incapaz de operar uma mudança de mentalidades - se a mastodôntica máquina educativa, com os seus 12 anos de escolaridade obrigatória e a produção de quantidades crescentes de licenciados, mestres, doutores e pós-doutores, se revela impotente para inculcar capacidade analítica e sentido crítico nas massas e nas elites e vaciná-las contra crendices, lioaxes, manipulação estatística e publicidade enganosa, não seriam estas modestas 98 páginas a consegui-lo.  

Marçal retoma temas que abordara em Pipocas Com Telemóvel, escrito com Carlos Fiolhais (oportunamente tratado nestas páginas), recorrendo a uma exposição muito clara e impecavelmente argumentada. É difícil que, depois de lê-lo, se continue a depositar fé na homeopatia e na medicina quântica e a temer as consequências deletérias para a saúde de vacinas e de alimentos contendo organismos geneticamente modificados (OGM). A abordagem de Marcai é equilibrada, pelo que não deixa de manifestar preocupações quanto aos OGM no que diz respeito aos riscos de hibridação com espécies selvagens, de empobrecimento do património de sementes tradicionais e de dependência dos agricultores em relação às multinacionais que comercializam sementes. Dificilmente poderá acusar-se Marçal de estar ao serviço do capitalismo global, pois a frontalidade com que denuncia os gurus quânticos de vão de escada e as ervanárias de esquina é a mesma que aplica às multinacionais do sector alimentar que publicitam os supostos efeitos benéficos dos iogurtes probióticos na saúde, e às multinacionais do sector farmacêutico que manipulam estudos e ocultam informação inconveniente de forma a que os seus novos fármacos surjam aos olhos dos médicos, das autoridades de saúde e da opinião pública como tendo poderes sal vificos quando não são melhores que um placebo. Ao longo do livro, ao mesmo tempo que desmonta casos concretos de pseudociência, Marçal vai sistematizando os enviesamentos e armadilhas de argumentação contra os quais se deve estar prevenido e fornecendo ferramentas de avaliação válidas para qualquer outra alegação fantasiosa ou tisana mágica. Pseudociência é um eficaz antídoto contra a credulidade e alienação e não se lhe conhecem contraindicações ou efeitos secundários.  

José Carlos Fernandes 

2 comentários:

  1. Para quem não leu o livro, convém recordar que não é pseudociência socorrer-se e propagandear os remédios da nossa avozinha, onde os frutos, os hortícolas, muitas ervas tinham - e têm - o seu poder curativo! Deve é ser um tratamento mais prolongado, mas sem dúvida mais benéfico e sem efeitos secundários. Recordo que, por exemplo, todas as doenças estomacais se curam com... água. Adeus, pois, medicamentos tradicionalmente usados e receitados por médicos e farmacêuticos! Se tem dores de estômago, beba água até a dor passar. Experimente! Eu sou um exemplo de cura e de manutenção. Depois de comer, convém ser água morna. Boa saúde sem... medicamentos!

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  2. Eu sugeria que fosse efectuado um levantamento estatístico sério sobre o consumo de medicamentos em Portugal. Por vezes, tenho a sensação que muitas pessoas tomam medicamentos de forma continuada e prolongada, e desculpem-me, até ao fim da vida. É natural que muitas doenças assim o peçam, certamente, mas apetece perguntar:
    os medicamentos ainda curam?

    Sobre o método experimental que tanto se fala em ciência eu pergunto-me também, quantas vezes, por todo o mundo é necessário sacrificar vida para chegar aos mesmos resultados de sempre... não faz sentido. É ciência irresponsável (foi só um exemplo porque existem centenas deles).

    A ciência está gasta e não acompanha as necessidades do mundo e da sociedade. Alguém me sabe dizer porque é que os produtos de higiene para bebé continuam a ter parabenos, poliquartenium e muitos outros? De que serve uma concentração mínima?! Se faz mal nem devia de lá estar em primeiro lugar!

    O mesmo se passa com os OMG e pior, com rações contaminadas com pesticidas, herbicidas e "retardadores de chama" com que alimentam os animais que consumimos de seguida. Essas substâncias passam para o nosso organismo e acumulam ao longo dos anos na nossa gordura corporal com efeitos diversos. Mas já li alguns estudos que apontam um dos problemas de comportamento em crianças - a hiperactividade p.ex. - com esses produtos alimentares contaminados. Mas não nos preocupemos, existe um clamante para dar a crianças!!!! Cura? Claro que não.

    Onde está a ciência? Ao serviço do dinheiro.

    Onde está a pseudociência referida? Ao serviço de um aparente bem-estar.

    Adivinhem a quem vai ser dado ouvidos?

    Parece-me que os charlatães que desde o séc. XIX que vendiam elixires milagrosos para curar tudo, mudaram de campo - da pseudociência para a ciência.






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