sábado, 3 de janeiro de 2015

Levar o Latim às escolas

CATCHING ON: Jennifer Hilder from Glasgow University with pupils from
Sacred Heart Primary School in Bridgeton, Glasgow. Picture: Martin Shields
Imagem encontrada aqui
Diversos países começam a reconhecer um problema que percebem ser muito grave: as dificuldades de escrita dos alunos.

Este é um sinal bem evidente de que a escolaridade elementar ou básica não está a cumprir uma das suas funções mais importantes e estruturantes - a alfabetização -, com inevitáveis consequências na escolaridade secundária e superior.

Muitos têm considerado que a principal causa desta situação é o abandono do estudo do Latim, a matemática da língua. De facto, a partir de finais da década de sessenta do século XX, as disciplinas de Latim e de Grego foram associadas a uma educação elitista, tradicional, antiga, a uma educação contemplativa que apenas servia para maçar os aprendizes. Era preciso renovar o currículo com disciplinas que preparassem para a vida, que permitissem compreender o mundo circundante e que correspondessem às necessidades e interesses das comunidades.

Essa mudança feita com muito entusiasmo e pouco conhecimento pedagógico - o que, tendo em conta, a época se percebe perfeitamente - desencadeou diversos erros e um deles é certamente o abandono das línguas ditas mortas.

Para remediar a situação, alguns sistemas educativos estão a reintroduzi-las no currículo escolar e diversas entidades autónomas arregaçam as mangas e fazem o que podem.

Um exemplo: Professores e estudantes de pós-graduação da Universidade de Glasgow criaram um programa de ensino do Latim que levam a cada vez mais escolas de zonas carenciadas, primeiro primárias e agora também secundárias. Esse programa contempla mitologia e literatura da Antiguidade, história e consciência da língua, gramática e vocabulário... E, sim, parece que os miúdos a quem o programa se destina gostam e aprendem.

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

12 comentários:

  1. Atualmente - com a mania do ensino profissional, vocacional e similares e com a aposta acrítica e desinformada nas Ciências em detrimento das Humanidades - muitas outras disciplinas correm o risco de ter um destino semelhante ao Latim. A Filosofia e a História, por exemplo. Mas é preciso dizer uma coisa: não sei se isso se verificou ou não no caso do Latim, mas no caso da Filosofia e de outras disciplinas humanísticas o péssimo trabalho que alguns professores fazem dá argumentos aos “adversários”.

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  2. Eu acho verdadeiramente extraordinário que, num mundo da comunicação automática que todos envolve e devora nesta voragem comunicacional que perverte todas as regras, se continue a achar que a raiz do problema está só na falta de competência da escola.
    Nem o facto de o problema ser universal, afectando tantos sistemas educativos com desempenhos muito fiferentes, faz luz sobre a sua raiz?

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  3. Manuel Silva:

    Talvez não haja uma só raiz do problema, mas várias. Faz algum sentido insistir na responsabilidade dos atores educativos (como os maus professores, os diretores escolares incompetentes e os decisores políticos igonorantes) pois esse é um factor sobre o qual podemos agir e tentar corrigir o muito que está mal. O factor referido pelo Manuel está fora do nosso alcance e reduzir tudo a ele é uma forma de desresponsabilizar a incompetência e a ignorância.

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    1. É evidente para muitos que, ao contrário do que diz o senhor Manuel Silva, a raiz do problema está toda na Escola. Não é admissível a falta de cultura num professor, ou o mesmo será dizer, que este goste de ver o "big brother" ou seja um exímio visitante e conhecedor de lojas e marcas num shopping, se assim for o que há a dizer é, pouca sorte a do aluno no professor que lhe saiu pois que, nisto está visto quais os melhores interesses do seu professor, apreciador de vida mundana é o que é... naturalmente que existe muita gente formada que leva esta vida, incluindo os professores. Eis por isso também a razão da ignorância e incompetência de muitos. Os seus interesses, as suas verdadeiras preocupações, não são os alunos. Tem toda a razão o professor Carlos Pires, e o senhor Manuel Silva (numa espécie de fait-divers) mais não faz que desresponsabilizar a incompetência e ignorância que existe na Escola por parte da classe docente e que deve ser eliminada. Devemos exigir competência na Escola e bons professores, estou em acordo absoluto com o professor Carlos Pires, e mais, insisto, é sem dúvida a Escola a única arma de combate à ignorância, retirar-lhe esse estatuto é um retrocesso civilizacional.

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    2. Não se pode generalizar. Como em todas as profissões, há bons professores e há professores menos bons e até maus. Mas as nossas escolas ainda têm, no geral, professores interessados, profissionais preocupados, e digo "profissionais", porque também há aqueles que vão dar uma aulas, mas não é por isso que podem ser considerados "professores" e "profissionais". O problema mais fundo, que afecta toda a sociedade e, portanto, também os professores (eles são parte dessa sociedade) é o crescente desinteresse pela cultura, a procura do que está "pré-feito" e que não dá muito trabalho, o pôr em primeiro lugar o imediato, o que tem utilidade visível, o que dá dinheiro, o que dá "importância" social... São alguns valores que se estão a perder. O papel da escola (e devia ser o papel das mentes que nos governam...) é lutar contra esse estado de coisas, é não perder a esperança e acreditar que o mérito há-de voltar a ser o mais importante, que o conhecimento, a cultura há-de vencer a ignorância.

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    3. Eu não generalizei. Não disse que todos eram, mas sim que alguns eram. Eram e são. E de facto em Portugal há alguns professores incompetentes, alguns diretores incompetentes e alguns políticos - e outros decisores - incompetentes. Alguns acumulam inclusivamente a incompetência com a corrupção. Mais uma vez: alguns e não todos. E são muitas vezes casos notórios e as pessoas da área conhecem-nos, mas muitas - muitas, muitas, muitas, mas não todas - fingem que não percebem pois ganham pessoalmente com a situação. Algumas porque beneficiam direta ou indiretamente com a corrupção e outras por medo.

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  4. Carlos Pires:
    A chave do meu comentário está em «só», eu disse: «se continue a achar que a raiz do problema está só na falta de competência da escola».
    Não me parece boa política isolar uma entre várias causas e fazer dela o «alfa e o ómega» do problema.
    Se é certo o que diz, se podemos pouco contra a galáxia comunicacional moderna não a devemos, contudo, ignorar.
    Senão estamos a martirizarmo-nos sem razão, e por uma causa menor.
    Se é verdade que nela podemos actuar com mais eficácia, também não nos devemos esquecer que sempre houve (sempre haverá) disfuncionalidades e maus desempenhos da escola.
    Se há parâmetro constante na história da escola esse é, certamente, um deles.
    A não ser que com a primeira selecção (a escola como única raiz do problema) e a segunda ilusão (a escola, toda a escola sempre e eternamente competente) se queira outra coisa.
    Mas não quero fazer juízos de intenção infundados.

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  5. Aos dois interlocutores que me responderam, Carlos Pires e Ildefonso Dias:
    O «post» centra todo o problema na escola.
    Como acho que não é correcto fazê-lo, pois a maior responsabilidade por muitos dos seus resultados insuficientes até está fora da escola, está na sociedade, nos seus valores, práticas quotidianas, gostos e modas generalizados, especialmente por efeito da massificação da comunicação automática, hoje a mais importante fonte de saberes, e modos de os adquirir, que conflituam com a escola, respondi assim: «Eu acho verdadeiramente extraordinário que, num mundo da comunicação automática que todos envolve e devora nesta voragem comunicacional que perverte todas as regras, se continue a achar que a raiz do problema está SÓ na falta de competência da escola.»
    Carlos Pires acha que se deve agir na escola, pois é o que está ao nosso alcance. Não concordo completamente que nada se possa fazer além da escola, embora concorde plenamente que se deva agir fortemente nela. Nunca disse o contrário.
    Mas depois distorceu completamente o que eu disse ao afirmar: «O factor referido pelo Manuel está fora do nosso alcance e reduzir TUDO a ele é uma forma de desresponsabilizar a incompetência e a ignorância.» Eu nunca disse que tudo se reduzia aos factores externos a que aludi.
    Portanto, para se discutir seriamente temos de considerar o que os interlocutores dizem e não amputar partes do que dizem.
    Ildefonso Dias usa um registo baseado nas suas certezas absolutas, pelo que é difícil dialogar com ele. Só estranhei que não tivesse apresentado os argumentos de autoridade dos seus dois mestres – Bento de Jesus Caraça e José Sebastião e Silva – solução para todos os problemas à face da Terra.
    É curiosa a sua interpretação das minhas palavras: «o senhor Manuel Silva (numa espécie de fait-divers) mais não faz que desresponsabilizar a incompetência e ignorância que existe na Escola por parte da classe docente e que deve ser eliminada.»
    Desconhecia que eu fosse uma espécie de Tide para lavar as nódoas dos maus professores, que hei-de dizer mais sobre isso?
    A seguir diz: «Devemos exigir competência na Escola e bons professores». Eu sempre achei que sim, mas uma coisa é isso, outra é fazer diagnósticos errados, não perceber o mundo em que se vive e atacar um problema tratando apenas parte dele como se se estivesse a tratar o problema todo.
    Quanto à ilusão da construção de uma escola sem problemas, com toda a gente competente e diligente, não passa de uma ilusão: embora como desiderato deva estar sempre presente nas mentes e nos esforços de todos.
    Basta ver-se a produção legislativa de reformas de ensino desde 1836, quando Passos Manuel fez a reforma fundadora da actual escola moderna, a funcionar mais ou menos na matriz que conhecemos hoje, conformada definitivamente nessa matriz por Jaime Moniz (1894), para se perceber os problemas que sempre a perseguiram.
    Se estivesse tudo bem para quê questionar e reformá-la permanentemente?
    Depois de 179 anos entrámos num novo paradigma de escola e ainda não sabemos lidar bem com ele.
    Como tal, disparamos sobre o «pássaro» que temos mais à mão mesmo que ele nos dê pouca carne para nos saciarmos.

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  6. Senhor Manuel Silva;
    O senhor escreve "Basta ver-se a produção legislativa de reformas de ensino desde 1836, quando Passos Manuel fez a reforma fundadora da actual escola moderna, a funcionar mais ou menos na matriz que conhecemos hoje, (...)"
    O senhor tem noção do ridículo daquilo que escreveu?

    Esta é a concepção educacional da Constituição Portuguesa de 1822:

    CAPÍTULO IV

    DOS ESTABELECIMENTOS DE INSTRUÇÃO PÚBLICA E DE CARIDADE.

    Artigo. n. 237

    Em todos os lugares do reino, onde convier, haverá escolas suficientemente dotadas, em que se ensine a mocidade Portuguesa de ambos os sexos a ler, escrever, e contar, e o catecismo das obrigações religiosas e civis.



    Sobra o psitacismo do senhor Manuel Silva.

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  7. Sr. Ildefonso Dias:
    Que responder-lhe senão com um ditado latino: «Ne sutor ultra crepidam».
    Passe bem.

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  8. Senhores Professores, Carlos Pires, Maria Helena Damião e Isaltina Martins:
    A "comunicação automática" que o senhor Manuel Silva no seu comentário exorta como sendo " hoje a mais importante fonte de saberes, e modos de os adquirir" é um embuste, é um dano que se quer causar na Escola.
    Se os senhores professores utilizarem a dita "comunicação automática" e consultarem a página de Passos Manuel na wikipédia, poderão encontrar lá esta frase do senhor Manuel Silva: "A 17 de Novembro de 1836 publicou um decreto criando liceus nas capitais de distrito, lançando assim as bases do actual sistema de ensino. Apesar do decreto apenas ter tido execução mais de uma década depois, ficou lançada a semente do sistema de ensino secundário, que ainda persiste.". Pasmem-se os senhores professores, ou talvez não, a forma como o senhor Manuel Silva, formula conhecimentos sobre o mundo e a vida. Palavras para quem, está tudo dito, eis o perigo de um definhamento da Escola, se isso acontecer, não ficamos longe daqueles para quem saber ler, escrever e contar era tudo. Perante tal cenário, não podemos dar tréguas a todos os indivíduos (ingénuos ou não) mas que se prestam ao papel que o o senhor Manuel Silva aqui veio fazer.
    Aqueles que seguem, ou tentam seguir com esforço e dedicação, a obra de grandes mestres, são considerados incultos, autoritários, esquecem é que isso lhes permite desenvolver o pensamento, uma conduta, o vislumbrar da realidade e da vida, e que depois exercem o seu carácter, tem opinião própria. Ora isso não é possível, de modo nenhum chegar à pessoa como sendo qualquer coisa oriunda de uma qualquer "comunicação automática" como pretendem os detractores da Escola e da Cultura e do pensamento livre.

    Cumprimentos, e lutemos sempre por uma Escola para todos, melhor, mais justa, mais capaz e fraterna.

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