quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ABRIU O ANO DA LUZ


Minha crónica no último "As Artes entre as Letras":

Escrevo de Paris, onde vim, como represetante de Portugal, participar na inauguração do Ano Internacional da Luz, no edifício da UNESCO, perto da Torre Eiffel, um ícone de luz na noite parisiense.  Mais de mil pessoas de cerca de uma centena de países juntaram-se em paz, na cidade onde ainda se vivem os ecos da tragédia do “Charlie Hebdo” e do supermercado judaico, para celebrar a luz e as tecnologias da luz, como tema interdisciplinar que une a ciência e a técnica com a arte  e outras formas de cultura. Foi em Dezembro de 2013 que o Gana, o México, a Rússia, a Nova Zelândia e a Arábia Saudita propuseram que 2015 fosse considerado em todo o mundo o ano da luz, proposta que foi aprovada por unanimidade. E, agora, em Janeiro de 2015, representantes desses países juntaram-se a muitos outros, entre os quais  o nosso, para lembrar ao mundo que a luz é um grande tema unificador de vários interesses e actividades humanas: ele permite ligar várias disciplinas científicas, como a física, a química e a biologia, liga as ciência às suas aplicações como a iluminação ou as telecomunicações, e liga também a ciência às artes, incluindo nestas as artes visuais, a fotografia, o cinema e a arquitectura.

A directora geral da UNESCO, a búlgara Irina Bokova, deixou uma mensagem aos participantes:
“A luz é uma das principais causas da origem da vida, desde o Big Bang  à época moderna. É a fonte da fotossíntese e a fonte principal de energia para a maior parte das criaturas vivas. Desde o início do tempo, sempre fomos fascinados pela luz, pela sua magia e pela sua beleza. Compusemos poemas, obras de arte e canções sobre o poder da luz. Neste ano celebramos os esforços que a humanidade fez  para a compreender.”

Nada mais nada menos do que cinco prémios Nobel, que realizaram avanços na compreensão da luz, vieram a Paris para apresentarem a sua perspectiva da luz: o norte-americano de origem egípcia Ahmed Zewail, o norte-americano de origem chinesa  Steven Chu, o norte-americno William Philips, o francês Serge Haroche e o russo Zhores Alferov, sendo o primeiro da área da Química e todos os outros da área da Física.

Mas não houve só cientistas. Do lado da teologia marcou presença o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, que preside  ao Conselho Pontifício da Cultura, que falou sobre  “a luz, um símbolo religioso entre a imanência e a transcendência.” E, do lado das artes, o violinista norte-americano  Joshua Bell, acompanhado ao piano por Marija Stroke,  apresentou em  estreia mundial  três peças do compositor seu compatriota Bruce Afolphe intituladas “A luz de Einstein”,  como banda sonora de apresentações em vídeo de Nickolas Barris.  Os participantes assistiram ainda a uma performance  de um  grupo maori, da Nova Zelândia, o país que todos os dias vê a luz primeiro do que todos os outros, intitulada “Da escuridão ao mundo da luz”. A fachada do edifício da UNESCO (uma bela peça arquitectónica, em cujo interior existem obras artísticas do espanhol Joan Miró e do italiano Alberto Giacometti, entre outros), foi iluminada pelo artista finlandês Kari Kola, com a  colaboração do artista português Nuno Maya.

Unindo a física e arte, dois físicos, um italiano e outro norte-americano, mostraram que  podemos saber mais sobre arte recorrendo a técnicas da física: por exemplo, embra seja ciência elementar, pouca gente tem comsciência que um quadro é diferente conforme a luz que recebe. Um quadro de  Caravaggio não é o mesmo visto num museu com uma lâmpada ou com outra.

Numa feira sobre o tema da luz encontravam-se não só as últimas  aplicações da luz, como iluminação doméstica muito barata  (um LED dentro de uma garrafa ligado a um mini-painel fotovoltaico, um projecto originado nas Filipinas e que se destina a dar luz no Terceiro Mundo), e exemplos de pintura fotográfica, uma técnica que consiste em fotografar com  exposição prolongada com a qual se obtêm efeitos surpreendentes, sem qualquer edição digital. E podia-se visitar uma exposição organizada para assinalar o período de ouro da civilização árabe quando Ibn al-Haytham, há mil anos, escreveu o primeiro tratado de óptica. A ele se devem, para além de primeiras tentativas de explicação de diversos fenómenos ópticos,  técnicas que ainda hoje utilizamos como a da câmara escura.

Convidado para falar sobre política científica foi o ex-ministro português da Ciência e Tecnologia José Mariano Gago,  em diálogo com a ministra da ciência e tecnologia da África do Sul, com uma cientista mexicana, um técnico superior do sector das comunicações da União Europeia e o director para a política de ciência e criação de capacidades da própria UNESCO.

Há ideias luminosas recentes na óptica: desde a proliferação extraordinária dos LED até aos avanços no aproveitamento da energia solar, desde óculos por um dólar de modo a servir toda a gente até aos óculos Google só ao alcance de alguns, desde as fibras ópticas mais simples até às evoluções mais sofisticadas dessa tecnologia, que faz agora 50 anos.  E há projectos muito interessantes no sentido de usar apenas a luz que é preciso usar, por exemplo a constituição de “reservas de escurisão” para melhor observação dos céus, como já se começou a fazer no Alentejo. A luz, como tudo na vida, deve ser usada na medida certa, nem demais, porque encandeia, nem de menos, porque não se vê nada.

Não podemos imaginar como seria o mundo se não tivéssemos luz para o ver. E não podemos imaginar como seria a nossa vida se não tivéssemos a luz para a tornar mais fácil.

1 comentário:

  1. Carlos Fiolhais, claro que, se não tivéssemos luz, não poderíamos ver o mundo, nem sequer nós existiríamos: nós somos frutos da luz! Senti um certo mal-estar filosófico-teológico ao saber da intervenção eclesiástica: “A luz, um símbolo religioso entre a imanência e a transcendência.” Não é a Igreja, ao ter adulterado a mensagem de Jesus sobre a fraternidade universal, apropriando-se desse Jesus, fazendo-o Cristo e Filho de Deus, para manter uma religião com o poder sobre as consciências dos crentes..., não é a Igreja fonte de trevas e não de luz, falando de imanência e transcendência, quando ainda ninguém provou que a transcendência exista? A propósito, quando é que a Igreja aprende a distinguir religiosidade (tendo as religiões com seus dogmas e seus deuses sido inventadas por alguns ditos iluminados!) de espiritualidade ou intelectualidade e abstracção? Ou: quando é que os teólogos começam a ser intelectualmente honestos, abraçando a racionalidade da filosofia e não as falsidades ou pseudo-verdades apregoadas pela teologia?

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