domingo, 30 de novembro de 2014

Duas novas publicações da Classica Digitalia

A biblioteca on-line Classica Digitalia têm o gosto de anunciar duas novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Annablume (São Paulo).

Série “Humanitas – Supplementum” [Estudos]

- Francisco de Oliveira, Maria de Fátima Silva, Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa (coords.), Violência e transgressão: uma trajetória da Humanidade (Coimbra e São Paulo, IUC e Annablume, 2014). 322 p.

Resumo - Este volume pretende reunir um conjunto de reflexões referentes à ideia de ‘Crime e violência’, como são expressos na Antiguidade greco-latina e na sua recepção. Depois de um texto introdutório que explora a terminologia específica deste assunto, seguem-se doze artigos que cobrem um lapso temporal que vai da época arcaica da Grécia à contemporaneidade portuguesa. A inclusão de diversos géneros literários permite também observar diferentes modelos estéticos na abordagem do assunto. Épica, tragédia, retórica, romance, dão voz a diferentes contextos em que a violência é central, bem como ao entendimento que cada sociedade retira desse fenómeno humano.

URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/174
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0841-9
PVP: 30 € / Estudantes: 24 €

 - Priscilla Gontijo Leite, Ética e retórica forense: asebeia e hybris na caracterização dos adversários em Demóstenes (Coimbra e São Paulo, IUC e Annablume, 2014). 421 p.

Resumo - O intuito desta investigação é analisar o uso dos termos asebeia e hybris nos discursos forenses presentes no corpus Demosthenicum. Ambos os conceitos desempenham um papel importante nos discursos para descrever negativamente o caráter do adversário e atribuir uma culpa maior ao delito cometido. A eficiência dos termos em atrair a simpatia dos juízes é comprovada nos discursos por meio da recorrência de diversas situações, tais como homicídios, agressões, mau uso da cidadania, rivalidades políticas e disputas familiares.

URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/175
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0845-7
PVP: 30 € / Estudantes: 24 €

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. 
O eBook correspondente encontra-se disponível em acesso livre.

A CIÊNCIA E O DIVINO


Meu texto no livro "Deus ainda tem futuro?" (coordenação de Anselmo Borges) que acaba de sair na Gradiva: 

A 4 de Julho de 2012 era anunciado no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), em Genève, na Suíça, a descoberta de uma nova partícula, chamada “partícula de Higgs”, ou “bosão de Higgs”,  a quem alguns chamam “partícula de Deus”.

O nome “partícula de Deus” parece inadequado a muita gente, a começar logo pelo físico escocês Peter Higgs, ateu confesso, que, em Outubro de 2013, foi distinguido com o Prémio Nobel da Física, pela sua proposta no ano de 1964 de uma partícula com as características daquela que o CERN, quase meio século depois, haveria de identificar. O prémio foi partilhado com o seu colega belga François Englert, que professa a religião judaica (circunstância que o obrigou a manter-se largos anos escondido durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda era um rapazinho). De facto, a designação “partícula de Deus” apenas surgiu por uma decisão editorial. Trata-se do título de um livro que se revelou um sucesso de vendas no mundo anglo-saxónico, embora não tenha conhecido tradução em português. Os autores do livro The God’s particle, saído em 1993, o físico norte-americano Leon Lederman e o escritor de divulgação científica Dick Teresi, quiseram intitular a sua obra, que descrevia a ideia de Higgs e de outros, The Goddamn particle (“A partícula maldita”) com base nas dificuldades na sua detecção e foi o editor norte-americano que propôs a alteração, logo aceite pelos autores, para The God Particle, “Partícula de Deus” [1]. Como, a haver Deus, todas as partículas são d’Ele, será pouco defensável baptizar assim uma partícula, singularizando-a como criação divina relativamente a todas as outras... Mas o certo é que a palavra Deus tem efeitos mediáticos e o nome pegou. Decerto que a partícula não teria sido tão badalada se tivesse um outro nome.

Mas o que é afinal a partícula de Higgs? Não é uma das partículas normais de matéria nem de energia. É uma partícula associada a um campo (o campo descreve a presença de uma grandeza física numa certa região do espaço), cuja existência foi postulada para explicar por que razão as partículas de matéria e energia, que preenchem todo o Universo, têm massas muito diferentes entre si.  Partículas de matéria, por ordem decrescente de massa, são os quarks, os electrões e os neutrinos. Todas as coisas, em todo o vasto mundo, são feitas de quarks, electrões e neutrinos. Os quarks formam os protões e os neutrões. Os protões e os neutrões formam os núcleos atómicos. Os núcleos atómicos e os electrões formam os átomos. Os átomos formam as moléculas, os cristais ou sólidos e a chamada “matéria mole”,  como por exemplo um gel. E as partículas de energia são, pela mesma ordem decrescente de massa, os bosões W e Z, os fotões, os gluões e os gravitões (na verdade, só os primeiros, os bosões W e Z, intermediários da força nuclear fraca, têm massa, pois todos os outros têm massa nula). As forças entre as partículas de matéria devem-se à troca de partículas de energia: por exemplo, a atracção eléctrica entre protões e electrões deve-se à troca de fotões.  Sem o campo de Higgs e, portanto, sem a partícula de Higgs, que está associada às excitações desse campo, o conjunto das partículas de matéria e de energia não poderiam ter a massa que têm, permanecendo todas com a massa nula. O mundo seria, nesse caso, indiferenciado e, por isso, informe: não teria havido a possibilidade de formação de estruturas, ainda que simples, e não haveria no mundo a extraordinária variedade de coisas que observamos.

As partículas de matéria e de energia conhecidas estão organizadas hoje no quadro do chamado modelo-padrão da física de partículas. Os físicos do CERN têm procurado responder à questão: Estará o modelo-padrão certo? E estará ele completo? Se a primeira pergunta, pelo menos até ver, tem sido respondida positivamente (a descoberta do Higgs é uma excelente confirmação do modelo-padrão no sentido em que foi confirmada uma peça que faltava nele), há, porém, boas razões para suspeitar que a resposta à segunda pergunta é negativa. O modelo revela-se insatisfatório do ponto de vista teórico e não consegue explicar alguns mistérios da astrofísica moderna como os problemas da matéria negra e da energia escura. Note-se que o mecanismo de criação de massa proposto por Higgs e seus colegas não passa de um mecanismo matemático que, aparentemente, a Natureza concretizou conforme o modelo-padrão descreve. Foi proposto quando ainda não se conheciam muitas partículas desse modelo. Mas, ao revelar-se certa uma hipótese matemática, cumpriu-se mais uma vez o dito do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642) contido no seu livro O Ensaiador de 1623: “O Livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos.”

A partícula de Higgs e o eventual quiproquo teológico à volta do nome “partícula de Deus” (será que se está perante uma prova da existência de Deus?) servem aqui de introdução para uma breve digressão sobre os elos entre a ciência, a nossa investigação do mundo usando o método experimental e de raiz matemática que Galileu introduziu, e Deus, ou, mais em geral, os fenómenos do divino. Tanto a ciência como a religião são actividades humanas, que são  completamente compatíveis, pelo menos a avaliar após uma consulta às biografias de alguns dos maiores cientistas. Ao longo da história, a maior parte dos maiores físicos acreditaram em Deus, para resumir numa só palavra (e uma palavra com muita força!) a crença numa realidade que transcende o “O Livro da Natureza” que a ciência indaga [2].

Apesar desse facto, o chamado “caso Galileu”, o confronto entre o físico italiano e a Igreja Católica, permaneceu como um paradigma de uma suposta oposição entre ciência e religião.  Embora a posição do tribunal da Igreja seja hoje absolutamente reprovável, a história de Galileu que entrou para as mitologias vulgares não está, de facto, muito bem contada. Galileu, um homem de sólida formação católica, não era propriamente um inimigo da Igreja romana. Tinha nela amigos ao mais alto nível. De resto, ele nunca perdeu a fé, apesar das provações a que a Inquisição o submeteu, incluindo a obrigação de abjuração. Para ele as coisas eram muito claras:  Tinha conseguido conciliar na sua mente os dois aspectos cuja relação aqui se pretende analisar – a ciência e a fé – de um modo que ainda hoje é moderno e que os seus antagonistas da época não só não compreenderam como não tentaram sequer compreender. Escreveu Galileu numa carta à Duquesa Cristina de Lorena, da família dos Medici, em 1615, quase duas décadas antes do seu julgamento [3]:

 “Eu não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou com os sentidos, razão e intelecto, pretenda que renunciamos à sua utilização para nos dar por outros meios conhecimento que podemos alcançar por eles.” (...) ”Gostaria de dizer aqui uma coisa que se ouviu de um eclesiástico do grau mais eminente: ’A intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o céu, e não como é o céu’ “.

O eclesiástico citado era o cardeal César Baronius (1538-1607), bibliotecário do Vaticano. E, no entanto, como é sabido, Galileu foi condenado. A questão era sobretudo de autoridade em matéria de religião. Se a Bíblia dizia que o Sol se movia em volta da Terra quem se julgava Galileu para negar o que estava escrito de modo no livro sagrado? Passados quatro séculos, a Igreja reconheceu ao mais alto nível, embora usando palavras cuidadosamente escolhidas, o seu erro. Declarou o papa João Paulo II  (1920-2005) [4]:

“Graças à sua intuição de brilhante físico brilhante e baseando-se em argumentos diferentes, Galileu, que praticamente inventou o método experimental, entendeu que só o Sol poderia funcionar como o centro do mundo, como era então conhecido, isto é, como um sistema planetário. O erro dos teólogos da época, mantendo a centralidade da Terra, era pensar que a nossa compreensão da estrutura do mundo físico era, de alguma forma, imposta pelo sentido literal da Sagrada Escritura”.

O cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito da Conselho Pontifício para a Cultura, afirmou mesmo recentemente que, ainda mais do que Galileu, o cientista, tinha razão Galileu, o teólogo, que tão claramente tinha conseguiu separar o céu da física do céu da religião [5].

A posição de Galileu conciliadora entre Deus e a ciência continuou com o seu grande sucessor, o inglês Isaac Newton (1642 - 1727), que, professando a religião anglicana, não alimentava quaisquer dúvidas sobre a existência de Deus (embora tivesse alimentado dúvidas, que conservou secretas, sobre a existência da Santíssima Trindade, professando assim a doutrina do unitarismo, o que não deixa de ser paradoxal para um membro do Trinity Colege, o Colégio da Trindade, na Universidade de Cambridge). Newton era um deísta: para ele era claro que a o mundo tinha sido criado por Deus, que toda a Criação expressava o poder e a glória de Deus. Ele acreditava mesmo que intervenções divinas ocorreriam no decurso da história do Universo, não se restringindo por isso a acção de Deus ao momento da Criação, dado que só uma intervenção dessa índole  poderia explicar a ausência de catástrofes cósmicas a que a Lei da Gravitação Universal parecia conduzir. Este assunto do papel da providência divina nos assuntos correntes do mundo físico foi o tema de uma polémica com um seu contemporâneo alemão, o filósofo e matemático Gottfried Leibniz (1646-1716), na qual os aspectos científicos e teológicos se misturavam de uma maneira inextrincável, bem ao contrário do que acontece hoje. Certo é que o determinismo newtoniano, que explicava a evolução dos planetas em torno do Sol, triunfou nos séculos XVIII e XIX, em particular a meio deste último com a descoberta do planeta Neptuno em 1846, realizada com um lápis, antes de se olhar para o céu, apenas com base nos princípios matemáticos da teoria de Newton.

A posição de Newton sobre o papel de Deus pode ser sumariada nesta sua afirmação [6]:

 “A gravidade explica os movimentos dos planetas, mas não pode explicar quem colocou os planetas em movimento. Deus governa todas as coisas e sabe tudo que é ou que pode ser feito.”

Ou nesta outra, sobre a matemática divina [7]:

 “Deus criou tudo com conta, peso e medida.”

Uma curiosa relação entre a religião e ciência encontra-se numa célebre frase de Newton - “Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes”, que geralmente é interpretada como querendo significar a sua gratidão e homenagem a grandes figuras da ciência que o antecederam na decifração do mundo através do estabelecimento de leis naturais. De facto, essa frase é anterior a Newton, tendo aparecido na Idade Média num contexto religioso. O monge Bernardo de Chartres (?- 1124?), que foi chanceler da escola da famosa catedral francesa, terá dito, segundo refere João de Salisbúria em 1159, que [8] “somos como anões sobre os ombros de gigantes, de modo que conseguimos ver mais do que eles, e ver coisas a uma distância maior, não em virtude de qualquer nitidez de visão da nossa parte, ou qualquer distinção física, mas porque somos levados alto e levantados pelo seu tamanho gigante.” Os coloridos vitrais da catedral de Chartres mostram ainda hoje os evangelistas aos ombros dos profetas, como metáfora da elevação do Novo Testamento sobre o Antigo. Mas desconhece-se se Newton conhecia a frase de Bernardo de Chartres e a plagiou ou se, como é mais provável, simplesmente se lembrou, desse modo elegante, de enfatizar a continuidade histórica da ciência, um conceito que hoje temos como óbvio.

Outros gigantes subiram para os ombros de Galileu e Newton para poderem ver mais longe. A mecânica de Galileu e Newton foi abalada logo nas vésperas do século XX, mais precisamente em 1900, pela revolução quântica, iniciada pelo físico alemão Max Planck (1858-1947), Prémio Nobel da Física em 1918 [9].

O físico alemão, na sua tentativa para explicar o problema da radiação de um corpo negro (intensidade da radiação dos vários comprimentos de onda da luz proveniente de um forno), viu-se obrigado a postular a emissão e a absorção de energia em quantidades discretas, os quanta. Na antiga mecânica, a energia podia variar continuamente, ao passo que, na nova mecânica, a energia não podia assumir qualquer valor.

Planck era uma pessoa extremamente religiosa, naturalmente evangélica atendendo ao meio em que foi educado. Tal como nos outros exemplos históricos referidos atrás o enquadramento social revela-se determinante para a opção religiosa. De facto, Planck tem professores de Teologia na sua ascendência. Escreveu ele, em 1944, no final da sua vida, sobre a relação entre Deus e o mundo [10]:

Toda a matéria origina e existe apenas em virtude de uma força que leva a partícula de um átomo a vibrar e mantém coeso este sistema solar muito diminuto do átomo. Devemos supor por trás dessa força a existência de uma mente consciente e inteligente. Essa mente é a matriz de toda a matéria.”

Trata-se de uma afirmação mais ditada pela fé do que pela ciência. A sua fé não foi sequer abalada pelo desaparecimento trágico de dois filhos, o primeiro em combate na Primeira Guerra Mundial e o segundo na Segunda Guerra Mundial, fuzilado pela Gestapo por ter participado num atentado ao Fuehrer.

O suíço, mais tarde naturalizado norte-americano, embora tenha nascido na Alemanha, Albert Einstein (1879-1955) levou mais longe a ideia de Planck ao sugerir em 1905 que a luz não só era emitida e absorvida em quantidades discretas como existia em quantidades discretas, em grãos de luz ou fotões (que integram hoje o modelo-padrão). Necessitou dessa hipótese para explicar o efeito fotoeléctrico, hipótese que lhe valeu o Prémio Nobel da Física de 1921. Tal efeito consiste no arranque de electrões de uma placa metálica devido à incidência de luz suficientemente energética. Adiante serão expostos e discutidos as muito peculiares concepções de Einstein sobre Deus, que contrastam nitidamente com as de Galileu, Newton ou Planck, que acreditavam num Deus pessoal, isto é, uma divindade como está representada no Antigo Testamento que se relacionava directamente com os homens.

O físico dinamarquês Niels Bohr (1885-1962) deu o passo seguinte, um passo decisivo  para  compreender a constituição de toda a matéria, ao explicar os “saltos” energéticos na emissão e absorção de luz: ela resultava simplesmente das transições permitidas entre estados de energia dos electrões nos átomos. O modelo atómico de Bohr, segundo o qual os átomos são constituídos por núcleos no seu centro e por electrões ao redor deste, que data de 1913, valeu-lhe a atribuição do Nobel da Física no ano logo a seguir ao do Nobel de Einstein. Ficaram assim juntos nos anais dos prémios Nobel os dois maiores gigantes da Física do século XX.

Bohr não era uma pessoa religiosa, podendo ser considerado um ateu. Afirmou ele a propósito da religião em 1922, citado por Heisenberg [11]:

 “A ideia de um Deus pessoal é estranha para mim... mas devemo-nos lembrar que a religião usa a língua de uma forma bastante diferente da ciência ... [Ela] está mais intimamente ligada à linguagem da poesia. É verdade que nos inclinamos a pensar que a ciência lida com informações sobre factos objectivos e a poesia com sentimentos subjectivos. Assim, podemos concluir que, se a religião, de facto, lidasse com verdades objectivas, deveria adoptar os mesmos critérios de verdade que a ciência. Mas eu acho a divisão do mundo num lado objectivo e noutro subjectivo demasiado arbitrária. O facto de que as religiões através dos tempos terem falado por imagens, parábolas e paradoxos significa simplesmente que não há outras formas de compreender a realidade a que se referem. Mas isso não significa que esta não seja uma realidade genuína. E dividir essa realidade em lados objectivo e subjectivo não nos levará muito longe. É por isso que, no meu entender, os desenvolvimentos em física nas últimas décadas que têm mostrado os problemas de concepções como “objectivo " e "subjectivo" constituem uma grande libertação do pensamento.”

Bohr era, além de físico, um filósofo. Há até quem julgue que era mais filósofo do que físico.  Há, no trecho citado, uma tentativa filosófica de colocação da sua noção física de complementaridade dos aspectos de onda e de partícula conhecidos então para descrever os fenómenos luminosos  (a luz por um lado era uma onda que se espalhava pelo espaço, mas, por outro lado, era detectada como fotões) num contexto bastante mais vasto. Em 1924, a teoria quântica dava mais um salto quando um físico francês de ascendência aristocrática, Louis de Broglie (1892-1987), propôs que essa ideia da dualidade onda-corpúsculo já conhecida para a luz passasse também a ser aplicada às partículas de matéria, como os electrões (a ideia, logo aplaudida por Einstein, valeu a de Broglie o Nobel de 1929). Vivendo num país de maioria católica, a França, também ele seguiu essa religião, mostrando mais uma vez que a envolvência social e cultural é determinante na manifestação individual do fenómeno religioso. Apesar de ter integrado a Academia Pontifícia de Ciências,  não se alargou muito sobre  assuntos de religião. Num dos poucos excertos em que se refere a Deus, escreveu em 1941 [12]:

"Mesmo supondo a mais favorável das expectativas, que o amanhã sai do hoje de acordo com o jogo implacável de um determinismo estrito, a previsão de eventos futuros nas suas imensas densidade e complexidade vai infinitamente além de todos os esforços de que a mente humana é capaz e só seria possível a uma inteligência infinitamente superior à nossa. Portanto, mesmo que uma necessidade inexorável ligasse o futuro ao presente, poder-se-ia dizer que o futuro é um segredo de Deus.”

Um marco essencial na evolução das ideias físicas foi a escrita de uma equação matemática (Galileu tinha absoluta razão quanto à escrita matemática das leis naturais!) do físico austríaco Erwin Schroedinger (1887-1961). Foi ele que propôs, no ano de 1926, uma equação de onda, que lhe valeu o Nobel de 1933 por permitir descrever a dinâmica dos electrões no átomo. Embora tendo crescido e vivido num ambiente católico, Schroedinger foi obrigado a abandonar o seu país de origem, refugiando-se na Irlanda durante os anos da Segunda Guerra. Assumiu posições de ateísmo, um pouco na linha de Bohr, mas não deixou por isso de reconhecer, tal como Bohr, a necessidade de realidades exteriores à realidade material que é objecto do método da ciência, como revela este seu escrito de 1954 [11]:

 “Espanta-me muito a deficiência do quadro científico do mundo real à nossa volta. Ele fornece um monte de informações factuais, coloca toda a nossa experiência numa ordem magnificamente consistente, mas não nos dá mais do que um medonho silêncio sobre as pessoas que estão perto de nosso coração, que são o que realmente nos importa. Ele não nos diz uma palavra a respeito do amargo e do doce, do vermelho e do azul, da dor e do prazer físico, do belo e do feio, do bem e do mal, de Deus e da eternidade. A ciência às vezes finge que responde a perguntas nestes domínios, mas as respostas são muitas vezes tão idiotas que não estamos dispostos a levá-las a sério.”

Schroedinger acabou por ser sepultado na sua terra natal. O padre católico que deveria presidir à cerimónia fúnebre perdeu as hesitações que tinha quanto à realização dessa cerimónia quando lhe foi comunicado que Schroedinger, cuja vida pessoal não se regulava pelos cânones da moral cristã, era membro da Academia Pontifícia das Ciências.

Um contemporâneo de Schroedinger e autor de uma mecânica de matrizes alternativa (e, ao mesmo tempo, complementar) à mecânica das ondas de Schroedinger foi o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), o autor do famoso Princípio da Incerteza (1927) e o laureado com o Prémio Nobel em 1932 (de acordo com esse Princípio não se pode conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de um electrão com precisões absolutas). Heisenberg era um cristão evangélico, tal como Planck. Tal como este também permaneceu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Escreveu sobre a conciliação, que tinha conseguido na sua mente, entre ciência e religião [13]:

"Na história da ciência, desde o famoso julgamento de Galileu, tem sido repetidamente afirmado que a verdade científica não pode ser conciliada com uma interpretação religiosa do mundo. Embora eu esteja hoje convencido de que a verdade científica é inatacável no seu domínio próprio, nunca achei possível descartar simplesmente o conteúdo do pensamento religioso como parte de uma fase ultrapassada na consciência da humanidade, uma parte de que teríamos de desistir agora. Assim, no decurso de minha vida, tenho sido repetidamente obrigado a reflectir sobre a relação entre estas duas áreas do pensamento, uma vez que eu nunca consegui duvidar da realidade daquilo para que as duas apontam.”

O problema da interpretação das soluções matemáticas da mecânica das ondas e da mecânica das matrizes, dois formalismos que no fundo são equivalentes, foi resolvido pelo físico alemão Max Born (1882-1990), que forneceu em 1926 o significado da função de onda psi que entrava na equação de Schroedinger, fazendo jus ao prémio Nobel que haveria de receber em 1954. A sua ascendência judia pelo lado da mãe obrigou-o a emigrar para Inglaterra nos difíceis anos da guerra que a meio do século passado dilacerou a Europa. Born defendeu que as soluções da teoria quântica nos davam apenas probabilidades de ocorrências, em vez de certezas, abalando assim o determinismo que tinha sido herdado de Newton. Assim, não se podia conhecer a priori onde se localizaria o electrão numa experiência de medida. Pior: nessa experiência haveria um papel do observador sobre a coisa observada, que punha em causa as concepções filosóficas mais realistas. Born não professou a religião judaica, mas antes se converteu ao cristianismo evangélico por influência da sua esposa. Invocou o nome de Deus para comentar  a questão do abalo que a teoria quântica causou sobre o determinismo14]:

“Se Deus fez o mundo como um mecanismo perfeito, Ele dotou-nos de uma inteligência tão imperfeita que, para prever pequenas partes do mundo, não precisamos de resolver numerosas equações diferenciais, bastando-nos para sermos bem sucedidos nessa tarefa lançar dados”.

A interpretação probabilística da teoria quântica acabou por ser acolhida pela maioria dos físicos. Está no coração da chamada “interpretação de Copenhaga”, que Bohr proselitou. Mas isso não significa que não tenha encontrado opositores, alguns dos quais permanecem ainda na actualidade. Dois dos mais famosos foram, curiosamente, dois dos próprios criadores da teoria quântica, Einstein e Schroedinger. Se o primeiro, apesar de reconhecer o valor heurístico dessa teoria, acreditava que por detrás dela deveria haver uma teoria mais fundamental, o segundo detestou a ligação da probabilidade à sua função de onda, tendo até congeminado uma experiência mental (o chamado “gato de Schroedinger”) para desafiar a concepção probabilística.

Deus joga aos dados? Esta foi a pergunta a que Einstein respondeu instintivamente de um modo negativo [15]. Segundo ele, Deus não podia jogar aos dados num mundo que obedecia a leis matemáticas deterministas, tendo-se envolvido a esse propósito numa polémica com Bohr, que este viria a ganhar, pelo menos a avaliar pelo consenso que entretanto se estabeleceu na comunidade científica. Esse embate entre Einstein e Bohr foi um verdadeiro combate de titãs, que atingiu talvez o seu ponto alto na 5.ª Conferência Solvay, realizada em Bruxelas em 1927, quando o ateu Bohr respondeu ao panteísta  Einstein que este não podia dizer a Deus o que fazer! Einstein, ao afirmar que Deus não jogava aos dados, não estava a usar a palavra Deus no sentido corrente, judaico-cristão, apesar de ele próprio ter ascendência judaica (tendo abraçado a causa do sionismo), e de ter aprendido em criança os rudimentos do catecismo cristão. O sábio que explicou o efeito fotoeléctrico professava, de facto, uma religião muito peculiar [16], da qual talvez era o único seguidor,  inspirada no pensamento de Baruch ou Bento Espinosa (1632-1677), o filósofo judeu heterodoxo (foi mesmo proscrito da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão). O rabi de Nova Iorque perguntou em 1929 a Einstein, por telegrama, se ele acreditava em Deus  Respondeu  Einstein [17]:

Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na ordem harmoniosa de tudo o  que existe no mundo e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos.”

Ou, noutra ocasião [18]:

”Nós, seguidores de Espinosa, vemos o nosso Deus na maravilhosa ordem e submissão às leis de tudo o que existe e também na alma disso, tal como se revela nos seres humanos e nos animais. Saber se a crença a um Deus pessoal deve ser contestada é uma outra questão. Freud endossou essa visão no seu livro mais recente. Pessoalmente, eu nunca empreenderia tal tarefa, pois essa crença me parece preferível à falta de qualquer visão transcendental da vida. Pergunto-me se algum dia se poderá entregar à maioria da humanidade, com sucesso, um meio mais sublime de satisfazer as suas necessidades metafísicas”.

 Basicamente Einstein usava a palavra “Deus” para designar, de forma abreviada, o que podemos chamar harmonia do mundo, a ordem do Universo que  tão bem se expressa pelas equações que os físicos descobrem.  Perguntaram-lhe um dia  a Einstein se ele era uma pessoa religiosa. Poder-se-ia pensar que a resposta fosse negativa, uma vez que ele não era de forma nenhuma uma pessoa religiosa no sentido corrente do termo: nunca tinha, por exemplo, entrado num templo para rezar. Mas, pelo contrário, Einstein respondeu afirmativamente [19]:

“Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da Natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso” .

Hoje é com base nas teorias de Planck, Einstein, Bohr, de Broglie, Schroedinger, Heisenberg e Born que concebemos o Universo, propondo a partícula de Higgs que a Natureza, interrogada nas experiências do CERN, veio finalmente a revelar. Afinal no LHC, o grande acelerador do CERN onde foi descoberta a partícula de Higgs, o que se faz é procurar saber como era o Universo no seu início, há cerca de catorze mil milhões de anos, ao recriar em escala muito pequena do espaço e do tempo as condições de matéria e energia que existiram no Universo primitivo.

Os físicos contemporâneos, uns católicos, outros evangélicos, outros judeus (há um número poder-se-ia dizer anormal de judeus na física!), outros muçulmanos (menos), outros ainda ateus e agnósticos (uma tendência recente), prosseguem hoje trabalhos com vistas a dar respostas a questões de física de partículas e de astrofísica. Nenhum deles necessita de invocar Deus nas suas descrições e explicações. Deus não se vê com nenhum acelerador, por mais potente que este seja, nem com nenhum telescópio, por maior que seja a sua ampliação. Por vezes usa-se a palavra Deus, como Lederman fez, apenas como uma poderosa metáfora. Na linha de Galileu, os físicos, e em geral os cientistas, pensam que uma coisa é a ciência - a interrogação do mundo natural usando um certo método, que tantos e tão bons resultados tem fornecido – e outra é a religião – a busca do transcendente, dos mistérios que estão muito para além dos mistérios materiais. Ambas as actividades têm em comum o sujeito: o ser humano que, nos dois casos, se interroga. E ambas lidam com mistérios, embora de tipos diferentes. Mas fazem-no usando metodologias muito diversas e dando origem a avanços muito diferenciados. Que essas metodologias podem ser utilizadas pelo mesmo sujeito, embora obviamente não ao mesmo tempo, é exemplificado pelo sacerdote católico belga George Lemaître (1894-1966), que contribuiu para o desenvolvimento da teoria do Big Bang sem que isso tivesse algo a ver com o livro do Genesis.

De acordo com essa teoria, o nosso Universo não é eterno para trás: teve, como foi dito, um início. E, de então para cá, o espaço tem-se expandido e arrefecido. Pode-se perguntar, com inteira legitimidade: O que existia no início do Universo? O que havia antes de haver partículas de matéria e partículas de energia no espaço-tempo? Será que existia Deus, como defendia Santo Agostinho (354-430), fora do espaço e antes do tempo? Para muitos físicos é necessário ainda, na senda do que pensavam Galileu e Newton, um Deus criador. Acreditam num Deus que tudo possibilitou. Para outros bastam, a respeito do mundo material, as respostas que a ciência consegue dar. E a melhor resposta que a ciência pode dar neste momento às perguntas formuladas é que não se sabe o que existia no momento do Big Bang e que provavelmente nunca se saberá o que se passou antes, se é que se pode falar de antes, dada a prodigiosa energia cósmica dessa época primordial e que terá apagado qualquer informação anterior. De facto, pode dizer-se, ao procurar responder à pergunta sobre o “antes do início”, que não faz sentido falar de um antes do momento inicial, por não poder haver qualquer tempo antes do tempo. Apesar disso, muitos astrofísicos acreditam num tempo antes do tempo do nosso Universo, cujo tempo começou a contar no instante zero do Big Bang. É uma crença metafísica. Talvez essa crença não possa passar da metafísica para a física se não houver maneira científica de a provar. Seja como for,  a história do Universo após o instante que tomamos como inicial é uma sucessão de processos de auto-organização da matéria e da energia no palco do espaço-tempo: primeiro apareceram as várias formas de energia, possivelmente a partir de uma única forma primordial de energia (este era o sonho de unificação final de Einstein e é ainda hoje o sonho de muitos físicos); depois parte da energia transformou-se em matéria; e, a seguir, a matéria, feita de partículas com massa diferente (et voilà: aí está para que é preciso a partícula de Higgs!), foi-se agrupando por acção de forças diversas, isto é, trocando partículas de energia distintas. Assim se foram formado estruturas como protões e neutrões, os núcleos atómicos, os átomos, as moléculas, etc.  E, ao fim de um processo muito demorado de evolução natural, cá estamos nós, seres humanos  num pequeno planeta de uma estrela média, numa galáxia vulgar, que não passa de um amontoado de estrelas entre inúmeros outros, a interrogar-nos sobre as leis do mundo natural e as suas consequências filosóficas. E também, pelo menos alguns de nós, a interrogar-se, num plano indiscutivelmente distinto, sobre Deus e o divino.

BIBLIOGRAFIA:
[1] Leon Lederman and Dick Teresi, The Gods Particle, Nova Iorque: Dell Publishing, 1993.
[2] Carlos Fiolhais, Em Busca de Sentido : Ciência e Religião, in  Secretariado Diocesano da Evangelização e Catequese. Em busca de Sentido: Ateísmo e Crença na Construção da Pessoa que Ama,  Gráfica de Coimbra 2, 2011.
[3] Galileu Galilei, Ciência e fé, S. Paulo, Editora UNESP, 1998, 2.ª edição, 2009.
[4]  L'Osservatore Romano, nº. 44, 1264, 4 de Novembro de 1992.
[5] Gianfranco Ravasi, Breve História da Alma, Lisboa: Dom Quixote, 2011.
[6] http://pt.wikiquote.org/wiki/Planeta (consultado em 1 de Abril de 2014)
[9] Carlos Fiolhais, Nova Física Divertida, Lisboa: Gradiva, 2007.
[10] http://en.wikiquote.org/wiki/Max_Planck (consultado em 1 de Abril de 2014)
[11]  Werner Heisenberg, Diálogos sobre Física Atómica, Lisboa: Verbo, s.d.
[12] http://atheisme.free.fr/Citations/Avenir.htm (consultado em 1 de Abril de 2014)
[13] Erwin Schroedinger, A Natureza e os Gregos, Lisboa: Edições 70, 1979.
 [14] http://en.wikiquote.org/wiki/Max_Born (consultado em 1 de Abril de 2014)
[15] Carlos Fiolhais,  A Matemática e a Física do Azar, Revista Portuguesa de Psicanálise 29 [2] (2009) 121-128.
[16] Carlos Fiolhais, Einstein e a Religião,  Estudos do Instituto Justiça e Paz, 2005. (consultado em 1 de Abril de 2014)
[17] Alice Calaprice (coordenadora), The New Quotable Einstein, Princeton: Princeton University Press, 2011, p.325
[18] http://www.einsteinandreligion.com/spinoza2.html (consultado em 1 de Abril de 2014)


sábado, 29 de novembro de 2014

Porque não se acaba de vez com a profissão docente?

Fotografia reproduzida daqui.

A fotografia acima reproduzida - publicada no jornal Correio da Manhã de 19 de Outubro do presente ano - traduz exactamente a maneira como eu imaginei o papel do professor nas aulas onde entrarem os tablets, com conteúdos previamente programados por tecnólogos.

Esse papel será, como, em linguagem "pedagógica" há muito tempo se diz, de (mero) gestor, guia, orientador... Será isso, mas não será de professor.

Trata-se de um papel que, de modo recorrente, é imposto aos professores, sendo que muitos o aceitam e o defendem.

Sem recuar muito no tempo, encontramo-lo:
- nos "pacotes didácticos à-prova-de-professor", "inventados", nos anos sessenta, nos Estados Unidos da América e difundidos com grande rapidez por vários países;
- nas velhinhas "máquinas de ensinar" e, depois, no "ensino assistido por computador";
- nos actuais manuais escolares, que, quais "pacotes didácticos", incluem tudo o que é preciso para aprender;
- agora, nos novos equipamentos que são os computadores portáteis, os quadros interactivos, etc.

E, repare bem o leitor: todas estas alternativas que, com a apregoada supremacia de recursos - os quais, dependendo da época, podem ser em papel ou digitais - afastam o professor da sua função de ensinar, são acompanhados da promessa de sucesso educativo garantido.

Note a subtileza do que se encontra implícito no artigo de onde retirei a imagem (aqui): se mantivermos o professor (apenas e só) como intermediário entre os recursos e os alunos, se ele deixar de ser verdadeiramente professor, todos os alunos aprenderão tudo. Assim teremos o céu na terra!

É lamentável que uma sociedade aceite esta ideia e a confirme.
É lamentável que cientistas, tão eruditos como os que se referem na notícia do jornal a que me refiro e muitos outros que tenho ouvido, a promovam.
E, mais lamentável é que haja escolas e professores estejam alinhados por ela e ajam de acordo com ela.

Sociedade, cientistas, escolas, professores, toda a gente deveria perceber que o professor é um profissional intelectual cujo mandato é ensinar. 

Isto significa que, face às directrizes e orientações da tutela e da escola, tem por dever filtrar e organizar o conhecimento, aferir os objectivos e dar-lhes sentido, seleccionar os métodos e os recursos que comprovadamente são mais adequados à aprendizagem...

Este trabalho - sim é um trabalho -, que requer uma enorme competência, precisa de ser feito para todas as disciplinas e/ou temáticas que lecciona, tendo em conta, sobretudo, as turmas, os grupos de alunos e os alunos individualmente.

Um professor é um decisor: alguém que, a partir do que se encontra determinado superiormente, tem a obrigação de escolher, em liberdade e com sentido de responsabilidade, de entre as possibilidades de acção aquela que, num determinado momento, se afigura mais adequada na concretização do que é o Bem em termos de educação formal.

Negar-se esta faceta ao professor, que é a matriz da sua função, é negar a sua existência.
Mais honesto seria acabar-se, de vez, com esta profissão!

(Este texto tem continuação aqui).

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

LIVROS NOVOS DA GRADIVA


Informação, recebida da Gradiva, sobre as novidades,  que essa editora publicará durante o mês de Novembro.


Começam a ouvir-se vozes a elogiar a acção de Álvaro Santos Pereira. Dada a «barreira» feita às suas lúcidas e corajosas iniciativas reformadoras e modernizadoras, muitos dos leitores deste livro irão ficar surpreendidos seguramente com o que este ministro independente, formado numa cultura estrangeira, fez e deixou preparado em tão pouco tempo. O que fez no governo Álvaro Santos Pereira e deixou para ser concluído? Que interesses e lóbis teve de enfrentar? Porque acabou por ter de sair?

«Fora de Colecção», n.º 432, 424 pp. €14,00


Jorge Buescu mostra-nos como são ténues as fronteiras entre a liberdade e a fraude na ciência do séc. XXI. Mas não só: da primeira mulher galardoada com a Medalha Fields aos primos gémeos, do número de Deus ao matemático que ditou as tendências da moda Outono Inverno em 2010, as histórias que a matemática nos reserva não deixam de surpreender. Uma leitura tão informativa quanto divertida, a provar que a ciência pode ser lúdica.

«Ciência Aberta», n.º 210, 232 pp. €12,00


Especialistas de renome internacional discutem problemas decisivos para a existência e o seu sentido: entre outros, a situação religiosa do mundo actual, questões relacionadas com a genética, o animalismo, as neurociências, o trans-humanismo, a natureza e a criação, a ética e a sua autonomia frente à religião, Deus no Ocidente e Deus no Oriente, o rosto feminino de Deus, a fé, a ciência e a razão. Um livro de crentes e não  crentes para crentes e não crentes que tenham, em comum, o gosto pelo debate desassombrado.

«Fora de Colecção», n.º 428, 336 pp. €15,00


Da filosofia moral e política à filosofia da arte e da religião, da teoria do conhecimento à filosofia da ciência e à lógica, os autores apresentam-nos alguns dos problemas, teorias, argumentos e conceitos que constituem o núcleo da reflexão filosófica e que somos incentivados a analisar e discutir. Leitura indispensável em escolas e universidades, para professores e alunos.

«Filosofia Aberta», n.º 26, 312, €14,00


«Lemos os poemas de  Yao Feng com o fascínio do encontro com uma tradição poética em que a imagem cristaliza na palavra, e aí ganha a pulsação que reduz ao essencial o gesto e o verso. E também com a surpresa de uma modernidade que nos faz ver o nosso mundo numa outra perspectiva. [...]»

Nuno Júdice

«A beleza não tem país nem cultura. O amor, o ódio, a raiva ou a amizade também não. É, por isso, comovente o momento em que temos a oportunidade de ler um poeta de uma civilização tão distante da nossa, mas que tão perto nos fala ao coração.»

Carlos Morais José

«Fora de Colecção», n.º 427, €18,00


«Aquele que quer mudar o rumo da sua vida deverá começar por mudar as ideias que tem sobre si e sobre o que lhe acontece.» Escrito com a simplicidade do saber mais profundo, Serenamente oferece ao leitor alguns momentos de serena e gratificante revisão de conceitos.

«Fora de Colecção», n.º 431, 180 pp. €10,00

Enquanto dormes, sucedem centenas de coisas curiosas e divertidas relacionadas com a Terra, o espaço, a tecnologia, os animais e a natureza em geral, a cultura popular, o desporto, o corpo humano e muito, muito mais. Leitura obrigatória para espíritos curiosos, jovens e menos jovens...

«Gradiva Júnior», n.º 144, 224 pp. €14,00

Os livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 29 de Novembro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

FALE COM UM VERDADEIRO NEUROCIENTISTA DE GRAÇA


Ainda a propósito do Dispenzagate: no sábado, um grupo de neurocientistas irá estar disponível para falar com quem quiser a propósito de neurociências e explicar porque a conferência no hotel do outro lado da rua é pseudociência.

Os neurocientistas a sério falam de graça com quem quiser , ao passo que o falso neurocientista, Dr. Joe Dispenza (quiroprático, doutorado pela Life University), cobra 450€ à entrada no hotel em frente.

LUZ POR TODO O LADO


Meu artigo no último As Artes entre as Letras:

Fiat lux! No início foi a luz por todo o lado, a luz que vai ser celebrada ao longo de 2015 – Ano Internacional da Luz.  A luz é o nome genérico que podemos dar ao campo unificado, incluindo o campo electromagnético que é em vibração a luz propriamente dita, que deve ter preenchido todo o Universo a partir do momento inicial do Big Bang, há cerca de treze mil milhões de anos.

Pouco depois desse instante fundador, essa luz começou a transformar-se em  partículas: os quarks, os electrões e os neutrinos, as partículas que hoje supomos fundamentais de que afinal tudo no nosso mundo é feito. Sim, não há nada conhecido no mundo material que não seja feito de quarks, electrões e neutrinos. Os quarks e os electrões têm carga, positiva ou negativa (os electrões são só negativos), o que basta para poderem trocar luz entre eles, assegurando a sua relação (por exemplo, os electrões repelem-se entre si, mas já são atraídos por quarks positivos). Em escassos três minutos, os primeiros três minutos, passaram a existir núcleos atómicos, que são conjuntos de agregados de três quarks (os protões e os neutrões, os primeiros carregados positivamente e os segundos neutros, como o nome indica). Mas foi preciso esperar 300 000 anos para que se formassem por todo o lado do Universo os primeiros átomos, os átomos dos elementos químicos mais leves – principalmente, hidrogénio e hélio.

Esse processo ocorreu quase instantaneamente, quando o Universo, a expandir e a arrefecer desde o seu início, chegou a uma temperatura em que era preferível aos electrões, negativos, “casarem-se” com os núcleos atómicos, positivos, para formar os átomos, que são neutros. Os átomos podem emitir ou absorver luz, com desexcitação ou excitação dos electrões em torno dos núcleos, mas apenas luz de certas energias (este é um conteúdo essencial da teoria quântica que explica com enorme êxito a estrutura atómica). O Universo passou então e de repente de uma situação em que era completamente opaco – a luz era emitida e recolhida, não podendo progredir muito – para uma situação em que a luz se podia propagar indefinidamente: passou a ser transparente. Desse momento ficou por todo o Universo uma radiação que hoje está na banda das microondas mas que já teve menor comprimento de onda (o comprimento de onda está associado à energia, a radiação num universo mais frio é menos energética). Chamamos a tal “fóssil” que ficou do momento da formação dos átomos “radiação cósmica de fundo”. Vivemos no interior dessa radiação, que é inescapável: o universo é um gigantesco “banho” de microondas. Como as microondas são uma forma de luz, embora invisível, existe luz por todo o lado.

Mas no céu há também pontos que, sendo emissores de luz visível, nos maravilham os olhos. As câmaras fotográficas que são os nossos olhos desenvolveram-se, ao longo do lento percurso da evolução biológica, para aproveitar ao máximo a luz que a nossa estrela emite em maior quantidade. Outras estrelas emitem luz como o Sol, ou de modo parecido com o Sol (algumas surgem-nos com outras cores, por exemplo vermelhas ou azuis, por serem mais frias ou mais quentes do que o Sol). Tanto o Sol como as outras estrelas emitem, além de luz visível, luz invisível, luz infravermelha, luz ultraviolenta, microondas e ondas de rádio, raios X e raios gama.  Toda essa luz é radiação electromagnética, sendo a única diferença o seu comprimento de onda: as microondas têm um comprimento de onda maior do que a luz visível. Felizmente que a nossa atmosfera filtra as radiações mais perigosas como os raios X e os raios gama (de outro modo, não estaríamos aqui a contemplar as estrelas!). Algumas das estrelas maiores – as chamadas supergigantes vermelhas – explodem violentamente espalhando o seu invólucro pelo cosmos e deixando à vista o seu caroço. Naquilo que espalham estão os núcleos mais pesados, aqueles que só podem ser feitos nas estrelas, como é o caso do carbono, que entra profusamente nas moléculas de que somos feitos tal como toda a vida tal com o a conhecemos e, nesse sentido, somos “filhos das estrelas”. O que está lá dentro da supergigante vermelha que explodiu, uma explosão conhecida por supernova?  O caroço se for suficientemente denso poderá ser um buraco negro, um abismo do espaço-tempo (o espaço, ensinou-nos Einstein, está ligado ao tempo, assim como a matéria está ligada à energia) de onde nada sai, nem sequer a luz. É, de resto, por a luz não poder sair desse buraco, mas só entrar nele, que se chama buraco negro. No cosmos vem luz de todo o lado, excepto dos buracos negros.

No  filme recentemente estreado em Portugal Interstellar da autoria do realizador anglo-americano Christopher Nolan e que beneficiou da ajuda do físico norte-americano Kip Thorne como conselheiro científico, desempenha um papel determinante no enredo um buraco negro gigante chamado Gargântua, nome dado pelo escritor francês quinhentista François Rabelais a um gigante num seu romance. De facto, para além de sabermos que os buracos negros existem uma vez que existem suficientes provas da precipitação de matéria e de energia sobre esses sorvedouros cósmicos, não sabemos muito sobre buracos negros. Não há, felizmente, nenhum nas proximidades no nosso sítio da Galáxia (ou Via Láctea), embora se pense que deva haver um, e bem grande, no centro dela, em torno do qual o nosso Sol circula. Podemos, portanto, especular sobre viagens para o interior do buraco negro, não sendo o referido filme a primeira vez em que isso é feito. Tanto quanto sabemos tal representa o fim do viajante. Sentirá forças gravitacionais terríveis e será literalmente amassado logo que passe o horizonte, ou circunferência de não retorno, na periferia do buraco negro. Mas há quem especule que do outro lado do buraco negro pode existir uma saída: um buraco branco. Se um buraco negro é um sítio onde tudo entra, um buraco branco é um sítio de onde tudo sai. A junção de um buraco negro com um buraco branco seria uma espécie de túnel no espaço-tempo, um atalho no nosso Universo ou quiçá a passagem de um Universo para outro. Não havendo dados que permitam fundamentar conclusões científicas, a ficção  é perfeitamente livre. O filme Interstellar é boa ficção científica, pois atende à ciência naquilo que pode de uma forma assaz inteligente, mas larga-a quando a entende largar, dando espaço à fantasia do argumentista.

Os buracos brancos existem? De certo modo, vivemos no interior de um. O Universo criado pelo Big Bang é uma boa exemplificação de um buraco branco. O surgimento primeiro da luz e depois da matéria em todo o lado ilustra o conceito de buraco grande. E o que existiu antes do buraco branco? Será que existiu um Universo anterior que colapsou num buraco negro, dando origem ao buraco branco que é o nosso Big Bang?  Boas perguntas para as quais não temos hoje respostas. Mas muito provavelmente, nunca teremos respostas para elas. Há questões que os seres humanos, baseados no seu conhecimento científico do mundo, podem colocar e às quais será talvez impossível encontrar respostas. Como escreveu William Shakespeare no Hamlet: “Há mais coisas, Horácio, no céu e na Terra do que sonha a tua filosofia”.

CARLOS MOEDAS, O "FACILITADOR"

Manuel Castro Almeida, secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, membro de um governo que está a destruir a ciência nacional, acha que Carlos Moedas é que nos vai salvar, "facilitando" a obtenção de verbas. Acontece que não tem esse poder de favorecimento do país da sua nacionalidade.
Há uma componente europeia da ciência, que Moedas superintende, para a qual Portugal paga mais do que recebe. A mudança dessa situação não está à vista: pelo contrário, a "avaliação" em curso vai piorar a competitividade do sistema científico-tecnológico nacional, ao diminuí-lo de uma forma drástica (cortando para cerca de metade). E há uma ajuda europeia a Portugal ao desenvolvimento regional, onde a ciência poderá entrar. Aí as regras não são nada claras e seria bom que Castro Almeida as esclarecesse.

CARTA ABERTA EM DEFESA DA CIÊNCIA CONTRA FALSO NEUROCIENTISTA


Um grupo de neurocientistas escreveu uma carta aberta em defesa da ciência, partindo da sua indignação com uma conferência de um falso neurocientista, que têm entrada bem paga (450€) e que irá decorrer em Lisboa no final do mês.

Para ler e assinar aqui:


Eu já assinei, claro! Se concordarem, assinem e divulguem.

Maria Campaniça...

Acabei de saber que o Cante (ou Canto) Alentejano foi declarado, pela Unesco, como Patrimínio Imaterial da Humanidade e lembrei-me de Manuel da Fonseca, da sua Maria Campaniça...

Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
mas o jeito de mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!

Manuel da Fonseca (1984). Obra poética. Editorial Caminho, página 66

SÓCRATES? E NÓS?

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Já foi quase tudo dito sobre José Sócrates. Que me ocorre dizer sobre José Sócrates? Em 6 de Maio de 2011, escrevi no Público sobre ele um dos meus escritos mais contundentes ("O grau zero da política"), uma peça que foi interpretada como favorecendo a ascensão de Pedro Passos Coelho ao poder (é claro que eu já temia que vinha aí algo de mau, mas pior teria sido manter José Sócrates, como o PS queria).  Eu, tal como João Miguel Tavares no Público de hoje, não sou juiz e não o vou julgar no plano jurídico. Sou apenas um cidadão que vê e comenta a vida pública. Já o julguei no plano político. Quanto ao resto não sei, mas verifico que há numerosos casos duvidosos que ele não esclareceu. Oxalá Sócrates estivesse inocente e se pudesse daqui por uns tempos diluir (apagar será impossível) a mancha na democracia portuguesa causada pelos numerosos casos controversos em que o nome do antigo primeiro-ministro esteve e está envolvido. Mas, dados os notórios rabos de palha deixados, tudo indica que tal será difícil senão mesmo impossível.

O que há a fazer?  Esperar que a justiça siga o seu curso, pedindo-lhe se possível mais rapidez do que a costumada. E, como todo este caso, queiramos ou não, tem óbvias consequências políticas, tanto para o PS que esteve no governo  como para o PSD e CDS que actualmente estão (um governo muito afectado, lembremos, por um presumível caso de corrupção ligado com os vistos gold, que levou à demissão de um ministro, para já não falar do resto), esperar que os partidos, todos os partidos, façam a regeneração que conseguirem fazer e, nesse processo, se protejam - e, acima de tudo, nos protejam - do terrível vírus da corrupção.

A possibilidade de renovação, nos partidos e nos governos, é uma das grandes virtudes da democracia. António Costa, que vai ser muito provavelmente o futuro primeiro-ministro, recebe sem ter feito nada por isso uma importante ajuda com o caso Sócrates. Assim ele perceba que este caso deve ter consequências internas, de modo a aumentar a credibilidade do PS (Mário Soares lamentavelmente não percebeu). O PSD e o CDS estão nos dias que correm descredibilizados. E o PS, para que haja confiança no próximo governo e esperança na democracia, tem de aumentar o seu merecimento de crédito. Pedro Passos Coelho subiu ao poder porque já ninguém acreditava em José Sócrates. Não foi tanto o mérito seu mas mais a falta de mérito do seu predecessor. António Costa não deveria subir ao poder apenas porque já ninguém acredita em Passos Coelho.

O PORTUGUÊS CONFUSO DE PEDRO PASSOS COELHO


Os políticos não são todos iguais. Pedro Passos Coelho é pior do que a média deles em diversos aspectos, designadamente o uso da língua portuguesa. No que diz respeito à ciência, continua a dispensar um assessor que lhe escreva um discurso, improvisando de forma destemida. Ontem, na entrega de prémios da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, dirigida pelo seu correligionário Pedro Santana Lopes, disse:

“Se todos têm presente as grandes dificuldades por que passámos nestes anos, já envolve uma certa opção de natureza política ter feito com que a área da ciência tivesse sido menos afectada.”

Ter feito com que tivesse sido? O resto é do mesmo estilo. Sobre a ridícula "avaliação" da ciência nacional, ainda em curso, não se pronunciou. Claro que, acima de Nuno Crato, ele é o responsável. O Reitor da Universidade de Lisboa, na devida altura, já lhe solicitou uma intervenção. E os reitores de todas as Universidades, se Nuno Crato não lhes responder, vão ter de escrever a Passos Coelho.

DEUS NA ERA DA CIÊNCIA



(clicar para ver melhor)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Visão e percepção da realidade

Quem passa na zona da Porta Férrea nota que está em obras, mas é curioso que o tapume com a imagem da zona intervencionada não pareça, à primeira vista, tão falso como numa fotografia. 

A nossa visão é selectiva e incompleta e o nosso cérebro tem de fazer uma operação de engenharia inversa, procurando resolver em pequeníssimas fracções de segundo um problema com mais variáveis do que dados, preenchendo as lacunas e resolvendo as incoerências, a partir de imagens familiares ou plausíveis. Por isso somos muitas vezes enganados, mesmo achando ter claramente visto

A Lua junto ao horizonte parece muito maior, mas se a fotografarmos ou se medirmos o seu diâmetro acaba-se a ilusão (embora no segundo caso o nosso cérebro se recuse a mudar de opinião). Há dezenas de ilusões ópticas que nos enganam, confundem ou que nos conduzem a  imagens ambíguas sobre as quais não conseguimos decidir algum aspecto. Distâncias iguais que nos parecem diferentes, relevos que não existem mas que vemos, volumes que variam entre côncavos e convexos, olhos que nos perseguem, cores enganadoras, e tantas outras ilusões que são exploradas pelo acaso, pela arte e pela publicidade, muitas vezes para nos enganarem.

O céu é mais violeta que azul, mas nós vemos melhor o azul. Uma cor que julgamos ver poderá afinal ser outra, ou porque o nosso cérebro se enganou ou porque fomos enganados. O nosso cérebro gosta de regularidades e narrativas com pormenores. O catálogo das ilusões cognitivas é enorme. A nossa percepção dos riscos é enganadora. Uma memória pode formar-se a partir de uma ilusão. O inverossímel impostor Tom Castro de Borges pode não ser assim tão inverossímil. E as primeiras impressões são frequentemente as melhores porque o nosso cérebro, provavelmente, não quer mudá-las. O testemunho é a prova rainha em direito, mas também a mais falível. As evidências podem ser muito fortes, mas podemos continuar a acreditar nos nossos preconceitos.

 Nalguns caso a nossa visão e percepção da realidade melhoram com a consciência da ilusão e com o treino, noutros não. Quando voltarmos a olhar o painel este vai parecer-nos mais falso, mas a Lua junto ao horizonte não muda de tamanho. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA-MAR (4)

Estuário do Tejo (conclusão) 
Fragatas do Tejo (Frederico Ayres, 1887-1963)

O estuário do Tejo, como hoje se nos apresenta, sucedeu a uma situação anterior (no Pliocénico) definida como um sistema múltiplo de canais anastomosados, com uma ampla foz na que é hoje península de Setúbal. Este sistema pode mesmo ter tido uma divergência para sul da cadeia da Arrábida, espraiando-se também na planura que é hoje ocupada pelo estuário do Sado. Nesta eventualidade, muito provável, a Arrábida terá sido como que uma ilha a dividir e a separar a drenagem do pré-Tejo [1] em dois ramos divergentes um, a norte, desta jovem montanha e outro, a sul, para o qual convergia, de sul para norte, a drenagem da região não muito diferente da actual bacia do Sado.

Entre Muge (a 80 km da foz), limite da subida das marés, e Vila Franca de Xira (a 40 km da foz) corre água doce. Entre Vila Franca de Xira e Cacilhas alarga-se o troço o rio penetrado pela água do mar, no chamado Mar da Palha, com água salgada salgada, entre 5 e 25 gramas por litro. Para jusante de Vila Franca de Xira até Alhandra há, actualmente, um único canal activo [2], com largura média de 0,5 km, até Alverca, onde se inicia um delta interior, com vários mouchões, alongados na direcção do rio, separados por esteiros (canais de maré ou calas), dos quais se distinguem, por mais importantes, o da Póvoa, o da Lomba do Tejo, o das Barcas e o de Alhandra.
Estuário do Tejo
A margem esquerda do rio, no troço do Mar da Palha, é caracterizada pelo grande desenvolvimento de sapais [3] com reentrâncias na desembocadura de algumas ribeiras, nomeadamente no Montijo, no Barreiro e no Seixal, onde se verifica intensa sedimentação silto-argilosa (vasosa). A flutuação, por vezes abundante, de fragmentos de plantas herbáceas (palhas) neste alargamento do estuário é a razão do nome popular pela qual é referido.

Uma outra particularidade desta margem é a ocorrência de praias e de restingas de areias, a que se seguem para o interior extensos rasos de maré areno-vasosos. A importância desta unidade interior do estuário, em termos de conservação da Natureza, levou à sua classificação como “Reserva Natural do Estuário do Tejo” (Decreto-Lei nº 280/94, de 5 de Novembro), com uma Zona de Protecção Especial (ZPE) criada em 1995, visando, sobretudo, a conservação de aves selvagens. Finalmente e para jusante, uma terceira unidade, o já citado gargalo do Tejo, também conhecido por corredor, alonga-se entre Cacilhas e a Cova do Vapor, frente a Paço de Arcos, com o comprimento de 11 km.
Visão aérea do  gargalo do Tejo e do Mar da Palha

A largura deste último troço do rio varia entre um mínimo de 1,8 km, frente a Alcântara, e um máximo de cerca de 4 km, na foz. O alargamento na abertura ao mar é acompanhado pela diminuição da profundidade para oeste, em direcção a um leque de dejecção submerso, com cerca de 10 km de raio, constituído por material arenoso trazido pelo rio e, aí, sujeito à ondulação e às correntes de maré.

A margem direita do estuário foi intensamente modificada com aterros e paredões das actividades portuárias. Da fisiografia natural deste lado do rio, restam hoje as praias e alguns troços de arriba para jusante de Algés.

Em 1967, Ricardo de Oliveira, do LNEC, usou pela primeira vez em Portugal o estudo sistemático dos “minerais pesados” [4] no estudo dos sedimentos, confirmando a origem fluvial dos que se depositam no estuário, a partir das formações sedimentares da Bacia Cenozóica, com particular relevância para os depósitos pliocénicos e quaternários da área imediatamente envolvente. Chegados ao estuário, estes sedimentos são retomados pelas correntes de maré em função das características energéticas dos vários sectores do fundo: areias nas directrizes com maiores intensidades das correntes e lodos nos sectores mais calmos. Estas vasas lodosas são ricas em matéria orgânica dos seres que ali têm o seu habitat, em restos de vegetais e, ainda, em produtos dos efluentes urbanos e industriais.

Em situações de maiores caudais (por ocasião de cheias), há ejecção de sedimentos fluviais directamente no mar. Parte destes materiais (areias médias a grosseiras) ficam depositados na plataforma continental, ao largo da foz, e outra parte (areias mais finas) dirige-se para os fundos oceânicos através dos canhões submarinos de Cascais e de Lisboa.

A componente essencialmente argilosa afasta-se para o largo, em suspensão, sob a forma de plumas túrbidas. No que se refere aos sedimentos de origem marinha, estes têm penetração apenas no gargalo, não indo além de Cacilhas. A instalação local de equipamentos portuários, centros de actividade piscatória, salinas (marinhas de sal), moinhos de maré, extracção de areias, urbanizações, aterros e outros, à distância, como barragens, têm vindo a influenciar a dinâmica do estuário.

Notas 
[1] Com uma grande bacia para nordeste. A designação pré-Tejo foi introduzida, em 1935, por Orlando Ribeiro. 
[2] Existiram outros no período histórico.
[3] Áreas muito planas, sujeitas à penetração das marés – rasos de maré – funcionando como vaseiros, isto é, com sedimentação vasosa (lodosa), e vegetação herbácea tolerante ao sal e, daí, a designação de salgados, também usada localmente. Brejos é, aqui, outro termo usado para referir este tipo de terrenos alagadiços ou pantanosos. Sapal do Alfeite, Salgado de Corroios e Brejos de Azeitão são exemplos da toponímia local influenciada por estes aspectos da fisiografia do rio. Com o mesmo sentido conhecem-se, ainda, os termos sapa, sapeira e tremedal.
[4] Minerais com densidades superiores a 2,85 e constituintes da fracção arenosa que, embora ocorram em percentagens mínimas, são particularmente úteis na pesquisa das proveniências das areias. 
A. Galopim de Carvalho

Prémio Cervantes

Juan Goytisolo ganhou o prémio Cervantes. Em conversa com alguns amigos, coloquei-o até entre os favoritos ao Nobel Da Literatura deste ano.

Lamento que as grandes livrarias deste país prefiram encher-se com os nebulosos prémios Leya e com os denominados best-sellers, em vez de traduzirem grandes escritores. Por exemplo, o romance Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, tem alguns pontos em comum com o romance de Carson Mcllures, The Heart is a Lonely Hunter. António Lobo Antunes tem razão ao ignorar o prémio Leya, mas esconde os seus motivos.

Deixo o poema "Palabras para Julia"  do poeta José Agustín Goytisolo, irmão de Juan Goytisolo.


 
 
P.S: Por regra não respondo a anónimos.
Eu não acusei o N.Camarneiro de plágio.   

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

As peripécias de um matemático português que inventou um pseudo-artigo científico




Pré-publicação de "Primos gémeos, triângulos curvos" (Gradiva, 2014) no Público de hoje. 

As peripécias de um matemático português que inventou um pseudo-artigo científico

Escrito por um matemático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, chega às livrarias esta segunda-feira, dia 24, um livro de histórias de matemática. Na primeira, o autor conta como criou umalter ego e inventou um pseudo-artigo totalmente absurdo – que acabou por ser aceite para publicação por várias revistas desde que fosse pago –, para expor as fraudes das editoras científicas de livre acesso.
O matemático português Jorge Buescu MIGUEL MANSO
Fazer investigação e atingir resultados inovadores e significativos na área em que se trabalha não é fácil. Quando se aborda um problema, há que conhecer toda a literatura relevante — e também uma grande quantidade de literatura irrelevante: com frequência, as melhores ideias para o atacar surgem não dos caminhos já trilhados por dezenas de investigadores, mas pela centelha de uma ligação inesperada entre dois campos à primeira vista não relacionados.
Todo o percurso é cheio de falsas partidas, hesitações e becos sem saída. Mas, de vez em quando – alegria suprema! – atinge-se um resultado novo e relevante.
É altura de o dar a conhecer à comunidade científica o mais rapidamente possível. Por outras palavras, supe­rada a parte árdua, atinge-se a parte simples: publish or perish. Publicar ou perecer.
A ideia de Open Access parece, à primeira vista, excelente. É a democratização final do acesso à in­formação. Ninguém mais irá ficar excluído da ciência por não ter meios. Toda a informação está na Web. As universidades africanas podem não ter os laboratórios de bioquímica mais avançados do mundo, mas têm acesso aos resultados dos mesmos.

Para isso, há que escrever um artigo de acordo com os cânones da comunidade científica e submetê-lo para publicação a uma das revistas internacionais da especialidade. O artigo será então avaliado por espe­cialistas (peer review), que farão relatórios anónimos sobre o artigo, ditando o seu destino: aceitação simples, aceitação sujeita a alterações ou rejeição. Finalmente, depois de um período que pode demorar muitos meses (o autor teve um caso em que o processo durou dois anos), o artigo é aceite e publicado.

O processo de peer review, apesar de introduzir um atraso considerável no processo de publicação, desem­penha uma função essencial na validação dos resultados científicos. A revisão e aprovação pelos pares é a única ferramenta que os editores de revistas científicas pos­suem para caucionar a qualidade de um artigo.

O modelo Open Access, concebido para democratizar o acesso à informação, acaba por criar distorções que anteriormente não existiam. Imaginemos um mundo só com revistas OA. Quem publica? Quem tem dinheiro à partida; as universidades mais ricas vão publicar mais do que as mais pobres. O que vai acontecer a um matemático talentoso numa universidade sem recursos? Provavelmente nunca conseguirá publicar nada, mesmo que tenha trabalhos excepcionais.

E assegurar a qualidade dos artigos publicados numa revista é crucial para todos – editores, autores e cientistas. Para os editores, porque as revistas de excelência são mais lidas e portanto têm mais valor comercial. Para os autores, porque pela mesma razão lhes proporcionam maior visibilidade e mais citações por outros cientistas. Para os próprios cientistas, por­que existindo centenas de publicações científicas na sua área, há que fazer uma selecção do que ler – e a qualidade é o melhor critério.

De facto, as revistas mais importantes de todas as áreas científicas estão classificadas num rankingmundial – chamado ISI – que mede a sua qualidade de acordo com várias métricas. A mais frequente é o chamado “factor de impacto”, que mede número de vezes que os artigos publicados nessa revista são posteriormente citados na literatura da área.

Fiz uma experiência radical de fraude científica. Criei um alter ego académico com um nome desconhecido (Prof. Dr. Jürgen Ucseub, o meu nome próprio em alemão e o apelido escrito de trás para a frente). Dotei-o de existência virtual, criando para ele uma conta no gmail. 

É claro que as revistas científicas de excelência, sendo extremamente especializadas, são também extraordina­riamente caras. Assim, uma universidade ou instituto de investigação tem, por um lado, de dispor de grandes verbas para ter uma boa biblioteca científica, e, por outro, tem de seleccionar as revistas que vai assinar em cada ano. 

Num certo sentido, este processo pode ser entendido como pouco “igualitário”: uma universidade rica, com bibliotecas e laboratórios muito bem equipados, vai atrair os melhores alunos, que serão os melhores cientis­tas, que publicarão mais, atraindo mais financiamento. As instituições mais ricas serão cada vez melhores e as instituições mais pobres cada vez terão menos recursos. 

Foi neste ponto que, há um quarto de século, surgiu a Internet. E tudo mudou. 

Como nos podemos defender das “editoras predadoras”? A expressão foi cunhada em 2012 por Jeffrey Beall, professor e director da Biblioteca da Universidade do Colorado em Denver e, provavelmente, o maior activista anti-editoras predadoras do mundo.

A utilização maciça de email e de sistemas de proces­samento de texto (em matemática, o TeX e o LaTeX) permitiu o desenvolvimento de uma literatura “cin­zenta”: os autores passaram a trocar entre si preprints de artigos científicos. Passaram a colocá-los nas suas páginas Web. Foram criados repositórios para arqui­vo de artigos científicos, dos quais o mais famoso é o arXiv (www.arxiv.org), onde os cientistas tornam públicos os seus artigos antes sequer da submissão a revistas científicas e é realizado um processo de peer review informal e em tempo real. Outro repositório importante para a matemática, especificamente europeu, é o EuDML, European Mathematics Digital Library (https://eudml.org/).

As revistas científicas continuam a desempenhar um papel importante na validação dos resultados; a aceita­ção de um artigo numa revista importante continua a ser garantia de qualidade. Mas já não são indispensáveis. O caso mais célebre é o do matemático Grigory Perelman, que demonstrou a célebre Conjectura de Poincaré numa sucessão de artigos que colocou no arXiv no Verão de 2003. A comunidade matemática validou esses resulta­dos, a demonstração está correcta e Perelman ganhou a Medalha Fields de 2006 (que recusou) e o Prémio do Milénio do Clay Institute em 2010, no valor de um milhão de dólares (que também recusou). Os artigos de Perelman, ainda disponíveis no arXiv, nunca chegaram a ser publicados no sentido “clássico” do termo, ou seja, numa revista científica.

A grande ferramenta de democratização do acesso à informação que é a World Wide Web revolucionou o negócio da publicação científica. As revistas tiveram, evidentemente, de passar a estar presentes na Web e a ter ediçõesonline. Estas, para não perderem receitas de assinaturas, adoptaram, numa primeira fase, uma estratégia conhecida por moving paywall: disponibiliza­vam online apenas artigos, digamos, com mais de cinco anos. Assim, quem quisesse ter acesso a artigos com menos de cinco anos tinha de assinar a revista – ou comprar o artigo online. Muitas revistas ainda seguem esta estratégia.

Mas os cientistas queriam mais.

Acesso livre e revistas predadoras

Surgiu assim, na última década, o conceito de Open Access (Acesso Livre) que passaremos a designar por OA. Em princípio, representa um passo de gigante no sentido da democratização do acesso à informação: as publicações científicas electrónicas devem ser de acesso livre para todos os leitores. Não interessa onde um matemático está, se em Lisboa, em Princeton, em Ou­agadougou ou num veleiro no Pacífico Sul: desde que tenha um computador ligado à rede, deve ter acesso aos últimos artigos científicos – sem pagar. Liberdade total!

O Reino Unido tem sido particularmente agressivo na promoção do OA: os conselhos de investigação adoptaram, desde Abril de 2013, uma política de obrigatoriedade de publicação de todos os resultados científicos, de todas as áreas, em regime de OA. Assim, se um cientista inglês quer publicar, não tem escolha: terá de o fazer em Open Access.

A ideia de Open Access parece, à primeira vista, excelente. É a democratização final do acesso à in­formação. Ninguém mais irá ficar excluído da ciência por não ter meios. Toda a informação está na Web. As universidades africanas podem não ter os laboratórios de bioquímica mais avançados do mundo, mas têm acesso aos resultados dos mesmos.

Dir-se-ia o início de um admirável mundo novo na publicação científica. Infelizmente, porém, este cenário idílico não leva em conta as fragilidades da natureza humana.

Há, no modelo OA, um “pequeno” pormenor ainda não mencionado. As editoras de revistas científicas são empresas comerciais. O seu objectivo é fazer dinheiro para ter um rendimento que lhes permita, no mínimo, manter as portas abertas. Se no modelo OA os leitores não pagam para ler, quem vai pagar?

Resposta: os autores. No modelo OA, os cientistas, além de terem de pagar todo o trabalho de investigação que fazem (através de financiamentos, bolsas e projec­tos), têm também de pagar a publicação dos artigos correspondentes. As revistas cobram, pela publicação de um artigo OA, uma quantia (chamada APC, Article Processing Charges) que pode ir de algumas centenas muitos milhares de euros. No Reino Unido, os financia­mentos de projectos científicos incluem já uma parcela dedicada à publicação de artigos OA.

O modelo OA, concebido para democratizar o acesso à informação, acaba por criar distorções que anteriormente não existiam. Imaginemos um mundo só com revistas OA. Quem publica? Quem tem dinheiro à partida; as universidades mais ricas vão publicar mais do que as mais pobres. O que vai acontecer a um matemático talentoso numa universidade sem recursos? Provavelmente nunca conseguirá publicar nada, mesmo que tenha trabalhos excepcionais.

Eu próprio, hoje em dia, publicando nas mais con­ceituadas revistas da minha área que disponibilizam também edição OA, sou confrontado com uma opção: posso publicar o meu artigo de forma clássica, com uma moving paywall de cinco anos, ou posso também pagar uma fee suplementar (da ordem do milhar de euros) para disponibilizar o artigo em OA imediatamente. É claro que em Portugal não existe financiamento para fazer esta segunda opção (e é de crer que nos tempos mais próximos dificilmente isso possa acontecer). Assim, os meus artigos não ficarão disponíveis onlinenos cinco anos seguintes à sua publicação e portanto a sua vi­sibilidade, medida em número de citações, será muito menor do que a dos artigos dos meus colegas britânicos.

Paralelamente, o modelo OA está a gerar, de forma perversa, um outro efeito nocivo a uma escala que seria impossível de imaginar: as chamadas “revistas predadoras”.

Se o leitor tiver obra científica publicada, decerto já recebeu emails curiosos, convidando-o a publicar um artigo numa revista desconhecida mas com nome sonante, como International Journal of Applied Engineering Research ouBritish Journal of Mathematics & Computer Science (curiosamente com sede na Índia), só para citar dois exemplos das dezenas que tenho de momento na minha caixa de correio.

Estas revistas são apenas Open Access (ou seja, só existem em forma electrónica), prometem peer review, publicação rápida (por vezes uma semana!) e “elevada visibilidade”, afirmando estar listadas numa série de índices de revistas científicas. Os corpos editoriais destas revistas têm uma quantidade impressionante de nomes de professores. Nesse primeiro email, que estabelece contacto com o “Dear Scholar” ou “Dear author”, está patente também o valor da APC, que anda à volta dos 500 dólares. Toda esta lengalenga não resiste, na maioria dos casos, a uma pequena verificação crítica. Uma rápida pesquisa no Google mostra que a maioria dos membros do corpo editorial da revista não existe. Imagino que alguns existam e nem façam ideia de que estão no cor­po editorial: eu próprio já fui diversas vezes convidado por email a integrar corpos editoriais dessas revistas virtuais – uma das quais justamente durante a escrita destas linhas. Suspeito que se não tivesse respondido que não queria, o meu nome estivesse hoje a abrilhantar essas revistas. 

A observação, ainda que superficial, da edição online (que é a única!) dessas publicações permite também dissipar quaisquer dúvidas. Artigos de áreas completa­mente desconexas, mal escritos, por vezes num inglês muito primitivo, sobre matemática, engenharia, cálculos sem sentido... Fica-se com a sensação de que se pode publicar não importa o quê.

As áreas científicas admitidas são também revela­doras. Na revista Journal of Applied Mathematics and Physics são aceites artigos de 40 das mais variadas áreas da matemática, da física, e de assuntos que desafiam classificação, entre os quais... “Aplicações de sistemas”, “Selecção de portfólios”, “Avanços metodológicos”, “Física óptica” e também “Óptica física”, “Análise com valores em conjuntos”, e assim por diante. Qual poderá ser a comunidade científica à qual estes artigos interessam? 

A resposta, por esta altura, deve ser clara: nenhuma. Estas “revistas” são uma fraude, estes artigos são uma fraude, tudo isto é uma fraude. Não hárefereeing, não há publicação, não há nada. Trata-se de uma caricatura grotesca do processo científico, de uma vigarice movida apenas pela ganância do dinheiro fácil. 

O “modelo de negócio” destas pseudo-revistas ex­clusivamente OA é o equivalente científico da fraude da carta da Nigéria (que sem dúvida o leitor conhece). Um pequeno escritório num qualquer recanto deste mundo cria o nome de uma editora que pareça respeitável – algo como Scientific Research Publishing ou Academic Research Journals (India) ou mesmo Scientific Advances Publishers (tudo exemplos reais). 


Curiosamente, durante a escrita destas linhas recebi mais três cromos para a colecção: um “Call for papers” da Scientific Online Publishing, USA, que “publica” uma centena de “re­vistas” em mais de uma dezena de áreas, da gestão à medicina; um convite do Science Publishing Group para fazer parte do editorial board, ao mesmo tempo que me dá os parabéns por um artigo recente (traduzindo: fez phishing da minha área científica e endereço deemail na página dessa revista); e um convite, também desta última, para ser editor especial convidado de um número de uma qualquer das suas revistas à minha escolha. Como é bom ser um cientista famoso!

Uma “editora-apenas-AO” é, por definição, virtual. Consequentemente, não precisa de mais do que uma página Web bem organizada e com endereços de email com aspecto oficial para contacto. Aceita artigos seja sobre o que for, para os quais ninguém olha. Uma ou duas semanas depois, envia um email dizendo que o artigo foi aceite para publicação e pede o valor das APC. E o autor, se engoliu este conto do vigário, vai pagar 500 dólares para ter o ficheiro do seu artigo afixado numa página Web com nome bonito. No limite, bastam duas ou três pessoas, uma das quais um informático, para manter o negócio a fluir. Se um belo dia a “edi­tora” decidir desmontar o negócio basta desligar-se da Web – e os artigos pelos quais os autores pagaram APC desaparecem para sempre.

Na maioria dos casos não existe nenhum processo de peer review; e quando se afirma que existe é uma encenação sem consequências. Note-se, de resto, que, neste modelo de negócio, as “editoras” recebem umas centenas de dólares por cada artigo que colocam na sua página. Se não têm particular escrúpulo pela integridade da ciência e estão apenas interessadas em maximizar os seus lucros, é absurdo recusarem um artigo que lhes é submetido. O custo de publicação é nulo (basta colocar um link para o ficheiro) e o benefício é de algumas centenas de dólares. Portanto, numa editora predadora, tudo é publicado.

Talvez o leitor ache que esta é uma visão demasiado cínica do novo mundo da publicação científica. Foi exactamente por ainda ter, eu próprio, dúvidas sobre se esta descrição é razoável que fiz, no Verão de 2014, uma experiência de imersão no universo Open Access. Experiência não inteiramente original, como na altura própria comentarei, mas com resultados que ultrapas­saram todas as minhas expectativas.

Nate Eldredge é professor de matemática na Univer­sidade do Colorado do Norte. Nos seus tempos livres divertiu-se a construir o Mathgen, um programa de com­putador que gera artigos de matemática com aparência profissional mas totalmente desprovidos de sentido. Tais textos nem errados chegam a estar: são simplesmente absurdos. O Mathgen junta uma frase enlatada daqui, uma equação dali, um termo matemático com aspecto intimidatório dali – agita tudo – e serve. É até, num certo sentido, um pouco assustador, pois remete-nos para um universo paralelo, onde as regras da lógica não vigoram. O leitor é cordialmente convidado a tornar-se autor (ou co-autor) de um pseudo-artigo de matemática visitandohttp://thatsmathematics.com/blog/mathgen

Jürgen Ucseub, um alter ego do autor 

Equipado com o Mathgen, fiz então uma experiência radical de fraude científica. Criei um alter ego académico com um nome desconhecido (Prof. Dr. Jürgen Ucseub, o meu nome próprio em alemão e o apelido escrito de trás para a frente). Dotei-o de existência virtual, criando para ele uma conta nogmail. Nessa conta indiquei a filiação institucional do “Prof. Ucseub”:

Prof. Dr. J. Ucseub 
Dept. Mathematical Sciences 
Ch. Ch. Univ. at Chattanooga 
Chattanooga, TN, USA

Porquê esta? Ora, porque estava a ouvir o “Chatta­nooga Choo Choo” de Glenn Miller quando estava a fazer isto e, fraude por fraude, “Choo Choo University” pareceu-me soar bem enquanto nome de uma univer­sidade inexistente – para além de não se confundir com a verdadeira Universidade de Chattanooga (que existe), livrando-me de potencialmente desagradáveis processos em tribunal.

Munido então de um alter ego com estas credenciais académicas, passei alguns minutos a gerar artigos no Mathgen em nome de J. Ucseub. Ao fim de uma dezena de tentativas, fiquei satisfeito. E foi esta a génese de uma obra única e irrepetível: “Uniqueness in Modern Graph Theory”, a qual, em apenas sete páginas, trans­formou radicalmente a minha visão de certa literatura matemática. 

Considere-se este extraordinário abstract: “Supo­nhamos dado um homomorfismo de Legendre π. Em [20], os autores abordam a continuidade dos functores contra-ortogonais sob a hipótese adicional de ? < 2. Mostra-se aqui que todo o polítopo sobrejectivo é contra-ortogonal e suavemente semi-projectivo. Assim, o trabalho em [20, 20] não considerou o caso contável em quase toda a parte. Isto deixa em aberto a questão da continuidade."

O leitor não percebeu nada? Ainda bem; preocupan­te seria se pensasse o contrário. Este jargão pseudo-científico não faz rigorosamente nenhum sentido: é que nem errado está! Qualquer pessoa com um mínimo de competência matemática tem obrigação de olhar para o texto e… desatar a rir.

O passo seguinte foi escolher meia dúzia de revistas que suspeitava serem fraudulentas, para submeter, em nome do Prof. Ucseub, este trabalho. Escolhi, mais ou menos ao acaso, as seguintes publicações: Pioneer Jour­nal of Mathematics and Mathematical Sciences, Applied Mathematics, Global Journal of Pure and Applied Mathematics, American Journal of Mathematics and Mathematical Sciences, Advances in Pure Mathematics. Algumas destas “revistas” possuíam um formulário Web para submissão; outras nem isso – bastava enviar o ficheiro do artigo por email

Os resultados conseguiram ultrapassar as minhas ex­pectativas mais pessimistas. O artigo foi submetido a 3 de Agosto. As respostas foram começando a surgir três dias depois, e ao fim de dez dias tinham chegado todas. O artigo foi aceite sem correcções pelo Global Journal of Pure and Applied Mathematics, que me pediu um cheque de 225 dólares; foi aceite sem correcções pelo American Journal of Mathematics and Mathematical Sciences, que me pediu 400 dólares; foi aceite pelo Pioneer Journal of Mathematics and Mathematical Sciences, que me pediu a exorbitante soma de 758 dólares e incluía o relatório do referee! Afirmava então o referee, depois de um relatório do tipo teste americano: “O artigo está bem escrito, fa­zendo uma revisão adequada da literatura. Os resultados obtidos são interessantes e merecem publicação no Pioneer Journal.” Curiosamente, a literatura cuja revisão o referee elogia (31 referências bibliográficas) era, do princípio ao fim, uma fraude – e bem grosseira: havia um “artigo” cujos autores eram Nehru, Landau e Laplace; Ucseub tinha um artigo com Bose, físico falecido em 1974, no Senegalese Journal of Integral Lie Theory. Portanto, nesta indústria até os “relatórios” do referee são falsos! 

Os casos da Advances in Pure Mathematics e da Applied Mathematics são ainda mais curiosos. A Applied Mathematics nunca mais deu sinal de vida, o que só por si é estranho. Por outro lado, no dia 6 de Agosto o Prof. Ucseub recebia o seguinte email da Advances in Pure Mathematics: “Os dois artigos são artigos fraudulentos, com o objectivo provável de testar a vigilância dos revisores da revista. Muito provavelmente foram criados por um programa automático de geração com capacidade de encadear cadeias de palavras aparentemente sofisticadas, de forma aleatória, em sintaxe inglesa plausível. A decisão é de rejeição.”

Fantástico! Portanto, uma das revistas dera pela frau­de, conseguindo mesmo aperceber-se de que o artigo fora gerado por um programa de computador! Afinal nem todas as revistas predadoras são necessariamente más. 

Mas… havia qualquer coisa que não estava bem. “Dois artigos”? Que dois artigos? O Prof. Ucseub estava a submeter o seu opus único! 

Uma verificação superficial revelou o que se passava. Embora não seja óbvio quando se submete, as revistas Advances in Pure Mathematics e Applied Mathematics são “irmãs” uma da outra – pertencem à mesma “editora virtual”, a Scientific Research Publishing (SCIRP). Portanto, Ucseub submeteu o mesmo artigo, com diferença de minutos, a ambas as revistas. Por um lado, isto explica o facto de a Applied Mathematics nunca ter respondido: a sua irmã estava a fazê-lo. Por outro, Ucseub mostrava assim violar uma das regras fundamentais de ética de publicação para autores: a exclusividade – um artigo só pode estar submetido a uma única revista. Assim, quando o mesmo artigo apa­receu submetido em duplicado em ambas as revistas, o “escritório” da SCIRP levantou logo uma grande bandeira vermelha. E algum ser humano foi de facto olhar para os artigos, e viu a fraude. 

Será que esta editora, SCIRP, é mais séria do que as outras? Será que é uma editora genuína e não uma predadora, uma devoradora de cientistas (ou dos seus cheques)? Poderá estar o justo a pagar pelo pecador? 

Durante um mês tive algumas dúvidas. Até que, a 12 de Setembro, a mesma SCIRP voltou a contactar o Prof. Ucseub com o seguinte email

“Dear Prof. Dr. Jürgen Ucseub, 

I am *** **, working at Scientific Research Publishing. Thank you very much for your continuous support to us I am writing with my pleasure to invite you to publish your book(s) with us. 

Scientific Research Publishing (SCIRP) is one of the largest Open Access journal publishers. It is currently publishing more than 200 open access, online, peer-reviewed journals covering a wide range of academic disciplines. SCIRP serves the worldwide academic com­munities and contributes to the progress and application of science with its publication. 

With years of scientific book publishing experience, we are confident with our speed, quality and marketing channels. Moreover, we offer very competitive price and commission for our book authors. 

Could you please kindly let us know if you are inte­rested in publishing books with us? If you already get one ready, please send us the book title and number of pages; if you have no plan of book publishing, please just reply the letter with ‘not this time’. 

We really appreciate your time on reading this letter. 

Thank you very much (…)” 

A SCIRP é tão predadora como as outras editoras OA; tinha tido apenas um golpe de sorte em detectar a tentativa do Prof. Dr. Jürgen Ucseub. Mas a sua falta de escrúpulos levou-a a decidir que, apesar de o ter apanhado em plena fraude, valia a pena guardar o seu registo enquanto cientista-candidato-a-presa. E estava agora a apresentar os seus serviços em versão expandida, incluindo edição de livros, ao falso cientista! 

Uma selva onde nada é o que parece 


Nesta altura, lembrei-me do episódio que tinha inspirado toda a encenação do Prof. Ucseub e a sua incursão pelo universo OA. Em 2012 Nate Eldredge fez exactamente o mesmo: criou um artigo aleatório com o Mathgen e submeteu-o a uma revista OA, sob o pseudónimo de “Prof. Marcie Rathke”, da University of Southern North Dakota at Hoople (sic). O artigo, com o título esotérico “Independent, Negative, Canonically Turing Arrows of Equations and Problems in Applied Formal PDE”, consistia no habitual arrazoado sem sentido gerado pelo Mathgen. Dez dias e uma troca de emails depois, o artigo foi aceite para publicação e pedida a fee de 500 dólares, altura em que Eldredge pôs fim ao jogo e expôs o caso ao mundo no seu blogue em http://thatsmathematics.com/blog/archives/102. Tinha sido assim revelado ao mundo da forma mais ridícula a fraude que era esta revista OA. 

O seu nome? 

Advances in Pure Mathematics

Agora sim, encaixavam as peças todas. A SCIRP ficou de sobreaviso quando viu ser submetido o artigo do Prof. Ucseub em simultâneo a duas “revistas” dis­tintas. Nessa altura, como gato escaldado de água fria tem medo, algum ser humano terá passado uma vista de olhos pelo artigo e compreendido que estavam a ser alvo da mesma encenação de há dois anos. Foi por isso que os “referee” compreenderam imediatamente que os artigos “foram criados por um programa automá­tico de geração”: já tinham sido vítimas do Mathgen anteriormente. 

Estava tudo esclarecido. O universo OA não está apenas cheio de predadores: é uma verdadeira selva dissimulada sob uma capa de aparente credibilidade e respeitabilidade, onde nada é o que parece e as relações estão muito mais próximas de um agressivo telemarke­ting do que da academia.  
Pobre Prof. Ucseub! Mal sabia com quem se tinha metido, tendo passado, em pouco mais de um mês, de caçador de fraudes a presa cobiçada nesta selva de predadores esfomeados. A sua conta de email tem cada vez mais “calls for papers” e convites para publicação de editoras AO com as quais nunca esteve em contacto. Tendo em conta que nunca publicou uma linha, só há uma explicação: as editoras OA formam redes, como as empresas detelemarketing, em que vão fornecendo listas de contactos umas às outras

Esta situação assustadora levou-me a abandonar o meu alter ego. Já tinha aprendido mais do que o sufi­ciente sobre o aberrante mundo-de-pernas-para-o-ar do Open Access. Assim, tal como numa telenovela, decidi matar o protagonista e pôr fim a esta história. 

Como nos podemos defender das “editoras preda­doras”? A expressão foi cunhada em 2012 por Jeffrey Beall, professor e director da Biblioteca da Universidade do Colorado em Denver e, provavelmente, o maior activista anti-editoras predadoras do mundo. 

Já há vários anos que Beall se apercebia com preo­cupação do crescimento cada vez mais acelerado destas editoras-parasita, consequência de uma transição desregu­lada para o modelo de OA. Em Agosto de 2012 denun­ciou a situação num artigo no The Scientist, intitulado precisamente “Predatory Publishing”. Vale a pena ler: o artigo está disponível na Internet (mas não é OA!). 

Beall tem um blogue de enorme importância, Scho­larly Open Access, disponível em http://scholarlyoa. com/. Nesse blogue, Beall sintetizou o seu trabalho de anos na detecção de editoras predadoras: fornece uma lista, referida pelos académicos como “A Lista de Beall”, com as editoras que classifica como tais. É claro que todas as editoras e publicações contactadas pelo Prof. Ucseub constam da lista de Beall. 

O blogue e a lista levaram Beall à fama: já foi entrevistado para a Nature, oNew York Times e a Chronicle of Higher Education. A lista de Beall contém hoje mais de 300 editoras e de 350 outras publicações independentes – todas predadoras. Nos seus posts há sempre informações interessantíssimas sobre o mundo selvagem da publicação online

Em 2013 a revista Science, através do jornalista de ciência John Bonhannon, realizou uma experiência global com um artigo falso enviado a mais de 300 publicações OA. Os resultados, assustadores, podem ser lidos no artigo “Who’s afraid of peer review?  (http://www.sciencemag. org/content/342/6154/60.full). A situação é bem pior do que se julgava: mais de 60% das editoras Open Access não realizam qualquer peer review. As boas notícias foram que 82% das editoras identificadas na lista de Beall que concluíram o processo foram confirmadas pela Science como não realizandopeer review, o que é notável. Nas palavras de Bonhannon, “Beall é excepcionalmente com­petente na identificação de editoras com mau controlo de qualidade” – ou seja, editoras predadoras. 

Como é inevitável, Beall já recebeu ameaças de pro­cessos por parte de editoras. Em 2013 foi o OMICS Publishing Group, um grupo editorial sediado na Índia, que o ameaça com um processo de mil milhões de dólares e uma pena de prisão de três anos de acordo com a lei indiana. Beall não está minimamente preocupado, pois afirma ter documentado todas as suas afirmações sobre o grupo OMICS no blogue. 

Se o leitor conhecer alguém que esteja a pensar publicar uma linha que seja numa editora online, faça um favor a todos nós: peça a esse alguém para verificar se a editora ou a publicação constam da lista de Beall. E,  sendo o caso, que fuja dela como o diabo da cruz. 

Então quem paga? 

O que se pode concluir de tudo isto? Que o modelo Open Access é mau? Que teremos de voltar ao modelo de publicação científica do século XX? 

Creio que a grande conclusão a extrair é que o mundo da publicação científica está numa enorme crise de crescimento – a maior dos seus três séculos e meio de existência. Mas que, precisamente, vai ter de crescer para a ultrapassar. 

A primeira publicação científica no sentido moderno – um periódico compeer review — foi a Philosophical Transactions of the Royal Society, fundada em 1665. Desde então e até hoje, os modelos evoluíram muito lentamente: de início, as revistas eram publicadas por sociedades científicas; no século XIX passaram a existir também editoras comerciais especializadas, sendo as re­vistas pagas por assinatura. Os elevadíssimos custos de publicação e distribuição (em matemática, por exemplo, um periódico científico especializado tem uma circula­ção da ordem de um milhar de exemplares por todo o mundo) asseguravam que não poderia haver piratas ou aventureiros neste ramo de negócio. 

A publicação electrónica veio revolucionar as regras do jogo. Este facto, goste-se ou não dele, é irreversível: nem a Internet vai ser desmantelada nem os computadores destruídos por terem mudado as regras da publicação científica. Tal como aconteceu tantas vezes na história da humanidade, quando há uma revolução industrial ou tecnológica a sociedade não a recusa: adapta-se a ela. 

O problema desta revolução é que foi tão rápida que ultrapassou a nossa capacidade de reacção. Só agora é que estamos a despertar para o problema, e portanto a começar a discutir possíveis soluções – que existem, apesar de algumas estarem certamente ainda por imagi­nar. Uma solução que começa a ser ventilada cada vez com mais insistência na comunidade científica configura, ironicamente, uma espécie de regresso ao passado. 

O modelo de OA que se descreveu ao longo do texto é o que normalmente se designa por “Golden AO” – Acesso Livre Dourado: o leitor não paga, o autor paga APC. O que se propõe agora é a evolução para um “Diamond OA” – Acesso Livre Diamante: o leitor não paga, o autor não paga APC. 

A pergunta que se segue é óbvia: então quem paga o trabalho da editora? Ninguém trabalha de graça! A resposta, não tão óbvia, é que devem ser as sociedades científicas, as instituições académicas e a comunidade científica a suportar os custos (hoje em dia uma pequena fracção dos de há 30 anos) de funcionamento de uma publicação de elevado nível em regime OA Diamante. A experiência do arXiv mostra que isso é possível. Pode haver aqui um papel importante a desempenhar pelas sociedades científicas, hoje em dia um pouco marginalizadas. 

Um caso pioneiro que merece ser seguido com aten­ção é o do Journal de l’École Polytechnique – Ma­thématiques. Fundado em 1795, durante a Revolução Francesa, foi uma publicação matemática de enorme prestígio, editada regularmente até 1939. Não sobre­viveu à Segunda Guerra Mundial. Foi refundada em 2014 de acordo com o modelo OA Diamante, com o apoio, para além da própria École Polytechnique, de instituições como o CNRS. O leitor pode, assim, apre­ciar uma publicação científica de excelência, apenas OA, em https://jep.math.cnrs.fr/index.php/JEP/. A École Polytechnique publicará um volume anual que vende por encomenda em regime print-on-demand

É, pois, possível aliar o Open Access à publicação científica de elevada qualidade. A comunidade cientí­fica em sentido lato (incluindo as instituições finan­ciadoras e os decisores políticos) tem no entanto de ter consciência de que a publicação electrónica é uma revolução, porventura tão grande como a de Gutenberg no século XV, no processo de comunicação, e tem de encarar os novos problemas com imaginação e criati­vidade – não podendo ignorá-los, nem tomá-los com ligeireza ou displicência, como fez no caso do OA, com as consequências que se viram. Vivemos, sem dúvida, tempos interessantes. 

“Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática”
Jorge Buescu, Editora Gradiva, 232 páginas; 10,80 €