sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Portugal e a República Portuguesa

No ano passado integrei uma missão empresarial que acompanhava a visita oficial do Presidente da República ao reino da Suécia. Na primeira manhã em Estocolmo, a missão empresarial tinha uma sessão com contrapartes suecos para se entender dos interesses mútuos de fazer negócios.

Passamos uma manhã inteira a explicar aos suecos que Portugal é muito mais que o óbvio: um país de praia, vinho e pessoas muito simpáticas. Tentei explicar que Portugal é também a casa de algumas das mais sofisticadas empresas do mundo, com mercados que muito poucos países sonham lá chegar, como a banca, o retalho ou as telecomunicações. Expliquei-lhes o que fazíamos na empresa de modelos matemáticos e as tecnologias que desenvolvíamos. Aquilo que as nossas universidades produziam e que vamos aproveitando. Os meus colegas faziam o mesmo e, como nestas coisas os interlocutores vão rodando, todos tivemos oportunidade de ver o ar impressionado e surpreendido dos suecos, muitos incrédulos daquilo que ouviam. Até que chegou a delegação oficial, leia-se os políticos e respetiva comitiva de jornalistas, seguranças, e deputados que acompanhavam o presidente da república portuguesa e o rei da Suécia(o dobro ou mais do numero de empresários, mas pronto..). E a tragédia aconteceu.

Começam os discursos oficiais. Duas empresas de tecnologia portuguesa, as mesmas de sempre e duas empresas suecas, e começam os políticos a falar de Portugal, esse país de sol, vinho e gente simpática. Porque é que os suecos deveriam estar a investir, importar ou trabalhar em Portugal? Por causa do Sol, do vinho e das gentes simpáticas. E tivemos gente feliz porque, curiosamente, as autoridades suecas corroboraram aquilo que as autoridades portuguesas afirmaram. É mesmo um país de praia, vinho e  gente simpática.

Isto para dizer havia um enorme hiato entre a representação de Portugal e a representação da república portuguesa. Tanto que dava para perceber a péssima opinião que esta tem do país ao ponto de não conseguir encontrar nada de melhor para dizer sobre nós que aquilo que nos calhou em sorte e para o qual contribuímos muito pouco.

Hoje leio nas notícias que há uma representação da república portuguesa no reino do Canadá. E o que dizem as noticias do discurso oficial? Sol, vinho e pessoas simpáticas, ao qual foi acrescentado o adjectivo de credível. É admirável quando alguém sente a necessidade de se afirmar como credível... Por isso, quero enviar daqui a minha solidariedade àqueles que foram em representação de Portugal e que devem ter passado a manhã a convencer os canadianos daquilo que é a realidade, que Portugal é um país moderno, sofisticado, que desenvolve tecnologia e ciência como qualquer país europeu. E que viram o seu esforço eliminado pelo discurso oficial. Sei que parece ter sido uma perda de tempo, mas vai chegar o dia em que até a república portuguesa se vai convencer daquilo que Portugal é.

PS: uma palavra deve ser dada ao ministro Pires de Lima (se calhar por ter estado deste lado) e aos técnicos locais do AICEP, que sempre tentaram contrariar aquilo que é a ideia propagada pelos políticos.

PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA - 5

Texto que continua os que se podem encontrar aqui.

Geólogo e paleontólogo norte-americano, com grande influência na história da geologia e na da paleontologia dos invertebrados, James Hall (1811-1898). Entre os seus muitos trabalhos, ressalta a identificação, no norte do Michigan e em Wisconsin, dos primeiros recifes fósseis encontrados na América do Norte, e a demonstração da origem orgânica dos estromatólitos fósseis descobertos perto de Saratoga Springs (Nova York), num local a que foi dado o nome de Petrified Sea Gardens, considerado Património Histórico Nacional.
Hall criou um laboratório em Albany (Nova Iorque), que se converteu num importante centro de estudo e de formação para os geólogos e paleontólogos, conhecido como James Hall Office, classificado, em 1976, como National Historic Landmark. Entre 1847 e 1894, publicou 8 volumes de “Paleontology of New York”, num total de mais de 4500 páginas e 1000 ilustrações.

Mais a Norte, o geólogo canadiano, seu contemporâneo, John William Dawnson (1820-1899) estudou e descreveu vegetais fósseis do Silúrico, do Devónico e do Carbónico, pelo que também é considerado um dos fundadores da paleobotânica. É, ainda, lembrado pela controvérsia em torno de Eozoon canadense, uma estrutura então enigmática que encontrou num calcário metamorfizado do Pré-câmbrico, na Costa de St. Pierre, perto de Greenville (Quebec). Dawnson descreveu este achado, em 1865; como o mais antigo fóssil de um ser vivo mas, mais tarde, esta estrutura foi reconhecida como sendo inorgânica. Entre as várias obras escritas que nos deixou, destacam-se The Story of the Earth and Man (1873), The Dawn of Life (1875) e Geological History of Plants (1888).

Décadas depois, o norte-americano Charles Emerson Beecher (1856-1904), doutorado em paleontologia com um estudo sobre esponjas enigmáticas do Silúrico, ficou conhecido por ter escavado e estudado a fauna de trilobites de uma importante jazida em xistos de extrema finura, do Ordovícico superior (Caradociano) de Frankfort, em Cleveland's Glen (Nova Iorque). Famosos pela perfeição, os fósseis recolhidos nesta jazida, hoje referida por Beecher Trilobite Bed, conservam as partes moles do seu corpo epigenizadas em pirite (piritizadas), o que permitiu estudar, em pormenor, a anatomia ventral destes artrópodes marinhos.
Trilobites (Triarthrus eatoni) piritizadas do Caradociano)  de Frankfort, em Cleveland's Glen, (Nova Iorque).
Embora seja mais conhecido pelo seu trabalho sobre trilobites, no que se celebrizou e é considerado uma autoridade, Beecher também estudou corais e braquiópodos. Naturalista e coleccionador nato, juntou milhares de fósseis colhidos em formações paleozóicas, em especial do Devónico e do Carbónico inferior, nos estados de Nova Iorque, Michigan e Pensilvânia, durante os cerca de dez anos que trabalhou com James Hall, no New York State Museum, em Albany. Transferiu-se, depois, para o Yale Peabody Museum, em New Haven (Connecticut), a fim de se ocupar das colecções de invertebrados, situação que acumulou com a de professor de paleontologia na Sheffield Scientific School, na mesma cidade. Por morte de Marsh, em 1899, sucedeu-lhe como conservador geral das colecções geológicas, acervo que ampliou ao oferecer a este museu os milhares de exemplares da sua grande colecção pessoal.

Na mesma época, o geólogo e paleontólogo francês, Jean Albert Gaudry (1827-1908) celebrizava-se ao divulgar o estudo das importantes jazidas fossilíferas do Miocénico superior de Pikermi, na Grécia, onde foram descobertas cerca de meia centena de espécies de mamíferos, constituindo uma fauna terrestre de características intermediárias entre as europeias, as asiáticas e as africanas.
Hipparion gracile do Miocénico de Pikermi (Grécia)
Gaudry foi assistente de Alcide d’Orbigny e, por morte deste, ocupou a cátedra de Paleontologia no Museu Nacional de História Natural de Paris. O trabalho que realizou sobre os ditos mamíferos foi ainda importante pelo suporte que deu às ideias sobre a evolução. Do seu ponto de vista, Dieu ne détruit pas les espèces, mais les améliore, querendo com isto dizer que as espécies não desaparecem, antes se transformam. O trabalho deste paleontólogo encontrou eco, décadas mais tarde, no norte-americano George Gaylord Simpson (1902-1984), professor de zoologia na Universidade de Columbia, Nova Iorque e, depois, professor de geologia na Universidade do Arizona até à sua aposentação, em 1982. Simpson ficou conhecido pelos seus estudos sobre a evolução dos mamíferos, bem como sobre as migrações e extinções destes vertebrados.

Pôs termo à ideia generalizada, segundo a qual a evolução do cavalo foi um processo linear que culminou no moderno Equus caballus. Inovou os conceitos de “equilíbrio pontuado” e de “hipodigma”, termo que, por definição, refere todo o material de uma espécie à disposição dos estudiosos, e publicou várias obras sobre a taxonomia de mamíferos actuais e fósseis. São suas as obras clássicas em paleontologia dos vertebrados Tempo and Mode in Evolution (1944), The meaning of Evolution (1949) e The Major Features of Evolution (1953).

Fundador da Sociedade Suíça de Paleontologia e doutor honoris causa pela Universidade de Genebra, Charles Louis Perceval de Loriol (1828-1908), foi um prestigiado paleontólogo suíço, autor de várias monografias e numerosos artigos sobre os equinodermes dos períodos Jurássico, Cretácico e Terciário da Europa ocidental e central e do norte da África. É lembrado pelos seus pares portugueses através da obra Description des Échinodermes Tertiaires du Portugal, editada pela Direcção dos Trabalhos Geológicos de Portugal em 1896.

Um outro paleontólogo com trabalho realizado em Portugal, foi o francês Henri-Émile Sauvage (1842-1917), o primeiro a publicar um artigo científico citando a ocorrência de dinossáurios em Portugal. Assinou meia centena de artigos científicos, entre os quais, dois dedicados à paleontologia portuguesa: Les crocodiliens et les dinosauriens des terrains Mésozoïques du Portugal, publicado em 1896, no Boletim da Sociedade Geológica de França, e Vertébrés Fossiles du Portugal, Contribution à l'étude des poissons et des reptiles du Jurassique et du Crétacé, publicado pela Direcção dos Trabalhos Geológicos de Portugal (1897-1898). Na mesma época, em Portugal, Venceslau de Sousa Pereira de Lima (1858-1919), doutorado pela Universidade de Coimbra em 1882, membro ilustre da Academia Real das Ciências de Lisboa e professor de Geologia na Academia Politécnica do Porto, investigou em domínios da geologia e da paleobotânica das bacias carboníferas portuguesas. Político com elevadas funções no Estado, foi ministro do reino e presidente do Conselho de Ministros.
Fóssil de Hallucigenia nos xistos de Burgess

Um dos feitos mais surpreendentes da paleontologia, nos alvores do século XX, foi a descoberta, em 1909, pelo paleontólogo norte-americano Charles Doolittle Walcott (1850-1927) da importante jazida de fósseis, invulgarmente bem conservados, nos hoje célebres xistos de Burgess, do Câmbrico, na Columbia Britânica (Canadá). A fauna aí encontrada, em dezenas de milhares de exemplares fósseis, é constituída por géneros completamente novos para a ciência, com destaque para Anomalocaris, Hallucigenia, Marrella, Nectocaris, Opabinia e Sidneyia.

Reconstituição artística de Hallucigenia


O seu interesse pela paleontologia aproximou-o de Louis Agassiz (1807-1873) da Universidade de Harvard, na qual trabalhou como assistente de James Hall e como geólogo e paleontólogo (especialmente interessado no Câmbrico) do United States Geological Survey, tendo atingido o cargo de director desta instituição em 1894. Em associação com Andrew Carnegie (1835-1919), Walcott foi um dos fundadores da Carnegie Institution de Washington.

Investigador do Museu Real de História Natural de Bruxelas, Louis Antoine Marie Joseph Dollo (1857-1931), paleontólogo belga, estudou as ossadas de Iguanodon descobertas na mina de carvão do Cretácico de Bernissard (Bélgica). Celebrizado por ter defendido que a evolução biológica é irreversível, foi o autor da conhecida Lei da Irreversibilidade ou Lei de Dollo, segundo a qual, um ser vivo não tem capacidade de recuar, ainda que parcialmente, para um estágio anterior já realizado na linha evolutiva dos seus antepassados.

Na mesma época, o francês Ferdinand Canu (1863-1932) e o norte-americano Ray Smith Bassler (1878-1961) trabalharam em colaboração, de 1905 a 1931, tendo realizado um prolongado estudo sobre briozoários actuais e fósseis (cenozóicos), sendo de ambos o volumoso trabalho North American early Tertiary Bryozoa, editado em 1881.

No domínio da paleontologia humana, o francês Marcellin Boule (1861-1942) foi o primeiro a estudar os restos ósseos do homem fóssil encontrado, em 1908, em La Chapelle-aux-Saints, na Corrèze, conhecido por Homo neanderthalensis.

Homo neanderthalensis, de  La Chapelle-aux-Saints
Trabalhou no Museu de História Natural de Paris, onde também exerceu o cargo de professor de Paleontologia, de 1902 a 1936. Em 1910, juntamente com Henri Breuil (1877.1961) e Émile Cartailhac (1845-1921), fundou o Instituto de Paleontologia Humana de Paris, instituição que dirigiu entre 1893 e 1940, tendo criado a prestigiada revista Archives de l'Institut de Paléontologie Humaine et d'Anthropologie. Boule ficou na história da paleontologia humana, ao demonstrar que a mandíbula do então chamado Homem de Piltdown pertencia a um símio, denunciando, assim, uma fraude científica. Um outro francês com obra no domínio da paleontologia humana foi Camille-Louis-Joseph Arambourg (1885-1969).

Este professor de Geologia do Instituto Agrícola de Argel realizou trabalho importante de paleontologia humana do Norte de África, defendendo a condição humana dos neandertais, opondo-se ao modelo, então vigente, que os considerava entre os antropóides. Nesta fase da sua vida, procedeu a estudos de outros mamíferos fósseis da mesma região e publicou a memória Les poissons fossiles d'Oran (1927). Mais tarde, em 1952, publicou Les vertébrés fossiles des gisements de phosphates (Maroc-Algérie-Tunisie). Arambourg fez explorações na Síria e no Irão, de que resultou a publicação de uma outra memória Les poissons oligocènes de l'Iran, editada cerca de três décadas depois, em 1967. Procedeu a escavações no Vilafranquiano de Ternifine, perto de Mascara (Argélia), trazendo à luz do dia os restos fósseis do Homo erectus.

Uma expedição na Etiópia, no vale do Omo, permitiu-lhe descobrir os restos de Australopithecus. A culminar o seu volumoso trabalho, publicou Les vertébrés du Pléistocène de l'Afrique du Nord, numa primeira parte, em 1969, e numa segunda, dez anos mais tarde. Arambourg foi professor de Paleontologia do Museu Nacional de História Natural de Paris, de 1936 a 1956, no lugar deixado vago por Marcellin Boule.

No outro lado do Atlântico, o norte-americano Charles Schuchert (1858-1942), admitido como preparador de fósseis do Yale Peabody Museum, sob a orientação de Charles Emerson Beecher, trabalhou como ilustrador de paleontologia para o Geological Survey do Minesota. Tornou-se, assim, um notável estudioso em paleontologia de invertebrados, ao mesmo tempo que ia ampliando e melhorando a sua colecção pessoal. Pelo seu prestígio, Schuchert foi admitido na Universidade de Yale, sucedendo a Beecher na cadeira de paleontologia. Inovador da paleogeografia, criou, em 1904, o conceito de paleobiologia e o respectivo termo.

Ovo de Oviraptor (16 cm)
Um outro norte-americano, Roy Chapman Andrews (1884-1960), colector e taxidermista no American Museum of Natural History de Nova Iorque e, mais tarde, mestre pela Universidade de Columbia, ganhou notoriedade na paleontologia dos dinossáurios, sobretudo, pelas descobertas de fósseis destes animais na Mongólia. No primeiro quartel do século XX, Andrews descobriu uma das mais importantes jazidas dinossáurios no deserto de Gobi. Os fósseis que escavou, pertencentes a géneros novos para a ciência, particularmente bem conservados, são hoje peças de museu bem conhecidas do grande público, com destaque para Protoceratops, Pinacosaurus, Saurornithoides, Oviraptor e Velociraptor. Deve-se-lhe ainda a histórica descoberta, em 1923, dos primeiros ovos fósseis de dinossáurios, alguns deles ainda dispostos no seu ninho. Estes ovos que, de início, foram apresentados como sendo de Protoceratops, são, na realidade, de Oviraptor, como se verificou mais tarde.

Um outro dos seus feitos como “caçador” de fósseis, foi a descoberta das ossadas de Indricotherium (então chamado Baluchitherium), um mamífero gigantesco que viveu no Oligocénico da Ásia central há cerca de 30 milhões de anos. A notoriedade conseguida com os seus feitos guindaram-no, em 1934, a director do Museu onde trabalhara como um simples técnico.

Entretanto, na Europa, Albert-Félix de Lapparent (1905-1975), paleontólogo francês, é, sobretudo, lembrado pelo trabalho que realizou em torno dos dinossáurios, entre os quais os de Portugal, em colaboração com George Zbyszevski (1909-1999), com destaque para Lusitanosaurus liassicus, Apatosaurus alenquerensis, Astrodon pusillus, Brachiosaurus atalaiensis, Camarasaurus alenquerensis e Megalosaurus pombali. O crocodilo gigante Sarcosuchus foi encontrado por ele no Cretácico inferior do deserto do Sahara. Em 1986, o paleontólogo argentino José Fernando Bonaparte descreveu o género Lapparentosaurus, em sua honra.

Discípulo de Marcellin Boule e enquadrado pelo filósofo Édouard Le Roy (1870-1954) e pelo paleontólogo e filósofo Teilhard de Chardin (1881-1954), Jean Piveteau (1899-1991) estudou peixes primitivos e apresentou, em 1926, a sua dissertação de doutoramento intitulada Paléontologie de Madagascar. Amphibiens et Reptiles permiens. Coube-lhe o mérito de descrever a mais antiga rã (Triadobatrachus) conhecida. Interessou-se profundamente pela evolução dos mamíferos e pelo surgimento dos hominídeos, numa perspectiva que não era alheia às suas convicções religiosas. O último livro que publicou, La Main et l'homminisation (1991), ilustra bem estas suas ideias. Jean Piveteau é, sobretudo, lembrado por ter sido o coordenador do célebre Traité de Paléontologie, editado em 10 volumes, de 1952 a 1961, no qual colaboraram meia centena de especialistas nos diversos capítulos que completam a sistemática e a anatomia dos animais fósseis.

Primeiro titular, na Sorbonne, das disciplinas de Paleontologia dos Vertebrados e de Paleontologia Humana, ensinou todas as vertentes da paleontologia geral. Seu continuador, o geólogo francês Léon Moret (1890-1972), ficou na história da paleontologia através da publicação, em 1940, do Manuel de paléontologie animale, com 5 reedições, seguido do Manuel de paléontologie végétale, editado em 1948, duas obras de projecção internacional nos meios estudantis universitários.

Entretanto, do outro lado do Atlântico ganhava corpo uma obra monumental no domínio da paleontologia. No decurso da segunda metade do século XX, ia sendo editado pela Sociedade Geológica da América e pela Universidade do Kansas, o Treatise on Invertebrate Paleontology, coordenado por Raymond Cecil Moore (1892-1974). Com meia centena de volumes escritos por mais de 300 paleontólogos, abrange diversas áreas da paleontologia dos invertebrados, com descrições de pormenor nos aspectos morfológicos, taxonómicos, estratigráficos, paleoecológicos e paleogeográficos, num amplo projecto ainda incompleto e em constante actualização.

A. Galopim de Carvalho

CARTA DOS INVESTIGADORES DO LIP À FCT


26 de fevereiro de 2014

Exmo. Sr. Presidente da FCT,

Os investigadores do LIP - Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas estão profundamente preocupados com a situação atual e com o futuro da investigação científica em Portugal. A instabilidade e redução do emprego científico, a incerteza gerada pela falta de financiamento das instituições e projetos e o clima de desconfiança sobre a gestão dos diversos processos de avaliação da FCT são as razões principais da nossa preocupação.

O LIP participou diretamente numa importante descoberta científica deste século, a descoberta do Bosão de Higgs em 2012. Para tal foi necessária uma preparação de duas décadas, em que grandes equipas internacionais superaram, em cooperação, uma série de desafios tecnológicos, com impacto direto na transferência de tecnologia da ciência para a sociedade portuguesa, e com a participação de engenheiros e indústria, para além dos investigadores envolvidos nas pesquisas de ciência fundamental. Cortar o investimento na ciência fundamental trará custos futuros elevadíssimos também para outros sectores: segundo um estudo independente encomendado pela Sociedade Europeia de Física, a indústria com base na Física representava já em 2010 cerca de 14% da economia europeia, e 13% do emprego a nível europeu.

A nossa atividade necessita de equipas sólidas que levam anos a constituir e que são o maior recurso de qualquer instituição científica. Contudo, com o crescimento do sistema científico português, também a precariedade laboral aumentou e hoje prolonga-se até fases cada vez mais avançadas das carreiras científicas. Desde os contratos de bolsa, sem reconhecimento do direito à segurança social como qualquer trabalhador por conta de outrem, aos contratos de duração limitada a cinco anos, sem integração e progressão numa carreira estabelecida. Esta situação está agora a ser agravada, num claro ataque ao emprego científico.

A diminuição drástica verificada tanto no número de contratos resultantes do concurso Investigador FCT, divulgadas no final de 2013, como no número de bolsas de pós-doutoramento e de doutoramento atribuídas no concurso para bolsas individuais da FCT, põe em causa o funcionamento normal dos projetos de investigação em curso e compromete os projetos futuros. Entendemos que os últimos concursos, atribuindo um número muito reduzido de contratos e bolsas, padecem de uma seleção demasiado restritiva: os contratos e bolsas são vistos como prémios, sujeitando a continuação da vida normal de investigadores, projetos e instituições a uma arbitrariedade insustentável. Nestas condições qualquer erro de avaliação, por pequeno que seja, pode excluir candidatos“excelentes”, tornando-se ainda mais importante que a avaliação seja rigorosa e transparente, com critérios razoáveis e adaptados às diferentes realidades de cada área. Tornam-se assim graves os múltiplos problemas técnicos nas plataformas informáticas da FCT que afetaram as várias fases dos concursos referidos. Mas, principalmente, são ainda mais inaceitáveis as interferências burocráticas nas avaliações científicas efetuadas por especialistas, sejam as alterações conhecidas às atas dos júris no concurso de bolsas individuais, ou a atribuição não justificada de 6 valores a candidatos do concurso Investigador FCT classificados com 7,5 valores por avaliadores externos, implicando a reprovação destes candidatos.

A comunidade científica sempre se baseou na avaliação por pares, mas a confiança no processo de avaliação e nos avaliadores é fundamental, assim como o acesso a toda a informação que possa permitir a discussão dos resultados finais. Os processos de avaliação pouco claros a que assistimos quebraram a confiança da comunidade científica nacional na FCT. É urgente restabelecer essa confiança. Exigimos, portanto, que toda a informação sobre as várias fases de avaliação dos concursos seja tornada pública, de modo a que seja cumprida a legislação aplicável, nomeadamente o Código do Processo Administrativo, a saber: a análise das candidaturas pelos especialistas, o resultado das reuniões finais dos júris e também a descrição das várias interferências burocráticas durante os processos de avaliação.

A diminuição drástica do número de bolsas individuais atribuídas tem vindo a ser apresentada como uma reorientação de recursos, em que os estudantes de doutoramento serão financiados principalmente por bolsas de programas doutorais específicos e os doutorados por bolsas em projetos financiados. Este parece-nos um ataque direto à liberdade e autonomia científica. Neste modelo, seria então necessário evitar o afunilamento das áreas de estudo financiadas, mantendo programas doutorais e projetos diversificados, cobrindo as várias áreas científicas de forma abrangente. Não sendo assim, corremos o risco de ver áreas inteiras de investigação a desaparecer, e outras que no futuro não se chegarão a consolidar. Além do mais, uma mudança de paradigma como a anunciada não se pode levar a cabo num só ano – e muito menos num ano em que apenas houve financiamento de projetos exploratórios, com a duração de 12 meses e destinados a um segmento muito restrito da comunidade científica. Entendemos assim que esta alteração leva a uma diminuição efetiva no número de investigadores doutorados e doutorandos, assim como dos temas de investigação. As instituições já se confrontam com a saída de elementos essenciais às suas equipas, com destino a outras paragens onde as suas competências são reconhecidas como necessárias e respeitadas. Esta emigração deve-se não só à falta de perspetivas de futuro que estes investigadores têm em Portugal, mas também à diminuição da capacidade das instituições em minorar os efeitos da precariedade laboral, pois estão também elas reféns de grandes incertezas no que diz respeito ao seu financiamento futuro.

No caso concreto do LIP, parte significativa do orçamento é financiado pelo Projeto Estratégico da FCT enquanto Laboratório Associado e em projetos de longo prazo cujo
financiamento é reavaliado regularmente em concursos geridos pela FCT, em particular no âmbito do acordo de cooperação entre Portugal e o CERN. Não há, neste momento, um calendário concretizado para o concurso de financiamento de projetos no âmbito do acordo entre Portugal e o CERN, como não o há para os outros projetos de investigação. Entendemos que é necessário estancar de imediato a atual situação de incerteza e a crescente falta de confiança dos investigadores e das instituições na FCT. Para tal devem tornar-se desde já públicos os planos de financiamento das unidades de investigação e dos projetos previstos para o futuro próximo. Deve também ser estabelecida uma calendarização de longo prazo das oportunidades de financiamento e emprego, com regras claramente estabelecidas. Os processos de avaliação de instituições e programas doutorais devem garantir o respeito pela liberdade e autonomia de investigação nas diversas áreas, com equilíbrio entre as ciências fundamentais e as aplicadas, e devem decorrer de forma clara e transparente, por forma a garantir a confiança nos seus resultados finais.

A ciência não pode ser reduzida exclusivamente a uma minoria de "excelência". Só uma massa crítica de base, competente e diversificada, permite o aparecimento de novos temas de investigação e a abordagem de novos desafios. A ciência não se pode fazer com equipas voláteis. 

A ciência só se pode fazer com condições de estabilidade das equipas criadas que permita planear e desenvolver programas de investigação a longo prazo. São estas as bases de construção do conhecimento científico e da inovação tecnológica, sem as quais apostas isoladas terão menos condições para prosperar.

É urgente travar a erosão da comunidade científica nacional. Impõe-se uma mudança dos procedimentos da FCT, cujos métodos e resultados têm sido incompatíveis com a “excelência” que apregoa. A FCT deve cumprir o papel que lhe compete, retomando o diálogo com a comunidade científica, para que se possa restaurar a confiança perdida. Exigimos uma inversão da política que sustenta esta desastrosa gestão da ciência.

Os Investigadores do LIP,

Ainda a minha entrevista à Superinteressante

Eis algumas das respostas que dei a João Pedro Lobato, jornalista que me entrevistou para a Superinteressante. Por natural falta de espaço, nem todas as respostas foram publicadas. Outras perguntas e respostas encontram-se na revista que está nas bancas:

P- Existe sempre a tentação, a cada ciclo político do nosso país, em fazer tábua rasa do que antes foi edificado. Isso também ajuda a explicar, além das perseguições religiosas e políticas, o atraso científico que o país viveu? Existe o perigo de isso estar a acontecer neste momento?

 R- Sim, há. Cada governo faz questão de se distinguir do anterior em todos os aspectos. Ora, na ciência, mais do que uma brutal distinção precisávamos agora de alguma continuidade. A ciência é acumulação, construção continuada, pelo que não faz sentido querer, aqui e agora, ainda para cima sem aviso prévio nem discussão, mudar de “paradigma” na política de ciência. Pequenas mudanças podem fazer sentido, mas não rupturas. A palavra “paradigma” aliás é muito do gosto dos pós-modernos, que a foram beber a Kuhn, e não percebo por que é agora usada. É preciso regar a ciência para ela crescer mais. O sistema científico português ainda é jovem e relativamente frágil, tem de ser maior e mais forte. A árvore não estava suficientemente grande para ser “podada”, usando a infeliz linguagem agrícola em que o actual governo se inspira. Além do mais, é um enorme erro político criticar e interromper a política de crescimento de ciência levada a cabo nos últimos anos e que tão bons resultados tem dado do ponto de vista de qualificação de pessoas. Essa política foi, de resto, aplaudida pelos cidadãos, pelo que a sua interrupção é impopular.

P- A estabilidade política é importante para o enraizamento e evolução da ciência num país. Todavia, vemos casos em que isso não ocorreu mas em que havia sempre uma ênfase e uma aposta muito grande na ciência (vide o exemplo da Alemanha). O que se passa com Portugal? Somos, tradicionalmente, adversos à ciência? Existem aqui razões culturais? Porque não é ela capaz de se enraizar e ser vista, de forma consensual, como um garante fundamental para o futuro do país?

 R- Em geral na Europa não há grandes discórdias quanto à necessidade de uma aposta continuada na ciência. Há uma cultura científica entranhada, isto é, reconhece-se que a ciência faz parte da cultura. Em Portugal há, porém, um cultura velha e relha, que, mais do que se opor à ciência, a ignora pura e simplesmente. Concordo que a ciência – e, como a ciência é uma forma de cultura, prefiro dizer a cultura em geral, incluindo nesta não só a ciência como as artes – podia e devia ser para nós um desígnio mobilizador. Mas aparecem, quando menos se espera, manifestações da tal cultura que ignora a ciência. Não temos ainda uma cultura científica sólida. A ciência no passado não foi suficientemente forte para que essa cultura surgisse. O actual ministro da Ciência Nuno Crato conhece a cultura científica, mas parece um homem isolado dentro do governo. Veja-se o ataque à ciência que foi feito pelo ministro da Economia.

P- No que se refere às empresas portuguesas, elas costumam fazer uma forte aposta I&D? Qual tem sido a tendência nos últimos anos? E, já agora, elas têm absorvido, em número considerável, os investigadores e especialistas que o nosso sistema de educação e científico tem vindo a criar nos últimos anos?

R- Há algumas empresas que fazem I&D, mas não são em número suficiente. Nem o sector de I&D dentro delas é suficientemente forte. Surgiram várias empresas baseadas em conhecimento – só para dar exemplos que conheço bem, veja-se o parque de indústrias de biotecnologia que se constituiu em Cantanhede, no Biocant, ou os resultados do Instituto Pedro Nunes ligado à Universidade de Coimbra. Mas são andorinhas que não fazem ainda a Primavera: isto é, os jovens formados cientificamente não estão a ser absorvidos em número suficiente, o seu valor não é reconhecido. Muito poucos doutorados estão nas empresas nacionais. Vêem-se obrigados a emigrar. Era preciso que os nossos empresários se apercebessem da enorme mais valia que são esses recursos humanos.

P- O que é necessário para consolidar, de vez, a ciência no nosso país?

R- Continuar a aposta feita nos últimos anos, continuando a fazer crescer o sistema científico e tecnológico, ao mesmo tempo que se melhorava a ligação ao ensino superior e às empresas, em particular facilitando o emprego científico tanto no público como no privado. Continuar o esforço feito na expansão da cultura científica, pois a ciência não pode crescer se não crescer o interesse por ela.por parte do público.

P- Ribeiro Sanches afirmou que “a educação era a chave da transformação social e económica”, tendo advogado (1) “uma escola pública, aberta a todos, embora duvidasse da igualdade completa entre os estudantes, (2) defendendo uma educação especial para as elites”. À luz da actualidade, as duas partes desta receita ainda são as mais indicadas para o século XXI?

R- A linguagem pode ser do século XVIII, mas as ideias de Ribeiro Sanches ainda hoje fazem, no essencial, sentido. Todos somos iguais, mas todos somos diferentes. Precisamos de uma boa escola pública, que proporcione iguais oportunidades a todos. Ninguém deve ser excluído da escola por motivos económicos. Mas depois temos de proporcionar o melhor aos que mostrarem, na escola, ser melhores. Devemos deixar os talentos mostrarem-se e desenvolverem-se em vez de os reprimirmos, num sistema e clima de uniformidade.

P- Dos quatro factores, que identifica no livro, para o atraso histórico da ciência em Portugal (o isolamento de Portugal, a falta de liberdade, a falta de meios e a iliteracia – sendo que incluo aqui a iliteracia científica), quais ainda constituem um problema a resolver?

R- No tempo de globalização, o isolamento geográfico já não será hoje problema. Num tempo de democracia, o mesmo se aplica à falta de liberdade. Quanto à falta de meios é um problema que persiste: Portugal continua a não ser tão rico como outros países europeus, o nosso PIB ainda é pequeno. Quanto à literacia, se o problema do analfabetismo está quase resolvido, não está o problema do analfabetismo científico. Este é um dos nossos grandes dramas, tanto como o analfabetismo “tout court” era há cem anos.

P- Na sua opinião, os responsáveis pelas políticas científicas do nosso país deveriam conhecer melhor a história e as vicissitudes da ciência em Portugal, para evitarem cometer os grandes erros que ocorreram no passado?

R- Sim, claro. Não percebo, sinceramente, por que é que a história da ciência foi abolida como disciplina de pleno direito pela Fundação para a Ciência e Tecnologia - FCT. Uma Fundação que não quer saber da história não ficará na história. O irónico é que Nuno Crato se distinguiu como um historiador da ciência e até um grande divulgador da história da ciência. Na FCT, porventura, não sabem isso.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mais uma vez: Qual é o problema!?


Um dia destes realizou-se em Cascais uma grande conferência, não sei exactamente sobre quê, organizada por certa revista conceituada na área da economia e a que a comunicação social deu um enorme destaque.

Servia de pano de fundo à tribuna dos palestrantes um painel pejado de publicidade.

Entre os palestrantes esteve o primeiro ministro de Portugal e o ministro que ocupa um cargo logo a seguir, vários ministros e secretários de Estado; esteve também o líder do maior partido da oposição.

Estiveram, ainda, directores, chefes e várias outras tipos de representantes de empresas.

Se estes não destoavam à frente do tal painel, pois a publicidade faz parte do seu mundo; aqueles... bem... pura e simplesmente, não podiam estar ali! Isto foi o que eu disse de mim para comigo.

Os mais altos representantes do Governo de um país, seja ele qual for, e o (talvez) futuro Governo, não podem, em circunstância alguma, ser associados a qualquer produto, marca, interesse particular. A isenção e a sua evidência é uma regra absoluta, não há nem pode haver excepções.

Quem patrocina, já se sabe, muito legitimamente, tira ou procura tirar dividendos. Pode não ter sido o caso, não digo que foi, mas a simbologia é arrasadora: o poder político dando a cara, mas tendo na retaguarda o poder económico e dos negócios.

Presumo que este tipo de cenário se torne habitual, como já o é em escolas e universidade públicas, em museus públicos, etc., etc, etc e presumo também que muitas pessoas, caso leiam um texto como este perguntem: qual é o problema!?

Maria Helena Damião

MINHA ENTREVISTA À SUPERINTERESSANTE


No número de Março de 2014, que está nas bancas, dou uma grande entrevista sobre o passado, o presente e o futuro da ciência em Portugal.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O OXIGÉNIO E A EVOLUÇÃO DA VIDA

Crónica originalmente publicada na imprensa regional.
A evolução da vida na Terra foi marcada pelo aumento do oxigénio na atmosfera e nos oceanos.

No início da formação da Terra, há 4,6 mil milhões de anos, havia muito pouco oxigénio gasoso (oxigénio molecular, O2). O oxigénio então existente estava combinado com outros átomos, como seja o hidrogénio, formando a água que hidratou o planeta ao longo da sua evolução.

E foi em meio aquático, nas ondas dos oceanos primitivos, que as primeiras formas de vida surgiram. As evidências fósseis mais antigas de microrganismos têm 3,6 mil milhões de anos. Não quer dizer que a vida não existisse antes. Quer dizer que ou não deixou rastos, ou ainda não foram encontrados. Aquelas formas de vida unicelulares pertencem ao grupo designado por cianobactérias.

As cianobactérias primitivas possuíam a capacidade de usar a luz solar com fonte de energia para efectuarem a fotossíntese. Nesta, o oxigénio presente nas moléculas de água é combinado para dar origem à molécula de oxigénio que se difunde pelas águas dos oceanos e para a atmosfera. O aumento de oxigénio molecular, produzido pela acção da vida, marcou a evolução da própria vida e mudou a química do planeta.

Há evidências geológicas que mostram como foi a evolução da concentração de oxigénio na história da Terra. Sabemos que o nível de oxigénio na atmosfera não aumentou linearmente. Muito pelo contrário, durante os primeiros 3 mil milhões de anos depois do início da sua produção biogénica, a sua concentração na atmosfera permaneceu residual. Mas, há cerca de 2,4 mil milhões de anos ocorreu o que é designado por primeiro grande evento de oxigenação (GOE, na sigla inglesa), e que é caracterizado por um primeiro aumento, mas tímido, no oxigénio atmosférico.

O oxigénio, produto da vida, foi-se primeiramente combinando com outras substâncias, como a pirite (FeS2), presentes nos fundos oceânicos e na superfície dos solos terrestres. Ou seja, este sequestro do oxigénio por diversas substâncias, ao longo de milhares de milhões de anos, impediu que ele estivesse disponível para ser usado para a complexificação da vida.

E, de facto, verifica-se um longo jejum evolutivo durante cerca de 3 mil milhões de anos, com o surgimento de poucas novas formas de vida, que se mantinham principalmente unicelulares ou vivendo em colónias.

Contudo, há cerca de entre 850 a 550 milhões de anos algo mudou no planeta e a concentração de oxigénio disparou para cerca de 31% na atmosfera (10% a mais do nível actual). E essa mudança oxidativa foi acompanhada por uma explosão evolutiva no horizonte da vida. No que é conhecido por explosão câmbrica, verificamos o surgimento de uma miríade de novas expressões de formas vivas muito diversas. Todos os antepassados das plantas e animais actuais surgiram nessa explosão incendiada pelo aumento brusco de oxigénio livre.

Não sabemos o que é que originou este grande aumento de oxigénio num momento designado por segundo grande evento de oxigenação. Mas geólogos da Universidade da Tasmânia, Austrália, descobriram que esse momento foi também acompanhado pelo aumento da disponibilidade de outros elementos e materiais para a vida nos oceanos. Os resultados da equipa liderada por Ross Large vão ser publicados em março na revista “Earth and Planetary Science Letters”.

António Piedade

Ainda as pressões de Leonor Parreira sobre o CNCT

Trancrevemos no Público a resposta de José Vítos Malheiros a alguns membros do Conselho Nacional de Educação:

Quero agradecer aos membros do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNCT) a carta que enviaram ao PÚBLICO e que foi aqui publicada no passado dia 22. Sem esta carta, o caso das pressões sobre o CNCT feitas pela secretária de Estado da Ciência (SEC), Leonor Parreira, acabaria provavelmente por ser esquecido, o que seria lamentável. A sua publicação permite-me, porém, voltar a dar ao caso a atenção que ele exige.

 São levantadas na carta mais questões do que aquelas que são respondidas, mas penso que é necessário fazer um esforço para tentar esclarecer dois pontos principais. ss
 A primeira questão que se coloca é esta: se o CNCT não foi objecto de “pressões indevidas” por parte da SEC, por que é que os membros subscritores desta carta não vieram a terreiro em devido tempo, quando a notícia dessas pressões foi dada pelos media (incluindo o PÚBLICO, Expresso e RTP, entre outros)?

 Esta questão gera uma dupla perplexidade, pois a divulgação de pressões da SEC sobre o CNCT não foi feita apenas pela imprensa, mas foi objecto (a 10 de Fevereiro) de um comunicado oficial do Conselho dos Laboratórios Associados (CLA), um órgão que não só reúne 26 das principais instituições científicas nacionais como possui elementos em comum com o CNCT. Nesse comunicado, o CLA diz expressamente que “o Governo se permitiu exercer pressão sobre as deliberações deste órgão consultivo por si nomeado [CNCT]”, mas estes membros do CNCT também não contestaram essa denúncia, o que é difícil de compatibilizar com a garantia agora dada de que não houve pressões.

A segunda questão tem a ver com o ponto central na carta: a garantia de que o CNCT não foi “indevidamente pressionado por qualquer membro do Governo”. É com algum desconforto com que se lê aquele “indevidamente”, que parece sugerir que existem, na opinião destes membros do CNCT, pressões do Governo sobre um órgão de aconselhamento que são legítimas, mas talvez isso não passe de um descuido de redacção. O que não pode ser atribuído a um descuido é o mail que o coordenador do CNCT enviou aos conselheiros (divulgado pelo Expresso a 5 de Fevereiro) onde lhes transmite o desagrado da secretária de Estado com a primeira versão do comunicado do CNCT que lhe foi enviado. ssssssssssss É verdade que o comunicado do CNCT acabou por ser publicado e poder-se-ia dizer que essa publicação é a prova de que o conselho foi impermeável às pressões da SEC. Só que essa publicação só teve lugar depois (e não antes) de o comunicado ter sido objecto de uma fuga de informação, o que lhe retira esse carácter probatório.

A única forma de compatibilizar o conteúdo desta carta com os factos que conhecemos (recusando cenários extremos como admitir a) a hipocrisia dos seus subscritores ou b) a existência de pressões pessoais sobre cada um deles), é considerar que estes membros do CNCT adoptam um raciocínio tautológico do tipo: “Como não somos pressionáveis, nada do que nos seja dito ou feito constitui uma pressão”. Mas o que estes conselheiros esquecem é que quem está neste caso em questão não é o CNCT, mas Leonor Parreira e o Governo. É irrelevante (para este efeito) se a pressão funcionou ou não. É irrelevante se ela foi sentida como uma violência ou não. O grave é que ela tenha existido.

 É possível que, devido à excessiva informalidade do nosso pequeno meio, tenha havido quem considerasse a pressão da SEC um mero desabafo pessoal “da Leonor” com os colegas, amigos ou conhecidos de longa data. Mas um governante não é um agente privado nem possui o mesmo grau de liberdade na acção pública que uma vizinha que fala no patamar da escada. Um governante é (deveria ser) um guardião dos princípios de boa governação e de ética democrática, que não pode manipular a seu bel-prazer nem desbaratar. Os procedimentos que garantem a independência de um órgão consultivo, a transparência de processos e a liberdade de opinião são sagrados e é lamentável que um governante não perceba isso. A médica Leonor pode dizer o que quiser aos seus colegas, mas a secretária de Estado Leonor Parreira tem outras responsabilidades. E, ao dizer aos conselheiros que o seu comunicado é "incorrecto e parcial", que está "escrito em tom muito negativo", que apenas pretende "salvar a imagem pública dos membros do conselho", que não "contribui para uma melhor política da ciência" e que demonstra “má-fé”, ultrapassa uma fronteira que não deveria ultrapassar e viola a esfera que tem a obrigação de defender.

Esta carta permite-nos admitir que nenhum destes conselheiros do CNCT se sentiu pressionado, censurado ou limitado na sua liberdade de opinar e criticar. Não há razão para duvidar deste sentimento. Há mulheres maltratadas que amam os seus maridos abusadores e que acham que, se são espancadas, é porque merecem. Há reféns que sentem simpatia pelos seus raptores. Há estudantes praxados que agradecem aos “veteranos” que os arrastam pela lama. Existe de tudo sob o Sol. Mas, se é assim, o que temos de lamentar por parte destes conselheiros do CNCT é que coloquem tão baixo a fasquia da sua exigência democrática e do seu amor-próprio.

José Vítor Malheiros

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

RUI REIS SOBRE A CIÊNCIA EM PORTUGAL

Em entrevista a Virgílio de Azevedo do Expresso, Rui Reis, o cientista português com mais publicações (+ de 700) diz desassombradamente o que pensa sobre a política de ciência em Portugal (ou a falta dela):

"P. Gere projectos no valor de 35 milhões de euros. É muito a nível nacional?

R. Em termos individuais, devo ser o investigador português mais competitivo a conseguir captar fundos internacionais. A nível nacional na Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), tenho grande taxa de insucesso, e sempre tive. Neste momento, tenho zero projectos na FCT.

P. Porquê?

R. Não consigo entender. Há um discurso oficial de excelência, mas é muito estranho que uma pessoas seja excelente em todo o lado, reconhecida por toda a gente, e chegue a Portugal e deixe de o ser.
(...)

P. Como vê as polémicas sobre a nova política científica do governo?

R. Acho que não há grande política, mas uma tentativa de defender um conjunto de decisões que não terão sido muito pensadas.

P. Mas há um novo modelo para a ciência?

R. Bom, pode haver algumas ideias de um conjunto de pessoas, curiosamente ligadas a um conjunto de laboratórios, curiosamente localizados numa cidade, que estão todas ligadas à Secretaria de Estado da Ciência e à presidência da FCT. Mas não pode haver só dois ou três responsáveis que têm razão nestas polémicas e não ouvem ninguém. O que o Conselho dos Reitores diz não serve para nada, o que o Conselho dos Laboratórios Associados diz não serve para nada. A primeira palavra-chave do Governo é transparência, mas nunca houve tanta trapalhada na história da ciência em Portugal, com toda a gente a queixar-se dos cortes nas bolsas de investigação, dos painéis de avaliação, de irregularidades. A outra palavra-chave é excelência, mas se fosse verdade não acontecia o que se passou nos concursos da FCT para linhas de excelência em 2013, destinadas aos projectos de 500 mil euros. Os meus colegas mais excelentes na Universidade do Minho, que publicam artigos com Prémios Nobel, não foram financiados e depois aparecem pessoas incríveis a conseguir apoios para esses projectos. Se quem vai buscar dinheiro lá fora como nós não é excelente cá dentro, há qualquer coisa que não funciona."

Dos prazos e da dignidade

A singela notícia de que Bruxelas vai obrigar os hospitais públicos a pagar aos fornecedores a 60 dias, no MÁXIMO, é uma coisa fantástica e reveladora da inviabilidade da república portuguesa. Do outro lado da factura há portugueses, portugueses que trabalharam para colocar o fornecimento no hospital, que são tão ou  mais portugueses que os decisores de um hospital que recorre à esperteza saloia para se financiar fora dos bancos. Muitas vezes esta situação lança no desemprego quem cumpriu com a sua função - entregou o bem/serviço - para que quem não o fez - pagou a tempo e horas o que consumiu - continue com o seu ordenado bem acima daquilo que o patrão pode pagar, neste caso o povo português.

Repare-se que para que todos os portugueses sejam tratados de forma igualmente digna, neste caso sejam pagos pelo seu trabalho,  é necessária uma imposição externa. Ela não surge naturalmente dos serviços da república que são pagos para que todos os portugueses tenham igual dignidade perante a lei. Não foi emanada da presidência da república, não apareceu num dos famosos acordãos do tribunal constitucional, nem de uma lei do parlamento. Foi Bruxelas que é, pelos vistos, o verdadeiro garante da democracia portuguesa e daquilo que nós mesmos escrevemos na constituição.

Para além das inúmeras ideias que isto possa trazer de redução de custos ao.erário público português, como a substituição de organismos locais que não cumprem a sua função por organismos europeus que o fazem, isto deve fazer-nos reflectir sobre a saída definitiva da troika das decisões do estado português. Espero que com resgate, sem resgate, com ou sem cautelas, haja alguém que faça aquilo que o estado português parece ser incapaz: proteger todos os seus cidadãos com igual dignidade.

A evolução da espécie humana

Informação chegada ao De Rerum Natura.


Na próxima 4.ª feira, dia 26 de Fevereiro de 2014, pelas 18h00, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra - a palestra intitulada "A evolução da espécie humana", com a Professora Doutora Eugénia Cunha.

Esta palestra insere-se no Ciclo de palestras "Cosmos", ministrado pelo Bioquímico António Piedade.

Entrada Livre e Gratuita

BIOGRAFIA DA ORADORA: Eugénia Maria Guedes Pinto Antunes da Cunha é licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Em 1994, concluiu o Doutoramento também na Universidade de Coimbra. É, desde 2003, professora catedrática no agora Departamento de Ciências da Vida, onde integra a Comissão Cientifica. É ainda Coordenadora do Mestrado em Evolução e Biologia Humanas desde 1998 e preside à FASE-Forensic Anthropology Society of Europe desde 2009. Eugénia Cunha tem os ossos como o seu principal objeto de investigação e pertence ao Centro de Ciências Forenses onde é responsável pelo grupo de Antropologia Forense. É ainda, desde 1997, consultora Nacional para a Antropologia Forense do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML, IP).

Insigne botânico e grande senhor da palavra


Para os que tiveram o privilégio de lidar com ele, o Catarino, na gíria dos alunos, ou o Mangas, para os amigos mais chegados, é uma mistura alegre e contagiante de sabedoria, humanidade e simpatia.

Meu par na direcção do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, o Prof. Fernando Catarino, ainda bem activo em múltiplas acções de cidadania, é, de entre os universitários que conheço, um dos que guardo no cofre das boas memórias. Foram 50 anos de convívio profissional e de companheirismo nas lides pela vulgarização do conhecimento científico que protagonizámos neste Portugal sempre adiado, eu, como de costume, falando de pedras, e ele, de tudo o que tem a ver com árvores e florestas, jardins e flores, das rosas às papoilas.

Uma das muitas vezes que, como simples participante interessado em aprender, acompanhei este grande comunicador científico, foi “Onde a Terra se acaba e o mar começa”, como escreveu Camões no Canto III de Os Lusíadas, ou seja, na ponta mais saliente do promontório que marca o extremo ocidental da Serra de Sintra, a que os homens do mar chamavam o “Focinho da Roca”.

Com ele desci a falésia no sítio do farol, um escarpado que permite observar aspectos particulares da intrusão magmática que elevou esta “jóia da petrografia”, como se lhe referiu o Prof. Alfred Lacroix, ilustre petrógrafo francês que lhe dedicou particular atenção. Mas não foi para observar as rochas que descemos até o mar. Fomos em busca da Armeria pseudoarmeria, uma espécie rara de dicotiledónea, da família das plumbagináceas, que ali floresce a um dado nível da estratificação florística presente. Já não recordo a altura do ano dessa memorável excursão. Só sei que, no regresso, a subida foi lenta e ofegante, sob um calor intenso, o que não impediu o professor de falar, descrever, comentar, explicar um pormenor aqui e ali e, até, lembrar Lord Byron, o poeta inglês da viragem do século XVIII ao XIX, que se referiu a esta serra como um Éden Glorioso, considerando-a, deselegantemente, uma pérola lançada a porcos.

A elevada sensibilidade poética deste meu amigo, revelou-se-me numa das primeiras saídas de campo que fizemos juntos. Foi na Arrábida, mais precisamente na Mata do Solitário. Aí, numa pausa que fizemos junto de uma Pistacia lentiscus, a vulgar aroeira, o mestre abriu a sacola e retirou, lá de dentro, um livro de poemas de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), frade e poeta que viveu ali, no convento dos Capuchos. De seguida, leu alguns sonetos para o grupo de acompanhantes deliciados com aquele outro talento do insigne botânico.

A última das várias oportunidades em que tive o prazer de o acompanhar, foi no parque anexo ao Palácio da Pena, em Sintra. Estávamos em Agosto. Os cimos da serra permaneciam envoltos numa nebulosidade fresca, a contrastar com o azul celeste e o calor estival da planura que se estende a Sul da pequena montanha. Contagiado pelas suas explicações, esta preciosa mata, enriquecida por árvores centenárias e exóticas, afigurou-se-me uma sinfonia de troncos e folhagens verdes embaladas num vento leve.

Para os que tiveram o privilégio de lidar com ele, o Catarino, na gíria dos alunos, ou o Mangas, para os amigos mais chegados, é uma mistura alegre e contagiante de simpatia, humanidade e sabedoria.

A. Galopim de Carvalho

Minha resposta a alguns membros do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia

Caros Colegas do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia

Agradeço o Vosso esclarecimento (que não sei se representa a posição do órgão) de "que os factos acima descritos não autorizam a interpretação de que o Conselho terá sido indevidamente pressionado". Factos são que houve uma fuga de informação da responsabilidade interna do órgão e que a imprensa publicou um comunicado que tardou a aparecer no Vosso sítio, comunicado que não foi desmentido em devido tempo assim como não foram os termos com que foi apresentado. Os meus Amigos não desmentiram as notícias vindas a lume, mas querem agora esclarecer os articulistas que exprimiram de forma livre a sua opinião, com base nas notícias disponíveis.

Não, não vou tirar a conclusão de que houve pressões legítimas, ou devidas, de quem quer que seja porque estaríamos todos a passar ao lado do essencial para nos concentrarmos no acessório. O essencial aqui é a defesa da ciência, que é aquilo que nos une. E a questão é a de saber se a ciência está a ser bem defendida pelo governo, após as recentes de declarações em primeiro lugar do ministro da Economia e depois do próprio primeiro-ministro. Reconhecem logo no título do vosso documento que houve recentes "alterações às políticas nacionais de recursos humanos em ciência e tecnologia". Ora esse era precisamente o tema do meu artigo de opinião no PÚBLICO intitulado Ciência à Deriva. O programa do governo na área da ciência não está a ser cumprido, pois não está a ser continuada a política, que até aqui tinha sido consensual, de reforço dos recursos humanos para assegurar o crescimento do sistema nacional de ciência e tecnologia, num processo de convergência com a União Europeia. Foi para isso que quis chamar a atenção no meu escrito. Não transcrevi por falta de espaço, mas deixo aqui. o anúncio do primeiro ministro, que preside ao vosso Conselho, do corte com a política passada, em nome de uma maior proximidade da ciência à economia. Faço-o para vos relembrar o que está em causa. Segundo o despacho da Lusa, que o PÚBLICO publicou em 4 de Fevereiro:
"o primeiro-ministro afirmou que, em matéria de ciência e tecnologia, o actual Governo está gradualmente a “romper com as políticas passadas” baseadas na ideia de que “mais dinheiro público” produz “qualidade” em termos de resultados. “De facto, não é assim”, disse Passos Coelho, referindo-se às bolsas atribuídas pela FCT. “Durante vários anos, conseguimos transferir mais recursos para o sistema e atribuir mais bolsas. No entanto, quando medimos depois o número de patentes que são registadas, o número de artigos científicos que são publicados, quando medimos o resultado e a qualidade desse resultado, nós passávamos de indicadores que pareciam comparar muito bem com os países com que gostamos de nos comparar para comparar muito mal sempre que olhávamos à substância dos indicadores”, sustentou. Segundo o primeiro-ministro, é preciso “mudar a filosofia das políticas públicas que estavam a ser executadas”, assegurando que o financiamento dirigido à ciência, à tecnologia e ao sistema educativo “produz resultados” e “cria valor” na economia. Temos, portanto, de aprender a medir os resultados e temos de garantir que as bolsas que nós usamos para financiar os doutoramentos, os pós-doutoramentos, a investigação que é feita não corresponde meramente a uma política de recursos humanos de empregar os melhores, mas que possa resultar em ter mais gente do lado das empresas, altamente qualificada, a desenvolver investigação e a fazer a translação de conhecimento que traga valor para essas empresas e para a economia”, defendeu o primeiro-ministro."
Aparentemente esta mudança foi tomada sem ouvir o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. É natural que estejam preocupados. Acompanho-vos nas Vossas preocupações. Concluí o meu artigo, reforçando as Vossas preocupações, valorizando assim um órgão de quem muito há a esperar no sentido da defesa da ciência nacional:
"Que não há uma política clara foi reconhecido pelo dito conselho ao solicitar que o Governo “torne público o seu plano estratégico de fundo, comunicando, clara e atempadamente, as suas políticas à comunidade”. E que a FCT anda ao deus-dará foi outra conclusão do mesmo órgão ao pedir uma “avaliação externa à FCT.” Vamos ver quando e como surgem quer o plano, quer a avaliação. " 
Não contestaram esta minha conclusão. Estando nós de acordo, como está em geral a comunidade científica nacional, de que é preciso conhecer o "plano estratégico de fundo" sobre a ciência e que é precisa uma "avaliação externa à FCT", não vejo que pormenores de somenos nos possam dividir. Insisto que  é preciso unirmo-nos em torno do essencial. Um dos problemas da ciência portuguesa é aliás, na minha opinião, a inexistência de suficiente união dos cientistas nacionais. Todos juntos poderíamos contribuir para continuar os extraordinários progressos realizados nas décadas mais recentes pela ciência portuguesa. 

Com a maior consideração e estima,

Carlos Fiolhais


PS) Para o dito "plano estratégico de fundo" sugiro que seja considerada a cultura científica. Julgo que concordarão comigo que, para ultrapassar os actuais problemas da ciência, é necessário reforçar essa cultura, por ela ser a base da sustentabilidade social da ciência. Mas não tenho a certeza que a actual FCT concorde, pois ela extinguiu, sem qualquer aviso prévio nem discussão da comunidade, as áreas da história da ciência e da promoção da ciência. Talvez tenham uma opinião sobre o assunto, que evidentemente respeitarei se não coincidir com a minha.

Um esclarecimento do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNCT)

Registo aqui este "esclarecimento" publicado no "Público" de sábado:

Na sequência dos artigos de opinião de José Vítor Malheiros e Carlos Fiolhais, intitulados, respectivamente, “A chatice das pessoas que pensam pela sua cabeça” e “Ciência à deriva”, publicados nos dias 18 e 19 de fevereiro de 2014, no jornal PÚBLICO, vêm os signatários, membros do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, esclarecer o seguinte:

1. Na sua reunião de 23 de janeiro de 2014, em que recebeu informações e esclarecimentos da Secretária de Estado da Ciência e do Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o Conselho acordou em publicar um documento que veio a ser designado por “Reflexão e Recomendações do CNCT sobre as recentes alterações às políticas nacionais de recursos humanos em ciência e tecnologia” (www.cnct.pt).

2. Após a elaboração de uma versão preliminar desse documento, entendeu o Conselho submetê-la a todos os participantes da reunião de 23 de janeiro, sem exceção, para que pudessem verificar a fidedignidade da informação contida no documento e expressar sobre ele aquilo que livremente entendessem.

3. Tendo recebido comentários por parte de vários participantes da reunião, incluindo da Secretária de Estado da Ciência, o Conselho reuniu de novo presencialmente a 10 de fevereiro com o fim de os apreciar. O Conselho estabeleceu então, por unanimidade dos 16 membros presentes, o texto definitivo, onde se corrigiram, em relação à primeira versão, pequenos detalhes factuais e se clarificaram expressões que poderiam dar origem a interpretações dúbias.

4. É entendimento unânime dos signatários que os factos acima descritos não autorizam a interpretação de que o Conselho terá sido indevidamente pressionado por qualquer membro do Governo, sujeito a qualquer tentativa de censura ou limitado na sua independência de opinião e nas suas decisões de a manifestar, quando oportuno lhe parece, ao Governo e à opinião pública.

5. O Conselho reafirma a sua determinação em defender os interesses da ciência e da tecnologia em Portugal e manifesta o seu repúdio por suposições falsas que põem em causa a sua independência e a idoneidade de todos os participantes neste processo.

Os membros do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia:

José Miguel Caldas de Almeida, André Azevedo Alves, Sebastião Feyo de Azevedo, Miguel Castelo Branco, António Coutinho, Mónica Bettencourt Dias, Elvira Fortunato, João Lavinha, Henrique Leitão, Pedro Magalhães, Helder Maiato, Maria Manuel Mota, Pedro Portugal, João Rocha, Maria João Valente Rosa, Luis O. Silva, José Miguel Urbano, Francisco Veloso.

RELVAS ESTÁ DE VOLTA


A imposição, por parte de Pedro Passos Coelho, de Miguel Relvas para Presidente do Conselho Nacional do PSD não pode deixar de ser considerada uma "bofetada de luva branca" no seu ministro Nuno Crato, que tinha afastado Relvas da governação por lhe faltarem as habilitações académicas que ele reclamava ter.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Por enquanto, a Europa é uma ficção, mas é uma boa ficção

Trancrevo na íntegra, coma correcção de pequenas gralhas, a entrevista que dei na semana passada ao Jornal de Negócios:

Carlos Fiolhais fala do explorador Fernão Mendes Pinto. Fala do médico Garcia de Orta. Fala do matemático Pedro Nunes. Esses senhores do século XVI que indagavam o mundo. Que sonhavam. Porque o sonho é preciso. É preciso imaginar um amanhã. Carlos Fiolhais, físico, ensaísta, divulgador, fala apaixonado. Os cientistas agarram-se às questões e não as largam. Mas é sua obrigação publicar o que sabem. A ciência não é dos cientistas, é de todos. A isto chama-se cultura científica. Ele tem medo que isso se perca. Que a ciência se isole. E, sozinha, a ciência estiola. Carlos Fiolhais é muitas coisas. É responsável pelo programa Ciência e Inovação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, dirige o projecto “Rómulo” – Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra. É accionista e administrador da Coimbra Genomics.empresa da área da genética médica integrada no Biocant. Subscreveu o “Manifesto contra a Crise – Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes”. “Somos ou não capazes de ambicionar um amanhã melhor?”.

A partir de uma conversa com LÚCIA CRESPO

 Como cientista, eu gosto muito do amanhã, e por uma razão muito simples: amanhã vou saber mais coisas. Há uma dimensão imaterial no homem, que é aquilo que o distingue. O homem faz projecções e as projecções são imaginações, esperanças, ficções. Nós imaginamos o futuro. Queremos um futuro melhor e temos um meio para tal, que é a ciência. O filósofo Francis Bacon dizia que saber é poder. E de que maneira! O facto de conseguirmos usar o nosso cérebro para imaginar como é o mundo, e depois confrontar o mundo com a nossa imaginação, significa um poder imenso.

O poder é sempre poder. Pode ser bem ou mal usado, e quem define o que é o bem e o mal são as sociedades, não são os cientistas. Existem perigos da ciência, como existem perigos em qualquer actividade humana, não há nada que seja absolutamente inocente, até há romances que levam pessoas a suicidar-se. Os perigos da ciência têm de ser resolvidos, mas não é reprimindo a ciência, é com mais ciência.

Vai ser publicado um livro chamado “Experiência Antárctida”, de um cientista que esteve seis meses em condições de absoluto isolamento, numa cabine da Antárctida. Diz ele que a primeira coisa que faz quando chega à civilização é comer um pastel de nata. Diz ele que só quem esteve seis meses na Antárctida sabe o que é o cheiro a canela, a dentadinha, o crocante, o que só mostra que os cientistas são humanos e, talvez, a única diferença que têm em relação a outros seres humanos é o facto de terem mais curiosidade. Uma vez, perguntaram ao Einstein o que é que o distinguia dos outros e ele respondeu: tenho uma curiosidade apaixonada, uma curiosidade que transborda.Os cientistas agarram-se às questões e não as largam. Mas é sua obrigação publicar o que sabem. A ciência não é dos cientistas, a ciência é de todos. A isto chama-se cultura científica. É a ciência a entregar à sociedade o saber que adquire.

Com certeza que em Portugal há curiosidade e há audácia, mas podemos ser mais curiosos, mais audazes. Não sei se a curiosidade se foi perdendo, se foi sendo abafada, mas nós temos uma história algo infeliz com a ciência. No século XVI, fomos a novas terras, a novos mares, a novos céus, descobrimos novas espécies, novas terras, novas paisagens, novas gentes, novas culturas, houve um encontro com a China, com o Japão. Fomos nós, portugueses ou estrangeiros que passaram por Portugal, que levámos o telescópio e os métodos modernos da ciência para a China e para o Japão. Houve ali um encontro de civilizações e nós demos o melhor que a Europa tinha para dar. Este ano comemoram-se os 400 anos do livro “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, um homem que contava histórias de diferença em relação ao outro. Garcia de Orta descobriu plantas da Índia, Pedro Nunes inventou novos modos de navegação. Nós tivemos um papel na ciência mundial.

Mas, depois, a Revolução Industrial chegou aqui atrasada. Há uma história engraçada de uma máquina a vapor que naufragou. Parece que a Revolução Industrial se recusava a chegar aqui. A Revolução Científica, que deu lugar à Revolução Industrial, passou para o norte e centro da Europa, com a ajuda da escolarização - não basta ter saber, são precisas armas para o perceber e nós não nos educámos. Perdemos o comboio.

Se queremos manter o nosso nível de vida, ou até melhorá-lo, precisamos de mais e melhor ciência. E a ciência dá resultados. É por isso que eu vejo como relevantes as preocupações em Portugal sobre o futuro da ciência. Nos últimos vinte anos, a ciência progrediu muito, formámos mais pessoas, temos uma geração que está ao nível dos melhores. Este esforço tem de continuar.

Se há uma mudança de paradigma, como dizem, é de um paradigma de crescimento para um paradigma de decréscimo. Houve uma razia enorme, sem aviso. E não há nova política, porque se houvesse, ela tinha sido anunciada e discutida na Assembleia da República. O que há é um engano perfeito. Os jovens tinham expectativas sobre a continuação dos estudos. O que me preocupa não é tanto os cortes, é a falta de inteligência nos cortes.

 Os governos têm de ouvir os cientistas e o nosso governo está surdo, mudo e cego. Estou a chegar de França e li uma notícia sobre um comunicado do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia que, aparentemente, foi censurado. É de bradar aos céus. Como é que isto é possível num país democrático? A democracia não está em risco, mas estamos a ver sintomas de atentados a normas democráticas e não devemos tolerar isso. Parece que estamos todos atordoados, adormecidos, pouco críticos. Isto de estarmos encolhidos tem de acabar. Não devemos tolerar que um órgão independente seja impedido de ser independente.

 A FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) é uma repartição do Estado que recebeu ordem para fazer uns cortes e fê-los sem qualquer espírito crítico, sem saber sequer o que é a ciência. A dimensão cultural da ciência é desconhecida da FCT. Acabaram com duas áreas fundamentais: história da ciência e promoção da ciência.É como se tivessem cortado a ligação da ciência à sociedade e à cultura. E a ciência, sozinha, estiola.

 O problema da fuga de cientistas é comum à fuga de criadores. Nós precisamos da criação, precisamos de imaginar o tal amanhã. A nossa identidade como país vai muito além da realidade económica. Imaginemos que, daqui a uns tempos, a economia recupera mesmo… e o país, onde está? Onde estão os portugueses? Estivemos a salvar o quê e para quê? E se não houver um projecto? E se não houver um sonho? É preciso ter um desígnio.

 Eu acredito que podemos ser mais europeus. O nosso projecto devia ser a Europa. Quanto mais nos afastarmos da Europa, com sonhos atlânticos, mais pobres seremos. Por enquanto, a Europa é uma ficção, mas é uma boa ficção. Partilhamos um continente que tem uma história fabulosa, herdada dos gregos,dos romanos, do Renascimento, uma Europa invejada por países de outros continentes. Não temos que ter vergonha de sermos europeus. Eu quero ser europeu.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DIA 13 DE MARÇO HÁ MAIS 12 MILHÕES PARA A CIÊNCIA E CENTENAS DE NOVAS BOLSAS? ESPEREMOS QUE SIM

Nuno Crato anunciou hoje mais 12 milhões para a ciência, disponíveis num prazo de três semanas. Há que perceber que 12 milhões são estes, se são mesmo 12 milhões adicionais ou se é a velha tática de anunciar os financiamentos habituais e previstos como grandes investimentos extraordinários. Claramente o Ministério da Educação e Ciência e a Fundação para a Ciência e Tecnologia querem virar a página negativa em que estão impressos e escrever outra história sobre o momento actual da ciência em Portugal. Espero que o queiram fazer corrigindo realmente os erros que cometeram, investindo na ciência e não a tapar o Sol com a peneira.

Saber Ciência

Para quem ainda não conhece, fica a referência a este projecto extraordinário, adaptado da versão norte-americana pelo meu amigo Nuno Barradas. Saber Ciência dispõe de recursos de elevada qualidade para o apoio do ensino de ciência a alunos do ensino básico e secundário. A visitar em http://saberciencia.tecnico.ulisboa.pt/

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA - 4

Texto em continuação de outros que podem ser encontrados aqui.


Charles Lyell
Pioneiro da geologia moderna, o inglês Charles Lyell (1797-1875), mestre de Charles Darwin (1809-1882), não sendo um paleontólogo, no sentido de um estudioso de fósseis, o seu papel na paleontologia foi importante na medida em que pôs em causa o catastrofismo e o criacionismo de Cuvier, e criou os fundamentos para o evolucionismo de Darwin. Como cristão devoto, Lyell teve grande dificuldade em conciliar as suas crenças com a selecção natural, mas acabou por deixar prevalecer a razão.

Autor do conhecido Princípio do Uniformitarismo, mostrou que os processos geológicos se desenvolvem de forma natural, devido a processos físicos, químicos e biológicos actuantes de forma lenta, gradual e contínua ao longo dos tempos, ou por outras palavras, que a natureza manteve, desde sempre, as mesmas leis. Entretanto, na Alemanha, Christian Gottfried Ehrenberg (1795-1876), zoólogo e microbiólogo, deixou-nos a sua contribuição ao estudar durante três décadas, centenas de espécies de micro-organismos actuais e fósseis, incluindo diatomáceas, radiolários e foraminíferos, cujos resultados figuram em cerca de 400 publicações.

Uma entre as muitas ilustrações de foraminíferos desenhadas e anotadas por Ehrenberg, em 1830
A partir do seu trabalho passou a conhecer-se a natureza do chalk (cré, o calcário pulverulento, do Cretácico, das brancas e alcantiladas arribas da Normandia) e do Kieselgur, (diatomito ou terra de infusórios) usado como abrasivo e como material para cerâmica refractária. Considerado o “Pai da Paleobotânica”, o francês Adolphe Brongniart (1801-1876), filho de Alexandre Brongniart, era taxonomista e anatomista vegetal e, também, geólogo. Escreveu mais de 200 trabalhos, entre eles, uma publicação pioneira sobre o desenvolvimento do pólen, editada em 1827, pela qual foi premiado pela Académie des Sciences de Paris.

Fundador da morfologia comparada entre vegetais fósseis e actuais, Alexandre Brongniart deixou-nos Histoire des végétaux fossiles (1828-1837), trabalho notável que abriu caminho ao estabelecimento de relações entre as plantas do passado e as do presente. Contemporâneo de Adolphe Brongniart, o médico português Bernardino António Gomes (1806-1877) foi pioneiro no estudo da flora fóssil do Carbónico de Portugal, tendo-nos deixado a sua publicação Flora fóssil do terreno carbonífero das vizinhanças do Porto, Serra do Buçaco, e Moinho da Ordem, próximo a Alcácer do Sal, editada em 1865.

Homenagem a Bernardino António Gomes no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa
Seu contemporâneo, em Inglaterra, o médico John Jeremiah Bigsby (1792-1881) estudou fósseis do Paleozóico, durante os últimos 20 anos da sua longa vida, tendo-nos deixado Thesaurus Siluricus, publicado em 1868, e grande nome das ciências da natureza, Charles Darwin (1809-1882) não se interessou pelo valor estratigráfico dos fósseis, mas tirou partido do seu valor como testemunhos da selecção natural e, sobretudo, da evolução das espécies, como está patente no seu divulgadíssimo livro On the Origin of Species, editado em 1859.

 Doutor em Filosofia Natural e em Medicina, Oswald Heer (1809-1883), de nacionalidade suiça, começou por se interessar por entomologia, depois por botânica, acabando por se tornar um especialista e um dos pioneiros da paleobotânica, à escala internacional, nomeadamente, pelas suas investigações sobre a flora do Cenozóico de vários locais do mundo, incluindo Portugal, num estudo que publicou em 1881, intitulado Contributions à la flore fossile du Portugal, numa edição da Secção dos Trabalhos Geológicos de Portugal.

Richard Owen ao lado do esqueleto de Dinornis.
Entretanto, em Inglaterra, Richard Owen (1804-1892), licenciado em medicina, ficou na história da paleontologia por ter criado e proposto o termo Dinosauria para designar o então criado grupo de gigantescos répteis fósseis (Megalosaurus, Iguanodon e Hylaeosaurus) encontrados no Sul de Inglaterra. Seguidor de Cuvier, foi pioneiro na paleontologia dos vertebrados, tendo-se tornado especialista em anatomia comparada. Deste seu trabalho inovador resultou a obra 3 volumes publicados entre 1866 e 1868.

Nos seus estudos sobre aves fósseis e actuais figuram a moa gigante (Dinornis), da Nova Zelândia, extinta há menos de mil anos, e a célebre Archaeopteryx, a ave com dentes e cauda, do calcário litográfico do Jurássico superior de Solenhofen, da Baviera. Owen estudou ainda as ossadas de mamíferos extintos da América do Sul, recolhidos por Darwin, tendo descrito os géneros Glyptodon, Mylodon, Megatherium e Toxodon, e outras da Austrália, dando a conhecer os géneros Diprotodon e Thylacoleo, além de uma espécie de canguru extinto e outra do wombat gigante.

Megatherium
Outros dos seus mais importantes trabalhos versaram sobre fósseis de vertebrados do seu país, de que resultaram, entre 1844 e 1846, History of British Fossil Mammals and Birds e History of British Fossil Reptiles, em quatro volumes, publicados entre 1849 e 1884. Além dos vertebrados actuais e fósseis, estudou certos grupos de invertebrados, como esponjas, braquiópodes e moluscos. Grande impulsionador da criação, em 1881, do Museu de História Natural de Londres, de que foi o primeiro director, Owen opôs-se abertamente à teoria darwiniana sobre a evolução por selecção natural. Com interesse para a geologia e paleontologia de Portugal, Louis Charles Gaston de Saporta (1823-1895), paleobotânico francês, foi o autor do estudo das plantas fósseis recolhidas por Paul Choffat em diversas formações do Mesozóico português, permitindo precisar a idade dos respectivos terrenos.

Do seu trabalho destaca-se a descoberta de espécies de dicotiledóneas no Cretácico inferior de Cercal (Ourém), num nível muito mais antigo do que até então era conhecido, passando a localizar-se em Portugal, segundo ele, o berço deste grande grupo botânico. Nos Estados Unidos da América, a paleontologia dos dinossáurios começa em 1854, com a descoberta, no estado de Montana, de dentes fósseis deste tipo de répteis, identificados como sendo de Hadrosaurus foulkei, por Joseph Leidy (1823-1891), da Academia das Ciências de Filadélfia e autor de Extinct Fauna of Dakota and Nebraska, editado em 1869. Esta espécie pertencente a um grupo conhecido por dinossáurios "bico-de-pato", característicos do Cretácico, foi assim designada em homenagem a William Parker Foulke (1816-1865), da mesma Academia, também ele um nome importante e entre os seus pares.

Hadrosaurus foulkey
Mas o essencial da história da paleontologia dos dinossáurios no Novo Mundo repousa, sobretudo, na obra colossal de dois homens do fim do século XIX e início do XX que, em simultâneo mas separadamente, levaram a cabo a mais importante, volumosa e prolongada odisseia, de sempre, na procura, recolha e estudo destes animais pré-históricos. Othniel Charles Marsh (1831-1899), de famílias modestas, herdou de um tio, o banqueiro George Peabody, uma fortuna considerável.

Na sequência disso, fez estudos universitários e fundou o Museu Peabody, na mesma cidade, no qual desenvolveu notável e longa carreira científica. Licenciado pela Universidade de Yale, em 1860, estudou depois geologia e mineralogia na Scientific School de Sheffield, em New Haven (Connecticut), e paleontologia e anatomia comparada em Berlim, Heidelberga e Breslau. Regressado ao país, foi nomeado professor de paleontologia dos vertebrados na sua universidade.

Othniel Marsh (à esquerda) e Edward Cope
O outro americano desta odisseia, perito em anatomia comparada e membro da Academia de Ciências de Filadélfia, era oriundo de uma família rica e estudou na América e na Europa, tendo desenvolvido, igualmente, longa e notável actividade neste ramo da paleontologia. Estes dois homens, geniais, entusiastas, ricos, poderosos e livres dos condicionalismos institucionais e patronais, trabalharam intensamente, cada um por seu lado, numa rivalidade sem limites nem regras, dando, por vezes, lugar a atitudes menos correctas, espiando-se, atacando-se verbal e fisicamente e procurando cada um, sempre que possível, ridicularizar o outro. Mortos os ânimos e as animosidades pessoais entre estes dois investigadores e suas equipas, ficou a descoberta, descrição e identificação de 136 novos géneros de dinossáurios.

Entre si, escreveram mais de dois mil trabalhos científicos, tendo, além disso, desenvolvido técnicas de escavação, ainda hoje utilizadas. Tal actividade, muito conhecida, também e sobretudo, nos seus aspectos negativos à margem da ciência, foi o começo de uma autêntica "corrida aos dinossáurios". Na sequência desta ”corrida aos dinossáurios”, apareceram os mecenas, os filantropos e as instituições financiadoras das expedições, explorações e pesquisas científicas; surgiram academias, sociedades científicas e novos museus.

Continua...
A. Galopim de Carvalho