sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

NOVA SÉRIE "COSMOS"


Já é conhecida a data da estreia, nos Estados Unidos da América, da nova série televisiva "Cosmos": 9 de Março de 2014. Estação: Fox (e National Geographic ?).

Relembre-se que esta nova série, homónima daquela primeira e mítica apresetanda por Carl Sagan no incício da década de 80 do século passado, será apresentada pelo divulgador de ciência e astrofísico Neil deGrasse Tyson.

Ficamos a aguardar, com elevada expectativa, sobre onde e quando será transmitida em Portugal. A RTP prestaria um grande serviço público se a pusesse no ar em horário nobre logo a seguir ao telejornal, por exemplo. Aliás, isso aconteceu com a primeira série e então só existia um outro canal, também ele público, a RTP 2.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A CIÊNCIA DO ILUMINISMO



 Escrito meu acabado de sair  no jornal "As Letras entre as Artes":

O século XVIII assistiu ao triunfo das ideias newtonianas. Isaac Newton e a Royal Society haveriam de ficar indissociavelmente ligados, tendo o sábio britânico falecido, quando estava à frente dessa prestigiada sociedade, em 1727, um ano antes de a Biblioteca Joanina ter ficado finalizada em Coimbra.

É curiosa a origem dessa sociedade, que é a mais antiga a funcionar ininterruptamente até hoje. Foi no ano de 1660 que uma dúzia de livrespensadores, depois de ouvirem uma conferência de um deles, decidiram fundar uma associação em Londres, que só ganhou carta régia, outorgada pelo Rei Carlos II, dois anos mais tarde.

A Royal Society tem, logo à partida, uma conexão portuguesa, já que aquele Rei se casou em 1662 com D. Catarina de Bragança, filha do rei D. João IV, que assim pretendeu reforçar o tratado político já existente entre Portugal e a Inglaterra e quetinha ajudado ao retorno das possessões portuguesas. Embora esse casamento não tenha sido bem sucedido (um era anglicano e a outra católica) e a aliança lusobritânica não tenha funcionado muito bem ao nível científico, o certo é que a Royal Society foi aceitando, ao longo de todo o século XVIII um conjunto de cientistas e também homens de estado portugueses. Se os primeiros entravam com base no seu mérito científico, os segundos eram admitidos em virtude da sua cultura e das suas responsabilidades políticas.

Contamse, até hoje, um total de 25 portugueses entre os sócios da Royal Society, sendo 12 cientistas e 13 homens de Estado, tendo a esmagadora maioria deles vivido no século XVIII. Entre os segundos avultam o marquês de Pombal, que foi embaixador português em Londres, e o duque de Lafões, D. João de Bragança, o membro da família real que haveria de fundar a Academia das Ciências de Lisboa em 1779. O mais antigo dos cientistas portugueses que foram membros da Royal Society foi o médico judeu Isaac Samuda, que foi admitido em 1723, quatro anos antes de Newton morrer. Sociedades como esta tiveram um papel essencial na comunicação de resultados científicos à comunidade científica e ao público em geral, formando redes internacionais. Faziamno através da edição de revistas da especialidade, como foram em Londres as “Transactions of the Royal Society”, através da construção de instrumentos, e por meio da organização do trabalho conjunto dos cientistas, que se revelou muito útil na astronomia e na geodesia (observando os trânsitos de Vénus, mediu-se a distância da Terra ao Sol e, efectuando longas viagens, mediuse o arco de meridiano terrestre, que viria a permitir fixar o tamanho do metro). A ciência tornou-se num empreendimento internacional, passando progressivamente todas as barreiras fronteiriças e a diversidade das línguas nacionais (o inglês começou por essa altura a substituir o latim como língua de ciência).

Na galeria de membros portugueses da Royal Society há vários estrangeirados, pessoas que emigraram tomando contacto com as culturas de países mais avançados, mas que mantiveram contactos com o seu País natal, desempenhando um papel de relevo na ciência e na cultura portuguesas. Alguns deles emigraram para sempre, enquanto outros voltaram (foi o caso de Bento de Moura Portugal, chamado na Alemanha o “Newton português”, que teve o infortúnio de, após o regresso, ter sido preso, acabando por morrer na prisão em situação desumana). Mas todos eles souberam manter relações com o seu País, enviando não só textos como desenhos e instrumentos. Aconteceu isso em particular com Jacob de Castro Sarmento e João Jacinto Magalhães.

Houve também alguns estrangeiros que vieram para Portugal e cá ficaram, como foi o caso do padre italiano João Baptista Carbone, que chegou em 1709 originalmente com o intuito de medir longitudes no Brasil, para saber ao certo onde passava o meridiano de Tordesilhas, mas que ficou como astrónomo real no Observatório do Paço.

Se Carbone era jesuíta, dois dos membros portugueses daquela sociedade eram oratorianos, a congregação que o padre Filipe de Nery tinha fundado em Roma em 1565. Estes estavam, como os jesuítas, interessados no cultivo da ciência, mas revelaramse mais actualizados entre nós ao professarem o ecletismo no ensino da filosofia natural, isto é, entendiam que as antigas teorias aristotélicas deviam ser ensinadas ao mesmo tempo e ao mesmo nível que as teorias modernas, de Galileu e Newton. As observações astronómicas e a prática experimental nos laboratórios eram indispensáveis no novo método. Os oratorianos que mais se destacaram na ciência foram João Chevalier e Teodoro de Almeida. O primeiro, sobrinho de Luís António Verney, estrangeirado em Ferrara e autor do Verdadeiro Método de Estudar (1746) – uma obra polémica que atacava alguns hábitos arcaicos da sociedade portuguesa –, chegou a dirigir a Academia das Ciências de Bruxelas após ter sido aí bibliotecário. O segundo teve, entre outros, o grande mérito de escrever uma obra de divulgação científica, um diálogo à maneira de Galileu e de Orta, que alcançou um êxito impressionante (mais de 50 edições) dentro e fora do País. Os dois ensinaram e trabalharam na Casa das Necessidades, onde, no século XVIII, se fizeram observações astronómicas e experiências de mecânica.

Desempenhou um papel assaz relevante no crescimento da ciência nacional no século das luzes o apoio, primeiro, de D. João V e, depois, de D. José, aos jesuítas e aos oratorianos. D. João V, que ganhou gosto pelas ciências, tinha um observatório astronómico no seu Paço, destruído no Terramoto de 1755, e ele próprio esteve presente em algumas sessões de observação, a primeira das quais realizada em 1723 pelo Padre Carbone, que dirigiu esse Observatório assim como o do Colégio de Santo Antão. O mesmo se passou com o príncipe D. José na Casa das Necessidades. Muitos instrumentos científicos foram encomendados pela corte portuguesa às melhores oficinas (para esse efeito Londres era o centro do mundo). Portanto, cerca de duas décadas antes da Reforma Pombalina, houve ensino e prática da ciência moderna nos oratorianos, que estiveram estabelecidos numa Casa do Chiado, desde 1667, antes de, em 1745, se mudarem para as Necessidades. Contudo, os principais mestres, Chevalier e Almeida, tiveram, perante a perseguição pombalina à sua Ordem, que se seguiu à dos Jesuítas, de se exilar.


NOTA: Excerto (editado) do meu livro “História da Ciência em Portugal” (Lisboa: Arranha Céus), cujos conteúdos correspondem a um curso livre dado no El Corte Inglês em Lisboa

PAUL NURSE NA UNIVERSIDADE DE LISBOA



Sir Paul Nurse, ao vivo, na Reitoria da Universidade de Lisboa, como orador principal da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre "Ciência, Cultura e Inovação".

PRAXES: SUSPENSÃO


Há quem diga que o assunto das praxes é trazido à colação para fazer esquecer outros assuntos como a diminuição dos apoios ao ensino superior  e à ciência. Sou dos que pensam que o assunto das praxes é grave, muito grave. O caso do Meco é emblemático: seis estudantes, pessoas na flor da vida, desaparecem aparentemente durante um ritual praxístico. As afirmações de Emídio Guerreiro, ex-dirigente estudantil, desresponsabilizando as praxes e os praxadores são muitos infelizes ("não é praxe académica", disse ele). As praxes e os praxadores são obviamente responsáveis. Concordo que proibir praxes não será solução, mas os estudantes bem podiam, por sua própria iniciativa, suspender as actividades praxísticas em todo o país durante um certo período, em memória das vítimas. Foi o que aconteceu em Coimbra com o luto académico que começou em Coimbra em 1969 e durou cerca de dez anos. Suspendam-se agora aas praxes, por exemplo por seis anos, até que o tempo faça esquecer a estupidez destas mortes.

MARIA DE SOUSA SOBRE A CIÊNCIA EM PORTUGAL


Maria de Sousa é uma das cientistas com maior prestígio em Portugal. Poucos têm o seu currículo de descoberta científica. Neste texto lúcido saído ontem no "Público" critica frontalmente, a começar logo pelo título, a desvalorização, pouco inteligente, que o ainda Presidente da FCT, uma pessoa aliás inteligente, fez das afirmações de Manuel Sobrinho Simões, outro dos mais prestigiados cientistas nacionais. O Presidente da FCT desvalorizou a posição do seu colega, respondendo a jornalistas do "Público":

- "Está a falar de uma pessoa em 50 000 [número dos cientistas portugueses]".

Ora se o Presidente da FCT quer saber o que pensam os outros cientistas, por que é que não lhes pergunta? Talvez fique surpreendido ao aperceber-se que perdeu a confiança não só de Maria de Sousa como da maioria dos seus colegas.

É preciso, claro, ter cuidado aqui com a palavra "maioria".  Um cientista sabe que o número nem sempre interessa. Einstein, confrontado um dia com um abaixo-assinado de "Cem cientistas contra Einstein" sorriu e respondeu:

- Porquê cem? Se tivessem razão, um só chegava...

Ler o depoimento de Maria de Sousa, decerto em nome de numerosos cientistas portugueses, aqui:

"PARA OS BRAÇOS DA MINHA MÃE" DE PEDRO ABRUNHOSA

P

Pedro Abrunhosa, o músico formado em Engenharia Química que nesta canção fala do "Diploma na Mala", esteve ontem na Fundação Gulbenkian na apresentação pública do Manifesto pela Ciência, Cultura e Artes. que chama a atenção para o exílio forçado de jovens criadores.

Manifesto contra a Crise - Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes

Quem quiser assinar o Manifesto contra a Crise - Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes é só ir aqui:

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=manifestocontracrise

Entre os primeiros subscritores estão, só para falar de escritores, nomes como Gonçalo M. Tavares, João de Melo, José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Miguel Real, Rui Zink, Teolinda Gersão, etc.

ENTREVISTA DE SIR PAUL NURSE AO I


Recomendo vivamente esta entrevista de Sir Paul Nurse, Presidente da Royal Society, ao jornal I. Ajuda não só a compreender a ciência mas também a superar a presente criose da ciência entre nós:

Paul Nurse, prémio Nobel da Medicina. "Corte nas bolsas dá ideia de que fazer ciência é como jogar no casino"
 i, 29-01-2014, Entrevista de Marta Reis

O Presidente da Royal Society esteve em Portugal para uma palestra sobre ciência. Cortes deixaram-no apreensivo Paul Nurse, Nobel da Medicina cm 2001 e presidente da Royal Society - a academia de cientistas mais antiga do mundo -, veio a Portugal a semana passada falar sobre ciência e cultura numa conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Caiu no meio do turbilhão em torno dos cortes das bolsas para formação avançada, que relançaram o debate sobre o papel do Estado na ciência. Defende que é preciso repartir o investimento pela ciência das descobertas, a básica, e pela aplicada. Mas avisa também que um corte abrupto arrisca criar a mesma falta de confiança que tanto preocupa quando se fala de mercados: as mentes mais brilhantes vão equacionar a razão de investir em Portugal.

- Na biografia que enviou para a academia sueca quando ganhou o Nobel conta a história da sua vida desde a infância na Inglaterra rural. Porque preferiu o formato intimista ao tradicional CV?

- Sempre pensei que para o público é importante ouvir falar dos cientistas como pessoas normais. Por vezes pomo-nos num pedestal, muito distanciados da sociedade, como se fossemos pessoas excepcionais. Ao falar da minha infância, das minhas origens, penso que é mais fácil relacionarem-se comigo. Fui um miúdo normal, passei por algumas dificuldades na carreira. E ainda tive uma coisa mais complicada... se leu aquilo até ao fim.

- Sim, já em 2008 fez uma adenda em que fala da "ironia final" da sua vida como geneticista.

- Sim, senti que. se tinha começado, tinha de terminar a história. Quando quis ir trabalhar para os EUA exigiram-me um certificado de nascimento mais completo para o visto e só então percebi que a minha irmã era afinal minha mãe e os meus pais meus avós. Parece um romance do século XIX. A minha mãe engravidou, foi mandada para uma tia e eu fiquei com os meus avós, que fingiram ser meus pais. Nunca ninguém soube de nada. Quando descobri já tinham morrido e nunca pude conversar com eles sobre isso.

- Dois fios condutores dessa história são as origens modestas e o papel da escola na sua vida. Era uma mensagem?

- Vim de uma família pobre, embora me desse muito apoio. Não tinham formação académica, não tínhamos livros em casa. Foi na escola que tive o meu primeiro contacto com palavras e ideias. Os meus professores de Ciências e Humanidades foram cruciais, fizeram-me evoluir de um ponto em que não sabia nada para a ideia de que a curiosidade e o conhecimento nos podem levar longe e dar respostas sobre a vida. Quando o escrevi não estava a pensar numa mensagem, acho que é algo enraizado na minha mente. Mas de facto, ao contar a minha história e como a educação me fez desenvolver as minhas capacidades e o meu interesse pelo mundo, estou a sublinhar o poder da educação. Nem toda a gente vai receber um Nobel, mas uma boa educação permite que toda a gente consiga perceber melhor o mundo.

- Acha que essa compreensão do papel da educação é suficientemente sólida, sobretudo em momentos de crise?

 - Acho que a batalha de que a educação é importante está ganha mesmo em tempos de crise. Penso contudo que precisamos de mais discussão sobre a forma como ensinamos os nossos alunos. Muitas vezes acaba por ser uma discussão mais influenciada por opiniões e ideologias que por investigação e validação de ferramentas. Acho que sabemos que devemos educá-los bem, mas ainda não sabemos como isso se faz.

 - Os seus alunos são o topo, mas que lacunas podiam ser trabalhadas?

- Tem razão, os alunos que me chegam hoje para formação avançada são o que se chama la crème de la crème. Mas também tenho filhos e visitei as escolas em que andaram. Respeito muito o que os professores conseguem fazer e a dedicação aos alunos, mas penso que há mudanças importantes que é preciso começar a estruturar. Temos de encorajar as crianças desde a escola primária a ter interesse no mundo e a interagir com ele. Não a aprenderem só as letras, os números e a matéria, mas a envolverem-se na descoberta.

- Na biografia conta que já com dois filhos sentia que o seu trabalho era precário e o laboratório no Sussex tinha pouco financiamento. Quando se sentiu seguro profissionalmente?

 - Para mim ser cientista sempre foi um privilégio. Sinto-o mais como uma vocação que como um emprego. De certa forma, nunca pensei muito em ter apoios. Nesses anos e à medida que me fui especializando no que queria, sem pensar no que estava na moda ou nas áreas que tinham mais dinheiro, percebi que era difícil ter apoio e empregos seguros. Não me queixava, percebia que era assim.

 - Mas como é que pagava as contas?

 - Nunca estive desempregado, tinha era vínculos de poucas horas e não sabia onde ia estar dali a seis meses. Havia poucos sítios onde pudesse seguir o meu caminho. Acabou por correr sempre tudo bem, conseguia as bolsas que pagavam o meu salário. Mas vivi nessa instabilidade de não saber se no ano seguinte teria emprego. É um problema comum, acho que faz parte da profissão.

- Era o preço a pagar pela liberdade?

- De certa forma sim. É normal a profissão de cientista envolver alguma insegurança, é um problema universal.

 - Há dias o nosso ministro da Economia disse não ser possível continuar a suportar um modelo que financia ciência no conforto de estar longe da economia real. Onde é a fronteira, onde é que o Estado deve pôr dinheiro?

- Penso que o problema surge quando se assumem posições extremas e aí parece que pode haver duas, ambas erradas. Por vezes os políticos têm uma visão de curto prazo e pensam que a forma de pôr as coisas a andar é investir no trabalho que está quase na fase aplicada e em áreas mais direccionadas para isso. Claro que isso é importante, mas não deve esgotar-se aí todo o apoio. Se se injecta dinheiro só no que é imediato, fica-se sem objectivos. Se as áreas são controladas de cima para baixo, perde-se o potencial da criatividade. Dizer que isso não deve ser apoiado, que cabe às empresas, por exemplo, também é um erro. Precisamos de um espectro alargado de financiamento, da investigação aplicada à mais orientada para a descoberta. A investigação orientada para a descoberta é como a semente do milho. Se a queimamos, queimamos a economia. É só estúpido. Por vezes é difícil explicar isto, sobretudo aos ministros das Finanças. No Reino Unido temos tido sorte. O ministro George Osbome é um grande apoiante de toda a ciência. Tenho trabalhado com ele nos últimos anos de crise. Claro que há cortes, mas tem havido a preocupação de proteger a ciência. Mas veja-se a Alemanha, a economia mais forte na Europa: nunca cortou o apoio à ciência, a nenhuma das áreas. O que é preciso perguntar aos vossos ministros é se será que perceberam bem, se viram mesmo o que estão a fazer os países mais avançados.

- Um dos argumentos é que se estão a passar bolsas individuais para programas de doutoramento nos institutos, mais estruturados e que vão financiar igualmente doutoramentos. Faz sentido?

- Isso pode reflectir uma certa arrogância, de que há pessoas que sabem o que é melhor apoiar e fazer. Muitas vezes as decisões sobre que programas apoiar são tomadas por homens como eu, de cabelo branco, que já passaram há muito o seu período de ouro criativo. Tendem a centrar-se no óbvio. A vantagem das candidaturas individuais é haver muitas boas ideias, à partida de pessoas com qualidade. Se o sistema passar a ser demasiado gerido de cima para baixo acabam por perder-se. Por vezes é apropriado, não digo que não, mas esses programas não podem absorver a maior parte do financiamento.

- Quando teve a sua melhor ideia? 

- Bom, quando tinha 20 ou 30 anos e dei os passos que viriam a ser premiados com o Nobel, sobre o ciclo de vida das células. Não que hoje seja mau, mas não sou tão bom como era dantes. Talvez pela minha experiência pessoal, a minha filosofia enquanto gestor de instituições sempre foi deixar as flores desabrochar. Dar liberdade aos que são bons e deixá-los escolher o que querem fazer.

- É por isso que se rodeia de estudantes e cientistas jovens nos laboratórios por onde tem passado?

- São esses que gosto de apoiar. Quando se tem 20 e 30 também se é ingénuo e estúpido, mas é-se criativo, tem-se energia e o meu trabalho é ajudá-los a atravessar esses primeiros anos de ingenuidade e a levantarem-se quando caem. Não é evitar que isso aconteça dizendo que têm de fazer isto ou aquilo para não desperdiçar dinheiro ou tentar garantir retorno a curto prazo.

 - Ao fazer o contrário arriscamo-nos a perder uma geração?

 - Quando se faz um corte dramático nos estudantes de doutoramento e pós-doutoramento, como está a acontecer em Portugal, o problema é o impacto que uma medida dessas tem no momento e o que transmite a longo prazo. Os cientistas são investimentos a longo prazo. Quando se investe, seja o Estado seja o próprio estudante, vai-se ter retorno daqui a cinco, dez ou 15 anos. É como qualquer coisa na economia ou nos mercados. Se não há confiança no sistema, os jovens brilhantes não vão para lá. Eles vêem, não são estúpidos. Se vêem um corte abrupto das bolsas, começam a pensar: onde é que me vou meter? Isto é de doidos, é como jogar no casino. Se já estão dentro do sistema, vão pensar qual é a ideia de ficar em Portugal. Vão pensar "sou inteligente, tenho o meu doutoramento, vou para a Alemanha ou outro sítio qualquer". É um grande disparate

- Lembra-se do seu primeiro contacto com a ciência portuguesa?

- O que me fez começar a levar Portugal a sério foi mais o contacto humano que os trabalhos científicos. Trabalhei sempre em institutos procurados por cientistas de todo o mundo e a certa altura comecei a ver cada vez mais portugueses a ter posições, quer como estudantes quer como investigadores. Em termos de evolução, penso sempre em Portugal e Espanha em conjunto porque acho que evoluíram graças ao investimento sustentado nos últimos 20 anos. Quando eu era estudante nenhum destes países era levado a sério em termos científicos e agora é. Não digo que hoje estejam no top, mas, em comparação com outros países mediterrânicos, estão avançados. Agora há cortes. Se o corte nas bolsas, por exemplo, for o problema de um ano, tudo bem. Mas se reflectir uma visão política de que não é importante, é grave. Preocupa-me o impacto que terá na comunidade científica e na motivação dos jovens. Se for assim, provavelmente será um grande erro.

- Qual é a sua ideia dos cientistas portugueses?

- A ciência é um meio interessante: é universal mas ao mesmo tempo deixa-se influenciar por idiossincrasias locais. É uma cultura universal de respeito pelas observações e necessidade de verificação. É céptica por natureza, rejeita dogmas. Se for aos EUA, à China ou a Cuba, é fácil falar com um cientista com base nestes pressupostos. Dito isto, há diferenças que nos complementam e fazem que a pluralidade nos laboratórios seja uma mais-valia. Em Inglaterra não acho que trabalhemos intensamente, mas somos criativos. No Oriente, na China e no Japão, põe-se muita ênfase no processamento de dados. Nos EUA há muito dinheiro e seguem-se os temas quentes e na moda, o que é importante mas não se pode ficar por aí. Penso que em Portugal e em Espanha há muito aquela coisa latina do entusiasmo com as ideias, os projectos e os resultados. Ter pessoas assim à nossa volta é motivador...

- Vai lançar o Instituto Francis Crick. Qual é a ideia?

- Vai ser um grande instituto, com 1400 cientistas e 2 mil pessoas no total, todas no mesmo laboratório. Será provavelmente o maior instituto da Europa. Não vou ter departamentos académicos. Vou ter 100 grupos de investigação, que não vão estar sujeitos a uma disciplina ou área. Vamos estar ligados às três principais universidades de Londres - a University, a Imperial e a King's. Quero promover contacto entre os cientistas, os professores e os alunos, numa agenda multidisciplinar. Por fim, vai ser centrado na juventude. Dois terços dos cientistas vão estar na primeira fase da carreira.

- É um privilégio receber um Nobel, estar à frente da academia cientifica mais antiga do mundo (Royal Society) e ainda ter energia para lançar o instituto?

- Estou numa posição privilegiada, mas acho que sempre estive. Consegui fazer tudo muito cedo, terminei o doutoramento aos 23 anos, fui Nobel aos 57. Não é comum criar um centro de investigação desta forma pouco ortodoxa e é só porque sou respeitado pelo meu trabalho que consigo fazê-!o. Vamos cometer erros, mas gosto de pensar que vamos fazer investigação científica mas também experiências sobre como se faz investigação. Normalmente as pessoas demoram tanto a conseguir um lugar que depois replicam o estilo do que se lá se faz. Não queremos isso, queremos romper barreiras e perceber se isso dará melhor ciência.

- Já recebeu candidaturas de Portugal?

- Sim, já tenho algumas. Mas agora tenho de pô-las de lado porque estamos a tratar da concepção do instituto e da ligação às universidades, o que é um processo complexo. Provavelmente só vamos começar a recrutar em 2016. Se tudo correr bem, Portugal há-de recuperar entretanto e talvez não venhamos recrutar muitos cientistas.

- A sua biografia fala da sua visão idealista da ciência como força libertadora e progressista da humanidade. Hoje é precisa mais do que nunca?

- A ciência hoje é precisa mais do que nunca, mas sempre foi precisa mais do que nunca. Não só para pôr a andar a economia, mas porque é a base de todos os temas que preocupam a humanidade e que temos de começar a discutir com mais argumentos científicos. Seja a escassez de água sejam as alterações climáticas. Precisamos de indivíduos capazes de estudar, mas também de comunicar e interagir com a sociedade para que prevaleça essa racionalidade. Para a ciência ter impacto, a sociedade tem de estar confortável com ela. Isso não é assim porque a ciência é provavelmente a actividade humana mais revolucionária, mais que a política: veja-se a discussão sobre as células estaminais, sobre o início e o fim da vida, sobre a Terra não ser o centro do universo. Os cientistas têm de conseguir comunicar e envolver as pessoas. Têm de envolver aplicações práticas, mas têm de conseguir expressar-se, E digo isto reconhecendo que os cientistas nem sempre são pessoas com quem é fácil falar.

- Como é estar sentado na cadeira de cientistas como Isaac Newton, também presidente da Royal Society?

- A Royal Society basicamente inventou a ciência moderna. Não foi só ele que esteve na cadeira onde estou hoje, todos os meus antecessores são grandes vultos. Por muito que me orgulhe, estar nesse lugar é assustador.

DIÁLOGO SOBRE CIÊNCIA COM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS NO DN

Foi no dia 17 de Janeiro no auditório do DN. numa sessão que precedeu a Conferência sobre Ciência, Cultura e Inovação da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Ver o vídeo aqui:

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=3654103

"Poema da minha natureza" de António Gedeão

Poema dos "Novos Poemas Póstumos" que li no sábado passado na Casa da Cultura de Coimbra num encontro de professores e bibliotecários:

"Crescem as flores no seu dever biológico,
e as cores que patenteiam, por sua natureza,
só podem ser aquelas, e não outras.
Vermelhas, amarelas, cor de fogo,
lilazes, carmezins, azuis, violetas,
assim, e só assim,
tudo conforme a sua natureza.
Ásperas são as folhas, macias, recortadas
ou não, tudo conforme;
e o aprumo como tal,
ou rasteiras, ou leves, ou pesadas,
tudo no seu dever,
por sua natureza.

É como os animais.
Em cada qual, por sua natureza,
todo o dever se cumpre.
Comem, dejectam, dormem,
fazem amor nas horas competentes,
lutam, caçam, agridem,
rosnam à Lua, trinam, assobiam,
escondem-se, espreitam, fogem, amarinham,
dançam, mudam de pele, agacham-se, disfarçam-se,
tudo conforme a sua natureza.

Assim eu penso, e amo, e sofro, e vou andando.
Tudo conforme a minha natureza."

António Gedeão

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A "utopia revolucionária" da FCT

O físico Pedro Bicudo do Técnico sugere que a massa da FCT foi para programas doutorais. Duvido que isso dê conta da totalidade das massa desaparecida. Mas há duas questões nestes programas doutorais:

1) As Universidades não foram praticamente nem ouvidas nem achadas. Foi como se não existissem, limitando-se a ser "barrigas de aluguer" dos programas.

2) A avaliação dos programas doutorais não foi séria. Propus um programa de duas universidades no domínio da História da Ciência e a resposta veio de quem não fazia ideia nenhuma o que era o assunto. Pior: tendo reclamado, recebi uma resposta meramente burocrática. Nem sequer examinaram as alegações.

Sobre a "mudança de paradigma": só se for a de transformar crescimento em decréscimo. A actual FCT herdou um sistema científico-técnico que, no seu conjunto (público e privado),  estava a crescer, e a herança que vai deixar é a de um sistema a descer. Estava a subir, está agora em queda. Transcrevo, com a devida vénia, a fim de lhe aumentar a difusão, o artigo de Pedro Bicudo,

Carlos Fiolhais

 

A utopia revolucionária da Fundação para a Ciência ea Tecnologia


PEDRO BICUDO
As áreas científicas que a fundação decidiu apoiar nos novos programas de doutorais, cujos primeiros resultados foram divulgados em 2013, são “subsubáreas” da ciência e da tecnologia.
 
Sou totalmente adverso a esta mania revolucionária (que estranho surgir num Governo PSD/CDS) de destruir o que existe e de fugir para uma utopia mirabolante. Os países mais desenvolvidos são aqueles que constroem de forma sólida e rigorosa sobre uma base que já exista. Que preservam o que já têm. E que, passo a passo, de forma clara e bem planeada, avançam em direcção ao futuro.
O problema das bolsas (ou falta delas) da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) não surgiu há uns dias, começou nos programas doutorais, com orçamentos milionários, que são os flagships da FCT na era de Miguel Seabra. Quem quiser saber quais foram as “subsubáreas” da ciência e da tecnologia que a FCT de Miguel Seabra decidiu financiar com estes programas de doutoramento milionários, estão todas aqui
É claro nesta listagem e nos resultados dos concursos de bolsas recentes que os temas que ganharam a lotaria dos programas de doutoramento da FCT são claramente minoritários, que estes programas doutorais minoritários são a aposta para os próximos anos em detrimento das bolsas de mérito individual, como o próprio primeiro-ministro foi levado a defender no Parlamento, que em todos os outros temas ficou um deserto de bolsas, pois a FCT gastou a maior parte do seu orçamento nestes programas e noutros projectos de âmbito muito restrito, e que os temas que foram excluídos correspondem à maioria da ciência e da tecnologia.
Concluímos assim que a estratégia para bolsas de doutoramento do Governo/FCT não vai desenvolver a economia nacional, nem agora nem no futuro, nem vai aproximar a ciência das empresas, mas vai atrofiar a maioria das áreas tecnológicas – que são todas igualmente importantes – e, como tal, vai fazer regredir a economia nacional.
Num caminho reformista (que seria o que se esperaria de um Governo PSD/CDS), saliento que as universidades portuguesas, pelo menos as melhores, já têm todas cursos de doutoramento, há dezenas de anos, ligados aos seus departamentos. Esses cursos de doutoramento é que são a base da tecnologia portuguesa, e estão naturalmente associados aos melhores centros de investigação. Funcionam bem e todos cumprem os critérios para funcionarem com qualidade. Poderiam ser melhorados? Claro que poderiam, principalmente se tivessem estabilidade e tivessem um número mínimo de alunos, que teriam se a FCT e instituições privadas atribuíssem bolsas aos alunos dos cursos de doutoramento das universidades – e não a estes enxertos que são os programas doutorais da FCT.  E poderiam ser guiados pela FCT no sentido que o Governo achasse estratégico.
Mas esta “revolução” de Miguel Seabra, esta “lotaria”, é um desperdício dos (excessivos) impostos pagos pelos contribuintes.
Pedro Bicudo

Professor e físico do Instituto Superior Técnico

De novo: "E eles, Pimba!"


Agora que, após a tragédia da morte à beira-mar de seis estudantes da Universidade Lusófona provavelmente no decurso da realização de uma praxe (mas quais são as tradições daquela Universidade para terem duxes veteranoruns a mandarem em  praxes?), o assunto volta à ribalta, lembro um artigo que publiquei no Público há quase seis anos. Infelizmente, não perdeu a actualidade. Não há que mudar uma só vírgula.

A tradição já não é o que era. Pela primeira vez em muitos anos o cortejo dos quartanistas da Queima das Fitas de Coimbra realizou-se num domingo e não numa terça-feira. Para manter a tradição, um grupo de descontentes decidiu desfilar não só no domingo, mas também na terça-feira, depois de terem tentado invadir algumas escolas básicas da cidade.

A quebra de tradição, que segundo o Dux Veteranorum, foi ditada pelo Acordo de Bolonha que agora rege o ensino superior europeu, não se ficou por aí. Está tudo trocado. A serenata monumental foi adiada de um dia e a missa com bênção das pastas passou para o final de tudo. Mas a mudança foi ainda mais radical: na “noite do parque” de domingo, que agora não é no parque mas no “queimódromo”, pela primeira vez em 22 anos, o espectáculo não foi do inefável Quim Barreiros, mas sim de José Malhoa. Apesar de haver descontentes (Queima sem Quim não é Queima), dentro do género pimba, foi troca por troca. Em vez do Chupa Teresa cantou-se e dançou-se o Baile de Verão (A lua estava a sorrir / A tua boca a pedir / E toda a aldeia também / A querer nos ver acertar.) Houve gritos a pedir casamento: Zé dá-me a tua filha. A cerveja é que continua a ser da mesma marca que nos outros anos.

O Porto tem feito tudo para imitar Coimbra. Também tem um Dux Veteranorum, “noites do parque”, um “queimódromo” e um acordo com uma marca de cervejas (a mesma de Coimbra). Mas não a imitou nas mudanças deste ano. No Norte, a tradição ainda é o que era, com a missa antes do cortejo de terça-feira e com Quim Barreiros depois. Em Lisboa, que tem mais escolas superiores, a Semana Académica é talvez menos intensa, tendo sido desterrada para os arredores. E há outras queimas, com esse ou outros nomes, em todas as cidades com universidades ou politécnicos. Eles, nesta altura do ano, pimba!

Por mim, que estudei num tempo em que as praxes estavam interrompidas, confesso que estes festivais de berraria não me dizem muito. Mas, embora incomodado pelos decibéis do Baile de Verão que me entram pela janela (por isso é que sei a letra do baile), acho bem que os jovens se divirtam nesta época do ano, desde que não exagerem nos exageros. Trata-se não só de uma praxe juvenil como de uma festa familiar: os filhos bêbedos e os pais babados (ao contrário seria pior).

Há, todavia, nas praxes académicas coisas que não acho nada bem. Está em tribunal o caso de uma aluna da Escola Agrária de Santarém que foi besuntada com excrementos de suíno e, depois de ter sido vítima de sevícias sexuais, pendurada, de cabeça para baixo, em cima de um penico. Não acho bem que o julgamento, com sentença prevista para fins de Maio, tenha demorado cinco anos. E também não acho bem que o Ministério Público só tenha pedido uma “pena simbólica” para os seis energúmenos. Este é apenas um exemplo, porque há mais. Um caso de outra praxe violenta e sexista em Macedo de Cavaleiros terminou em Março passado com a absolvição. Em Dezembro último um estudante da Escola Agrária de Coimbra ficou paraplégico numa praxe ao escorregar sobre uma vala com bosta (não sei se haverá julgamento). O ministro bem poderia imitar D. João V na morte de um caloiro: Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos.

E não posso aprovar – até porque é anticonstitucional – a discriminação de que as mulheres são vítimas nos códigos da praxe. O Dux Veteranorum de Coimbra declarou que elas não podiam usar colete no traje académico, ficando essa peça reservada aos homens. Por seu lado, e na mesma linha, o Dux do Porto defendeu que os fados e as serenatas são coisas de homens. Segundo ele, a interpretação do fado académico pelas mulheres seria inverter os papéis do macho e da fêmea, se as fêmeas fossem fazer serenatas aos homens onde é que íamos chegar? Parece que há mulheres que aceitam este tipo de restrições. Eu, se fosse mulher, revoltava-me. Mas não sou e revolto-me na mesma.
 

Carlos Fiolhais

O BURACO NEGRO DA FCT


Há um enigma no discurso justificativo da FCT (não foi explicativo, a priori, mais sim justificativo, a posteriori). Se o número de bolsas caiu drasticamente e se, como é público e notório, os projectos e as instituições não têm financiamento adicional  (basta olhar para as universidades, cada vez mais longe da investigação por diminuição de meios), onde estará o dinheiro?

Uma hipótese humorística: dentro da FCT há um buraco negro e é para lá que a massa está a ir. Não se vê directamente, porque é negro, mas vê-se indirectamente pelo desaparecimento da massa nas proximidades.

AFUNDAÇÃO EM VEZ DE FUNDAÇÃO

O jornalista de ciência José Vítor Malheiros põe o dedo na ferida num artigo de opinião no "Público": "A Avaliação Opaca": A Fundação para a Cência e Tecnologia: FCT ignorou as regras que ela própria estabeleceu e esqueceu-se que deve respeito ao Estado de direito. Os fins (brevidade dos procedimentos, ou seja lá o que for) não justificam os meios, isto é, ocultar dos júris as alterações que efectuou (bastar-lhe-ia ter mandado em e-mail para agora evitar a acusação de opacidade). A FCT, pensando que não tem de seguir regras, vive num mundo aparte. Nem sequer percebe que está, com a sua arbitrariedade, a minar a confiança que devemos ter nas instituições. E a prejudicar o Ministério que a tutela.

Por falar em Ministério, se este decidiu que devia haver um novo "paradigma" para o financiamento da investigação científica, não discutiu a nova ideia com a comunidade científica. Aliás, pouco lhe parece importar a comunidade científica, como bem mostram os casos do fim  das áreas de "História da ciência e tecnologia" e "Promoção e gestão da ciência e tecnologia". 

Ler o artigo de José Vítor Malheiros aqui.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Razões porque Deus nunca poderia obter uma bolsa da FCT

Brincadeira, ao que parece, americana, que corre na internet e que capta muitíssimo bem a orientação rígida e de sentido único daquilo que se entende por "excelência" científica. A versão em português caiu-me na caixa de correio, a versão em inglês foi-nos enviada, em comentário, pelo leitor Onésimo Teotónio Almeida.

1. Ele só tem uma publicação;
2. Esta publicação não foi escrita em inglês, e sim em hebraico;
3. A referida publicação não contém referências bibliográficas;
4. Não tem publicações em revistas indexadas, ou com comissão editorial, ou ainda com pareceristas;
5. Há quem duvide que sua publicação tenha sido escrita por ele mesmo. Em um exame rápido, nota-se a mão de, pelo menos, 11 colaboradores;
6. Talvez tenha criado o mundo. Mas o que tem feito, ou publicado, desde então?
7. Dedicou pouco tempo ao trabalho (apenas 6 dias seguidos);
8. A comunidade científica tem muita dificuldade em reproduzir Seus resultados;
9. Nunca pediu autorização aos Comitês de Ética para trabalhar com seres humanos;
10. Expulsou os Seus dois primeiros orientandos por aprenderem muito;
11. Não fez proficiência em inglês;
12. Não teve aulas e nem fez mestrado com PhDeuses;
13. Não existe comprovação de participação Sua como peer-reviewer nem publicação de artigos no exterior.

26 Reasons Why God Never Received Tenure At The University

1. He had only one major publication.
2. And it was in Hebrew.
3. He stated all his results without proofs.
4. And it had no references.
5. And it wasn't published in a refereed journal.
6. His cooperative efforts have been quite limited.
7. And some even doubt He wrote it himself.
8. The scientific community has had a hard time replicating his results.
9. He never applied to the Ethics Board for permission to use human subjects.
10. When one experiment went awry, he tried to cover it up by drowning the subjects.
11. When subjects didn't behave as predicted, he deleted them from the sample.
12. He rarely came to class, just told students to read the Book.
13. Some say he had his son teach the class.
14. He expelled his first two students for learning.
15. Although there were only ten requirements, most students failed his tests.
16. His office hours were infrequent and usually held on a mountaintop.
17. He made his graduate student (Mohd/Jesus) do all the work but did not list him as co-author.
18. He also never explained why some graduate students, with low GRE scores, were working for him in the first place.
19. He never presented his own results, let his graduate students do all the presentations.
20. His data on creation of world in 7 days has been questioned.
21. It may be true that he created the world, but what has he published/done since?
22. His cooperative efforts have been quite limited.
23. He never wrote a grant proposal.
24. His research, not matter how useful, was never approved.
25. He never replied to mail, phone calls, emails, etc when other researchers wanted technical data from him. He never fully explained his reasons for letting Dan Quayle to be born.

REEDIÇÃO DO ÚLTIMO LIVRO DE CARL SAGAN



Vivemos uma época em que a superstição e os fundamentalismos voltam a crescer como ervas daninhas no jardim da razão. Mas se calhar sempre foi assim. Sempre houve aqueles que se aproveitam da ignorância dos outros para lhes impingir crenças vãs, banhas da cobra milagrosas, elixires rejuvenescedores que cegam o inevitável envelhecimento. Mas, quais velas a incendiar a escuridão, a humanidade tem sido capaz de gerar mentes brilhantes que nos legam caminhos de conhecimento. 

O astrónomo norte-americano Carl Sagan, exímio e elegante divulgador de ciência para todos, lutou fulgurantemente contra os “demónios” que infestam o mundo do conhecimento e que impedem que tenhamos uma consciência mais livre e esclarecida. O seu exemplo, inscrito na sua obra literária, que entre nós foi publicada pela editora Gradiva, é inspirador para o melhor que há em cada um de nós. Ao ler Carl Sagan somos despertados para a inteligência e convidados à aventura que tem como destino o conhecimento.

Vem isto muito a propósito da reedição do último livro que Carl Sagan escreveu, com o título “Biliões e Biliões – pensamentos sobre a vida e a morte no limiar do milénio”. Editado pela 1ª vez em Portugal em 1998, na colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva, foi recentemente publicado nova edição agora com o número 10 da colecção que esta editora dedica às “Obras de Carl Sagan”. E saúda-se esta reedição que permite uma leitura mais cómoda e elegante desta fascinante obra.

Ao longo de 288 páginas Carl Sagan examina, com a sua inconfundível escrita fluída e elegante, clara e concisa, sonhadora e rigorosa, questões pertinentes sobre a vida, sobre a nossa relação ecológica com o planeta em que vivemos, sobre as questões por resolver do universo em que existimos.

Apesar de ter sido escrito há mais de 15 anos, na fronteira do novo milénio, a leitura deste livro encontra eco em problemas actuais e, também por isso, merece mais do que um olhar interessado. O modo como Sagan problematiza as questões que tenta responder conduz-nos a um pensamento científico que nos liberta das superstições, que nos permite debater ideias contrárias sobre a vida, a morte, a espiritualidade humana, com a liberdade democrática que advém do respeito pela individualidade.

Sagan acabou de escrever este livro já muito fragilizado com a doença que o vitimou. E esta confrontação com a morte transparece na sua escrita com uma coexistência pacífica entre a ciência e uma compaixão pela vida entendida no seu sentido mais sublime. Um rio de curiosidade cósmica transporta-nos ao longo desta derradeira obra numa reflexão sobre os desafios do presente e dos próximos séculos.

Por fim, “Biliões e Biliões” é um excelente ponto de partida para uma abordagem crítica a problemas como o aquecimento global, a convivência entre religião e ciência, o aborto, a morte e a vida, a reflexão sobre o nosso lugar no imenso mar cósmico.


António Piedade

domingo, 26 de janeiro de 2014

O momento não é oportuno

Na sequência de dois textos anteriores sobre as praxes no ensino superior (aqui e aqui).

Retome-se a recente afirmação da socióloga Rita Ribeiro e atente-se bem em cada uma das suas palavras: “... as reitorias nunca tiveram vontade de expulsar a praxe ou de a domesticar sequer, porque os reitores precisam de ter os alunos do seu lado”.

E agora atente-se no exemplo que não podia ser mais ajustado para a corroborar, divulgado esta tarde e dado precisamente... pelo Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Polítécnicos.

A propósito da reunião marcada pelo Ministro da Educação com os reitores e associações académica, a realizar na próxima semana, este senhor disse à TSF que «talvez não seja a questão mais importante para tratar neste momento» porque... «não é o período de praxes».

E, claro, não podia deixar de recorrente à mistificação: «algumas situações não muito positivas», «qualquer assunto relacionado com os estudantes preocupa-nos e temos de estar atentos e disponíveis para os tratar», «com certeza que iremos acolher o assunto, analisá-lo e tratá-lo da melhor forma a proteger os estudantes», etc., etc, etc.

À volta dos livros

A antena1 da RDP deu espaço de divulgação ao meu livro mais recente: História da Ciência em Portugal. Clicar aqui.
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Guilherme Valente: A cabeça vazia é a oficina do diabo

Artigo de opinião de Guilherme Valente saído há dias no Público:
1. O “eduquês” foi retirando a Literatura dos programas trocando-a por textos banais ou iletrados. O ministro tenta agora promover a sua alteração, preparando também, parece, a reformulação dos cursos de formação de docentes, nos quais, regra geral, os futuros professores não são preparados para poderem ensinar o que deve ser aprendido nas escolas.
E a Literatura não está realmente nesses cursos. Se é aflorada é apenas através dos manuais, a melhor maneira de a matar.
Repare-se no círculo vicioso: os alunos terminam o secundário sem terem um verdadeiro convívio com a Literatura (nem hábitos de leitura). Entram, depois, nos cursos de formação de docentes, em que aquele convívio não é exigido. E seguem para as escolas para ensinar o que não aprenderam. O mesmo acontece com as outras matérias essenciais.
Ora, pensaram que o ministro, cercado, não conseguiria mudar nada, mas ele está a tentar mudar e por isso se agitam.
O ideário e a pedagogia do “eduquês”, como a ironia de MEB revela, desvaloriza a Literatura, tal como outras áreas fundamentais do conhecimento.
Mas só quem nunca leu pode negar, realmente, o valor do texto literário. E a escola pública é a oportunidade para todas as crianças acederem a essa manifestação superior da experiência humana. A Literatura deve estar de várias maneiras nos programas, com os textos próprios, nos momentos próprios, levada por professores que tenham experimentado o seu valor. Desde logo na formação dos professores do básico, porque sendo aí que começa a manifestar-se a desvantagem de muitas crianças é aí que ela tem de começar a ser enfrentada.
Não grita tanto o “eduquês” por inclusão? Seria útil explicarem que espécie de inclusão é essa por que gritam. Também para MEB, porventura, pois enquanto há vida há esperança, mais ainda quando se trata duma Brederode.
2. Não desvalorizei o PIRLS e o TIMMS, nem instrumentalizei os resultados. Procurei distingui-los e contestar a interpretação falaciosa que tem sido feita deles.
Só a verdade permite a mudança. Precisamos de assumir, portanto, que o progresso revelado não é, infelizmente, suficiente, nem significativo.
Tantos anos depois de se abrir a escola a todas as crianças, com tantos recursos despendidos, aquilo que foi conseguido, muito longe do necessário e do possível (veja-se o sucesso da Irlanda e da Coreia do Sul, p.e.), é a prova do erro da receita aplicada.
Cresci no tempo em que o ensino público que havia era muito melhor do que o privado. A inversão gritante, mas evitável, dessa realidade, é tanto mais grave quanto o ensino passou a ser, finalmente, para todos. Inversão que não foi obra do actual ministro.
A prioridade, com todos os recursos, só pode ser, por isso, a construção duma rede de ensino público de grande qualidade. Reciclando, seleccionando (por necessidade e justiça), formando e atraindo os melhores, mais vocacionados, professores. Também por não ser legítimo prometer a todos o emprego que não haverá.
E por isso me chocou tanto a ideia, abstrusa, deslocada, do "cheque ensino". Não pode ter sido de Nuno Crato. Num país em que é tão difícil promover a mais simples e imperiosa alteração, pareceu provocação ou é outra cegueira, agora de sinal contrário. O ministro deve explicar bem essa história.
Em Portugal não resolveria nada. Nos EUA a diferença de qualidade entre escolas é enorme. Ao contrário do que se verifica em Portugal, sem diferenças significativas, em que todas precisam é de melhorar muito. É essa a maneira de resolver a imperiosa exigência de todos poderem frequentar a melhor escola.
Para isso o que precisamos é de soluções pioneiras eficazes, informadas pelas melhores experiências estrangeiras, mas pensadas para a nossa realidade concreta.
Quanto ao título O Advogado do Diabo, picardia bem achada de MEB, não espelha o espírito do meu texto. Partilho com Nuno Crato ideias essenciais sobre a educação e subscrevo medidas certíssimas que tenta concretizar, em matéria de programas, valorização das avaliações e selecção dos candidatos à docência, designadamente, mas nem sempre me identifico com a forma e o modo adoptados. E espero outras, mesmo a imaginação de soluções que sem prejudicarem o que deve ser feito enfrentem a situação dramática de tantos professores.
Curioso é que esse título do diabo me tenha recordado um provérbio que exprime, afinal, a razão destes anos de combate: “As cabeças vazias são a oficina do diabo”. Foi contra esse esvaziamento das cabeças que lutei, pagando com gosto o preço desse combate. Porque se a liberdade significa alguma coisa, é “o direito de dizer aos outros o que eles não querem ouvir”. Sobretudo aos que têm poder, que deviam saber e querer governar bem, a doce e bem-amada Terra em que nasci.

O DESPERTAR DE ROSETTA

Crónica publicada hoje no Diário de Coimbra.


Longe vão os tempos em que o avistamento de um cometa, um acontecimento astronómico, era associado, pelos homens na Terra, a mensagens dos deuses, a nascimentos de reis e salvadores, ou à queda de impérios e a catástrofes naturais. O desconhecimento e o medo obscureciam o brilho dos cometas que traçavam no céu um temor cósmico.

Hoje sabemos que os cometas são corpos celestes que orbitam o Sol com períodos translacionais de dezenas ou centenas de anos. Constituídos por núcleos rochosos e gelados, podendo ter até vários quilómetros de largura, são blocos da construção primeva do Sistema Solar.

Há evidências que indicam que desde o início da formação do nosso planeta, há cerca de 4,5 mil milhões de anos, os cometas poderão ter transportado água do cosmos longínquo para a superfície da Terra. Os mares teriam sido, assim, também semeados por cometas. Sabemos que estes também têm na sua composição moléculas orgânicas, o que poderá indicar que tenham contribuído para o despertar da vida no planeta em que existimos.


Mas ainda sabemos pouco e os cientistas ainda têm muitas questões fundamentais sobre estes corpos enigmáticos do Sistemas Solar. E quando não sabemos, estudamos, investigamos. E é isso que vai ser efectuado no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Descoberto em 1969 pelo astrónomo que lhe dá o nome, tem um núcleo rochoso gelado com cerca de 4,5 km de diâmetro e dá uma volta ao Sol em cada 6,45 anos. 


Para estudar este cometa, a Agência Espacial Europeia (ESA), de que Portugal é membro, lançou em 2004 a sonda Rosetta. Equipada com instrumentos para a análise físico-química da composição do cometa, a sonda, fez grande parte da sua longa trajectória em hibernação, poupando assim a energia que vai necessitar para cumprir a sua missão de descoberta.

No passado dia 20 de Janeiro a sonda acordou e o sinal do despertar da Roseta foi recebido, pouco depois das 18h00, com entusiasmo no Centro de Operações da ESA, em Darmstadt (Alemanha). Está previsto que a sonda, que se encontra actualmente a uns 800 milhões de quilómetros de nós, comece a andar à volta do cometa em Agosto deste ano. Quando estiver suficientemente próximo do núcleo, Rosetta lançará o robô Philae que transporta, com cem quilos, e que irá pousar e fixar-se na superfície do 67P/Churyumov-Gerasimenko. Philae será o primeiro engenho humano a acometar, investigar a superfície e efectuar análises químicas nesta classe de corpos celestes.

A Rosetta e o módulo Philae possuem 21 equipamentos científicos, e esta missão será pioneira por testemunhar de perto a evolução de um cometa à medida que este se aproxima de regiões mais quentes do Sistema Solar.

O nome da sonda é uma referência à famosa pedra de Rosetta que no início do século XIX permitiu ao egiptólogo francês Jean-François Champollion descodificar os hieróglifos egípcios. Quanto a Philae, deve o seu nome à ilha egípcia de File onde foi encontrado o obelisco utilizado, juntamente com a pedra de Roseta, para resolver o enigma dos hieróglifos. Esperemos que Rosetta e Philae contribuam para que possamos brevemente compreender melhor o nascimento do nosso Sistema Solar e da própria vida na Terra.

António Piedade 

"Domesticação": a palavra a que se chegou!

Na sequência de texto ontem publicado, registo o apontamento de uma socióloga sobre os comportamentos desajustados dos alunos do ensino superior e o tolerantismo por parte de quem tem o dever de os controlar:
“... as reitorias nunca tiveram vontade de expulsar a praxe ou de a domesticar sequer, porque os reitores precisam de ter os alunos do seu lado”. 
O olhar da especialista coincide com o meu olhar de leiga. Na verdade, não é sequer preciso procurar para se saber o que se passa e porque se passa: a evidência há muito que passou os limites físicos das escolas, impõe-se nas cidades e, agora, tem destaque nacional.

O estado a que se chegou, implica, nas palavras dessa socióloga, uma "da domesticação destas práticas", que "não é fácil de se conseguir”. Pois não, digo eu.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Redigiram os seus regulamentos disciplinares e... descansaram.

Nos últimos anos, diversas universidades públicas portuguesas (deixo as privadas de lado porque não as conheço) redigiram os seus regulamentos disciplinares e... descansaram.

Quer dizer, presumo que tenham descansado, pois do que me é dado perceber, em muitas faculdades e cursos, os comportamentos problemáticos dos alunos, de esporádicos passaram a habituais (ver, por exemplo aqui) e a sua severidade aumentou... Porém, nada de relevante parece acontecer.

A impressão que formei já há algum tempo, e que tenho vindo a reforçar, é a seguinte: quem deve fazer cumprir as normas opta por "assistir ao espectáculo", para evitar problemas de maior, finge que não vê nem ouve, dissimula. Além disso, de tão envolvido que está na convivência conturbada, nem se apercebe do seu agravamento, nem que todos os dias condescende um pouco mais. Isto até deixar de distinguir o que é normal e o que é intolerável nessa convivência

As razões do cenário são muitíssimas e estão bem identificadas na literatura da especialidade, por isso salto esta parte, pois o que me interessa é dizer que, por estes dias, um professor de uma universidade portuguesa, passando por alunos cujo comportamento o inquietou não seguiu em frente, parou e interveio.

Por certo, ele saberia que nada do dissesse iria ser atendido e muito menos acatado pelos alunos, mas, ainda assim, a sua consciência não o deixou avançar. Do que se seguiu, dá conta numa mensagem aberta aos colegas, que foi divulgada na comunicação social, e que se resume em três palavras: manietado, ameaçado e insultado.

Por certo, ele saberá que a divulgação do caso não terá quaisquer consequências para os alunos (ainda que possa ter para si) mas, ainda assim, a sua consciência não o deixou parar. Avançou e contou.

É uma dupla manifestação de coragem (a segunda nada menor do que a primeira) que lhe reconheço e agradeço.

Os primeiros problemas

Mapa do Antigo Império Romano
Assinado, com pompa, o tratado que instituiu a União Mediterrânica, seguiram-se os festejos há muito preparados nas capitais dos países fundadores. Programara-se uma semana de festividades e assim foi, em termos oficiais.

Mas cada população por si, eufórica por se ver livre do jugo europeu, tomou espontaneamente conta da situação, e dando largas às especificidades lúdicas de cada povo continuou as comemorações por aí fora. O que foi muito bom e lindo de ver, mas teve o contra de multiplicar por cinco os custos previstos para as festas.

Para falarmos em termos de moeda única – até porque nenhum deles sabia ainda se devia voltar à sua antiga moeda ou inventar outra – estavam previstos cinquenta milhões de euros para foguetes, digamos assim, e afinal gastaram-se duzentos e cinquenta. Isto por junto, embora uns tenham exagerado mais que outros.

Com o que criaram o primeiro mal-entendido; mas tudo se compôs porque, libertos agora das tenazes do euro, facilmente resolveriam o problema fabricando uns tantos caixotes de notas de banco. Mas o pior foi no campo político: começou a haver mal-estar. Não em termos formais, mas práticos e nas entrelinhas. Surgiram sinais de que os países maiores tentavam liderar o processo, um pouco na linha do que tinham aprendido com a Alemanha da senhora Merkel e com a França do tempo do senhor Sarkozy.

A Espanha, que sempre se esquece que há outro país na Península Ibérica, não vendo ninguém ao lado nem acima, começou a pensar na sua grandeza, na força da sua economia, na sua língua de quinhentos milhões, e na sua posição face ao Mundo de que a União Mediterrânica tinha absoluta necessidade. E em mais trunfos assim à proporção destes para se chegar à frente. Quando isso percebeu, a Itália lembrou que era o berço do Império Romano, afinal a matriz da União Mediterrânica. E quanto à indústria, ganhava, claro, à espanhola. Em tudo. Por exemplo: Se Espanha tinha os Seat, a Itália tinha, para esses, os Fiat. Mas, vamos ver, onde é que se fabricavam os Lancia? E os Alfa Romeo? E quem é que tinha o segredo dos Lamborghini? E desses autênticos mitos que são os Ferrari? Quem? A Espanha que tomasse juízo. Os gregos, já azedos com a hipótese da entrada da Turquia na União Mediterrânica, ao ver isto, lembraram, com feroz veemência, que o Império Romano não passara de uma militarização e de uma juridiscialização da cultura helénica, ou seja, de uma redução grotesca e pífia, e que eram eles os verdadeiros pais culturais da União Mediterrânica. Respeito, portanto. Se alguém devia estar à cabeça da U.M., era a Grécia.

Os portugueses, claro, não se ficaram. Não tinham filósofos nem literatura ou arquitetura clássicas para tanto, mas, além dos autores da ideia da referida União Mediterrânica, tinham um espírito de aventura como ninguém, eram fura-bolos como poucos, e se ainda não eram quinhentos seriam já trezentos milhões de falantes, o que dava uma enorme barulheira quando havia disso necessidade. E, sobretudo, embora mediterrânicos pelo feitio e pela dieta (sólida e líquida) eram também atlânticos.

Ou seja, a verdadeira porta para o Mundo; ninguém por certo queria que o Mediterrâneo voltasse a ser um mar fechado, como na Antiguidade, só pensar nisso provocava claustrofobia. Os tempos agora eram de largueza, e nesse ponto estávamos nós. Só pelo porto de Sines entraria metade do Mundo… e pelos restantes portos a outra metade.

No meio desta guerra de galos os cipriotas nem se atreviam a falar. Mas por pouco tempo porque, como quem tem dinheiro tem tudo, já pensavam numa estratégia, e das fortes, a partir das fortunas com que os russos tinham engordado os seus bancos.

Estavam nisto, quando se decidiu fazer uma cimeira para ultrapassar o melindre da situação. E aí ficou combinado que se respeitariam tanto a letra como o espírito dos tratados: todos iguais, todos diferentes. Houve de novo abraços e banquetes. E mais foguetes. Repuseram-se assim os níveis de otimismo. Entendiam, e bem, que todos, em comum, e encostados uns aos outros, ficavam mais fortes para os trabalhos e mais eficazes para os problemas; era para isso que as uniões serviam, não é verdade?

Mas, cada um por si, continuava a sonhar que um outro qualquer puxasse a carroça que o levaria em cima, acenando às multidões.

 João Boavida

PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA – 2

Texto que continua este.

Surgimento da moderna paleontologia. Os séculos XVII e XVIII.


Nicolau Steno (1638-1696)
No século XVII, receosos de perseguição movida pela Igreja, ainda eram muitos os estudiosos que, convictos ou não, rejeitavam aceitar os fósseis como sendo restos de amimais ou plantas do passado. Um deles, o naturalista e químico inglês Robert Plot (1640-1696), no livro que publicou em 1677, Natural History of Oxford-Shire, descreveu um fémur de dinossáurio como sendo de um elefante deixado no terreno pelos invasores romanos. Ao contrário desta visão, o dinamarquês Nicolau Steno (1638-1696) deu um grande passo no sentido do conhecimento científico, ao recuperar as ideias de Da Vinci e de Palissy. Médico de profissão, com obra notável nos campos de geologia e da mineralogia, Steno já verificara que certos “petrificados” eram semelhantes entre si, quaisquer que fossem as rochas em que estivessem embutidos, e que, por outro lado, tinham o mesmo aspecto das partes dos animais a que se assemelhavam. Ao observar os dentes de um tubarão actual, Steno verificou que estes eram muito semelhantes a certos objectos encontrados em rochas sedimentares na Ilha de Malta, então chamados glossopetrae (línguas petrificadas), uma vez que faziam lembrar línguas de serpente transformadas em pedra.

Cabeça de tubarão branco, numa xilogravura de Nicolau Steno, de 1667.
Depois de dissecar a cabeça de um gigantesco tubarão branco capturado em Itália em 1666, Steno mostrou que os glossopetrae eram dentes de antigos seláceos do mesmo tipo, caídos no fundo do mar, aí conservados no seio dos sedimentos e depois trazidos à superfície incluídos no seio da rocha em que esses sedimentos se haviam transformado. Esta explicação de Steno marca o começo da interpretação biológica dos fósseis, que vingou e teve pleno desenvolvimento, em especial, no século XVIII. Considerado um dos fundadores da paleontologia, é sua a frase “os corpos encontrados na terra que se assemelham a plantas e animais têm a mesma origem que as plantas e os animais a que se assemelham”.

Esta afirmação, hoje evidente, representou, para a época, uma inovação e um romper com as ideias do passado. Com esta frase, inovou o conceito paleontológico de fóssil, no que foi apoiado pelo filósofo alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) e pelo físico e naturalista inglês Robert Hook (1635-1703), lembrado como uma das figuras chave da revolução científica do século XVII.

Steno postulava que, se as conchas e outros restos de antigos seres vivos encontrados nas rochas de uma dada região são despojos de animais marinhos, as camadas que os contêm são necessariamente marinhas, concluindo que o mar ocupara essa região. Com estas afirmações, e embora sendo respeitador do tempo bíblico e dos relatos das Sagradas Escrituras, inovou também o conceito de fácies, definida como o conjunto de características paleontológicas, mineralógicas ou outras que permitem conhecer o ambiente em que a rocha se formou. Para muitos dos seus contemporâneos, era intrigante o facto de um animal petrificado e, portanto, sólido, estar dentro de uma rocha também ela sólida. No livro que publicou em Florença, em 1669, “De solidus intra solidum naturaliter contento dissertationis prodromus”, Steno deu a necessária explicação a este problema e ao levantado por outros corpos sólidos (cristais, veios, filões, camadas, encraves) embutidos no interior das diversas rochas.

Na mesma linha de afastamento das explicações mais conservadoras, Robert Hook combateu, veementemente, a ideia generalizada de que os fósseis eram o resultado de virtudes operadas no seio das rochas ou que surgiam sob o efeito de influências celestiais. À semelhança do seu contemporâneo dinamarquês, interpretava os fósseis como restos de organismos que haviam sido submetidos a um processo de petrificação. Numa ousadia que atentava contra a crença religiosa da unidade da Criação, chamou a atenção para a existência de fósseis cujos indivíduos não têm representação actual, aceitando, portanto, que havia, no presente, novas espécies.

Defensor da mesma visão, Leibniz reconheceu os fósseis como vestígios petrificados de seres vivos do passado, actualmente extintos, e, nesta medida, é também lembrado como um dos fundadores da paleontologia. Ao afirmar que “nas múltiplas mudanças operadas na Terra ao longo do tempo, um grande número de seres sofreu transformações”, Leibnitz lançou a semente do transformismo.

Em Inglaterra, na mesma época, o botânico John Woodward (1665-1728), influenciado pela abundância de fósseis que lhe foi dado observar no condado de Gloucester, organizou uma numerosa e valiosa colecção de “petrificados” que fez história, de início, como núcleo do Museu Woodwardiano, em Cambridge, e, posteriormente, como acervo do Museu Sedgwick, na mesma Universidade. O livro que nos deixou, An Attempt towards a Natural History of the Fossils of England, em dois volumes (1728 e 1729), é expressão do seu muito saber como paleontólogo.

No livro “Helvetica Lithographia”, publicado em 1726, o médico e naturalista suíço Johann Jakob Scheuchzer (1672-1733) descreveu, em 1726, um esqueleto fóssil, retirado de terrenos do Miocénico, perto do Lago Constança, que identificou como sendo de um homem (Homo diluvii) vitimado pelo Dilúvio.

Esta descoberta, aproveitada pela Igreja como demonstrativa da veracidade desta crença, vingou até 1811, data em que o naturalista francês Georges Cuvier (1769-1832), lembrado como pai da anatomia comparada, reexaminou o dito fóssil e identificou-o como uma salamandra gigante, dando, assim, um violento golpe no diluvianismo.

Na mesma época, o cônsul francês no Egipto, Benoit de Maillet (1656-1738), divulgava uma teoria sobre a evolução da Terra, segundo a qual teria havido alternância de períodos de invasão e de recuo do mar ao longo do tempo geológico que, ousadamente para a época, estimava em muitos milhões de anos. Antecipando os conceitos de transgressão e regressão marinhas, foi pioneiro na ideia que considera a vida terrestre como uma transformação adaptativa da vida marinha.

Ao tempo em que o naturalista sueco Carl von Linné (1707-1778), na sua obra Systema Naturae (1758), iniciava a sistemática dos seres vivos, Anton Lazzaro Moro formulava inovadoras teses sobre a origem dos fósseis marinhos. Investigando sob a pressão dos compromissos e restrições de natureza religiosa e incompreendido por muitos, que o acusavam de desrespeitador da Fé, este abade e vulcanista veneziano foi autor de avanços notáveis relativamente à paleontologia encarada como disciplina científica, com destaque para o livro "De Crostacei E Degli Altri Marini Corpi" (1740), no qual expressa as suas ideias sobre as mudanças verificadas depois da Criação.

Nesta linha de abandono das explicações fantasiosas ainda prevalecentes, o naturalista francês George-Louis Leclerc (1707-1788), mais conhecido por Buffon, defendia que as conchas encontradas no seio de algumas rochas eram restos de moluscos marinhos desaparecidos e recuperava a expressão “espécies perdidas” criada dois séculos atrás, por Bernard Palissy, muito antes do nascimento da paleontologia como ciência.

Considerado a figura central de todo o pensamento na história natural, na segunda metade do século XVIII, Buffon foi o fundador do embrião do Museu Nacional de História Natural de Paris, cujo papel no domínio do progresso da paleontologia é um dado histórico. Na mesma época, o chamado “Sistema Woltersdorf”, considerado uma das mais antigas classificações dos produtos não vivos da Terra, divulgada em 1748, pelo teólogo e mineralogista alemão, John Lukas Woltersdorf (1721-1772), mostra que o autor já reconhecia os fósseis como restos de seres vivos petrificados. Com efeito, além das classes que incluíam rochas e minerais (Terrae, Lapides, Sali, Bitumina, Semimetala, Metala), distinguia a classe Petrifada, na qual reunia restos de vertebrados e invertebrados, continentais e marinhos, bem como de vegetais.

Anos mais tarde, o naturalista francês, Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet (1744-1829), mais conhecido por Lamarck, na sua obra “Historie Naturelle des Animaux sans Vertèbres”, editada em 1802, dava verdadeiro início à paleontologia dos invertebrados. Foi também este naturalista quem apresentou a primeira teoria fundamentada sobre a evolução dos seres vivos, logo contestada pelo seu contemporâneo George Cuvier (1769-1832), catastrofista convicto e adversário assumido das ideias de Lamarck. Introdutor do criacionismo, Jean Leopold Nicolas Fréderic Cuvier, de seu verdadeiro nome, defendia que a Terra sofrera extinções periódicas de muitos animais, seguidas por períodos de acalmia, durante os quais teria lugar nova criação.

Fundador da anatomia comprada e da paleontologia dos vertebrados em termos modernos, trabalhou no Museu Nacional de História Natural de Paris como assistente e em estreita colaboração com o zoólogo Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1779-1844). No seu livro “Leçons d’anatomie comparée”, editado em 1800, Cuvier formulou o chamado “Princípio da Correlação das Partes”, segundo o qual “as características anatómicas e funcionais dos vertebrados estão relacionadas entre si e com o ambiente”.

A anatomia comparada nos vertebrados permitiu aos paleontólogos reconstituir a configuração corporal correspondente aos ossos que iam sendo achados e, ainda, a reconstituição de espécies fósseis desconhecidas. Uma outra contribuição de Cuvier para a paleontologia foi ter aplicado os conhecimentos da zoologia e da botânica actuais ao estudo dos animais e plantas fósseis. Defensor de uma visão catastrofista da História da Terra, mostrou que os esqueletos fósseis de mamutes e mastodontes eram diferentes dos elefantes actuais, dando, assim, ênfase ao seu conceito de extinção. Cuvier estudou os fósseis da Bacia de Paris, onde reconheceu uma série de sucessivas faunas, tendo verificado que as camadas sedimentares mais jovens desta série continham fósseis de vertebrados mais próximos dos que existiam na actualidade e que nenhum deles tinha representação em animais do presente.

Concluiu, então, que esses fósseis correspondiam a animais do passado que se extinguiram. Também ele, um catastrofista, Alexandre Brongniart (1770-1847), geólogo e mineralogista francês, teve papel notável como paleontólogo. Realizou um importante estudo sobre trilobites e contribuiu com elementos pioneiros para a estratigrafia, através do conhecimento de fósseis, passíveis de datar os estratos de rochas sedimentares. Quando o número e a variedade de fósseis, encontrados e estudados pelos paleontólogos pioneiros, ganhou uma dimensão suficientemente importante, a Igreja não pôde continuar a negar que tais achados eram restos de seres vivos do passado e, assim, os clérigos mais conservadores defendiam que os fósseis correspondiam a restos de animais vitimados pelo Dilúvio bíblico.

Foi neste quadro que William Smith (1769-1839), iniciador da paleontologia estratigráfica, desenvolveu as suas ideias. Além de geólogo de renome, este inglês foi grande inovador no domínio da paleontologia. O seu trabalho contribuiu para pôr fim à interpretação, advogada pelas Escrituras, que negava a origem orgânica dos fósseis. Ao demonstrar o valor dos fósseis no reconhecimento das camadas geológicas, o seu trabalho foi decisivo no estabelecimento de uma geocronologia relativa e no desenvolvimento da estratigrafia. Smith verificou que determinada sobreposição de estratos de rochas sedimentares, observável num dado lugar, se podia encontrar noutros locais e concluiu pela possibilidade de caracterizar cada estrato pelo conjunto dos fósseis nele incluídos.

Concluiu, ainda, que a mesma sucessão de estratos podia ser encontrada em muitas regiões do país. Esta sua conclusão permitiu-lhe formular o “Princípio da Sucessão Faunística”, cuja consistência procurou e pôde ser verificada em termos universais. No seu trabalho, ”Treatise on the Classification of Strata”(1815) reuniu, estudou e figurou uma vasta colecção de fósseis, possibilitando a outros estudiosos testar a sua teoria.

Uma das figuras publicadas por William Smith, em 1815 
Smith divulgou, ainda, o “Princípio da Correlação Paleontológica”, segundo o qual, cada unidade de uma sucessão estratigráfica se caracteriza pela associação de fósseis nela incluída, o que permitia reconhecer a identidade entre sucessões estratigráficas existentes em localidades mais ou menos afastadas entre si. Foi o começo da biostratigrafia, ou seja, o estabelecimento de uma seriação estratigráfica baseada no conhecimento de fósseis susceptíveis de estabelecer idades de estratos e sucessões estratigráficas relativas.

A sua origem numa família muito humilde dificultou-lhe a aproximação à sociedade erudita e elitista de então e, assim, muito da sua obra permaneceu ignorado pela comunidade científica, por demasiado tempo. O seu trabalho foi plagiado por intelectuais aristocratas sem escrúpulos da então recém-formada Sociedade Geológica de Londres, que o havia rejeitado.

Smith trabalhou durante muitos anos como agrimensor, até que um dos seus empregadores reconheceu os seus méritos e o impôs à dita Sociedade. Finalmente aceite entre a comunidade científica nacional e internacional, Smith projectou-se com a distinção e as honrarias que lhe eram devidas.

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A. Galopim de Carvalho