quinta-feira, 27 de novembro de 2014

SÓCRATES? E NÓS?

´
Já foi quase tudo dito sobre José Sócrates. Que me ocorre dizer sobre José Sócrates? Em 6 de Maio de 2011, escrevi no Público sobre ele um dos meus escritos mais contundentes ("O grau zero da política"), uma peça que foi interpretada como favorecendo a ascensão de Pedro Passos Coelho ao poder (é claro que eu já temia que vinha aí algo de mau, mas pior teria sido manter José Sócrates, como o PS queria).  Eu, tal como João Miguel Tavares no Público de hoje, não sou juiz e não o vou julgar no plano jurídico. Sou apenas um cidadão que vê e comenta a vida pública. Já o julguei no plano político. Quanto ao resto não sei, mas verifico que há numerosos casos duvidosos que ele não esclareceu. Oxalá Sócrates estivesse inocente e se pudesse daqui por uns tempos diluir (apagar será impossível) a mancha na democracia portuguesa causada pelos numerosos casos controversos em que o nome do antigo primeiro-ministro esteve e está envolvido. Mas, dados os notórios rabos de palha deixados, tudo indica que tal será difícil senão mesmo impossível.

O que há a fazer?  Esperar que a justiça siga o seu curso, pedindo-lhe se possível mais rapidez do que a costumada. E, como todo este caso, queiramos ou não, tem óbvias consequências políticas, tanto para o PS que esteve no governo  como para o PSD e CDS que actualmente estão (um governo muito afectado, lembremos, por um presumível caso de corrupção ligado com os vistos gold, que levou à demissão de um ministro, para já não falar do resto), esperar que os partidos, todos os partidos, façam a regeneração que conseguirem fazer e, nesse processo, se protejam - e, acima de tudo, nos protejam - do terrível vírus da corrupção.

A possibilidade de renovação, nos partidos e nos governos, é uma das grandes virtudes da democracia. António Costa, que vai ser muito provavelmente o futuro primeiro-ministro, recebe sem ter feito nada por isso uma importante ajuda com o caso Sócrates. Assim ele perceba que este caso deve ter consequências internas, de modo a aumentar a credibilidade do PS (Mário Soares lamentavelmente não percebeu). O PSD e o CDS estão nos dias que correm descredibilizados. E o PS, para que haja confiança no próximo governo e esperança na democracia, tem de aumentar o seu merecimento de crédito. Pedro Passos Coelho subiu ao poder porque já ninguém acreditava em José Sócrates. Não foi tanto o mérito seu mas mais a falta de mérito do seu predecessor. António Costa não deveria subir ao poder apenas porque já ninguém acredita em Passos Coelho.

11 comentários:

  1. O CFiolhais bem que nos podia poupar a exercicios de hipocrisia gratuita. Tal como o JM Tavares, tb o CFiolhais sabe que não são "apenas cidadãos". Sabem que, pela v história, e pelas funções que ocupam, têm um notoriedade que lhes garante um público junto de quem a vossa palavra é uma arma qd a resolvem apontar a quem quer que seja. De resto, o C Fiolhais reconhece isso qd se refere ao impacto do seu "Grau Zero da Politica". Não gosta do Sócrates ? Está no seu direito! Acha que ele deixou "rabos de palha" ? É a sua opinião ! Mas ao publica-la sem a fundamentar, coloca-se exactamente no mesmo plano do Correio da Manhã: o grau zero da ética!

    Manuel Rocha

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É isso mesmo camarada Manuel! Censura nestes gajos já! Como têm notoriedade deveria haver um conselho de sábios que decidisse quem pode dizer o quê... e já agora o conselho presidido pelo Dr. Soares.

      Eliminar
    2. Se o Camarada Anónimo considera que a liberdade de expressão legitima todo e qualquer assassinato público do carácter de quem quer que seja na praça pública com base em "indicios" e "suspeitas", tudo o que posso é desejar sinceramente que nunca se veja nessa situação. Nada mais !

      Manuel Rocha

      Eliminar
  2. E após a criação do dito conselho, deveriam rapidamente estabelecer protocolos transnacionais, para impedir a pouca vergonha que, por exemplo, vai no Libération (http://www.liberation.fr/monde/2014/11/26/socrates-la-chute-d-un-opportuniste-sans-ideologie_1151041)

    ResponderEliminar
  3. Ainda bem que podemos contar com opiniões honestas, desinteressadas e transparentes como a do Carlos Fiolhais e do João Miguel Tavares. Infelizmente, a maioria dos comentadores estão afiliados a uma qualquer família de interesses, e o que dizem é sempre suspeito de manipulação.

    Tenho todas as razões para confiar no juíz e no ministério público. Tenho todas as razões para crer que 20 milhões no banco não podem ser rendimentos honestos e legais de quem não fez fortuna no negócio mas esteve antes ao serviço do país. E se fez, que diga qual foi o negócio.

    Citando JMT, vemos, ouvimos e lemos. Não somos cegos, nem surdos, nem analfabetos. Não falta, claro, quem desejasse que fôssemos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Tenho todas as razões para crer que 20 milhões no banco ..."

      Portanto o MG sabe, tem a certeza, que o JS tem 20 milhões ( de euros ? ) em contas bancárias. Óptimo ! Seria pedir demasiado que partilhasse connosco essa informação ? Claro que se a sua fonte é o Sol, o seu problema não é de analfabetismo, mas de literacia critica.

      Manuel Rocha

      Eliminar
  4. Parabéns Prof. Carlos Fiolhais! Excelente análise: lúcida e realista como sempre. Fui ler o seu artigo de 2011 "O grau zero da política" e considero-o também muito bom e objectivo. Continue!

    ResponderEliminar
  5. A diferença existe, no entanto: o Carlos Fiolhais é um cidadão que tem uma opinião sobre José Sócrates mas que espera que a justiça siga o seu curso; o J M Tavares é, ao invés, um irresponsável que, por um lado, não se limitou a emitir opinião mas decretou a culpabilidade de Sócrates como se esse direito lhe assistisse, como se fosse a mesma coisa achar que na história de Sócrates há coisas que não batem certo e sentenciar no PÚBLICO que ele é culpado; por outro, entendeu ser ética e deontologicamente aceitável vir para um jornal de grande tiragem ajustar contas por causa de um passado que só aos dois diz respeito.
    À diferença entre Fiolhais e Tavares é a diferença entre um cidadão-cientista que tem opinião mas respeita as instituições (e isto representa o Estado de Direito) e um cidadão irresponsável que representa o estado a que isto chegou.

    ResponderEliminar
  6. Caro Pedro Silva,

    Aceito que a diferença que refere exista! Mas convirá duas coisas:
    1. Quem lincou para o artigo do JMT foi o próprio Fiolhais.
    2. Afirmar " Oxalá Sócrates estivesse inocente ...." para logo adiante falar dos "ínúmeros rabos de palha...." é uma excelente fórmula cinica para semear suspeições sem deixar de ser "politicamente correcto".

    Uma ultima nota: as instituições existem para promover o respeito pelas pessoas; não o contrário.

    M Rocha

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro M Rocha: compreendo-o, embora eu tenha uma outra perceção. O link é uma opção do autor, justificada pela comparação parafrásica "também não sou juiz". Já o seu ponto 2 parece-me pecar por excesso semântico: o autor deseja a inocência do visado (eu também, já que a culpa de um cidadão é uma perda para toda a sociedade - daí, em abstrato, ser o Ministério Público o dono do processo penal, e não o potencial ofendido) e observa um facto: há coisas não explicadas no percurso de vida do visado. Não vejo justificação para a classificação de "cinismo" neste exercício de reflexão. Seja como for, não vi o cidadão CF a reclamar o 'direito' de declarar culpado um outro cidadão. E essa, para mim, é uma diferença fundamental na análise contrastiva entre as manifestações dos dois autores.
      Mas esta é, apenas, a minha opinião. Vale o que vale.
      Quanto às instituições, elas são instrumentos da função organizatória do Direito. Resultam, na nossa conceção sócio-política, da própria democracia representativa e são, por isso, extensões condensadas (e especializadas) da comunidade. Se quiser, por outras palavras, são as pessoas em "dinâmica de cidadania".

      Eliminar
  7. O Sócrates é culpado, olé olé! Chega de palhacinhos, o Sócrates é culpado, olé olé!

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.