segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Castanhas assadas, vinho tinto e duas lágrimas

Quando se passa dos 80, não é o minguar do horizonte de vida que mais atormenta. Há como que um cansaço do longo caminho andado que deseja o descanso e esse descanso, lá bem no fundo, só pode ser o sono eterno sem deuses, nem anjos, nem santos, como num dormir sem sonhos.

O que mais atormenta é ver partir os amigos e companheiros e olhar para os que resistem e saber que um dia destes nos iremos despedir deles, mais do que se formos nós a transpor essa passagem que todos temos como certa.

Do mês de Novembro detesto os fins de tarde que encurtam os dias em contraste com os tardios ocasos do verão que findou.

Detesto o Dia de Finados e os macabros crisântemos, de sinistro aroma, à porta dos cemitérios.

Mas gosto da marmelada fresca, das romãs cor de rubi e das castanhas assadas.

E gosto do São Martinho e da Feira Nacional do Cavalo que se faz na Golegã, não por estar por dentro da actividade equestre, mas por, em criança, ter convivido bastante e de muito perto com dois possantes e meigos percherons, o Pataludo e o Manjerico.

Durante anos festejei o São Martinho em família, com mais dois amigos, cujos nomes não interessa para a história, sempre os mesmos, em roda da mesa do jantar com muitas castanhas assadas e vinho tinto que nos vinha do Alentejo.

O serão prolongava-se até tarde e era quase sempre que, da minha janela, os via partir, cambaleando comedida e disfarçadamente, rua acima, rindo e fazendo, para trás, largos gestos de adeus.

Um belo dia, um deles partiu para sempre e nós, os que ficámos, fomos vê-lo baixar à terra em Portalegre. Não tardou muito tempo, partiu o outro e, desta vez, a despedida foi num cemitério de Lisboa, num dia cinzento e triste, já lá vão uns anos.

É claro que não deixei de comer castanhas assadas nesta quadra do ano, mas os serões de São Martinho não mais se repetiram.

Os portugueses, com excepção de uns tantos a quem as crises não afectam, andam cabisbaixos, muitos deles com graves problemas de desemprego e de outras dificuldades nas famílias, fragilizados por uma perspectiva de dias ainda piores e com a sensibilidade à flor da pele.

Talvez por isso, somado às razões com que dei início a esta crónica, quando, há dois ou três dias, a sós com os meus pensamentos, abri a primeira castanha ainda bem quente, saída do lume, vieram-me à memória estes dois amigos e, ao mesmo tempo, duas lágrimas grossas rolaram atrevidas, inundando a base das lentes dos óculos.

Ouvi-lhes as vozes, recordei os seus ditos e revi-os cambaleando, comedida e disfarçadamente, rua acima, gritando palavras amigas, rindo e fazendo, para trás, largos gestos de adeus.

A. Galopim de Carvalho

2 comentários:

  1. Boa tarde Mestre Galopim!

    Fez o senhor muito bem em partilhar a sua saudade. Porque a saudade, essa marafada, tem muito que se lhe diga. Sem uma mão alheia onde nos apoiarmos, um par de ouvidos ou de olhos que seja, por perto, atentos ao que sentimos ... e essa desgraçada começa a apertar-nos a garganta. Tanto que quase não conseguimos pensar a direito, tanto que se não fossem as lágrimas purificadoras que arrastam para fora de nós os venenos que a saudade produz ... o nosso coração explodiria. Mestre Galopim, fale com os amigos, com a família, com os conhecidos e reinvente os seus serões de São Martinho. Dou-lhe duas boas razões para o fazer: primeiro porque São Martinho é o santo dos mendigos, o que obriga a que a maioria dos portugueses tenha mesmo que festejá-lo; segundo, porque São Martinho foi o primeiro santo que não foi mártir e nós, já fartos que nos martirizem, sem razão e sem porquê, embora mendigos iremos festejar um homem que foi santo, não pelos sacrifícios a que foi submetido, mas pelo bem que fez ao próximo.

    Uma continuação de boa tarde para si Mestre Galopim.

    Rosália Moreira




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  2. Adeus. Já o disse tantas vezes que agora sinto qualquer adeus como um fenómeno de progresso. O adeus arremessa-nos para a frente. Apoia-nos na referência do fantasma para prosseguirmos na ilusão do caminho. Só roçando a morte é que nos apercebemos do fumo. Nada antes, nada depois. Nada durante. Um ser sem essência que se articula, para a frente, como essencial. Porque eu penso, logo existo. E como facilmente deixo de existir, confirmo, reafirmo e desenvolvo mais pensamento. E pensar distrai-me de não existir, isto é, de existir precariamente. Depois, faço uma roda com outros existentes e somos muitos e assim existimos mais, humanamente falando. E pensamos para fora e para cima, em extensão divina, para podermos existir, também, para sempre. Vinho e castanhas! Seja! Que o frio adeus precisa de aquecer as mãos na frivolidade.

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