quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ACESSO AO ENSINO SUPERIOR



Hoje de tarde em Vila Real às 16h30 na UTAD e amanhã às 17h30 na Torre do Tombo em Lisboa, debate organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre "O Acesso ao Ensino Superior". Leia a excelente reportagem no jornal de Letras de hoje, com uma entrevista com Claire Callender, a professora do Instituto de Educação de Londres, juntamente com Carla Sá, da Universidade do Minho. Transcrevemos parte para abrir o apetite para o resto:

Claire Callender : Pensar o Ensino Superior

Hoje, quarta-feira, 12, na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, em Vila Real, e amanhã, 13, na Torre do Tombo, em Lisboa, debate-se o Acesso ao Ensino Superior. Tema da segunda conferência do ciclo Questões-Chave em Educação, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O JL/Educação entrevista as duas oradoras, especialistas na matéria, a inglesa Claire Callender, da Universidade de Londres, e Carla Sá, da Universidade do Minho

Francisca Cunha Rêgo

Claire Callender não tem sombra de dúvida: "A educação superior transforma vidas". São mais de 35 anos de investigação na área que confirmam esta certeza. Autora de inúmeros estudos sobre Ensino Superior, Claire Callender, 60 anos, é prof.ª da Universidade de Londres, responsável pela cadeira de Estudos de Ensino Superior, no Instituto da Educação, e pela de Políticas de Ensino Superior, em Birkbeck.

A equidade no acesso à Universidade é uma das temáticas que mais a preocupa. Isso mesmo dirá hoje, dia 12, às 16 e 30, na Aula Magna, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, e amanhã, 13, às 17 e 30, na Torre do Tombo, em Lisboa, conferências moderadas, respetivamente, por Maria da Conceição Azevedo e Carlos Fiolhais.

Quais os fatores mais impactantes na participação dos estudantes no Ensino Superior? Existe, de facto, igual acesso? E se não existe, porque não? São algumas das questões que Claire Callender levantará na sua apresentação. Ao JL/Educação fala ainda sobre as melhores práticas no financiamento do Ensino Superior, o peso das propinas, sobre ensino académico e vocacional, universidades públicas e privadas, o Processo de Bolonha e o futuro das universidades que, prevê, será de expansão.

Autora de, entre outras obras, Bruwne and beyond: Modernizing English Higher Education, com P. Scott; Student Financing of Higher Education: A Comparative Perspective, com D. Heller; Part- Time Higher Education Students Two Years After Graduating, com D. Wilkinson; e The Impact of Higher Education for part-time Students, além de inúmeros papers e artigos em revistas da especialidade, Callender prepara neste momento um estudo sobre as atitudes dos estudantes em relação à dívida.

Esta investigação surge na senda de um trabalho de 2002, no qual investigou se os estudantes ponderavam deixar de ir para a Universidade por recearem o encargo financeiro em termos de dívidas que daí resultaria. Doze anos depois, entrevistando agora cerca de 200 estudantes do Ensino Secundário, vai comparar resultados.

Licenciada e doutorada pela Universidade de Bristol, em 2003, tornou-se membro da Academia de Sociedades Científicas para as Ciências Sociais. E em 2007/2008 recebeu uma bolsa Fullbright New Century, tornando-se prof.ª convidada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

JL/Educação: Pode haver equidade no acesso ao Ensino Superior?

Claire Callender: Pode. Mas é necessário que ocorram várias mudanças logo no início do sistema educativo, ou seja, no pré-escolar. No caso inglês, aquele que conheço a fundo, as maiores desigualdades acontecem com os estudantes mais pobres que têm menos hipóteses de concluir uma educação superior e, na maior parte dos casos, sequer de lá chegarem. As iniquidades no acesso estão associadas, não exclusivamente mas quase sempre, às performances dos estudantes no Ensino Secundário, onde não conseguem obter as qualificações necessárias para avançarem no seu percurso académico.

Os fatores classe social e nível de rendimento das famílias associamse diretamente às iniquidades que, infelizmente, começam muito cedo. Há dados empíricos a mostrar que, a partir dos 22 meses, já existem desigualdades, nomeadamente no que diz respeito às competências cognitivas dos bebés. Com o tempo, essas iniquidades que resultam na diminuição das capacidades cognitivas, vão aumentando. E são cumulativas tornando-se maiores à medida que a criança cresce.

- O que se pode fazer para interromper esta desigualdade?

- Os dados mostram que se houver uma intervenção precoce podem melhorar-se as capacidades cognitivas das crianças. Se se começar no pré-escolar, com um programa educativo rigoroso, pode fazer toda a diferença. O problema é que, no Reino Unido, o financiamento para esta área está a ser cortado.

- Os orçamentos destinados à Educação estão a ser emagrecidos também em Portugal e noutros países europeus...

- Exatamente. O mais preocupante é que todos os dados mostram que as sociedades estão cada vez mais desiguais. É um problema devastador e a grande questão é se há ou não vontade política de erradicar algumas das desigualdades. Neste processo, o papel dos educadores e dos professores pode ser fundamental, mas têm que ter formação superior e serem bem pagos. Infelizmente, quase sempre, são as pessoas com menores qualificações que ensinam as crianças mais pequenas em situações sociais mais desfavorecidas.

- A injustiça começa cedo.

- Demasiado cedo. E o pior é que continua ao longo do processo educativo. Mesmo que os alunos de meios económicos desfavorecidos cheguem à universidade, é menos provável que vão para as melhores.

Por outro lado, há uma pesquisa muito interessante que mostra que dois alunos com capacidades cognitivas semelhantes, vindos de classes sociais diferentes, podem entrar na mesma universidade. E se aquele de um meio mais desfavorecido andou numa escola secundária pública e obteve bons resultados é mais provável que tenha melhores resultados na universidade do que o seu colega.

- Então há esperança...

- Sim, mas fica rapidamente esmagada. Acaba de sair um relatório que mostra claramente que alunos que andaram em escolas secundárias privadas obtêm, dois anos e meio depois de se licenciarem na mesma universidade, um salário muito melhor do que aqueles que andaram nas secundárias públicas. Ou seja, os privilégios continuam no mercado de trabalho.

FINANCIAMENTO & PROPINAS

- O financiamento é o problema maior do Ensino Superior?

- É um dos maiores. Desde 2012/2013 que temos no Reino Unido um novo sistema. Anteriormente o governo financiava as universidades e os alunos pagavam uma propina baixa. Agora, o governo retirou grande parte dos fundos que dava às universidades, dizendo-lhes que podem cobrar propinas mais caras, e dá o dinheiro diretamente aos estudantes, sob a forma de subsídios, para pagarem as avultadas propinas. A média hoje, no Reino Unido, das propinas universitárias é de nove mil libras por ano (cerca de 11 mil euros). A grande dúvida é saber se este sistema será sustentável a longo prazo. E com ele levanta-se também uma nova questão.

- Qual?

- Até agora, no Reino Unido, só existiam quatro universidades privadas, mas como resultado destas mudanças da legislação houve um incremento de pequenos institutos de educação privados que vêm 'aliciar' os estudantes que agora têm acesso aos subsídios estatais. Mas qual a qualidade dos serviços destes institutos? Atingem o nível exigido a uma licenciatura? Ainda é uma proporção muito pequena no todo do universo do Ensino Superior, mas é uma preocupação. E será que, em geral, o Ensino Superior tem qualidade suficiente. Estaremos a dar o que os alunos precisam? Outro grande problema que enfrentamos prende-se com o marketing.

- Em que medida?

- Temos construído um sistema no qual o marketing é uma parte importante do Ensino Superior. Os valores do mercado estão a influenciar o papel das universidades. O  governo queria que houvesse uma competição crescente entre os 'fornecedores de educação' e que os estudantes e as suas escolhas estivessem no coração do sistema. Conseguiu fazê-lo. Mas penso que é preciso questionarmo-nos se se trata ou não de um bom desenvolvimento. Um dos principais problemas previsíveis é que uma larga percentagem de estudantes não vai pagar os empréstimos na totalidade.

- Porquê?

- Os empréstimos estatais relacionam-se com o rendimento futuro dos alunos. Se um jovem licenciado receber um salário muito baixo, então não tem que pagar o empréstimo. Se receber um salário médio, paga uma percentagem média e só se estiver a trabalhar, por exemplo, na City, paga a totalidade do empréstimo. Além de que dívidas muito avultadas são perdoadas ao fim de 30 anos. Parece-me correto que o governo subsidie os jovens que pior recebem. Mas, na verdade, estas alterações fizeram-se para poupar dinheiro e é muito questionável que este novo sistema esteja a fazê-lo. Neste momento, prevê-se que seja apenas 5% mais barato do que o anterior. E os estudos mostram que por cada libra investida num estudante o governo só irá receber 55 cêntimos.

- Qual então o sistema de financiamento ideal?

- Não é fácil responder. O financiamento do Ensino Superior é uma questão tanto ideológica e política quanto económica. O ponto-chave são as propinas. A lógica vai depender de quem cada país, e cada governo, consideram ser o maior beneficiário da educação superior. O sistema de empréstimos inglês parte do pressuposto que os maiores beneficiários da educação são os estudantes individualmente. Na Escandinávia a sociedade é vista como a principal beneficiária, por isso o estado financia diretamente o Ensino Superior, dedicando-lhe uma proporção muito grande do seu orçamento. Ambos os sistemas são válidos. Nas questões à volta do financiamento o que está em causa é o equilíbrio entre o retorno privado e o retorno público e social do Ensino Superior.  "


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