terça-feira, 7 de outubro de 2014

Recursos digitais abertos, mentes fechadas

Reproduzimos, abaixo, o comentário de um leitor. Sendo polémico, obriga a pensar.

Recentemente, no concurso de TV “Quem quer ser milionário?”, foi efetuada uma pergunta do género “Em que década do séc XX se deu a grande fome na Ucrânia, conhecida por Holodomor?” (Hipóteses de resposta – 30, 40, 50, 60). O concorrente decidiu utilizar a ajuda telefónica. Quando estava a meio da leitura da pergunta ao telefone, a sua “ajuda” pede-lhe para ler mais devagar (certamente para poder digitar no google palavra por palavra, que é o que todos fazem hoje em dia, sem pensar em mais nada). O concorrente lá foi lendo, palavra por palavra, mas é óbvio que, quando se acabou o tempo limite (30s), nem sequer tinha acabado de ler toda a pergunta!..

O que mostra este exemplo? Várias coisas:

1 - Mostra que o concorrente não era muito versado em história recente (embora, em função da questão em causa, isso pudesse não ser considerado particularmente grave);

2 - Mostra que a “ajuda” padecia da mesma condição do concorrente; (a partir de agora é mais grave);

3 - Mostra que a “ajuda” era analfabeta funcional, pois não era capaz de reproduzir em escrita uma frase completa que tinha acabado de ouvir, necessitando que lha ditassem palavra por palavra!;

4 - Mostra que a “ajuda” não sabia fazer pesquisas na net, dado que, em vez de escrever frases completas, devia procurar por palavras o mais especificas possíveis (neste caso concreto, a palavra “Holodomor” dar-lhe-ia de imediato a chave para o que procurava…mas seria um problema – teria de se ditar a palavra letra por letra!…);

5 - Mostra que a “ajuda” deposita a responsabilidade pela supressão da sua ignorância numa tecnologia que nem sequer domina, o que é natural: Se não se esforçou para eliminar a primeira, é natural que não se esforce para dominar a segunda;

6 - Mostra que a “ajuda”, ao contrário de Sócrates (do original), nem sabe que nada sabe…

O concorrente acabou por escolher a hipótese “60” (ainda por cima) e perdeu…

Outro exemplo recente, no mesmo concurso, foi a pergunta “Em que estado americano se localiza a cidade de Corpus Christi?” Como explicar em 30s à ajuda telefónica como se escreve “Corpus Christi”? O que é “latim”?! O que é “Corpo”?! O que é “Cristo”?!...

Enfim, todo um mundo por descobrir, mas a Comissária Europeia diz que não há problema porque existe toda uma “aprendizagem ao longo da vida”…esperemos que a vida seja longa, porque o atraso é muito!

Recursos digitais abertos – mentes cada vez mais fechadas!
Dervich

2 comentários:

  1. Sem dúvida que o comentário dá muito que pensar sobre o ensino que temos e o uso e abuso de recursos digitais. Polémico é que não acho nada que seja. Pelo contrário, é realista e caracteriza bem o que se passa. Mas tudo isto são desabafos... que a elite que ascendeu ao poder não tem capacidade de compreender o que se passa.

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  2. Só não consigo concordar com o "cada vez mais fechadas"... O que foi descrito mostra mentes fechadas, ignorância em relação ao uso da tecnologia, etc., etc. Mas será que estas mesmas pessoas seriam mais cultas antes de haver esta tecnologia? Será que a tecnologia destruiu o conhecimento?Será que os portugueses (no seu conjunto: cidades, aldeias...) estão mais incultos por causa do Google? Será que temos mais pessoas a não saber ler ou a ler mal? Ou o verdadeiro problema não será antes uma persistência de graves problemas que já deviam ter sido resolvidos ou resolvidos mais depressa? Em resumo: sim, temos graves problemas de literacia cultural e tecnológica -- mas não estamos cada vez pior. Estamos antes a melhorar a uma velocidade que não contenta ninguém.

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