domingo, 26 de outubro de 2014

Meu depoimento ao Público sobre Nuno Crato

Depoimento  sobre Nuno Crato que enviei à jornalista Andreia Sanches do Público e que foi aproveitado num perfil do ministro que saiu hoje nesse jornal: "O ministro no seu labirinto".


"Tenho muita pena do que está a acontecer no Ministério da Educação e Ciência com Nuno Crato. Ele não se soube rodear de pessoas competentes nem soube controlar uma máquina devoradora de ministros. O Nuno Crato cientista, divulgador e historiador de ciência é muito, muito melhor do que este ministro, que acaba destruído pela máquina que ele queria implodir. O Nuno Crato que eu conheci e com quem estive alinhado defendia a livre iniciativa dos bons professores e a autonomia das escolas. Pugnava pela melhoria dos meios de investigação, para além de ser um combatente da cultura científica. Em vez disso, o actual ministro não respeita os professores e as escolas, esmagados por plataformas informáticas, e está a permitir a destruição de metade dos institutos de ciência nacionais através de um processo de “avaliação” inqualificável e inacreditável. E uma das coisas que mais me pesa é ele ter desistido da disseminação da cultura e história da ciência nas escolas e na sociedade.

O Nuno Crato que foi para ministro tinha boas intenções. Tentei no início ajudar no que me foi pedido (reuni uma equipa para repensar as metas e programas de Ciências Físico-Químicas), mas, no último ano, verifiquei que o ministro se tinha isolado, só ouvia as pessoas mais próximas e não revelava capacidade para empreender  uma transformação positiva. Deixei por isso de poder colaborar com ele e com o seu Ministério. Disse-lho e afirmei-o publicamente. O famigerado exame para professores não correu nada bem ao ministro: foi uma medida inútil, que só serviu para pôr todos os professores contra ele, incluindo os muitos bons professores que temos. Mas a confusão não tem sido só na educação, já que, na ciência, a Fundação para a Ciência e Tecnologia -  FCT trata mal os cientistas, que são afinal a sua razão de ser. A FCT quer impedir muitos investigadores de investigar, delapidando recursos que custaram esforço, tempo e muito dinheiro. Parece-me que Nuno Crato desistiu, logo no início, de ser ministro da Ciência.

Disse durante algum tempo que se algo não funcionava bem no Ministério era o próprio Ministério, mas agora as coisas assumiram proporções demasiado graves, uma vez que o ministro não soube, perante erros brutais das máquinas da educação e da ciência, tomar o partido dos professores e dos investigadores, muito em especial dos melhores profissionais. Não esteve também do lado dos alunos e das suas famílias, que querem um ensino de melhor qualidade nem do lado dos bolseiros, que querem promover a ciência e encontrar oportunidades de carreira. Ele não tem maneira de alijar as responsabilidades no actual estado caótico da educação e da ciência em Portugal.

Para mim esta metamorfose do Nuno, excelente matemático e divulgador da ciência, para ministro que consente por exemplo a diminuição da excelência na matemática (permitindo a condenação de centros excelentes, entre os quais o dele próprio) e ignora o valor da cultura científica e divulgação foi absolutamente surpreendente. Não sei por que é que essa mudança aconteceu e só posso conjecturar: os meandros que desconheço da política, as imposições da troika, os interesses mais ou menos escondidos ou os novos "amigos" que sempre se fazem quando se está no poder. Sei lá eu.

Espero que, não podendo concretizar as melhorias na educação e na ciência que tinha em vista, o ministro volte rapidamente às suas origens.  Seria excelente que o Nuno Crato pudesse voltar a escrever livros como “A Matemática das Coisas”, a olhar para as estrelas com um telescópio, a conviver com os amigos da cultura científica e da história das ciências, como tanto gostava de fazer. Tenho saudades do Nuno."     

10 comentários:

  1. Subscrevo a saudade de Nuno Crato em tempos anteriores à sua nomeação ministerial.

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  2. Professor Carlos Fíolhais;

    Peço-lhe que me desagrave pela injustiça que lhe fiz no meu comentário inserido no post “O que viu Passos Coelho em Nuno Crato?” pois foi só agora que fiquei a saber que o senhor Professor Carlos Fíolhais, reuniu uma equipa para repensar as metas e programas de Ciências Físico-Químicas.
    E por isso o saúdo, porque o senhor Professor Carlos Fíolhais é um dos melhores na sua especialidade.

    Fica agora só a minha ideia do comentário que refiro, de que os programas curriculares, pela sua importância devem ser realizados pelos melhores, e não por indivíduos medianos mais ou carreiristas, e o Alerta!!! de que indivíduos como Domingos Fernandes (sedentos de protagonismo e outros interesses, que não o desígnio nacional) já se estão colocando a jeito para num futuro Governo ocuparem os lugares em equipas dessa natureza.

    Cordialmente,


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  3. O Nuno, excelente matemático, quase não tem obras relevantes para a matemática.
    O Nuno, historiador da ciência, nunca produziu uma linha de história da ciência que seja academicamente aceitável.
    O Nuno, crítico de uma certa pedagogia, nunca foi capaz de escrever mais do que uns lugares comuns e frases sonantes sobre educação.
    O Carlos, que se zangou com o Nuno devido à avaliação da FCT, ainda no ano passado era membro do júri da FCT para as bolsas, portanto colaborador.

    O Carlos tem saudade do Nuno que, pobre vítima do seu ministério (que queria implodir, dizia - frase que condensa toda o seu pensamento sobre a educação) foi corrompido. A culpa não é do Nuno, mas são as companhias.

    Se isto não fosse patético até seria uma mostra como funcionam os pequenitos círculos de amizades e poderes em portugal. Onde os mesmos sempre orbitam e só se zangam quando os seus interesses directos são afectados.

    O Nuno, ministro, foi exactamente o que se esperava dele. E se dúvidas houvesse, ele já teria há muito deixado essa encarnação e regressado ao "seu estado natural". Não o fez e daqui por uns dois anos, o Carlos e o Nuno aqui estarão amigos como sempre e como sempre a culpa foi dos outros, os outros meninos é que eram os maus.

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    1. Brilhante comentário!!

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    2. Parabéns por ainda ter em si a criança capaz de dizer "Os Reis vão nus!"!

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    3. Muito bem, subscrevo inteiramente.

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    4. Ora bem...mais um que se perfila para ser candidato a Ministro da Educação. Das poucas vezes que ouvi o Fiolhais, pouco ou nada diz sobre os problemas da Educação. Tem saudades do Crato? Pudera...estudaram pela mesma "cartilha"

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  4. Acho que Carlos Filhais comete vários erros de análise muito graves.
    Diz que "Tenho muita pena do que está a acontecer no Ministério da Educação e Ciência com Nuno Crato. Ele não se soube rodear de pessoas competentes nem soube controlar uma máquina devoradora de ministros." Ora isto é válido para qualquer ministro para qualquer governo de qualquer país. Um bom ministro tem de saber gerir a máquina do seu ministério com pessoas que nunca é o único a escolher! Nuno Crato não soube fazê-lo porque não é competente para tal função.
    Diz que "o ministro não soube, perante erros brutais das máquinas da educação e da ciência, tomar o partido dos professores e dos investigadores, muito em especial dos melhores profissionais." Ora os erros não são das máquinas mas sim do ministro que não soube dar as boas orientações (o exame dos professores, as regras do concurso de professores, o processo de avaliação de centros, por exemplo) a partir da legislação que o ministro desenhou e assinou. Não soube reunir com a sua própria equipa, coordená-la, colocá-la a falar a uma só voz. Não soube gerir o seu próprio ministério.
    Não lidou com a sociedade civil. Fora discursos de circunstância não reuniu com professores, escolas, universidades, centros de investigação. Barricou-se no ministério mandando recados por entrevistas.
    Nuno Crato mostrou a sua total incompetência como gestor de um ministério. As ideias que tinha eram boas? Não se sabe muito bem quais eram essas ideias, fora frases muito vagas com "rigor e exigência", ignorando ostensivamente a experiência de outros países, que antes dizia prezar.
    Mais uma oportunidade perdida para Portugal. Só espero que se Carlos Fiolhais for o próximo ministro não cometa os mesmos erros!

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    1. Por muito que o Fiolhais esteja a mover-se para isso, esperemos que jamais o tenhamos como Ministro. Especialmente sucedendo ao Crato. Já viu bem qual seria a situação? Ou o Fiolhais seguia as linhas que o Crato deixou e então fazia justamente o contrário do que andou a dizer (portanto, teríamos um Crato II); ou então o Fiolhais fazia anular a avaliação dos centros, alterava toda a FCT (já metida e lançada no H2020), anulava os concursos de professores, etc, etc...ou seja, lançava mais um caos (e mais uma reforma)...Por outro lado, em todo este tempo do Fiolhais conhecem-se muitas críticas e nenhumas propostas. Não há pensamento político sobre a Educação ou sobre a Ciência. Só há objecções diversas e despegadas. Mais um Ministro assim? Não, por favor.

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  5. E porque é que Carlos Fiolhais não seria muito diferente de Crato?
    Porque, quer o seu conhecimento sobre a Educação (estou a falar da Básica e Secundária, aquela que Crato se empenhou em destruir, a universitária e a Ciência encarregou outros dessa tarefa), quer as propostas que tem a fazer são semelhantes.
    O conhecimento é muito deficiente e as propostas são avulsas, baseadas nos alvos selecionados como os males da Educação: o construtivismo; o romantismo rousseauneano, entre outros, aspectos que abusivamente generaliza à totalidade do Sistema Educativo. A matriz do pensamento de Fiolhais não se afasta da corporizada na bíblia de Crato, «O Eduquês em discurso directo: …».
    É uma matriz baseada numa visão passadista da Educação, de que um pormenor revelado na apresentação do livro de José Morais, na Escola Secundária de Camões, é bem revelador: no início da sua intervenção teve o cuidado de referir o prazer em estar a presentar o livro numa escola histórica e tão importante como o Liceu Camões.
    Mas de seguida disse logo que usava aquela designação porque o nome era mais pequenino, mais fácil de pronunciar.
    Ora todos sabemos qual é a razão.

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