quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Falando de educação e responsabilidade

Agradecemos a Regina Gouveia a atenção que dá aos nossos texto e publicamos um que recentemente escreveu na continuação de um dos nossos.

No passado dia 19, Maria Helena Damião colocou neste blogue uma mensagem muito interessante "Não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação", de que transcrevo alguns excertos.
"Uma das recentes modas que seguimos, muito acriticamente, é a de confiar a educação pública a empresas privadas e só encontrar nisso vantagens, desde as mais elevadas, como o direito de escolha da escola dos filhos e a melhoria da aprendizagem, até às mais pragmáticas, como as de uma gestão financeira mais benéfica e transparente (os exemplos não terão sido os melhores porque, bem vistas as coisas, ambos caem por terra).
Estados Unidos da América e Suécia adoptaram, em grande escala, o discurso e a estratégia da empresarialização da educação formal. Mas, ambos os países têm analisados resultados académicos e feito contas. Não, não resulta! E estão a voltar à ideia de que ao Estado cabe proporcionar uma escola para todos.
Mas não são apenas os resultados e as contas que, nesta questão, têm sido destacadas pelos analistas. Assinalam um outro factor que faz toda a diferença: as empresas “não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação. Estão nisto porque querem fazer dinheiro rapidamente."
Dois dias antes (17/9) a mesma autora havia colocado uma outra mensagem, Escolas-2
"Na sequência da publicação do meu texto Escolas-1, dedicado ao livro O Berço da desigualdade, da autoria de Sebastião Salgado (fotografias) e Cristovam Buarque (textos), o leitor Manuel Silva deixou uma pergunta: "tem esse livro fotografias de África, países pobres, zonas rurais...? Sim, tem. E belíssimas. Duas das minhas preferidas são as que abaixo reproduzo: uma tirada no Quénia e outra no Brasil."
A leitura das mensagens acima referidas serviu de mote para esta minha mensagem. Há quatro anos o meu marido foi numa missão humanitária à Guiné Bissau onde, como alferes miliciano, cumpriu cerca de 2 anos de serviço militar. Levaram várias coisas, nomeadamente livros que foram entregar a diversas escolas. Algumas ao ar livre, sem carteiras (as crianças sentavam-se no chão ou em banquinhos improvisados).


Outras, já algo apetrechadas.




Em todas elas o que mais os impressionou foram a ânsia de aprender revelada pelas crianças e o respeito pelo professor.

Desde há muito que em Portugal os sucessivos ministérios da educação se esqueceram que a principal função seria precisamente educar, com tudo o que isso comporta, instruir, desenvolver competências e atitudes nomeadamente sentido de responsabilidade. Ora vejamos:
Há uns anos (creio que há mais de cinco) uma medida para conseguir o "sucesso" dos alunos dos cursos profissionais era fazer testes até que o aluno tivesse um resultado satisfatório (creio que a medida se mantém mas não estou certa). E esta medida tinha que ser posta em prática mesmo que o aluno faltasse sistematicamente, não mostrasse o mínimo interesse nas aulas, perturbasse...
Em vez de se responsabilizarem alunos e famílias, penaliza-se o professor que terá que fazer um teste, outro e mais outro e ainda mais outro, até que o aluno tenha um mínimo de sucesso (obviamente aparente).
Duas das práticas agora adotadas para diminuir o insucesso são a supervisão de uns professores por outros e a criação de coadjuvações. Neste último caso, dois professores (titular e coadjuvante) estão ao mesmo tempo na mesma sala de aula. Quando tentei saber a razão de tais práticas foi-me dito que são medidas para substituir as aulas de apoio.Ingenuamente perguntei qual a razão da substituição e fiquei atónita quando ouvi: como as aulas de apoio não eram obrigatórias, muitos alunos não apareciam.
Novamente, em vez de se responsabilizarem alunos e família pelo desinteresse manifestado, arranja-se uma qualquer outra solução.

Mas voltemos à coadjuvação.

Em algumas escolas, não sei se em todas, na disciplina de Física e Química (e provavelmente nas outras) na maior parte das vezes essa presença terá que ocorrer em aulas de apresentação da matéria. Que sentido pode fazer estarem dois professores numa mesma sala a apresentarem a mesma matéria? A coadjuvação, a meu ver, só fará sentido e poderá ser extremamente útil nas aulas de aplicação dos conhecimentos, através de exercícios, problemas etc, e nas de actividade experimental.

A sensação com que se fica é que tudo é feito em cima dos joelhos e ninguém é responsabilizado... Não me admiro se já estiver na forja um qualquer outro improviso para "diminuir" o insucesso. Há pouco chegaram às escolas novas diretivas sobre as provas intermédias. No documento pode ler-se:
Em relação aos testes aplicados no 3.º ciclo do ensino básico e no ensino secundário, considerando as evidências que os relatórios de anos anteriores têm revelado, nomeadamente o facto de ser residual, ou mesmo impercetível, o seu impacto na melhoria do desempenho dos alunos, entende-se, passados quase 10 anos desde o início do projeto, já não se justificar a sua continuidade nos moldes vigentes. 
A falta de responsabilização de quem (des)governa o ME vem de há muito. Provavelmente já pouca gente se lembra do experimentalismo de Roberto Carneiro com as PGA, nomeadamente a primeira, “introduzida” a meio do ano letivo e que levou a situações gritantes. Alunos (de escolas de referência), com médias de 18 e 19 valores ficaram de fora, enquanto outros com notas muito inferiores entraram no Ensino Superior. E a criação dos famigerados professores titulares, improviso de Maria de Lurdes Rodrigues? E o que aconteceu e ainda está a acontecer com a colocação dos professores em 2014/2015?

O problema é que, por estes e muitos outros erros educacionais, nenhum ministro foi alguma vez responsabilizado...

O exemplo devia vir de cima, mas infelizmente não vem.
Regina Gouveia

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