quarta-feira, 15 de outubro de 2014

António Canteiro: O Silêncio Solar Das Manhãs


Teixeira de Pascoaes foi o rosto do saudosismo. O escritor António Canteiro trilha o movimento do poeta da serra do Marão. Há nele a saudade de um paraíso que se vai perdendo, a Gândara. Todavia Pascoaes viveu isolado com os seus gnomos, enquanto Canteiro procura, no passado, a palavra, o gesto e o sangue frio das noites invernosas, enfim, procura a vida.
Gândara: terra da urze, da flor estival da giesta, das vagas indomáveis, das areias percucientes onde o tojo e os fetos proliferam, dos guinchos das gaivotas na língua de fogo no mar, dos sinos que tombam e se erguem nas aldeias, dos barcos de salitre, dos salgueiros bebericando nos ribeiros, do esplendor das tílias e das acácias, do pôr-do-sol em áscua, das lágrimas dos areais, dos telhados rubros, das rugas, das mãos negras e das cãs prostradas nos umbrais, dos pescadores crestados pelo sal e pelo sol e das viúvas trajando até ao fim as noites cor-de-hulha. É neste éden maculado pelo progresso que o poeta grita. Ele não suporta o vaivém diabólico dos carros e prefere deslizar na pureza de um fio trémulo de azeite.
Em O Silêncio Solar das Manhãs, livro galardoado com o prémio Nacional de poesia Sebastião da Gama, ecoa a Gândara, este universo de cores, desde o dealbar do dia até ao ocaso e à noite.
A prosa e a poesia de António Canteiro têm também raízes, parece-me, nos romances de escritores italianos – Cesare Pavese (A Lua e as Fogueiras), Elio Vittorini (Conversa na Sicília) e Ignazio Silone (A Semente sob a Neve) –. Os rituais sagrados e profanos dos meios rurais estão presentes nestes escritores neorrealistas e no “feiticeiro” dos areais.
Fica aqui o poema “antigamente”:
antigamente, soprava o vento sobre a telha vã e nos/ pomares despidos de folhagem. era um vento tão frio/ que arrepiava e carpia o vale com som de mistério./ antigamente, ouvia tamancos a bater no chão, a/encher de ecos as ruas, e no largo havia um calor de/ fogueiras a aquecer o mundo em volta. antigamente, a/ chama da lareira e a luz da candeia iluminavam por/dentro os corpos e as histórias dos avós acendiam/ palavras que ecoavam na alma para a vida inteira./ antigamente, o vento entrava na chaminé e agitava o/ fio do azeite a cair na travessa, a chama tremeluzia na/ candeia, à entrada e dentro de portas. antigamente,/ pela noite fora, apenas se ouvia o rumor das águas nos/ quelhos, mas havia uma fantasia no ar, sobre as/ prendas e as doze badaladas na noite de vinte e/ quatro.  

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