terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ensino superior versus casa dos segredos



Com a devida vénia publicamos artigo de Miguel Copetto saído no Diário Económico de ontem:

Neste início de Setembro, foram divulgados dois números que, conjugados, merecem alguma reflexão. Por um lado, os 42.408 alunos que se candidataram à 1ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, enquanto, por outro lado, se candidatavam mais de 100.000 jovens à quinta edição do programa televisivo “Casa dos Segredos”.

Ainda que a utilidade do objecto de cada uma das candidaturas não seja comparável, não deixa de transparecer, nesta confrontação, o maior interesse por parte dos jovens em aderir a um reality show de “duvidosa” exposição mediática, onde a boçalidade é sinónimo de fama imediata.  

É certo que o nível de desemprego de jovens licenciados atinge valores inusitados, que o mercado de trabalho é incerto e que as formações deixaram de ser para a vida para passarem a ter de ser alimentadas ao longo da vida. É certo, também, que os muitos casos mediáticos de corrupção e enriquecimento ilícito por parte de políticos, e CEO’s de grandes empresas, ajudaram a esbater a ideia da nobreza de certas carreiras, formações, deontologia profissional e que o trabalho árduo (mas honesto) é o (único) caminho para o sucesso e reconhecimento. Porém, o valor intrínseco da educação, do conhecimento e das aprendizagens formais não pode ser posto em causa.

Esta geração que tudo parece obter à distância de um click e que foi “educada” numa certa cultura de facilitismo, com poucas regras e numa lógica de consumo imediato, acaba por ter dificuldade em discernir modelos de vida: entre o momento, o curto prazo e a vida como um jogo, onde aparentemente nada se sacrifica e se tem sucesso sem trabalho… e o longo prazo, que é um amanhã longínquo, incerto, trabalhoso e sem garantia de êxito.

Nesta era digital, a escola e a universidade têm vindo a sofrer uma desvalorização do seu papel social, não só resultante, em parte, do anteriormente exposto, como devido à perda do monopólio no acesso ao saber, à sua massificação sem ganhos de qualidade e a políticas educativas casuísticas, sem visão nem alcance. 

Na dicotomia entre aqueles dois números iniciais a pergunta que fica é: no caminho que cada um escolher, quem vão ser, como pessoas, daqui a 10 ou 20 anos?  
                                                                          Miguel Copetto
                                               In Diário Económico de 22.09.2014

10 comentários:

  1. Bem, a associação é muito simplista e redutora.

    O universo de potenciais candidatos ao ensino superior é muito inferior ao universo de potenciais candidatos à caso dos "degredos". No primeiro, 90% dos candidatos serão da faixa etária dos 18-20 anos, no segundo caso a faixa etária irá dos 18 em diante...

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    1. Claro. É uma parva comparação. Mas são assim os nossos comentadores e cronistas. Já agora poderiam juntar um outro número para a fogueira dos desenganos: 120 mil inscritos nas primárias do PS. O que isto revelaria nestas leituras epidérmicas, quase pilosas? Que somos um povo muito interessado na participação política activa, mais do que em "reality shows"?

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    2. Caro anónimo, não é uma comparação parva, longe disso.
      Repare que é necessário existir um valor que nos dê a ideia de quão grande é o numero de inscritos na casa dos segredos. Para o efeito até podia ser o numero de nascimentos num ano, ou o total da população portuguesa, e percebia-se tal é a dimensão da depravação... mas, por razões óbvias, é melhor o numero de candidatos ao ensino superior.

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    3. Comparar o número de nascimentos num ano com o número de pessoas maiores de 18 anos que se candidatam a algo é igualmente parvo. São os tais alhos e bugalhos que tanta trapalhada deram no ministério da educação...

      A única coisa que aqui parece minimamente óbvia é que alguém quis fazer uma comparação entre dois conjuntos não comparáveis directamente apenas para fazer um número opinião de taberna. Mas isto é um povo de taberna desde a sua origem...

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    4. Quase parece a anedota da relação entre o número de patas de uma pulga e a sua capacidade auditiva.

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    5. Caro anónimo, pode dizer aqui qual é o índice de comparação, não parvo, que o senhor consideraria, para concluir da grandeza relativa do numero (mais de 100.000) de inscrições da casa dos segredos?

      Tenho a certeza que não sabe, e por isso não o vai dizer. Enfim, coisas de taberna, como refere...

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    6. É fácil: compare um conjunto em condições similares (neste caso, etário). Até já lhe tinha dado um exemplo: "número de inscritos nas primárias do PS". Não tinha percebido?

      Com maior ou menor pertinência, mas sem o efeito populistazinho e moralista da classe operária, deixo-lhe aqui outros exemplos.

      Número de cidadãos com mais de 18 anos; número de votantes; número de pessoas que se candidata a outros concursos de televisão.

      É tão simples.

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    7. Se quiser - pois o que gosta mesmo é de fazer relações com universitários - pode comparar o número de candidatos a este concurso dentro da faixa etária dos candidatos ao ensino superior, com os candidatos ao ensino superior. E pode até comparar ambos com a tal faixa etária em número absoluto. Enfim.

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    8. Desde o inicio que o anónimo está "refém" das faixas etárias... um corte às fatias e estanque da realidade.

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    9. Não se trata estar refém das faixas etárias; trata-se de comparar o que é comparável. É um ditame da razão. Aliás - como não conseguiu notar - em algumas destas comparações a faixa etária em causa é...maiores de 18. Não é uma faixa etária, é a autoestrada da vida.

      Mas é claro que pode continuar livre dessas agruras da razão e seguir contente.

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