sábado, 9 de agosto de 2014

Que estratégias para Portugal? sistema financeiro versus formação e sistema científico e tecnológico


Quem ouve rádio muito cedo, cada manhã leva com a ladainha das bolsas e acções que sobem e descem. Um destes dias dei por mim a pensar se não poderíamos antes ter ladainhas (embora possa lembrar o 1984, também a ladainha das bolsas o parece) sobre produtividade industrial e avanços científicos, tecnológicos e sociais em vez daquelas rezas sobre dinheiro virtual.

Vem isto a propósito de mais um sobressalto de milhares de milhões no nosso (de Portugal) sistema financeiro que aquelas ladainhas servem. Sobressalto que não sabemos quanto irá custar ao Estado e a todos nós e que para começar já espoliou milhares de pequenos investidores imprudentes. 

Entretanto, ao mesmo tempo que isto vai acontecendo (e já dava sinais de acontecer há mais de um ano), são feitas razias difíceis de explicar no sistema científico nacional e na sua possibilidade de contribuir de forma eficaz para o crescimento do país de forma sustentável. Razias à machadada como dizia há pouco tempo num jornal o presidente da SPM. Ao fim e ao cabo (e talvez de forma pouco inteligente) apenas para arranjar forma de diminuir as despesas em alguns poucos milhões de euros, dinheiro que é precioso para a ciência e a tecnologia e o futuro concreto do país. 

A falta de estratégias para o país tem levado o sistema financeiro, os serviços inúteis, as sinecuras e a distribuição a tomarem conta de tudo, sem que haja uma clara aposta no sistema produtivo, em especial naquele que incorpore mais-valias científicas e tecnológicas. De facto, para que possamos aproveitar capazmente o Horizonte 2020 e outros programas europeus que irão fazer as vezes de New Deal para a Europa, assim como sairmos dos buracos em que nos têm posto, precisamos mais do que sector financeiro, serviços inúteis, sinecuras e distribuição. Precisamos ser capazes de produzir e inovar.

Esta falta de estratégia revela-se, na minha opinião, também nos números de graduados que saem do nosso ensino superior. Para discutir essa ideia (embora de forma pouco profunda), usarei  as listas de graduados (bacharelato, licenciatura, mestrado e doutoramento) entre 2001 e 2010 disponibilizadas pelo Ministério da Educação (ME). Uso este conjunto de valores pois comecei a olhar para estes números em 2011 e, embora existam dados mais recentes, julgo que as conclusões não se alterem de forma significativa. 

O objectivo da disponibilização destes documentos pelo ME é tornar públicas as percentagens de desemprego dos cursos em Portugal. No entanto, como é fácil de verificar, estas percentagens, baseadas nos números de inscritos nos centros de emprego, são muito pouco informativas, além de estranhamente niveladoras dos cursos (basta comparar aqueles a que se atribui socialmente maior e menor desemprego para ver que assim é). Além disso, como os dados apanham a transição para o formato de Bolonha, misturam licenciaturas e mestrados que as continuam, ou de alguma forma as substituíram, baralhando os dados.

Em termos pessoais, a formação superior continua ser melhor garantia de obtenção de emprego, mas não é garantido que isso vá contribuir para o crescimento do país.  De facto, existem dois interesses nem sempre coincidentes: o de cada pessoa individualmente, assim como os das suas famílias, e o interesse do país, ou seja a estratégia que Portugal tem para o seu futuro em termos de formação de quadros superiores. Julgo que seja consensual que a melhor estratégia seria do tipo win-win, ou seja o segundo interesse contribuir para o sucesso do primeiro, obviamente sem limitar a liberdade e autonomia dos intervenientes.

No entanto, na minha opinião, não é isso que acontece. Por um lado, as vagas no ensino superior são estabelecidas essencialmente pela lei da oferta e da procura, com algumas pequenas restrições. E isso estaria muito bem se não existissem incentivos microeconómicos pouco úteis ao interesse macroeconómico para algumas das escolhas: ganhar muito dinheiro independentemente da actividade escolhida contribuir para alguma coisa de útil para a sociedade; ser respeitado, embora por razões fúteis que não contribuem para o avanço do país; escolher um curso que é aparentemente mais fácil; escolher um curso que é muito procurado apenas porque é muito procurado; etc.

  Pode assim acontecer que formações muito procuradas, mas que não correspondem a reais necessidades do país, continuem a gerar números elevados de formados. E pode, em alguns casos, até acontecer que, com essas formações se continue a obter emprego. De facto, os empregos que parecem existir não correspondem, muitas vezes, a reais necessidades do país. Um brilhante jovem licenciado ou mestre em gestão, economia ou direito poderia (e ainda pode) até há pouco tempo encontrar um emprego muito bem remunerado no sector financeiro, enquanto um jovem brilhante da área das ciências fica muitas vezes limitado a uma bolsa de doutoramento. E após o doutoramento, a uma bolsa de pós-doutoramento! As estruturas de Investigação & Desenvolvimento, assim como as empresas, só muito lentamente começavam a absorver a mão-de-obra altamente especializada da área das ciências e tecnologias para gerar mais-valias palpáveis e não apenas resultados de engenharia financeira. Mas agora com a crise financeira as coisas começam a ficar outra vez piores.
Usando uma classificação had hoc (e obviamente discutível) tentei organizar as áreas em que se formaram as pessoas entre 2001 e 2010 (ver figura acima e tabela em apêndice).

À partida a distribuição obtida parece harmoniosa, embora salte à vista um relativo excesso de formação em áreas sociais, artísticas, económicas e humanas em relação a formações científicas e tecnológicas. Isso é uma marca do nosso sistema de ensino desde há mais de cinquenta anos. As ciências e engenharias são desde há muito tempo tidas como difíceis, ou por gerarem, em média, empregos pouco reconhecidos ou mesmo por (em algumas áreas) terem (paradoxalmente) pouca empregabilidade. Isso é simultaneamente uma verdadeira tragédia nacional que se mantém há décadas devido ao facto de a nossa indústria ter sido, até há pouco tempo, pouco dada a inovações e contratação de quadros que pareçam demasiado avançados, parecendo assim indicar que as formações na área da ciência e tecnologia não seriam necessárias. Felizmente isso está a mudar e terá com certeza de continuar a mudar para o bem do crescimento do país.

Portugal só poderá melhorar quando tiver uma indústria forte, tanto nos sectores tradicionais como nos emergentes. E temos hoje condições e conhecimentos para ter indústrias avançadas e não poluentes que geram riqueza visível. Isso já está a começar a acontecer, mas poderá parar se o investimento estratégico na ciência e na tecnologia for travado como parece estar a ser. E, como referi acima, estamos a falar de alguns milhões e não dos milhares de milhões que são necessários para salvar instituições financeiras que só poderiam afundar-se mais tarde ou mais cedo, pois os seus lucros e crescimento não provinha de bens palpáveis que sirvam para necessidades visíveis e também para exportarmos. Atente-se na Alemanha, em que os custos do trabalho são quatro vezes superiores aos nossos e tem uma indústria química exportadora e geradora de riqueza que emprega cerca de meio milhão de pessoas. Obviamente, não podemos fazer o mesmo que os outros. Temos de encontrar, e em muitos casos já o fazemos, aquilo em que somos melhores ou pelo menos tão bons como os outros.


Apresenta-se no gráficos acima (valores na tabela em apêndice), os números de formados de forma mais detalhada mas sem fazer juízos de valor: os números falam por si. 

Será compreensível e lógico, em termos de estratégia para o crescimento do país, haver formações que têm aparentemente demasiados graduados (e isso sem discutir a sua empregabilidade que a existir não será em muitos casos útil ao país em termos macroeconómicos como referi acima), ao mesmo tempo que há outras formações com números reduzidos de graduados, as quais poderiam ser úteis ao país se este (e falo de todos nós) tivesse uma melhor estratégia. 

Realço em particular, por ser a área que mais me toca, a formação na área da química que nos últimos anos tem tido menor procura por razões algo inexplicáveis dado ser uma área com muito para dar em termos de avanços científicos e tecnológicos, a qual é extremamente produtiva e será sempre importante em termos estratégicos para qualquer país avançado. 

Bibliografia
Direcção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Desemprego de Diplomados (acedido 5 de Agosto de 2014)  
Empregabilidade e. Ensino Superior em Portugal. Relatório Final. Setembro 2012, José Luís Cardoso, ICS-UL (coordenação) (acedido 5 de Agosto de 2014)  

Apêndice
Tabela com os números de formados em Portugal entre 2001 e 2010 (obtidos aqui), somando todas as formações obtidas nas diversas áreas incluindo licenciaturas, mestrados e doutoramentos (há por isso repetições) e agrupando as áreas de acordo com um critério had hoc que pretende realçar as suas contribuição para o tecido produtivo e para a sociedade. Embora existam dados disponíveis de 1983 a 2012, optou-se por usar apenas a década 2001-2010.

4 comentários:

  1. Existe um desequilibro enorme! E o que vamos fazer? Fechar universidades? E os lobbys dos docentes do ensino superior que têm agregação e já não podem ser dispensados?

    Temos universidades, politécnicos e escolas superiores, estructuras, formações e recursos humanos em duplicado e em triplicado, institutos públicos a fazerem concorrência entre si muitas vezes com os mesmos cursos, num país tão pequeno!
    Precisamos de separar as águas, que curso é de que instituição! Depois deixar de financiar os privados, como a católica, se o são, desenrasquem-se, se o negócio não dá, fechem portas.
    Reformular a oferta existente em termos regionais e em termos de especialização.

    Apostar mais nos cursos técnico-científicos como química, física, biologia, biotecnologia, agricola, etc..
    Apostar menos nos cursos das ditas "ciências sociais e humanas". Limitar as vagas a 20 por ano em cada curso e acabar com disparates de 100 vagas anos em cursos de humanidades, excepção a ser feita apenas em medicina!

    Mas por outro lado se a oferta formativa cresceu brutalmente e de forma desorganizada, abriam-se cursos por tudo e por nada, a nossa economia foi deixando de ser produtiva, destruindo-se as pescas, a agricultura, encerrando a industria!
    De que vale a grande formação de direito, de gestão de empresas, de serviço social e psicologia de empresas, arqueologia e outros se depois o tecido produtivo não consegue absorver esta gente.
    Se de 3 em 3 anos saírem formados a maioria dos 50 mil que entraram na universidade na última fornada, onde o país pode absorver 40 mil pessoas ano? É impossível, não há economia, não há estructuras, não há capacidade! Quem se goza com isso são os estrangeiros que apanham os nossos técnicos a custo 0!

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    1. Meu caro, tenha cuidado com as provas de avaliação do maoísta crato e restantes elementos do gangue. É que isso das "estructuras" nem sei se no tempo da outra senhora.... Quanto ao resto do seu comentário é um conjunto de banalidades repetidas ad nauseum.

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    2. Anónimo, deve pertencer a algum politécnico ou escola superior que lecciona cursos repetidos das universidades!
      Aqui nem se falou em provas de avaliação e sim as estructuras que existem são excessivas tendo em conta a demografia, a continuar assim, daqui a 20 anos metade das universidades vão fechar! Mas em Portugal mais vale meter a cabeça na areia que enfrentar os problemas.

      Se são banalidades porque não apresenta ideias? Ah já sei, o problema é que não somos o suficientemente empreendedores, temos que aprender com o miguel gonçaves do bater o punho e do puto martim das camisolas! Esses sim!

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  2. Os sorteios das bolas pretas nesses politécnicos.. Há, que manter a família

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