domingo, 24 de agosto de 2014

Ensino Universitário e Investigação Científica

“Os fautores da tradição, que apelam para o cánon, são postos fora de jogo por esses funâmbulos, esses equilibristas, esses acrobatas, que também querem ser eternizados no bronze e no mármore” (Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma).

A título de preâmbulo, aliás como em outras ocasiões idênticas, pela reflexão que me merecem (e julgo que aos leitores) questões levantadas por comentários a posts da minha autoria, respondo, mais detalhadamente, ao comentário do engenheiro Ildefonso Dias, insisto no meu texto aqui publicado anteontem: “Horários Zero e Ensino Convencionado”.

Assim, numa altura em que ventos ciclónicos de destruição sopram sobre a Universidade Portuguesa, vindos da 5 de Outubro (chamo a atenção do leitor para o que se está a passar com a Investigação Científica, com as magérrimas verbas públicas a ela destinadas,  neste blogue denunciado pelo académico Carlos Fiolhais, e outros,  em vários posts de profunda revolta), temo que a política em  diminuir as verbas governamentais destinadas ao pleno e eficiente funcionamento do ensino superior universitário se destine em prosseguir o caminho do ensino não superior convencionado, através de universidades privadas convencionadas para que a filharada de figuras políticas (como o meu interlocutor escreveu), e os próprios progenitores, possam, sem “queimar as  pestanas”, e à custa da ajuda dos massacrados contribuintes, continuar a obter diplomas que satisfaçam aqueles que, pela provisoriedade dos seus cargos, sabem bem durar pouco o tratamento por ministro ou por secretário de Estado: ninguém é tratado por senhor ex-ministro ou senhor ex-secretário de Estado! Há que providenciar, portanto, o tratamento social da sigla de doutor ou o título profissional de engenheiro. Enfim, idiossincrasias de um Portugal secular!

Sem querer, de forma alguma sujeitar-me à crítica de Apeles ao sapateiro que foi além da chinela, apenas, como diria Eça “como diletante de coxia” dos ínvios e complexos caminhos da jurisprudência, atrevo-me, sem passagem de procuração, em concordar com as declarações de António Barreto, transcritas no seu comentário. Isto porque, desde já o digo, com elas concordo por pensar que (sem o fatídico “de que”) ele defende que o ensino universitário “deve ser uma conquista de mérito”; e não, como hoje, e cada vez mais, uma questão de bolsas recheadas para fazerem frente às exorbitantes propinas cobradas para a obtenção de um mestrado d.B (depois de Bolonha) que mais não é que uma licenciatura a.B.(antes de Bolonha). Esta bem menos dispendiosa!

Respaldo-me, para o efeito, numa transcrição, ipsis verbis, de uma opinião despendida por este sociólogo: “Fazer entrar o maior número de estudantes sem consideração pelo mérito; formar técnicos de medíocre qualidade, sem zelar pela qualidade das instituições; libertar os docentes da tarefa de selecionar; e  transmitir à população a ideia de que o acesso à universidade é um direito de todos, tal como  a protecção na doença e na velhice”. Ou seja, o acesso à Universidade é um direito, que exige deveres (e não com alguém escreveu: os direitos para mim, os deveres para os outros) devendo ser alcançado com esforço e não com facilitadíssimos acessos como, por exemplo, “provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”, em substituição do sério e exigente exame ad hoc. Por aquilo que me têm sido dado ler, com agrado e proveito, nos comentários seus a textos meus, leva-me a pensar, a exemplo da canção de Rui Veloso, que aquilo que nos une é  mais do que aquilo que nos separa. Será?

Aliás, idêntica opinião encontro-a em Vital Moreira, actualmente membro do Partido Socialista, e bem mais contundente (esclareça-se que tempos antes de terem rebentado os escândalos dos seus camaradas José Sócrates e Armando Vara): “A ideia de democratizar o ensino superior pela via da banalização do acesso e pela crescente degradação da sua qualidade não é somente um crime contra a própria ideia de ensino superior, é também politicamente pouco honesta.”

Cada vez mais me convenço que “reivindicar direitos sem proclamar obrigações é querer o impossível, é jogar às utopias ou às catástrofes” (Raymond Polin, “Iniciação Política, o Homem e o Estado”).

6 comentários:

  1. Professor Rui Baptista, a ideia de democratizar seja aquilo que for, em Portugal, seja o ensino, seja o trabalho é deveras complexo.

    Vejamos como é no Trabalho:
    Há pouco tempo, uma pessoa amiga dava-me o seu testemunho, a respeito da actividade agrícola que desenvolve: dizia-me ela que já não fazia a vindima “à mão”, que essa época era uma verdadeira tormenta, hoje tudo é mecanizado, que há poucos anos, tinha optado por comprar uma máquina de vindimar, pois que já não conseguia fazê-la com a mão-de-obra contratada; que cada vez o rendimento das pessoas no trabalho era menor, que tentara tudo para que fosse possível continuar a vindimar “à mão” (porque tem boas vantagens no produto). Dizia-me que a “mentalidade” das pessoas piorava de ano para ano e era a seguinte: chegar ao fim do dia, ganhar o dinheiro fazendo o menos possível (queixava-se que muitos até levavam o telemóvel para a apanha, prática que teve de proibir) ... em conclusão: dizia-me que tentou tudo, e como o “tratar as pessoas como pessoas” apenas lhe trazia mau ambiente e chatices, recusou-se a continuar a fazê-lo e comprou a dita máquina de vindimar e solucionou o problema (agora não tem necessidade de tratar as pessoas como não pessoas)... hoje recusa-se a fazer qualquer trabalho que envolva mão-de-obra.

    Nota: Ontem passou na televisão uma reportagem sobre a campanha da apanha da pêra rocha, que tem necessariamente que ser feita “à mão”. As pessoas eram maioritariamente jovens entre eles estavam alguns licenciados e pelo ambiente divertidissimo a que se assistia no trabalho pode-se imaginar o seu rendimento, o “andar da carruagem”... a reportagem não focou este aspecto de que falo, mas podia e devia, pois o “dono” também lá estava, senão estivesse é que era "o fim da macacada"...
    A realidade no trabalho, Professor Rui Baptista, é esta, as pessoas, se tratadas como pessoas, deixam de ser responsáveis. Infelizmente tem de ser tratadas de forma diferente. E quem duvidar, que inicie uma actividade que crie postos de trabalho e logo verá.

    (continua)

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  2. (continuação)

    No Ensino, tenho a ideia de que tudo se passa de igual forma.
    Para este mal, temos a solução de António Barreto e Vital Moreira. Talvez António Barreto e Vital Moreira tenham chegado à conclusão de que nós, portugueses, enquanto sociedade somos ingovernavéis, no Trabalho e no Ensino.

    A este propósito cito a admiração que causou ao Professor Sebastião e Silva, a psicologia dos alemães, subjacente ao sistema de exercícios, - aquando de uma visita à Alemanha para estudar o sistema de ensino nesse país.

    ...“A parcimónia de exames, nas universidades alemãs é em grande parte compensada pelo sistema dos exercícios e dos seminários, por meio do qual o assistente e, mais tarde, o professor vão tomando conhecimento do aluno sob vários aspectos, sem o colocar na posição inferiorizante e desconcertante de «pessoa que se sente examinada».
    Contra o sistema de exercícios pode objetar-se que, sendo resolvidos em casa, não oferecem confiança.
    Eis os termos em que ouvi responder a uma objecção deste tipo: «Primo, o aluno não têm qualquer interesse em se ludibriar a si próprio, permanecendo num curso para o qual não sinta aptidões ou não trabalhe o suficiente; secundo, o assistente, ao conversar nas aulas com os alunos, tem sempre maneira de se aperceber do grau de consciência com que foram resolvidos os exercícios».

    Imagine-se, a loucura que seria, em Portugal, reduzir os exames e substitui-los por exercícios, feitos em casa!!!
    Em suma, como alguém disse “somos aquilo que merecemos”. Infelizmente. No Trabalho não podemos ser tratados como pessoas. No Ensino temos que ser tratados como escreve António Barreto e V. Moreira, e transmitir à população que o acesso à Universidade não é para todos. Professor Rui Baptista termino transcrevendo um texto de um comentário seu, “Tudo é triste, tudo isto é fado"! Fado de um país de oportunistas...”


    Cumprimentos amigos,

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    1. Brevemente responderei ao seu comentário, que muito agradeço. Um abraço amigo.

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  3. Sobre vindimas e apanha de fruta gostaria de lembrar que, embora seja vendida ao mesmo preço da nossa, os salários do jovens (e não só) que vão para a apanha em França ou Suiça é muito mais do dobro pago em Portugal , com alojamento e refeições gratuitas. Porque é que cá é tão, mas tão, diferente??????

    E o nosso ensino universitário é tão mau ( claro que não são tudo rosas!) mas permite que os nossos licenciados ombreiem com os estrangeiros, para espanto dos próprios que ouvem sempre que somos os piores. Chega deste vale de lamentações ou não!? Como dizia Luís Amado, só se ouve dizer,reiteradamente, mal de Portugal e dos portugueses cá dentro e esse constante achincalhamento só serve para nos impedir de ir mais longe.
    Estou com o saudoso Professor Hernâni Lopes que deu uma lição ao insuportável Medina Carreira e lhe fez notar que estava farto de o ouvir dizer mal do país sem nunca avançar nada de concreto. Com tanto gosto em cortar as pernas em vez de ajudar a caminhar , faz-me lembrar a história que mosca (?) sem patas não ouve!

    Bom Domingo,

    Ivone Melo

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    1. Nunca disse ser o nosso ensino universitário público mau, bem pelo contrário. Agora digo, e redigo, que o ensino universitário privado (embora sem generalizações sempre perigosas, que seriam deveras injustas, por exemplo, para a Universidade Católica) deixa muito a desejar.

      E, por isso, temo, repito temo (como escrevi no meu post) que as restrições orçamentais que o Governo tem vindo a fazer nas dotações destinadas à Universidade (com letra inicial maiúscula), e à Investigação Científica, tenham por intenção seguir o caminho do ensino básico e secundário particular convencionado pelo Estado. “Et pour cause”, destruir a universidade pública para dar alento a um ensino universitário privado de qualidade duvidosa. Como nos legou Miguel Torga, "maldito seja quem se nega aos seus em horas apertadas".

      Se se quiser dar ao trabalho de verificar verá que antigos governantes do PS, e actuais do PSD, foram aí que obtiveram os seus diplomas. E as universidades privadas ( e até as públicas, ainda que menos) estão em horas apertadas pela diminuição drástica dos respectivos candidatos às matrículas e pagamento de propinas, ambas mais dispendiosas do que as cobradas nas universidades públicas. E, assim, a exemplo de qualquer loja em dificuldades financeiras, recorrem a uma espécie de saldos…

      Embora lhe faça a justiça de não ter querido dizer (dir-me-á se estou certo ou errado) que as minhas conclusões sofrem da (i) lógica das conclusões tiradas com a experiência da mosca (?), por si descrita. Na verdade a historia passa-se com uma rã. Um cientista ao dar a ordem de saltar a uma rã viu que ela saltava. Voltando a dar-lhe essa ordem, ela saltava novamente .Cortando-lhe as patas traseiras, verificou que ela deixava de saltar. Conclusão: cortando-se as patas dos batráquios eles ficam surdos!

      Cumprimentos cordiais,

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    2. Caríssima Ivone Melo;

      Os portugueses que vão para a França, vão para lá trabalhar de uma forma que não o fazem em Portugal. Trabalham em condições muito duras, trabalham muitas horas por dia e todos os dias do mês sem direito a descanso. Repare que no estrangeiro somos explorados no trabalho, basta perguntar a quem já trabalhou em França para saber que lá é assim.

      Em Portugal ninguém trabalha, voluntariamente, dessa forma, e ainda bem. Trabalha-se em muitos casos da forma que expus, quando se trabalha. Mas também existe muita exploracão no trabalho.
      Mas no nosso país é que não devíamos ser explorados no trabalho, porque é a nossa Pátria. E devíamos lutar por isso, mas não o fazemos da melhor forma, porque também aqui não somos suficientemente responsáveis ou inteligentes, esse é o significado que a senhora pode retirar do exemplo que dou no meu comentário.

      Quanto ao Ensino sou da opinião de que é mau. Idem, porque em parte também não somos suficientemente responsáveis e inteligentes. Diga-nos se é de aceitar que ande na Escola quem não quer estudar?
      É mau o ensino primário? É sim. É mau o secundário? É muito mau, é ainda muito pior. E por milagre será o superior Bom!? Não, não é senhora Ivone Melo, não queiramos “tapar o sol com a peneira” e dizer que os nossos licenciados ombreiam com os licenciados dos melhores países, que não é assim, poderá haver um ou outro caso de destaque, mas isso é mesmo assim, não há generalização possível. Evidentemente que os licenciados são pessoas inteligentes, e como tal tem a capacidade de, querendo, com mais trabalho é certo, dadas as insuficiências de preparação, iniciar-se e acompanhar os outros no trabalho. Mas isso não significa que estejam bem preparados ou que o ensino universitário em Portugal é relativamente bom (lei-a o post “A avaliação segundo Shangai” e concluirá isso mesmo).

      Senhora Ivone Melo, destaco este subtítulo do anterior post do Professor Rui Baptista, “Mas que tempo é este em que é preciso lutar pelo que é evidente?”com a certeza de que, o que é evidente, só o é para aquilo que se conhece, e conhece-se sobretudo com o que a experiência de vida proporciona.

      Cumprimentos,

      P.S.: Outro exemplo, de trabalho ou melhor a falta dele, que seria interessante analisar, é o dos milhares de boys ancorados nos municípios do país. A senhora Ivone Melo conhece minimamente como funciona um município? Se sim, isso não a repugna? Olhe que o Professor Medina Carreira conhece de certeza.

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