quinta-feira, 28 de agosto de 2014

DUAS PALAVRAS MALDITAS – AGRÁRIO E AGRÁRIAS


Novo texto recebido de Arnaldo A. Dias da-Silva, Professor catedrático Emérito (Alimentação Animal) da  UTAD:

De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa de 2001, editado pela Verbo, o termo agrário é qualquer coisa ou alguém relativo ao “campo, agricultura, propriedade rústica...” e também relativo a “terras de cultivo ou o que trabalha no campo”. Ainda de acordo com aquele dicionário, também pode ser sinónimo de agricultor. Muitas vezes, no entanto, quando se fala em assuntos agrários, estamos a incluir também assuntos florestais. 

 Decerto todos concordam em dizer que as actividades agrárias devem ser consideradas actividades nobres. Como também todos compreendem que estas actividades exigem hoje conhecimento que tem de ser cada vez mais sofisticado. Vão longe os tempos de bucolismo mas, porventura, nunca se falou tanto como hoje da necessidade imperiosa de preservarmos espaços verdes para bem da vida do homem e de todos os seres vivos que vivem à superfície da Terra. O conhecimento a aplicar nas actividades agrárias  há muito tempo que exige formação superior. Muitos por certo conhecem ou ouviram falar do engenheiro agrónomo e do médico veterinário. Bem menos devem conhecer a profissão de engenheiro florestal ou engenheiro silvicultor – expressão hoje caída um tanto em desuso ou em desgraça... – mas que é aquele ou aquela que se ocupa da produção e da exploração das florestas ou cuidam das matas.

 Se admitirmos que é razoavelmente generalizada a compreensão desta problemática, menos generalizada será, seguramente, o conhecimento da oferta e da procura, hoje, do ensino superior de índole agrária que existe em Portugal – continental e insular. Podemos resumir as coisas de forma tristemente simples – temos um oferta enorme no ensino superior agrário e uma procura reduzida ou quase nula. 

 Os meios de informação de que hoje dispomos possibilitam que vejamos esta situação de perto, depressa e com clareza. Consultando os jornais e, sobretudo, a internet, podemos ver que todas as Escolas anunciam da forma mais atraente possível, por vezes mesmo de forma cativante, os seus múltiplos cursos. Enfim, tentam vender os seus produtos... Esta é realidade que temos, um pouco por todo o lado. Com o discurso actual dos políticos e dos agentes políticos em geral haverá outro modo mais eficaz de lutar para sobreviver? 

 Analisemos mais de perto o assunto. O nosso país “à beira mar plantado” tem neste momento 8 Escolas Superiores Agrárias (Ensino Politécnico – ESA) e 6 Universidades (ensino universitário – U) que ministram ensino superior agrário. (Não me vou referir aos cursos agrários não conferentes de grau académico. O governo que temos não se tem poupado a esforços para que estes cursos sejam leccionados quanto antes nas ESA; não sabemos, porém, em que medida é que estes novos cursos são diferentes dos cursos de especialização agrária já existentes nas ESA (alguém me poderá explicar?). Reportando-me apenas aos cursos ministrados nas ESA, em 20 de Agosto de 2014 contei um oferta de 45 licenciaturas – ou ensino de 1.º ciclo – e 46 mestrados – ou ensino de 2.º ciclo. Na mesma data encontrei para o nosso ensino universitário na área agrária 16 licenciaturas e 7 mestrados.

 Sem o menor receio de faltar à verdade e de ser precipitado, posso dizer que a oferta de cursos superiores de índole agrária é alta ou muito alta em Portugal.

A procura destes cursos, porém, foi muito baixa em 2013 em Portugal. Por aquilo que conheço cá dentro e lá fora, seria surpreendente se 2014 fosse muito diferente. Basta guardar apenas alguns dias para confirmar ou rejeitar esta probabilidade. Para ilustrar o que afirmo, dou como exemplo a procura dos cursos aceites como sendo de engenharia agronómica no ensino politécnico. Nas ESA de Bragança, Santarém e Viseu não houve candidatos em 2013. Nas outras ESA, de um total de 251 lugares oferecidos, houve 26 inscrições. Estes números falam por si. No ensino universitário o panorama foi um pouco melhor. Dos 145 lugares oferecidos pela totalidade das instituições universitárias, tivemos 78 inscrições. No que respeita ao ensino superior florestal o panorama no ensino politécnico, é completamente desolador. Apenas duas ESA ofereceram cursos de índole florestal. A ESA de Coimbra teve 4 candidatos enquanto a ESA de Viseu não teve nenhum. No ensino universitário o ISA – a casa mãe do ensino silvícola e agronómico– teve 2 candidatos enquanto a UTAD teve apenas 1. Lembro que Portugal é o país da Europa em que o sector florestal tem mais peso no PIB e que os produtos florestais representam 11% das exportações portuguesas. 

 Perante este quadro pergunto: a indústria florestal portuguesa está satisfeita com a actual procura de cursos superiores florestais? Os graduados portuguesa existentes e em formação chegam para as necessidades próximos dez anos, por exemplo? 

 Afastam-se nitidamente deste quadro, que sem palavras macias perfeitamente desnecessárias, não hesitamos em classificar de catastrófico os 4 cursos de medicina veterinária que têm tido procura bem superior à oferta (refiro-me aos cursos públicos; existem mais dois no país oferecidos pelo sector privado) e o curso de Enologia, pelo menos por enquanto, só oferecido pela UTAD. Em 2013 as pouco mais de duas dezenas de vagas deste curso foram completamente preenchidas. Como dissemos, a procura dos cursos de medicina veterinária tem sido muito grande. Na mesma área todas as ESA têm oferecido cursos de licenciatura e de mestrado ou chamados cursos de pós-graduação em Enfermagem Veterinária com razoável procura até agora, muitos orientados para animais de companhia. Mesmo que caminhássemos para patamares muito elevados de poder de compra e o poder de compra fosse algo mais elevado para muitas mais pessoas, seria pouco provável que tantos graduados em saúde animal tivessem emprego dentro de portas. É claro que nessas condições de vida excelentes admito que aumentasse o número e os cuidados aos animais de companhia e de desporto, cavalos por exemplo.

 “Emigrem, façam-se ao mundo!” têm carinhosamente aconselhado alguns dos mais altos responsáveis da Nação portuguesa para os que se graduam no ensino superior entre nós, desejavelmente cada vez mais. A emigração é o (triste) caminho que muitos graduados deste país têm seguido. Os exemplos de sucesso são, muitas vezes, apresentados demagogicamente.

 Mas não foram os seus estudos suportados financeiramente pelos impostos de todos nós? Emigrar  será o  melhor caminho para desenvolvimento harmonioso dos portugueses e de Portugal? Responda quem souber de matérias de desenvolvimento harmonioso de um país e que queira ser honesto na prática.  Precisamos muito desta gente. 


 Arnaldo A. Dias da-Silva, Professor catedrático Emérito, Alimentação Animal, UTAD.
arnaldodiasdasilva@gmail.com

2 comentários:

  1. Professor Arnaldo A. Dias da-Silva;

    O que o senhor nos trás aqui são as tais “consequências deploráveis” que resultam da menoridade mental a que nos sujeitam, de que nos fala o Professor Sebastião e Silva.
    Na ânsia de servir os interesses de uma minoria, a dos poderosos, vale tudo, até condenar o futuro do país!
    Repare o senhor Professor Arnaldo A. Dias da-Silva nas palavras de António Coutinho, (que são muito bem recebidas pelas fundações privadas deste país por ex: a Champalimaud que anseia pelos dinheiros públicos) …
    “O ensino superior em países dos mais competitivos é maioritariamente feito em instituições e por professores que não fazem investigação. Ser docente-investigador mediano ou medíocre não é melhor do que ser “apenas” um excelente docente.”[A. Coutinho]
    Hoje sente-se tragicamente como o país definha nas mãos desta gente. E tudo isso em nome de uns inconfessáveis financiamentos de conveniência que é preciso fazer com os dinheiros...
    Professor Arnaldo A. Dias da-Silva, enganam-se aqueles que julgam que essa traição passa desapercebida aos olhos de muitas pessoas. É preciso ainda, mais do que nunca, esclarecer outras pessoas, é o que me proponho fazer aqui novamente fazendo uso destas palavras sábias do Professor Sebastião e Silva, e com isso ajudar a desmascarar todos os Coutinhos deste país que nada de bom deixam:
    “ ... de futuro, a posição terá de ser muito diferente, pelo menos no que se refere aos cursos de carácter científico: se não se exigir ao professor, como mínimo, o hábito e o espírito de pesquisa, reveladores de um contacto permanente com o movimento científico internacional – mesmo que os resultados pessoais não sejam brilhantes – então o País será irremediavelmente condenado à situação de menoridade mental, com todas as consequências deploráveis que daí podem deduzir - se a priori.
    Um dos argumentos que são invocados com mais frequência contra o princípio de que os professores devem ser investigadores é o do que a grande maioria dos alunos não irão ser investigadores. Certamente que não! Mas é preciso não esquecer em que época vivemos: a evolução rapidíssima da técnica e da ciência exige que todos adquiram um certo espírito de pesquisa, ou seja: maleabilidade intelectual, senso crítico, imaginação criadora, espírito de iniciativa, capacidade de adaptação. E quem poderá, em última análise, transmitir esse espírito de pesquisa aos jovens portugueses, se nem sequer os professores universitários forem providos de tal espírito?”

    Cumprimentos cordiais,

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  2. Caro professor
    Relativamente à fraca procura dos cursos florestais gostaria de acrescentar alguns factos e algumas considerações. Tenho calculado o número de candidatos colocados em cursos florestais, para cada mil candidatos na primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior e a evolução é assustadora. Em 2007 este indicador era de 1.8, tendo descido todos os anos até 2013 em que o valor foi de 0.2 candidatos colocados em cursos florestais para cada mil candidatos.
    Quanto tento encontrar as razões para esta falta de interesse pela floresta, chego à conclusão que eu próprio teria bastantes dúvidas em escolher um curso nesta área se essa escolha fosse feita hoje. A professora Helena Freitas da Universidade de Coimbra escreveu há tempos um artigo onde se podia ler: “No pesadelo dos incêndios que assolam Portugal, a floresta deixa de ser encarada como um património natural a preservar e a fruir. Os cenários de beleza de uma natureza justamente apreciada, dão lugar ao drama repetido dos fogos florestais associados ao verão.” A este respeito vale a pena acresecentar que Portugal é citado num relatório da FAO como um dos países do Mundo com maior percentagem de área queimada, juntamente com mais quatro países Africanos, qualquer um deles com muitíssimo menos estradas, bombeiros, viaturas e aviões… Para além da recorrente questão dos incêndios vale a pena acrescentar a expansão desregrada da floresta de eucalipto, a má gestão, o abandono dos espaços florestais, a invasão por espécies exóticas, a disseminação de pragas e doenças e o declínio dos indicadores económicos ligados à floresta. Penso que o estado lamentável a que chegaram uma boa parte das paisagens florestais do nosso País, deverá ajudar a explicar (não será seguramente a única explicação) o fraco interesse dos jovens pela floresta e a fraca procura dos cursos florestais.
    Joaquim Sande Silva
    Professor no Departamento Florestal da Escola Superior Agrária de Coimbra

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