sábado, 2 de agosto de 2014

Cinco casos na história da ciência portuguesa de casamento entre ciência e artes

Meu artigo no último número de "As Artes entre as Letras", a revista cultural do Porto que acaba de fazer cinco anos:

Como o “As Artes entre as Letras” acaba de completar cinco voltas ao Sol, lembrei-me de procurar exemplos interessantes em que o número cinco aparecesse. Cinco é, de facto, um número que aparece muitas vezes, e de forma curiosa, tanto nas ciências como nas artes. É, na matemática,  o número de sólidos platónicos ou  perfeitos (tetraedro, cubo, octaedro, dodecaedro e icosaedro). É, na química, o número de elementos da Antiguidade grega, se aos quatro tradicionais (água, ar, fogo e terra) acrescentarmos o misterioso éter ou quinta-essência. É, na geografia, o número de continentes: Europa, Ásia, África, América e, mais recente, a Antárctica. É, nas letras, o número de vogais: o aeiou que os meninos aprendem na escola. E é, finalmente, na música, o número de linhas nas modernas pautas.     

E, como o “Artes” tem sabido juntar de forma exemplar as ciências às artes, lembrei-me também de procurar cinco exemplos de ligações entre ciência e artes  na história da ciência em Portugal. Nessa história várias são as figuras e os episódios em que a ciência e a literatura se interligam, não sendo fácil a escolha. Escolhi cinco casos, desde o século das luzes até ao século passado, que mostram como ciência e artes se conjugam na cultura humana.

1. Teodoro de Almeida (1722-1804), padre oratoriano, natural de Lisboa, que foi figura maior do Iluminismo católico português e o primeiro grande divulgador da ciência entre nós, com o seu livro “Recreação Filosófica”. No ano de 1761, o padre Almeida encontrava-se escondido na Igreja dos Congregados no Porto, onde procurou refúgio da fúria persecutória do Marquês de Pombal, a qual, após  se ter dirigido aos Jesuítas em primeiro lugar, acabou também por atingir os Oratorianos. Foi do Porto que ele observou o trânsito do planeta Vénus diante do Sol que ocorreu nesse ano. Haveria de se exilar primeiro em Espanha e em França, até acontecer a “Viradeira”, com a morte do rei D. José e a destituição do Marquês. Acabou por ser o autor da primeira oração de sapiência na nóvel Academia de Ciências de Lisboa no ano de 1780, uma oração que provocou viva controvérsia entre os partidários do primeiro ministro deposto. Teodoro de Almeida escrevia com rara elegância e clareza, podendo a sua obra maior, a “Recreação Filosófica”, ser considerada  uma bem sucedida tentativa de fusão entre entre as ciências e as letras.

2.  Augusto Nobre (1865-1946), natural do Porto, professor de Zoologia primeiro da Academia Politécnica do Porto e depois da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que surgiu em sua substituição em 1911, especializou-se em malacologia, tendo criado a primeira estação portuguesa de  biologia marinha. Foi Reitor da Universidade do Porto e ministro da Instrução Pública. A ligação do Prof. Nobre à literatura fez-se através do seu irmão António Nobre, o bem conhecido autor de “Só”, “o livro mais triste que há em Portugal”. António morreu muito novo, com apenas 32  anos, vítima da tuberculose, a doença da época que dizimou tantos cientistas e artistas. Pois foi o seu irmão Augusto que tratou de assegurar a memória futura do poeta, recolhendo e entregando o seu espólio à Biblioteca Municipal do Porto e ajudando na edição de algumas publicações póstumas.

3. Ricardo Jorge (1858-1939). Natural do Porto, o  médico formado na Escola Médico-Cirúrgica do Porto haveria de ser docente nesta instituição. Depois de se ter iniciado na área da Neurologia, acabou por se transformar num higienista, tendo mesmo sido pioneiro da Higiene Pública  em Portugal. No ano de 1899 estava a combater um inusitado surto de peste no Porto, quando, confrontado com a fúria das populações ás quais queria sensatamente  impor um cordão de isolamento sanitário, teve de abandonar a Cidade Invicta para ingressar na Escola-Médico Cirúrgica de Lisboa, que em 1911 se transformou na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O Dr. Ricardo Jorge, não contente por ter sido um dos grandes médicos da sua época, foi também um cultivador das letras: escreveu  vários volumes numa prosa esmerada, por exemplo os “Canhenho de um Vagamundo”, e não temeu incursões  na historiografia e crítica literária ao escrever sobre  o escritor leiriense Francisco Rodrigues Lobo.

4. António Egas Moniz (1874-1955), o até agora único nosso Prémio Nobel português nas áreas das Ciências (foi laureado com o Prémio de Medicina  em 1949), nasceu em Avanca, não longe de Estarreja e da ria de Aveiro, numa casa hoje transformada em museu que  pode ser visitada, e estudou Medicina  em Coimbra, onde iniciou a sua carreira docente. Com o estabelecimento da Faculdade de Medicina de Lisboa, acabou por se transferir  para a capital, onde, após um período de intensa actividade política, passou a dedicar-se em quase exclusividade à ciência, efectuando invenções pioneiras (a angiografia cerebral e a leucotomia).  O Prof. Egas Moniz  foi um homem interessado não só pelas ciências, mas também pelas artes e letras. Nas artes o seu gosto ia para o pintor José Malhoa sobre o qual escreveu um ensaio. E, nas letras, para o portuense Júlio Dinis, pseudónimo do médico Joaquim Gomes Coelho (que, como António Nobre, faleceu precocemente de tuberculose), do qual escreveu a primeira biografia.  

5. Abel Salazar (1899-1946), médico nascido em Guimarães que foi aluno da Escola Médico Cirúrgica do Porto e, após a República, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A par de Egas Moniz, foi um dos investigadores científicos mais notáveis da primeira metade do século XX português, tendo realizado trabalhos notáveis nas áreas da Histologia e Embriologia. Afastado da sua profissão em primeiro lugar por doença, acabou por ser definitivamente afastado dela quando regressou por perseguição política por parte do regime do Estado Novo:  tal fez com que se concentrasse a sua energia críativa, para além de artigos de divulgação científica, na escultura e na pintura, produzindo obras como as que se podem apreciar hoje na sua Casa-Museu em S. Mamede de Infesta, nos arredores do Porto. Além de artista, Abel Salazar foi também um teórico da estética. Para ele o acto criador tanto se podia exercitar nas ciências como nas artes plásticas.

Todas estas atitudes de proximidade cultural entre as  ciências, as artes e as letras podem constituir para nós fontes de inspiração.

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