terça-feira, 5 de agosto de 2014

AS MENTIRAS DO MINISTRO NUNO CRATO

Estamos infelizmente já habituados a ministros que mentem. O ministro Nuno Crato não conseguiu fugir à regra. Fê-lo a propósito do processo de "avaliação" das unidades de investigação científica portuguesas a cargo da FCT, que recorreu em "outsourcing" à quase defunta ESF.

Disse há poucos dias o ministro à agência Lusa:

 "Há um processo que se iniciou com determinadas regras, e esse processo vai acabar com essas regras. As regras permitem que o próprio processo seja rectificado ao longo do seu caminho, ou seja, os próprios painéis podem verificar que se enganaram, num caso ou noutro, e, tendo-se enganado, podem rever as suas classificações", A avaliação "tem regulamentos desde o início, que foram sujeitos a uma discussão pública".

Ora nada mais falso. Não só houve regras escondidas como algumas delas foram alteradas a meio do processo. Ora vejamos:

 1) Regras escondidas, isto é, regras que nunca foram sujeitas a discussão pública. A regra do "abate" de 50% dos centros estava escondida. A FCT recusou mostrar contrato durante vários meses, até ter sido obrigada por invocação da lei. No contrato há três sítios onde aparece a referência aos 50% - o terceiro é fundamenta porque aparece num sítio que não tem nada a ver com o orçamento. Não é o número de 163 centros que aparece a certa altura do contrato que é importante, mas sim a percentagem que aparece mais à frente: 50%, num local onde não há nada relacionado com o orçamento. Não se trata de uma "previsão" para efeitos de custos, mas de uma parte essencial do "caderno de encargos". O resultado foi de aproximadamente 50% de "abate" em todos os painéis, o que não pode ter acontecido por acaso, mas sim por imposição contratual. O problema não foi apenas o "abate", mas também o facto de ele ter sido consumado de forma arbitrária, com notas de 19 que não serviam para nada pois conduziam a chumbo.

 2) Alterações processuais a meio do processo. Efectivamente, entre o regulamento (Julho 2013) e as "additional informations" (Abril 2014) o processo de avaliação foi alterado. E foi alterado quase já no fim, quebrando-se o controlo do processo: de 4 externos + 1 interno passou-se a 2 externos e 1 interno e o referee indicado pela unidade deixou de estar envolvido na discussão do relatório final. Isto foi denunciado neste blogue e os documentos comprovativos estão à vista de todos. Pode o ministro não querer ver, mas se quiser vê logo e, se quiser ser intelectualmente honesto, pede desculpa pelo erro.

O ministro, em coro com o Presidente da FCT, veio agora dizer que quem os investigadores que afirmam que a avaliação sofre de erros muito graves e deve ser anulada é parte interessada, pois foram chumbados na "avaliação" da FCT/ESF. Disse que essas pessoas não são "inteiramente neutras", partindo do princípio que só está a protestar quem não passou à 2.ª fase.

Ora nada mais falso. O Conselho de Laboratórios Associados (CLA) representa 20 unidades de investigação com mais de 2500 investigadores, cobre praticamente todas as áreas disciplinares. Delas 19 passaram à segunda fase. O CLA será parte interessada? Como assim se os centros nele reunidos passaram praticamente todos?

Por sua vez, os Conselhos Científicos da FCT emitiram um comunicado onde criticam a avaliação, afirmando que ela deveria ser corrigida em aspectos essenciais. Os Conselhos Científicos da FCT serão parte interessada? Não é estranho que a FCT não ouça internamente os seus Conselhos, que se viram obrigados a vir a público?

Os Reitores das maiores Universidades Portuguesas, cujos centros passaram maioritariamente à 2.ª fase, serão também parte interessada? Interessa-lhes com certeza o bem da instituição universitária, mas isso deveria também interessar à FCT. A maneira como o Presidente da FCT tratou os Reitores foi inqualificável: temos agora a FCT a mandar nas universidades, mandando às urtigas qualquer ideia de autonomia universitária.

As Sociedades Científicas de Física, Química e Filosofia são parte interessada? Com certeza interessa-lhe o fortalecimento das suas disciplinas, mas isso também devia interessar à FCT. À actual FCT parece que a Física, a Química e a Filosofia são disciplinas que não interessam.

 Por outro lado ainda não se ouviu ninguém que não a FCT vir a público defender o modo como se está a processar a avaliação. Nenhum artigo de opinião veio explicar as numerosas e gritantes aberrações que a avaliação produziu, muitas das quais são neste momento públicas. A favor da FCT só está o seu Presidente, acolitado naturalmente pelos seus vogais, e, graças a breves declarações a uma jornalista, o investigador da área da biomedicina (julgo que aposentado) António Coutinho. É muito pouco, convenhamos.

Neste momento o Presidente da FCT, graças à sua recusa em ver e ouvir o que se passa à sua volta, passou de responsável pela avaliação e  interlocutor dos investigadores portugueses a parte interessada também. Ele está interessado em defender "à outrance" a sua "avaliação". São as suas acções que estão a ser avaliadas, e a sua credibilidade profissional, nacional e internacional, que foi afectada e a sua posição de responsável que está em jogo. Com a posição que tomou, o Presidente da FCT passou a ser a parte mais interessada de todas. De facto, ele não é "inteiramente neutro", pois está a defender a sua dama - a "avaliação" que engendrou-  sem ligar absolutamente nada a quem aponta as fragilidades dela. Ele próprio reconheceu que a sua "avaliação" não era séria, ao admitir que o 19 podia ser um 12 ou 13. Isto é, as notas para ele não valem nada. Por que é que hão-de valer para os outros?

E Nuno Crato? Ao colar-se inexplicavelmente a Miguel Seabra, também ele passou a ser parte interessada. Também ele não é "inteiramente neutro". Também a sua reputação está em jogo. Não  só a sua reputação política, de alguém que devia defender o bem comum, mas também a sua reputação profissional, de pessoa séria e rigorosa. Como político não se distingue muito afinal de outros políticos desacreditados da nossa praça, como por exemplo Miguel Relvas. E, como pessoa, revelou-se bem diferente do que era. Meteu-se num grande buraco, de onde vai ter imensa dificuldade em sair.

10 comentários:

  1. Crato, como Fiolhais, Guilherme Valente e o tolo Medina Carreira − os 3 mosqueteiros que, como na história verdadeira são 4 − já se tinham metido num grande buraco quando tiveram, durante anos, palco mediático privilegiado para uma campanha sem quartel contra o (moinho de vento que só existia nas suas cabeças) eduquês (seja na «vera» versão, seja na reduzida de construtivismo, seja ainda na versão de senso comum de Medina Carreira «a Escola hoje não ensina nada, é tudo uma cambada de ignorantes, no meu tempo é que se aprendia muito no ensino técnico»).
    Como se o eduquês (e o construtivismo) um problema existente entre muitos outros, tivesse a dimensão que justificasse da luta sem tréguas que empreenderam.
    Assim criaram o «caldo de cultura» onde estão mergulhados (e nos mergulharam a nós todos: à Educação e agora também à Ciência) cujos resultados na sua cristalina evidência para o país não tardarão a aparecer.
    Proferir «sound bites» como: «Sim, quero fazer implodir o ME» (Crato na apresentação do Programa do Governo, na A. R.) podem render muito entre as pessoas ignorantes ou pouco informadas, as pessoas que se regem apenas pelo senso comum, mas não resistem à prova da realidade.
    E como bem dura está a ser essa prova, como se vê no De Rerum Natura relativamente à Ciência.

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    1. Excelente comentário. É isso mesmo!

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  2. A realidade é que numa prova extremamente fácil, mil e quinhentos candidatos a professores do ensino secundário chumbaram. E contra factos não há argumentos.
    E se a prova fosse feita a professores do ensino superior?...
    Tenho duas licenciaturas pré Bolonha, e em ambos os casos tive mais professores incompetentes do que competentes.
    E os centros de investigação vivem fora desta realidade? Custa a acreditar... Há cursos onde o corpo docente é constituído maioritariamente, senão pela totalidade, por professores «seleccionados» por «urgente conveniência de serviço», expressão eufemística que torna legal o critério «cunha».
    É normal assistir a provas de mestrado e de doutoramento, em que é absolutamente evidente que há quem não tenha lido mais do que o título dos trabalhos ou - vá lá - os respectivos índices, enquanto o respectivo autor vai falando... Até se poderia considerar isso uma atitude inteligente, tendo em conta a substância resultante da «investigação» plasmada nos ditos. O problema é que - no mínimo - é obrigação deontológica, e uma obrigação de facto para os contribuintes que pagam tudo isso, esses investigadores e chefes de investigadores, e chefes dos chefes de investigadores, fazerem-no - e não o fazem.
    Por tudo isto suspeito, que entre a obstinação do Ministro, e a reacção corporativa dos investigadores, a verdade não passa por um destes extremos.
    Por último considero absolutamente lamentável o título do texto. E se um aluno do autor lhe chamasse mentiroso?
    José

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    1. Bem algumas coisas que tenho que concordar com este comentário. Professores incompetentes no ensino universitário são bastantes, depois o resultado é as pessoas que se formam e ciclo que daí advém. Tal como são professores incompetentes, depois são investigadores incompetentes (maioria dos casos, apesar de haver bons cientistas que não sabem dar aulas). Como exemplo, há professores no DQUC que pertencem ao centro de Química de Coimbra que nem Inglês sabem escrever e pedem a outros para lhes traduzirem documentos (até os mendigos nos EUA sabem escrever e falar Inglês LOL). Outros que são professores e apresentam indices H e tem menos artigos científicos que muitos alunos de doutoramento e Pós doc...Não estará este sistema mal? Não deveria haver maior competitividade e as pessoas que não apresentassem os indices indicados fossem penalizadas ou obrigadas a dar tempo de aulas (caso fossem competentes)? Não deviam os professores universitários ganharem consoante o que produzem também cientificamente já que também é uma das suas obrigações? Isto é, terem um ordenado base e um acréscimo dependendo do escalão de produção, por exemplo, no Brasil é assim que funciona...Porque não concursos competitivos com provas escritas e orais para a escolha de um nome Professor universitário? Porque só a amizade e uma "hipotética" entrevista é só o suficiente para ter a "cunha" para ser professor...muita coisa a rever no sistema universitário\cientifico....
      Agora não esquecemos que este processo de avaliação foi uma armadilha montada pela FCT/Nuno Crato...As pessoas tem que ser avaliadas e até penso que deviam ser penalizadas (com as medidas já referidas anteriormente) quando não cumprissem. Mas tem que haver credibilidade e não arranjos na avaliação.
      Fico-me também, apenas, pelos 50% do que poderia escrever e argumentar sobre esta matéria. Bem-hajam e tenham paciência

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  3. "temos agora a FCT a mandar nas universidades, mandando às urtigas qualquer ideia de autonomia universitária"
    A autonomia universitária é em grande parte um mito urbano. Por outro lado, não é de agora que a FCT manda nas universidades: a profusa legislação e os múltiplos programas do consulado de Gago apontaram activamente nesse sentido, por vezes discretamente, noutros casos às claras.

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  4. INTERROGA-SE o anónimo das 02:02, em sintonia absoluta com a empresarialização do ensino e da investigação, se «não deveria haver maior competitividade e as pessoas que não apresentassem os indices indicados fossem penalizadas ou obrigadas a dar tempo de aulas (caso fossem competentes)?».

    Mas é precisamente isso que defende o Crato e os seus apóstolos! A sua questão faz-me lembrar as pessoas que se queixam do estado a que a finança desregulada levou o país, da corrupção instituída e normalizada, da promiscuidade entre política e negócios... e depois, quando chega a hora de votar, são acometidos de um défice cognitivo muito comum entre nós, votando de novo nos seus eternos carrascos.
    Para ajudar a sua reflexão, gostaria de lhe lembrar que a produção de ciência não obedece aos critérios ideológicos do neoliberalismo, pelo que persistir na propaganda ao dogma da competitividade como panaceia para mais e melhor ciência é errado, desde logo por não haver qualquer evidência empírica que suporte essa crença - que, como sabemos, é um apêndice vulgar da teologia do mercado. Sem me querer alongar, recordo-lhe também que em ciência não é possível alcançar unanimidade quanto aos critérios que devam aferir uma definição rigorosa de rigor. Por razões decorrentes desse mesmo princípio e, sobretudo, porque a decência e a dignidade dos professores ainda não foram completamente obliteradas, a sua abjecta sugestão referente às remunerações da classe só pode merecer desprezo. No entanto, você - anónimo das 02:02 - é um visionário, pois o que sugere é a melhor parte do sonho ainda por realizar deste ministro, de todos os seus pares no governo, de todos os empreendedores e da maior parte dos mercenários que se prestam a fazer as figuras tristes que o guião da FCT lhes outorga para capitalizarem algum prestígio nos seus currículos; sendo parte de um processo mais amplo de transformação social em curso, e perante o qual a generalidade dos académicos tem permanecido muda, diria que, de algum modo, têm o que merecem - como também o terão todos os que, nesse amanhã que você veio aqui cantar, estiverem nas salas de aula dos que passarem a ganhar menos. Quem sabe se não poderemos passar a resolver tudo à machadada?

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  5. Caro amigo respeito a sua opinião e não vou ser "arrogante" ao seu ponto. As coisas como estão é que estão bem então que continue. Professores que não produzem ciência e ninguém os cobra por isso...tanto faz produzir muito como pouco, faço menos e ganho o mesmo....pronto essa mentalidade de nada fazer e estar tudo igual ao final do mês é um dos problemas da nossa sociedade e da maioria dos empregados do sistema público...continuamos então do mesmo modo de daqui a 10 anos a troika volta e os socialistas vão depois deitar as culpas ao neoliberalismo....Na minha opinião devia haver um ordenado base e um acrescimo por escalões consoante o que produzem....senão é o bem bom, porque produzo menos que "tu" e ganho o mesmo....talvez tenha mais probabilidade de subir de escalão, mas para isso basta ter "amigos". Ok, continuamos no modo que temos andando que o desenvolvimento continua a ser nulo apesar do maior ou menor investimento que se faça na ciência. Bem Haja
    "anónimo das 02:02"

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    1. Veja se percebe que, em ciência, as coisas não se devem reduzir à averiguação, por meio de sistemas caros e ideologicamente sofisticados (as agências de rating académico são o embrião de uma nova casta de parasitas pagos a peso de ouro), de quem produz mais ou menos, como se isso fosse critério - a ciência não funciona como uma empresa de biotecnologias nem como um despique entre engenheiros químicos a ver quem é que produz primeiro a molécula do sabor a chouriço para conquistar cota de mercado. A ciência não é nenhuma espécie de "tens de comer a sopa mais depressa que o Manelinho que é para seres mais bonito". O espírito do que você defende - o cada mais, melhor, mais depressa e, sempre, mais barato (é isso a "excelência" - coisa tão valiosa como a reputação do Ricardo Salgado), não só nada tem a ver com ciência como, pior ainda - é esse o espírito verdadeiramente responsável pela transformação de muitos laboratórios e centros de pesquisa em meras incubadoras de fraude. A Directora do Instituto de Bioética da Universidade Católica foi muito clara quando escreveu (Expresso de 7 Junho 2014) que «entre os fatores que alimentam a complexa matriz da fraude encontramos: (1) a pressão para ter resultados, para financiamento de projetos ou para financiamento do próprio, (2) os indicadores bibliométricos, e os seus índices de citação e fatores de impacto, (3) a necessidade imperiosa de alimentar o monstro do “estatisticamente significativo”, (4) a falta de tempo e (5) a falta de formação em integridade científica, ética e estatística.». E já agora desculpe lá, mas arrogância é dar bitaites quanto aos ordenados de quem presta serviço público num momento em que o miserabilismo das nossas putrefactas elites continua a querer fazer passar a ideia de que quem trabalha para o Estado e quem recebe pensões de reforma - esses "privilegiados" - é que devem pagar os custos de toda esta desgraça...

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    2. Caro Francisco Oneto:
      Desculpe-me o desabafo, não acha um desperdício perder tempo com explicações rigorosas e sofisticadas com quem apenas sabe contar «chouriços»?

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    3. Sim, tem razão! Eu não deveria quebrar o meu silêncio, e muito menos neste pantanal positivista, mas às vezes não resisto... Obrigado pelo alerta

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