sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ainda que apunhalados no coração...

A síntese de múltiplos estudos credíveis sobre a relação entre o ensino e a aprendizagem é muito simples: mais do que a condição social e cultural de origem dos alunos, mais do que possíveis talentos, aptidões ou dons que possam ou não ter, mais do que muitos outros factores que confluem na escola, são os professores que fazem a maior diferença na evolução dos aprendizes.

O ensino, não constitui o único factor de aprendizagem, mas constitui um dos mais importantes, senão o mais importante.

O Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA) tem recorrentemente alertado nos seus relatórios que “o professor faz a diferença”: se um sistema quer melhorar os níveis de aprendizagem tem de garantir a qualidade do ensino.

Não há responsáveis por políticas e medidas educativas de sistemas educativos que participam nesse Programa que possam, em consciência, alegar desconhecimento desta forte interdependência. E, no entanto, é como se de nada soubessem.

Tenho visto, com grande tristeza, nos últimos anos, bons professores:

- serem empurrados para uma deprimente reforma antecipada: ainda novos saem da escola onde eram precisos, quando era na escola (ou numa outra escola em que sentissem ter lugar), que queriam continuar;

- sobretudo se são de “humanidades”, ser-lhes retirado prazer de ensinar o conhecimento pelo qual se apaixonarem e que os levou ao ensino, acumulando a mágoa de ver esse conhecimento deixar de ser transmitido;

- serem-lhe atribuídas várias disciplinas e componentes curriculares e níveis de escolaridade e tarefas que nada têm a ver com o ensino. Além disso, circulam diariamente entre escolas de um mesmo agrupamento. A exaustão é um estado permanente, a nada podem dar atenção;

E estes são os  que têm sorte: “conseguiram” um horário... e adiar o grande fantasma do “horário zero”.

Refiro-me a pessoas (não recursos) nos seus quarenta, cinquenta anos, com vinte, vinte e tal anos de ensino que dominam os assuntos, que sabem organizar as aulas, que usam com mestria técnicas de ensino; refiro-me a profissionais competentes a quem podemos confiar a educação das nossas crianças e jovens; refiro-me a professores que fazem a diferença.

O que estamos a fazer é a afastá-los e a desmobilizá-los. Esperemos que alguns, apesar de apunhalados no coração, se recusem a morrer, tenham força para continuar vivos.

Obrigada Carlos Pires.

4 comentários:

  1. Professora Helena Damião, permiti-me divulgar o seu texto em http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.pt/2014/08/voltar-sempre-ao-ponto-de-partida.html.
    Cordiais saudações

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  2. Para mais , muitos destes colegas ainda não sabem por esta altura para onde irão e têm a sensação de terem voltado aos tormentosos miniconcursos . Como é possível que neste mi(nis)tério nunca se aprenda nada com os anos anteriores e, pelo contrário, se duplique o que de mal foi feito. Eu "ando nisto" há 34 anos e foi sempre assim, é um cansaço!

    Este ano caber-me-ão , pelo menos, 8 (oito) turmas e uma viagem de 10km entre escolas ( sem qualquer transporte público, e os km que só são pagos a partir da fronteira da freguesia o que os reduz a uns 3km perfazendo um total de 6 no boletim itinerário que não deixarei de preencher religiosamente e cujo papel é pago por mim) e estou cheia de sorte . Para o ano, com a municipalização, facilmente se concentrarão ainda mais os alunos e ,também, o meu horário e os de muitissimos outros poderão ir de vela.

    os professores são gente perigosa!

    Ivone Melo

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  3. Helena Damião: Obrigado pelo elogio. Descreveu bem a situação. O que está a ser feito na educação em Portugal é um crime.

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  4. Carlos Pires
    O seu trabalho merece muito mais do este brevíssimo elogio. Não desista dele. Afinal, a qualidade do trabalho que os bons professores fazem, mesmo que não seja reconhecida, é talvez a única coisa que não se lhe pode tirar.
    Maria Helena Damião

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