terça-feira, 15 de julho de 2014

Instruir robôs

Artigo de Miguel Copetto no Diário Económico de ontem:

O actual Governo tem sido verdadeiramente decepcionante na pasta da Educação. E não é tanto, como eventualmente se poderia pensar, por Nuno Crato não ter implodido, até agora, o Ministério da Educação, como sugerira antes de ser ministro. Prende-se com questões sérias, substantivas e de ausência de projecto de política educativa estruturante, articulada e harmoniosa de todo o percurso escolar.

Se no âmbito do ensino superior a “política” se tem traduzido numa amálgama de ideias, sem profundidade, antigas e corporativas, já no que respeita ao ensino profissional o recentemente aprovado regime jurídico espelha uma ideologia confrangedora.

Dois exemplos:

(1) As novas atribuições das escolas profissionais são descritas como centros propiciadores de uma formação geral, científica, tecnológica e prática, tendo em vista o exercício profissional qualificado. Ou seja, a função destas escolas é, somente, fornecer aos alunos um ensino escolar e profissional, prático em contexto de trabalho, com o envolvimento das empresas nessa formação e no apoio à transição para o mercado de trabalho. Porém, ainda que seja admissível o exposto, a verdade é que, tratando-se do regime de um diploma estruturante, o afunilamento da formação unicamente naquela perspectiva, e servindo apenas aqueles objectivos, é verdadeiramente míope tendo em vista a formação integral dos jovens. Note-se que ao longo do diploma não existe uma única palavra sobre formação cívica ou cultural, como se apenas houvesse interesse em instruir robôs para optimizar os recursos disponíveis. É certo que quando se tem uma visão em casta da sociedade não se considera importante valorizar culturalmente o cidadão, uma vez que é visto como uma unidade, uma ferramenta, um robô.

(2) Enuncia-se como uma das competências do órgão de direcção pedagógica da escola profissional “conceber e formular, sob orientação da entidade proprietária, o projecto educativo da escola”. Mas, o projecto educativo não pertence à entidade proprietária que, arriscando dinheiro seu, idealiza um projecto alternativo ao modelo do Estado, com outra missão, valores e princípios? Só uma visão estreita de funcionário sem mundo, que nunca arriscou o seu próprio capital, pode conceber que o proprietário entre “apenas” com o capital e os seus “funcionários” é que concebem e formulam o projecto.

As escolas profissionais se não forem consideradas como espaços orientados para a criação, transmissão e difusão da cultura, do conhecimento e do saber fazer de natureza profissional dificilmente poderão ser pólos responsáveis por uma formação pessoal integral que dignifique o ensino tecnológico, artístico e profissional.

Miguel Copetto

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