segunda-feira, 28 de julho de 2014

Firmino Mendes: Um segredo guarda o mundo


A editora Pedra Formosa foi a responsável pelo lançamento de Luís Quintais, Carlos Poças Falcão, Adelino Ínsua, Yvette K. Centeno, Firmino Mendes, entre outros.
Continuo a pensar que a poesia é «a dona disto tudo».
Assim,  vos deixo com a poesia de Firmino Mendes.

As cores que mudam
Podemos integrar a teoria das cores no olho,
num capítulo sobre a percepção,
sem qualquer aproximação
à física, à radiação ou à mecânica ondulatória. Basta
acreditar que o mesmo azul físico
depende da minha festa:
hoje vou falar com ele, olhá-lo
de todos os recantos possíveis,
no céu, no mar, nas casas, nas flores, nos pássaros,
nos papéis, em tudo o que for possível.
Mais: vou fazer dias para as cores,
só para poder ver as diferenças que há no mundo.

Escrevo assim quase sem saber:
li um livro de um poeta irlandês
que me fez regressar à primavera, ao cheiro novo,
ao peito acordado da minha realidade. É por isto que sei
o que perdemos quando andamos depressa,
como se não tivéssemos olhos, ouvidos, nariz, mãos,
papilas e pele, muita pele, para poder tocar
o vento que chega agora do norte e é macio, florido, azul.
  
Canto
Por saber-te só luz desconhecida,
desenhei uma rosa incandescente:
quinze pétalas brancas, um jardim

e séculos de história. De repente
tudo ali em quadrados de segredos,
com losangos no chão a preto e branco

e, no meio, um altar de irradiação,
o umbigo do mundo, o centro aberto
aos ritmos da expansão da luz.

A Semente (Excerto)
(…)
— Exalto de negro, aqueço de febre
no casulo. Aplaino as tranças de fotões — Só para ver
o que sairá deste pulso quente, a apodrecer por fora.
Sai-me a pele — Dispo-me. Decanta-se o olhar
neste plano de respiração suspensa.
Chupo moléculas de água, uma a uma, até reverdecer
por dentro, nos canais ínfimos. Procuro forças
para romper a manta morta, o sustento.

(…)

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