sexta-feira, 27 de junho de 2014

Raposas matreiras, bonecas cientistas e cavaleiros que adoecem por apanhar sol: a Química na literatura para jovens

Excerto ligeiramente editado do meu artigo sobre a química na literatura infantil e juvenil que apareceu recentemente no Boletim da Sociedade Portuguesa de Química, Abril-Junho de 2014.

Aquilino Ribeiro é um escritor que teve uma notável intervenção cívica e política, tendo, no início do século XX, passado pela acção revolucionária, a qual segundo se sabe, e, de acordo com as suas memórias, originou uma explosão em 1907 que vitimou dois dos seus companheiros de conspiração. Estava, por isso, com certeza, familiarizado com a Química e e tecnologia do seu tempo, o que é, de resto, claramente reconhecível, por exemplo, no romance que publicou em 1944, "Volfrâmio". Mas isso não é relevante para a Química que podemos encontrar em “O Romance da Raposa” datado de 1929 e dedicado ao seu filho Aníbal.

A raposa e o texugo a trocarem informação química (desenho do Miguel, na altura com 9 anos)  
 




Aquilino Ribeiro inspira-se em narrativas anteriores, de origem culta e popular, para criar um livro que nos revela com pormenor os mecanismos da astúcia e da inteligência, mas também aspectos da descoberta científica e da química que nos rodeia. Em particular, o odor característico dos animais e os disfarces que a raposa usa para enganar o lobo, primeiro empregando mel para colar palha e depois usando resina para colar folhas de couve, são temas químicos a explorar com proveito. Por que cheiram os animais de forma diferente uns dos outros? Por que é que o mel se dissolve em água e a resina dos pinheiros não?

Podemos começar com a forma como a raposa faz a sua descoberta científica da utilização do mel para se disfarçar. Foi por acaso que isso aconteceu (dir-se-ia hoje, por serependidade), ao ficar toda lambusada de mel, depois de atacar uma colmeia. O mel, que a tudo se colava, sugeriu-lhe uma ideia para se disfarçar. Teve depois de validar os seus ensaios, replicar e optimizar os resultados. No final tinha um resultado que pôde testar: um disfarce que o lobo não reconheceu. Entretanto, tendo a raposa revelado o seu segredo, o lobo passou a testar os animais, molhando-os com água. Assim, a raposa teve de aperfeiçoar o seu disfarce: inventar um que fosse impermeável. Nesse momento já sabia o que queria e foi provavelmente mais fácil fazer os seus ensaios. Mas, mesmo assim, teve experimentar e testar várias hipóteses e, no final, encontrou o material adequado: a resina de pinheiro.

Um outro aspecto químico que podemos relacionar com o “Romance da Raposa” é, como referido anteriormente, o odor dos animais. A descoberta da explicação química dos odores dos animais e da composição do suor, demorou até ao aparecimento dos métodos modernos da espectrometria de massa, cromatografia gasosa e líquida de alta resolução. E ainda das espectroscopias vibracional e de ressonância magnética, química computacional e possibilidade de determinação das estruturas moleculares por difracção de raios X.

Em “A Montanha Mágica”, datado de 1924, do escritor Thomas Mann, Hans Castorp e o médico a quem este faz perguntas sobre Ciência, o Dr. Behrens, ainda não têm os meios necessários para saberem o que hoje nos parece fácil de obter. Faz-se um espectro dos odores e surgem centenas de compostos, muitos deles já identificados e outros que é necessário ainda identificar. No final os odores aparecem-nos como perfumes muito mais complexos do que aqueles que podemos obter pela simples mistura de alguns compostos, os quais são característicos de cada espécie e únicos para cada indivíduo.

Um cão treinado pode identificar compostos voláteis característicos de explosivos, drogas ou mesmo de doenças. E pode notar alterações de comportamento, por exemplo, o medo, o qual pode ser também associado a processos químicos, como veremos mais adiante. Estes animais estão envoltos numa nuvem complexa de informações químicas que lhes chegam ao nariz, ou que eles aspiram, aumentando assim o fluxo de moléculas analisadas.

Para o texugo, e também para nós, humanos, a raposa cheira mal, o que esta concorda, afirmando no livro que o texugo é um animal muito mais asseado que ela. No entanto, parece ser hoje senso comum que os texugos cheiram mal, em especial uma variedade que se tornou famosa nos desenhos animados. Em que é que ficamos? Quem cheira pior?

A raposa tem razão, mas os desenhos animados também. Os texugos vulgares têm um sentido do olfacto muito apurado e são muito organizados e higiénicos no uso das latrinas. Têm, no entanto, uma glândula anal que pode libertar uma enorme quantidade de compostos, os quais têm um cheiro almiscarado, que para a maioria das pessoas não é assim tão desagradável e Aquilino sabe isso. Destes compostos realça-se o nonanal que nós humanos também libertamos e que tem a particularidade de atrair mosquitos! O nosso suor, em particular o dos pés, pode conter compostos também bastante mal-cheirosos como o ácido butanóico, também presente no queijo, vomitado e frutos fermentados de algumas árvores. Entretanto, o texugo fedorento do continente americano liberta compostos que contêm enxofre como o isoamiltiol e pode ser por isso produtor de cheiros nauseabundos se se sentir em perigo.

Finalmente, as raposas são muito menos asseadas que os texugos vulgares e por onde passam deixam cheiros desagradáveis. Das suas fezes, por exemplo, obteve-se o composto 2,4,5-trimetil-3-tiazolina que tem sido usado como repelente, havendo algumas dúvidas se este funciona como um indutor de medo ou por ser simplesmente repugnante.

2 comentários:

  1. Qual é a diferença entre o verbo português "editar" e o verbo inglês "to edit"? De há uns anos para cá são tomados, por muitos intelectuais, como sinónimos. São?

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  2. Que texto interessante! Que bem ilustrado!

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