domingo, 22 de junho de 2014

O PAÍS QUE AÍ VEM


Artigo de opinião de Guilherme Valente no expresso de ontem:

 1. O flagelo do «partido» único das «ciências» da educação que domina o ensino praticamente desde o 25 de Abril, não vitimou apenas os alunos, enganando-os sobre a função da escola e a vida, embotando inteligências e vontades. Atingiu também os professores, instrumentos e vítimas, bode expiatório dos resultados escolares anos e anos a piorar. E contagiou os pais, frequentemente barreira à mudança na educação. Uma manifestação expressiva da situação a que esse flagelo, facilitista e infantilizador, conduziu é a choradeira de muitas mães por causa do suposto stress dos meninos com os exames. Exames de caca, registe-se.

Muito pelo contrário, o que tem faltado é um mínimo de exigência, de exames a valer. Exames que no estado a que o ensino chegou são instrumento incontornável de regulação e construção da escola, que é natural e desejável induzirem nos alunos e nos professores empenho e preocupação, e mesmo um saudável stress. Professores que é urgente libertar, isso sim, de um outro stress, esse bem nocivo, o da burocracia cretina com que foram sendo asfixiados. Burocracia que este Ministro ainda não ...implodiu.

E o regime de exames imperativo na nossa escola é, evidentemente, diferente do praticado nas escolas responsabilizadoras de sociedades como o Japão, Finlândia ou Macau, com professores formados a sério e motivados e famílias com outras características culturais. É esta evidência que o especialista da OCDE que recentemente se referiu aos exames em Portugal devia perceber, não esquecendo a sábia asserção de Marx quanto à necessidade da analise concreta da situação concreta. São generalizações dessas que contribuem para perpetuar as desigualdades entre os países, impondo aos mais atrasados um queimar de etapas que só agrava a situação de partida. O que se passou na educação em Portugal é prova disso. Só depois das mudanças introduzidas por Justino e reforçadas por Sócrates se terá manifestado progresso nos resultados dos alunos portugueses nas provas comparativas internacionais. Progressos verificados só depois dessas mudanças, num dos testes com alunos apenas com quatro anos de escolaridade. Depois de em todos os anos anteriores os resultados terem sempre piorado. Bastaram, aliás, uns examezinhos para se perceber que os resultados estão a melhorar. Por isso a agitação da FENPROF, das associações de professores de Matemática e de Português, de associações de pais, que pais?

 2. Mas há outra manifestação assustadora dessa mundivisão posmoderna (com que a nossa velha cultura tão bem se dá) de que a educação que temos tido foi ponta de lança e modelo. Manifestação que os mídia tem reportado com silêncio crítico, como se não se tratasse da obscenidade que na verdade é. Situação de que a exigência e os exames, se persistissem, seriam factor de cura.

 Alguns títulos do Expresso: "Em 2013, pelo menos 5 mil crianças e jovens tiveram pela primeira vez acompanhamento por depressão. Consultas subiram 30%"; "Mil embalagens de antidepressivos e ansiolíticos receitados no ano passado a adolescentes entre os 12 e os 19 anos"; "Bebés também ficam deprimidos. Na Estefânia foram atendidos 20 em 2013"; "É urgente aumentar camas de internamento".

Para quê as campanhas do Dr. Francisco George? Prevenção da toxicodependência, para qûê? Não está, afinal, em curso uma sementeira para o consumo de todas as drogas?

Nos anos que aí vêm que País irá ser o nosso?

Guilherme Valente

6 comentários:

  1. Prezado Dr. Guilherme Valente: Foi com muito agrado e não menos benefício que li o seu post: "O País que aí vem". Mas perante o que se está a passar num país que continua a discutir a validade de exames para se aferir a aprendizagem feita pelos alunos nos diferentes patamares da sua vida escolar e, sobretudo, sobre certos diplomas de "ensino superior" à Relvas, e que quejandos, mostro-me, já, bem pessimista com o momento actual do País.

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  2. O senhor Guilherme Valente parece-me um bom bocado blasé, demodé... Ah! E fora do contexto sócio cultural do país.

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  3. Senhor Doutor Guilherme Valente;

    Certamente que conhece o teste intermédio de matemática do 2. ano (para crianças de 7 anos)... pode aceder-lhe neste sitio:

    http://cdn.gave.min-edu.pt/files/430/TI_Mat2_mai2014_Cad1.pdf

    O senhor Guilherme Valente saberá responder à questão numero 3 ? É esta a exigência nos exames que reclama e que o fascina?

    Eu confesso-lhe que não fui capaz de obter a pontuação máxima na resposta à questão numero 3!


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  4. E se o guru Valente fosse ler o artigo do Expresso «Más opiniões do guru do MIT», de Alexandre Soveral Martins?
    Não no caderno principal, onde o nosso guru Valente tem coluna cativa para as suas prédicas dominicais (no caso mais exactamente sabáticas), mas sim no Caderno de Economia, p. 30.
    O artigo, nas breves referências à Educação, põe problemas interessantes e é um verdadeiro estímulo para que as pessoas pensem com os neurónios e não com os (maus) fígados, como o guru Valente sempre faz.
    Mas o que seria de nós sem estes gurus Valentes e quejandos?
    O país seria tão cinzento... ou será assim que é cinzento?

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  5. Como se tem verificado, quem tem menos medo dos exames ainda são, de um modo geral, os alunos. Apesar de, naturalmente, haver um ou outro que, por questões de temperamento e educação, estará sujeito a um grande nervosismo e ansiedade – nada que não possa ser resolvido ou ultrapassado. Pais e professores têm-se mostrado contudo bem mais ansiosos. Alguns psicólogos e jornalistas também têm tido um papel importante na criação e manutenção deste clima que classificam de muito “stressante” (e acabando por ter razão).
    Infelizmente o “papão exames” dá jeito a muita gente e continuará por isso a ser alimentado por muitos intervenientes neste processo. Os mais prejudicados são, como de costume, os alunos com menos apoios e portanto mais vulneráveis que vêem deste modo ser-lhes fechadas muitas portas.

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  6. NUANCES DA GESTÃO, A ROBÓTICA COMO SOLUÇÃO

    O testemunho, na primeira pessoa, da esterilidade do solo em que se semeou uma parte significativa do ensino superior público.

    http://www.omirante.pt/index.asp?idEdicao=54&id=73715&idSeccao=544&Action=noticia#.U6GnUChXhfU

    Desde logo, pelo que este Sr. Professor, do ensino superior público, não refere…

    Vejamos pois, o que não refere.

    Não refere preparar as aulas, nem atender os alunos.

    Mais, não refere ter publicações de natureza científica. Com uma já longa carreira no ensino superior, não refere a publicação de nem 1 artigo científico…

    Também, não refere a sua participação em congressos científicos, nem em conferências da mesma natureza.

    Igualmente, não refere a orientação de teses, a participação em júris conferentes de grau académico, nem ser titular do grau académico de doutor.

    Por outro lado, é significante que refira que fez o mestrado há 22 anos porque tinha um horário lectivo de meia dúzia de horas por semana, e assim progrediu na carreira…

    Cerca de duas décadas volvidas, a descrição que faz da actividade docente é assaz cruel, horário lectivo por volta das 14 horas semanais, reuniões, elaboração e correção de testes e a investigação.

    Mas, não referindo ter publicado uma linha científica, ter participado numa conferência científica ou num congresso, o que investiga então este Sr. Professor? E, qual a relevância dessa sua investigação para o conhecimento científico, onde são absolutamente irrelevantes investigações desconhecidas…

    Entre o que refere, e o que não refere, estará a explicação porque trabalhava mais na actividade privada…

    Ainda que, eventualmente, então auferisse um salário mais elevado na actividade privada, por 10 horas de trabalho diário, por demostrar está que ganhasse mais na actividade privada.

    Será que a actividade privada remunerava um licenciado pela docência no ensino superior, a meio tempo, de forma tão generosa como certamente o ensino superior público o remunerou.

    Aliás, é notável - com o currículo académico que refere - que tenha uma carreira no ensino superior público, onde aufere remuneração equivalente à de professor universitário, sem sequer ter obtido o Doutoramento, grau académico habilitante do ingresso na carreira docente universitária.

    Acresce, perfilhar que o ensino superior (politécnico) não carece de professores doutorados, ou seja, dos mais habilitados academicamente. Ao que diz, ser uma “prevalência” do tempo de “António Guterres como primeiro-ministro”. À qual, defendendo a bondade das contratações de não doutorados, enquanto esteve no Conselho Directivo de uma Escola de Ensino Superior, não terá dado grande acolhimento. Tal o desconchavo, que confessa a reserva da disciplina de fiscalidade para inspetores de finanças…

    O que não deixando de ser extraordinário, segue a orientação do Governo, em funções, que já na recta final do seu mandato, continua a tratar o ensino superior público, como se o mesmo qualitativamente fosse todo igual…

    Embora, na campanha eleitoral o Sr. Dr. Passos Coelho tenha prometido cortar nas gorduras do Estado, alcançada a chefia do executivo prontamente esqueceu a tão necessária reforma do Estado, avançando para cortes indiscriminados, sem cuidar se corta músculo, osso, ou mesmo órgão vital.

    Assim, não racionalizando a rede de estabelecimentos de ensino superior público, cortou as verbas às universidades públicas de referência, como a Universidade de Lisboa, a do Porto ou de Coimbra.

    Mas, como compreender que a opção deste Governo tenha sido a de asfixiar as universidades públicas de referência, e de não racionalização da rede de estabelecimentos de ensino superior público…

    Nesta matéria, quem viu claro foi o Sr. Reitor da Universidade de Lisboa

    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=675024


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