terça-feira, 10 de junho de 2014

Génio


Assisti pela televisão à primeira parte das cerimónias do Dia de Camões de Portugal e das Comunidades Portuguesas, que, neste ano, aconteceram na cidade da Guarda. Talvez tenha estado pouco atenta mas não ouvi falar de Luíz Vaz Camões; é possível que isso tenha acontecido aquando das condecorações, que já não vi.

Estranhei, pois, que no dia de Camões não se falasse de Camões. Ora, se era dia de Camões, deveria ter-se falado muito em Camões. Enquanto assistia a discursos, interrupções, desfiles... passou-me pela cabeça que em tais cerimónias talvez não se quebrasse o protocolo de Estado se se lessem, ao menos, breves linhas de um "Génio".

"Génio da língua" é o que Harold Bloom o erudito critico literário, o professor que ama a literatura, o leitor que fala da paixão que lhe ocupou a vida, reconhece em Camões. Nas suas palavras:
"Os Lusíadas, a epopeia de Camões, o Homero ou o Virgílio português, talvez seja o poema menos politicamente correcto de todos os tempos, e o autor é claramente culpado de todos os pecados de início apontados nas universidades e que agora são deplorados pelos meios de comunicação: orientalismo, racismo, sexismo, mercantilismo, imperialismo e todas as suas variações. No entanto, Camões é um grande poeta épico, cuja força criativa anima a tradição literária portuguesa que dele emana (...)
Na nossa nova Era do Terror, Camões parecerá um sectário provocador, pois a sua visão de um mundo conquistado para o catolicismo português tem necessariamente os Muçulmanos como principais oponentes. E, no entanto, Camões, embora o seu tema seja o heroísmo português, nunca desdenha dos custos humanos seja em que circunstância for e as suas profundas ambiguidades reflectem um génio tão compadecido como corajoso. A sua epopeia histórica não é uma obra datada, mas sim relevante, infelizmente demasiado relevante, no momento em que avançamos nesta era de guerras religiosas (por mais que dissimulemos chamando-lhe outra coisa) (...).
A obra Os Lusíadas trava uma batalha tremenda, não só contra os Muçulmanos e todos os povos que disputam o Império Português, mas contra os poetas Virgílio e Ariosto. Poucos poemas começam tão agressivamente como Os Lusíadas; mal começa, Camões proclama: «Cessem do sábio grego [Ulisses] e do Troiano [Eneias]/ As navegações grandes que fizeram...» Vamos ouvir falar de um herói ainda mais heróico, Vasco da Gama, que tem a imensa vantagem de ser uma figura histórica (parente de Camões, por afinidade) mitificada pelo poeta.
Obra citada: Bloom, H. (2014). Génio: Os 100 autores mais criativos da história da literatura.. Lisboa: Temas e debates/Círculo dos Leitores, pp 574, 575, 577.
 Maria Helena Damião

4 comentários:

  1. Prof.ª Helena Damião:
    Sintomático da Cultura (de propósito com maiúscula) dos protagonistas políticos dos tempos actuais.
    Pode alguém ser quem não é?
    É o refrão de uma bem conhecida e bastante «velhinha» canção de Sérgio Godinho, que se aplica aqui como uma luva.
    Pode alguém que, por vários indícios públicos, provavelmente, nunca leu os Lusíadas ser capaz de os valorizar... e o seu autor?

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  2. Prezado Leitor Manuel Silva
    O nosso drama é que não estamos a fazer nada de substancial para mudarmos.
    Os Lusíadas, melhor, partes da obra, são agora lidos, em extractos, nos manuais.
    Sei de muitos professores de Português que discordam desse acesso à obra, mas os (sagrados) manuais trazem o essencial e são tão caros que é muito difícil pedir aos alunos que tenham o seu próprio livro. Assim, poucos, muito poucos alunos que estão a sair do secundário terão tido os Lusíadas nas suas mãos.
    MHD

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  3. Citando o Poeta:
    Veja agora o juízo curioso
    Quanto no rico, assi como no pobre,
    Pode o vil interesse e sede immiga
    Do dinheiro, que a tudo nos obriga
    VII, 96

    Sem vergonha o não digo, que a razão
    De algum não ser por versos excelente
    É não se ver prezado o verso e rima,
    Porque quem não sabe arte, não na estima.

    Por isso, e não por falta de natura,
    Não há também Virgílios nem Homeros;
    Nem haverá, se este costume dura,
    Pios Eneias nem Aquiles feros.
    Mas o pior de tudo é que a ventura
    Tão ásperos os fez e tão austeros,
    Tão rudos e de engenho tão remisso,
    Que a muitos lhes dá pouco ou nada disso.

    V, 97-98.

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  4. E a Professora acha que aquela "coisa" que se intitula presidente de todos os portugueses sabe quem foi o Luís Vaz? Nesse aspecto não estamos melhor do que nos anos sessenta, quando o Canto IX era quase todo censurado nos livros do liceu.

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