quarta-feira, 25 de junho de 2014

DIA DO GEÓLOGO - 2


Embora um pouco atrasado, e a nosso pedido, não podemos deixar de publicar segunda parte do texto (a primeira parte está aqui) do Prof. Victor Hugo Forjaz (na imagem), geólogo, sobre "O Dia Do Geólogo":

1 - A cartografia de Zbyszewski impressiona pelo rigor dos limites geológicos. Mas enferma  de um mal de época, ou seja, nas cartas geológicas de temática vulcanológica não era hábito seriar as formações por idades, mesmo que relativas. Como já se registou, a carta de S. Jorge foi a primeira a adoptar essa norma. Terminada e impressa a cartografia geológica oficial dos Açores, entrou-se na rotina de sempre -- um ou outro cientista estrangeiro visitando uma ou outra ilha e a habitual campanha de Verão da Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL). Ainda cheguei a permanecer na Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada durante três meses, em1969, (trabalhando também para o poço científico profundo Moho da Universidade canadiana de Dalhousie) mas o Prof. Carlos Teixeira não conseguiu o meu destacamento por mais tempo. Entretanto passei a integrar, como representante da Geologia, a Comissão Geotérmica do Grupo do Petróleo, dirigida pelo Eng.º Barreto de Faria  e com  escritório na Rua Braamcamp. A FCUL ainda era representada pelo agrupamento de Geofísica (Prof. Luís Mendes-Victor). O Instituto Superior Técnico delegou no Prof. Luís Aires-Barros. A Comissão Geotérmica  trabalhou arduamente mas foi esmorecendo até ao 25 de Abril de 1974 porque os interesses petrolíferos eram gigantescos e poderosos a nível do arquipélago…

2 - Com a Revolução de Abril retomou-se o  Projecto Geotérmico (PG) de S. Miguel. Em Agosto de 1975 organizou-se, nas Furnas, o gitadíssimo Seminário NATO de Pequenas Centrais Geotérmicas  (patrocinado pelo  Ministério da Educação e pela embaixada dos EUA). Entretanto passei diversas semanas a visitar centrais geotérmicas  em diversos estados da Califórnia, do México e da América Central. Também estagiei em equipas de diversos poços geotérmicos profundos, nos Geysers. Na Califórnia reencontrei o Eng.º Álvaro Silva, da Ribeira Grande, que se mostrou fulcral no avanço do PG, via S. Francisco. Em Dezembro de 1975, encontrando-me no Faial a estudar as fundações do novo hospital, recebi o pedido para me apresentar, no regresso a Lisboa, no Palácio da Conceição, em Sm Miguel, a convite do General Altino Pinto de Magalhães  (Presidente da nova Junta Regional e que o Prof. José Enes, residindo na Guarda, julgava ser Almirante, conforme carta de oferta dos seus serviços que me deram do Arquivo da Junta). Nesse fim de Dezembro de 1975  aceitei, com muito entusiasmo mas grande ingenuidade, fixar-me em S. Miguel uma temporada , secretariando a Junta no sector da Investigação Científica e Ensino Superior (assim o estampam  o contrato e a requisição à FCUL). Pretendia-se instalar o Instituto Universitário dos Açores -- IUA (depois Universidade) e o Instituto de Geociências dos Açores - IGA  (que " genealogicamente" e após difíceis " hemorragias" e  "filharada" com diversos" progenitores"  gerou a  actual Sogeo SA, em fase de integração em nova empresa…).

3- Tomei posse em 1976. Reuni-me com os Professores Frederico Machado, vulcanólogo, e Ávila Martins, geólogo. Idealizou-se como contratar jovens  geólogos de várias especialidades, geofísicos de diversos ramos e engenheiros desde civis a peritos em sondagens e em termodinâmica. E esses técnicos até poderiam leccionar no IUA… Entretanto apareceu a legislação que criava o IUA e surgiu a consequente Comissão Instaladora. Com os citados professores (FM e AM) manteve-se a cordialidade de muitos anos (aliás sucedi ao Prof Ávila Martins, no Departamento de Geociências, em 1982). Mas o Reitor José  Enes, o Dr. Álvaro Monjardino e o Engº. João Bernardo Rodrigues, da Comissão Instaladora, moveram-me, de imediato, demolidora e inesperada " guerra". Ou seja, tontamente temiam que a geotermia - via IGA - ofuscasse o IUA! E que a geotermia iria diminuir drasticamente as vendas de petróleo, suspeitou-se também… Foi um erro crasso! 

4- O contrato da geotermia foi assinado em 1976, em S. Miguel, com grande pompa, para acalmar a FLA, segundo o General…. Deslocaram-se  à ilha o Dr. João Palma Carlos, Procurador Geral da República e o Secretário de Estado da Energia. Em concurso internacional já estava  seleccionada,  como operador geral, a empresa norte americana Geonomics Inc. Contratualmente, a  cada técnico estrangeiro correspondia um técnico português visando a transferência de know how. Assim - ao petrólogo estrangeiro correspondia o Dr. Herlander Correia, perito vindo da Universidade de Évora. Ao hidrogeólogo italiano equivalia o Dr. José Barradas, hoje Professor na Universidade de Aveiro. Ao geofísico "expert" em geoelelectricidade associava-se o Dr. Luís Teodoro (que executou brilhante trabalho nas pesquisas geotérmicas da Terceira,em 1997, com Francisco Rocha ).  Ao sismólogo californiano equivalia a Dr.ª Manuela Mendes, hoje distinta  professora do IST. Como empresa sondadora escolheu-se a nacional A.Cavaco.de raiz  açoreana. Etc., etc.  Durante  quatro anos vasculharam-se as geologias e as profundezas de algumas ilhas e, em 1980, o vulcão do Fogo - Serra de Água de Pau começou a produzir geoelectricidade! Ao fim e ao cabo fez-se em 1976-1980 o que agora se pretende  realizar com os islandeses através do programa de treino e de formação etiquetado de GAIa-EU 2020, pomposamente anunciado pelo grupo EDA como uma grande novidade… Irra - levaram anos a compreender que depender de estrangeiros custa milhões! Milhões irrecuperáveis .

Mas porque falharam os ensinamentos de 1976-80? Conduzindo ao regresso de imprescindíveis  técnicos às suas origens continentais?.... Apenas porque  invejas pessoais, políticos metediços e o desejo de poder por absolutos ignorantes assaltaram o projecto geotérmico. Apenas em 1991 o bom senso e as escolhas certas  seleccionaram  as soluções certas. Mas, em 2002, regressaram as "encenações" de Monteiro da Silva e de um Rui qualquer coisa, geólogo-director do campo geotérmico , ambos qual triste sina. O maior projecto geológico dos Açores  já  terá feito contas aos milhões perdidos e ao tempo desacreditado?

5- Nesta listagem ainda se justificaria  uma análise da geologia universitária, desde 1995, comparando-a com o período 1981-1995. Mas o Dia do Geólogo tem espaço limitado .Essa análise sairá publicada  mais adiante. Porque, entretanto, relendo Shakespeare, deparei com os gritos impotentes  do  Rei Lear perante a  Ímpia Fatalidade e o Feroz Destino que não conseguimos controlar:

-  "Esta é a praga destes  tempos quando loucos guiam os cegos!" 


Victor-Hugo Forjaz,  30-31 de Maio de 2014 .

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