segunda-feira, 30 de junho de 2014

A suspeição...

A propósito de um texto sobre a orientação de algumas "Educações para...", a leitora Luísa Almeida escreveu, em comentário, o seguinte:
Além do que refere, é de assinalar que cada vez mais a escola assume funções que deveriam ser asseguradas pelas famílias e por diversas instituições públicas (por exemplo: ensinar a reciclar, como lavar os dentes, educação rodoviária, etc...etc...).
Um cartaz retirado da internet feito por alunos.
Além do que é dito no texto, destaca-se a publicidade.
Não posso estar mais de acordo.

Por razões que não importa agora especificar, nas últimas décadas, a escola não parou de expandir as suas funções e atribuições (por exemplo, aqui e aqui). A sociedade qui-la como família, comunidade, espaço terapêutico... determinou-a como espaço de fins-de-semana, de férias e de lazer... exigiu mais tempo para e isto e para aquilo...

A escola tudo aceitou e ainda foi mais além: o sistema privado por negócio; o público justificando a prestação de serviços... A sociedade foi dizendo: "Não há quem cuide das crianças e dos jovens, antes na escola do que na rua...". Bom, vista a coisa de tal prisma...

Este quadro, por si só, deveria fazer-nos parar para pensar: miúdos antes e durante a escolaridade básica e secundária a passarem a maior parte das suas vidas na escola!? Como se a escola fosse um internato, mas sem as condições de acompanhamento de um internato?

Mas não nos faz parar, essa é que é essa! E também não nos faz parar o facto de a função instrutiva da escola ter vindo a ser negada: a escola educa, e isto e mais do que ensinar e muito mais do que instruir. Mas, educar é tudo! Sim, claro, é preciso educar em todos os sentidos. Como se a escola fosse a única instituição educativa e não existissem outras. Como se todas as crianças e jovens fossem órfãos, negligenciados ou maltratadao.

Há como que uma suspeição, antes de mais, em relação à família... que não ensina, ou não ensina convenientemente, a lavar os dentes e a cuidar da restante higiene, a comer e beber, a reciclar o lixo, a atravessar na passadeira, a poupar energia e uns trocos para levar ao banco, a usar a internet, a desenvolver a autoestima, a evitar doenças sexualmente transmissíveis, a gerir os afectos, a dizer não a solicitações abusivas, etc, etc, etc... Se as famílias não cumprem estas obrigações, que são suas, então accionem-se os serviços de protecção de menores, mas uma coisa é certa: não é à escola que elas cabem.

E quando o tempo, mesmo quando a escola é a "tempo inteiro", começa a faltar para o tal "tudo", onde é que se corta? A resposta é óbvia: corta-se nas disciplinas que são a razão de ser da escola, as que têm matérias que só esta instituição pode levar a aprender em extensão e profundidade, em pouco tempo e com eficácia. Acresce que, enquanto estas disciplinas, sobretudo as que andam conotadas como inúteis, se esvaem, vão-se integrando no currículo variadíssimas componentes curriculares da lavra de uma multiplicidade de entidades da comunidade muito-preocupadas-com-a-educação-das-novas-gerações.

Mais: ainda que as disciplinas clássicas se mantenham, trata-se de as esventrar dos conteúdos que lhe dão identidade para se integrarem conteúdos ligados à vida, esses, sim, os fundamentais.

Ou seja, as "Educações para..." se não entram pela porta da frente, entram pela porta lateral, mas isso pouco importa desde que consigam ocupar o centro da sala.
Maria Helena Damião

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