quinta-feira, 8 de maio de 2014

Roberto Bolaño


Roberto Bolaño, conterrâneo de Pablo Neruda, Gabriela Mistral e Vicente Huidobro, foi um dos grandes prosadores da América Latina. De marginal das letras e leitor inveterado, desde a adolescência até à juventude, tornou-se nos últimos anos da sua vida num romancista notável. Ao contrário de Vasco Graça Moura que se desunhava pela leitura do cânone literário, Roberto Bolaño procurou que os olvidados e os bons escritores do seu tempo não caíssem no esquecimento.

As suas obras 2666 e Amuleto são de leitura imprescindível. Em Amuleto, a senhora uruguaia Auxilio Lacouture, esconde-se nos lavabos das senhoras, durante uma repressão policial na Faculdade de Filosofia e Letras da Cidade do México. Aí permanece alguns dias, rememora o seu passado, tem visões e faz profecias; nem o porvir da literatura lhe escapa:

«…as minhas profecias são estas:
Vladimir Maiakowski voltará a estar na moda por volta do ano 2150. James Joyce reencarnará num menino chinês em 2124. Thomas Mann converter-se-á num farmacêutico equatoriano em 2101.
Marcel Proust entrará num desesperado e prolongado esquecimento a partir de 2033. Ezra Pound desaparecerá de algumas bibliotecas em 2089. Vachel Lindsay será um poeta de massas em 2101.
César Vallejo será lido nos túneis em 2045. Jorge Luís Borges será lido nos túneis em 2045. Vicente Huidobro será um poeta de massas em 2101.
Virginia Woolf reencarnará numa narradora argentina em 2076. Louis Ferdinand Céline entrará no purgatório em 2094. Paul Éluard será um poeta de massas em 2101.
Metempsicose. A poesia não desaparecerá. O seu não-poder tornar-se-á visível de outra maneira.
Cesare Pavese converter-se-á no Santo Patrono do Olhar em 2034. Pier Paolo Pasolini converter-se-á no santo Patrono da Fuga em 2100. Giorgio Bassani sairá do seu túmulo em 2167.
Oliverio Girondo encontrará o seu lugar como escritor juvenil em 2099. Roberto Arlt verá toda a sua obra levada ao cinema em 2102. Adolfo Bioy Casares verá toda a sua obra levada ao cinema em 2105.
Arno Schimdt ressurgirá das cinzas em 2085. Franz Kafka voltará a ser lido em todos os túneis da América Latina em 2101. Witold Gombrowicz gozará de grande prestígio nas proximidades do rio de Prata em 2098.
Paul Celan ressurgirá das suas cinzas em 2113. André Breton ressurgirá dos espelhos em 2071. Max Jacob deixará de ser lido, isto é, morrerá o seu último leitor, em 2059.
Em 2059 quem lerá Jean-Pierre Duprey? Quem lerá Gary Snyder? Quem lerá Ilarie Voronca? São estas as coisas que eu me pergunto.
Quem lerá Gilberte Dallas? Quem lerá Rodolfo Wilcock? Que lerá Alexandre Unik?
Nicanor Parra, porém, terá uma estátua numa praça do Chile em 2059. Octávio Paz terá uma estátua no México em 2020. Ernesto Cardenal terá uma estátua, não muito grande, na Nicarágua em 2018.
(…)
Carson McCullers, porém, continuará a ser lida em 2100. Alejandra Pizarnik perderá a sua última leitora em 2100. Alfonsina Storni reencarnará em gato ou em leão-marinho, não consigo precisar em 2050.
O caso de Tchékhov será um pouco diferente: reencarnará em 2003, reencarnará em 2010, reencarnará em 2014. Por fim voltará a aparecer em 2081. E depois nunca mais.»

Não sei se as três reencarnações progressivas de Tchékhov aconteceram. Indiscutível é a preocupação de Auxilio para com os poetas menos conhecidos.


A história do romance não passa exclusivamente por Gabriel García Márquez – criador do realismo mágico para muitos cronistas e editores, se esquecermos Alejo Carpentier e Lezama Lima –, nem a da poesia por Walt Whitman e Octávio Paz.

2 comentários:

  1. Um idiota, a não ser lido daqui a uma década.

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  2. o artigo até me despertou a curiosidade mas o comentario a dizer que o homem é um idiota tirou-me a pica. que livro leu para ter essa opinião?
    é que a historia está repleta de idiotas que escreviam livros magnificos, a escrita e a idiotice ao que parece não estão directamente relacionadas....

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