sexta-feira, 9 de maio de 2014

Para quê escrever se sabemos que o universo pode desaparecer?


Uma nota que Ana Lúcia Neves me enviou a propósito do livro Sobre Literatura, de Umberto Eco, referido na rubrica O livro do dia, da TSF, do dia de ontem.

Nos cerca de dois minutos e meio, que vale a pena ouvir (aqui), destacou este pequeno extracto.

“Tenho-me interrogado muitas vezes: escreveria ainda hoje, se me dissessem que amanhã uma catástrofe cósmica iria destruir o universo, de modo que amanhã ninguém pudesse ler o que escrevo hoje? Em primeira análise, a resposta é não. Para quê escrever, se ninguém puder ler-me? Em segunda análise a resposta é sim, mas só porque nutro a desesperada esperança de que, na catástrofe das galáxias, consiga sobreviver alguma estrela, e amanhã alguém possa vir a decifrar os meus sinais. Neste caso escrever, mesmo na véspera do Apocalipse, ainda teria sentido.”

Maria Helena Damião

10 comentários:

  1. E porque não perguntar simplesmente para quê escrever? Isso do universo poder desaparecer já iria incluído. Por outro lado, parece-me pretensiosismo ou mesmo pindérico que alguém, seja ele quem for, tenha em tanta conta o que escreve(ria) que o faça sob uma condição tão rebuscada. A menos que esteja a reinar. Eu compreendo que, se houver uma catástrofe ou guerra que destrua quase tudo, excepto este escrito, provavelmente serei mais importante que Platão e mesmo que Newton, ou Einstein, mas não escrevo a pensar nisso.

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    1. Escreve-se por necessidade. O que Eco quis dizer foi que se houver a remota esperança de que alguém nos leia, escrevemos. Não para sermos importantes, mas porque precisamos de escrever. Já Rilke o dizia.

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    2. Nem sempre escrevo por necessidade. De outras pessoas, não sei. A maior parte das vezes, julgo que o faço por outras razões e motivos.
      Mas a questão da importância parece-me essencial.
      Para Eco o que é importante é que alguém possa vir a decifrar os seus sinais.
      Pela parte que me toca, não considero isso importante, mas na situação de alguém, numa era pós Apocalipse, encontrar este escrito, admito que me tornaria importante.

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    3. O que Eco quis dizer, só ele saberá...
      Respeito a sua interpretação, mas não partilho dela.
      Poderá haver quem escreva por necessidade, mas também se pode escrever por prazer. É como ler. Podemos ler por obrigação, ou por prazer...

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    4. Quando falo de necessidade não me refiro aos meios de subsistência. Falo de uma necessidade vital em escrever. Alguém que sinta que pode viver sem escrever, perde o direito a fazê-lo, dizia Rilke.

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  2. Escrever e falar para alguém ler ou ouvir. São formas de comunicar. Mas há quem fale sozinho...

    Dá gosto ler Umberto Eco.

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  3. Apetece dizer: "No princípio era o Verbo e no fim o Verbo será".

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  4. “ As obras literárias convidam-nos à liberdade de interpretação porque nos propõe um discurso a partir dos inúmeros planos de leitura e nos colocam perante as ambiguidades da linguagem e da vida” (Umberto Eco, Sobre Literatura, 2003).

    Na minha liberdade de interpretação, e no contexto em que surgiu, ouvir a leitura deste texto revelou-se apaziguador…

    Quem escreve e pensa, principalmente de forma fundamentada e intelectualmente rigorosa, ainda que sabendo que todo o seu trabalho poderá ser, de um momento para o outro, completamente abandonado, deve perceber aquilo a que me refiro…

    Admiro aqueles que continuam a escrever e a defender as suas convicções, nutrindo a esperança de que, na catástrofe das mudanças (e essas não se resumem às cósmicas) continue a haver quem os leia, quem decifre o seu pensamento, quem partilhe das suas convicções…

    Com ou sem catástrofes, pensar e escrever, fará sempre sentido.

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  5. Coloquei, agora mesmo, a questão à minha sobrinha, com 8 anos.
    Achas que a tia deve continua a escrever, mesmo sabendo que amanhã ninguém vai poder ou querer ler aquilo que eu escrevo?

    A sua resposta, num primeiro momento, também foi não. Após alguns segundos, passou a sim. "Sim, deves continuar a escrever porque é o que tu gostas de fazer, ainda que saibas que amanhã ninguém vai ler."

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  6. No modelo literário de Umberto Eco acima descrito a escrita ramificada (desenvolve o personagem sem personificar) significa desenhar a revelar o sentido primevo saudável.

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