quinta-feira, 15 de maio de 2014

Entrevista a Ana Barqueiro (da equipa do 5 para a Meia Noite)

P- Lançou há poucos meses a “História da Ciência em Portugal”. Porque decidiu escrever este livro? 

R- O livro surgiu a partir de um curso livre que tenho dado e voltei a dar no El Corte Inglês, em Lisboa, com esse mesmo título. Muita gente está interessada na história da ciência aqui. Sim, sempre tivemos ciência em Portugal, umas vezes mais como nos séculos XVI e XVIII e outras vezes menos, e transmitir a história da ciência é transmitir cultura científica. Curiosamente não havia em Portugal um livro com esse título. É como se estivéssemos amnésicos sobre a nossa ciência. 

P- Apresenta-nos a história dos nossos cientistas. Que episódios interessantes destaca? 

R- O meu livro inclui no fim um dicionário de cientistas, que é inovador. Apresento uma selecção dos 50 maiores cientistas portugueses. O maior foi talvez o matemático Pedro Nunes, o cosmógrafo-mor do reino no século XVI. Mas houve outros como o médico seu contemporâneo Garcia da Orta, que escreveu em português sobre as plantas do Oriente. No século XVIII brilharam inventores como o Padre Bartolomeu de Gusmão com a sua Passarola, matemáticos como Anastácio da Cunha, o “lente penitenciado” pela Inquisição, e médicos como Ribeiro Sanches, este expatriado na Rússia dos czares. Mais perto de nós, no século XX o mais conhecido foi outro médico, Egas Moniz, o nosso único prémio Nobel em ciências. São muitos os episódios interessantes, por vezes trágicos como a queima dos ossos de Orta pela Inquisição já este estava morto e outras vezes espectaculares como a ascensão do balão de Gusmão no Paço Real. 

P- E um que desconhecia, que tenha descoberto na sua investigação? 

R- Eu não sabia, por exemplo, que Egas Moniz tinha sido médico dos poetas Fernando Pessoa e de Mário de Sá Carneiro. É curiosa esta ligação entre ciência e literatura... 

P- Quando é que em Portugal se começou a olhar para a Ciência e a fazer dela uma aposta? 

 R- Quando Portugal foi grande, dono de um Império em quatro continentes, a ciência brilhou. Foi o tempo de Nunes e de Orta, mas também de Amato Lusitano, o médico judeu de Castelo Branco que percorreu a Europa, ou de João de Castro, o vice-rei da Índia que foi duas vezes na carreira da Índia com uma bússola na mão a fazer estudos pioneiros do magnetismo terrestre. Quando Portugal definhou a ciência também definhou. No século XVIII ainda havia o ouro do Brasil, que serviu para fazer a Biblioteca Joanina em Coimbra, mas no século XIX e no século XX quase nos limitámos a receber a ciência de fora. Durante o Estado Novo muitos cientistas foram perseguidos. Só a partir da entrada na Europa a ciência arrancou em Portugal em força, com a formação de muitos jovens cientistas. Apesar da actual falta de apoio à ciência, que leva muitos cientistas a emigrar, o certo é que temos cientistas de alto nível e participamos em vários projectos internacionais. 

P- Como é que se aproximam as pessoas da Ciência? O humor e os exemplos práticos podem ser o caminho? 

R- A ciência é feita pelos cientistas, mas a ciência não é deles, é de todos. Os cientistas fazem ciência – descobrem o mundo - em nome da Humanidade. É sua obrigação entregarem à Humanidade, a todos nós, a ciência que fazem. A ligação entre ciência e sociedade, que é vital para a ciência, chama-se cultura científica. Os cientistas são e serão uma pequena parcela da população, mas toda a população pode e deve ter cultura científica, isto é, ter uma ideia do que é a ciência. Sim, o humor pode ajudar na medida em que o humor facilita a comunicação. Richard Feynman, um prémio Nobel da Física, era uma grande brincalhão: por exemplo abria cofres secretos em Los Alamos quando estava a fazer a bomba atómica. Um colaborador meu, o David Marçal, criou até números de stand-up comedy científica - Os Cientistas de Pé -, cujos textos estão em livro. Tenho dois livros com o David - Darwin aos Tiros e Pipocas com Telemóvel - e as partes com mais piada são dele. 

P-  A curiosidade é o grande ponto de partida para a Ciência? 

R- Absolutamentre. Para se descobrir o mundo é preciso querer descobri-lo e a curiosidade é isso. Todos temos. As crianças chegam ao mundo equipadas com curiosidade para o descobrir, só é pena que por vezes a percam. Perguntaram um dia ao Einstein que é que ele tinha de especial? E ele respondeu: “Curiosidade apaixonada”. Quer dizer: uma curiosidade desmesurada, sem conhecer limites. 

P- Acha que a Ciência devia começar a ser aprendida mais cedo nas escolas? 

R- Sim, claro, para aproveitar a curiosidade infantil. Receio que a curiosidade esteja a ser desaproveitada logo na escola básica. No jardim-escola podia-se fazer mais experiências simples, que é como quem diz ciência a brincar. Ciência com água (dizendo Eureka como Arquimedes), ciência com balões (enchendo um balão como o do Gusmão), eu sei lá... A ciência devia começar com as mãos, a experimentar, e só depois devia entrar pelos olhos para chegar à cabeça onde ela devia ficar. Vivemos num planeta onde as coisas caem, onde abunda um líquido como a água (que abunda mesmo dentro de nós) e um gás, ou melhor, uma mistura de gases que é o ar que respiramos. E é em pequenino que se deve começar por ter consciência disso. É em pequenino que se torce o destino! Dizem que é o pepino, mas como nunca percebi esse provérbio, mudei o provérbio. Não é ainda popular, mas vai ser. 

P-  Recentemente criticou o desinvestimento governamental ma educação. Considera que a “fuga de cérebros” vai ter consequências já a curto prazo ou só a médio prazo perceberemos o seu impacto? 

R- Está já a ter consequências. Uma boa parte dos nossos cientistas e outros profissionais qualificados em matérias científicas estão a ir embora. Pode ser bom para eles e para os países onde vão. Mas é mau, muito mau, para nós, uma vez que a nossa maior riqueza reside na criatividade de que eles são capazes. Já se vê no curto prazo e vai-se ver mais a médio prazo. O actual governo, que de resto tem fomentado a fuga de cérebros, quer desmentir a realidade numa atitude anti-científica. O pior cego é aquele que não quer ver.

P-  Como vê o futuro da ciência em Portugal? É promissor? 

R- O futuro da ciência é a chave do nosso futuro em geral. É a ciência que nos abre a porta do futuro. Pode não ser a ciência que nos salve, mas sem ciência estamos perdidos. Não há soluções para o país que não valorizem a ciência. Os países mais desenvolvidos são aqueles onde há mais ciência e estão mais desenvolvidos por causa da ciência que neles se faz. Pairam nuvens negras na ciência em Portugal, mas eu, apesar disso, estou optimista. Os cientistas são uns optimistas... Se o governo está contra a ciência, dizem que para poupar na dívida à troika, então tanto pior para o governo. Eles vão passar, enquanto nós, os cientistas, ficamos.

P- Procedeu à instalação do maior computador português para cálculo científico, o Centopeia. E o Supercentopeia já está a funcionar? 

R- O Centopeia, instalado há muitos anos na Universidade de Coimbra, foi o primeiro supercomputador português. Foi feito reunindo cerca de cem computadores em paralelo. Depois disso e está há anos a funcionar a Milipeia, que é uma Supercentopeia. E em breve vamos ter uma Supermilipeia, que é uma Supersupercentopeia. Estará acessível aos cientistas nacionais como as outras. 

P-  É o computador mais poderoso do país? O que é que ele faz que os outros não fazem? 

R- Os computadores computam, isto é, calculam. Os supercomputadores computam muito mais, até porque o fazem mais rápido. A diferença entre um computador e um supercomputador é como a diferença entre um Fiat Panda e um Fórmula 1. Portugal não possui nenhum dos 500 maiores computadores do mundo, mas a Espanha tem 2, a França 22, a China 63 e os Estados Unidos 64. Um supercomputador pode fazer cálculos que outras máquinas não fazem, possibilitando mais poder a quem as possui. Podem, por exemplo, desenvolver novas moléculas para curar doenças, analisar o nosso genoma, fazer simulações do cérebro, criar novos materiais, fazer previsões do tempo e do clima, etc Um supercomputador é uma espécie de faz-tudo. Programamo-lo para responder a questões e ele responde. É muito mais barato fazer no computador do que no laboratório. E, de resto, fazem-se coisas no computador que não se podem fazer no laboratório: simulações do Big Bang, por exemplo. No computador podemos criar não só o mundo real, mas também mundos virtuais 

P-  É também o “pai” do Rómulo – Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Quando passaram cinco anos desde a sua inauguração, qual o balanço que faz? As pessoas têm-se mostrado disponíveis para saber mais sobre a ciência? 

R- O Rómulo é um centro de recursos que integra a rede de Centros Ciência Viva. È uma biblioteca moderna, onde se encontram livros, filmes, software, etc., sobre cultura científica, a tal ligação da ciência à sociedade. O nome é uma homenagem a Rómulo de Carvalho, o professor de Física e Química, historiador e divulgador de ciência, que foi também o poeta António Gedeão, o autor da “Pedra Filosofal”. Sim, tem estado cheio e estamos contentes. Fazem-se lá muitas conversas com autores à volta dos livros, mostram-se filmes, discute-se ciência. E está, na Universidade de Coimbra, aberta a toda a gente. Quero de resto agradecer a muita gente que tem oferecido, num generoso espírito de partilha, livros e revistas sobre ciência aquela biblioteca. Não é comum entre nós, mas as pessoas que dão sabem que dar é sempre receber. 

P- É professor Catedrático da Universidade de Coimbra. Dá aulas de quê? 

R- Actualmente estou a dar aulas de Física Nuclear e de Física Computacional. 

P-  Mas já foi regente de quase duas dezenas de cadeiras em seis cursos diferentes? 

R- Sim. Ao longo de muitos anos já tenho dado aulas de outros assuntos. Há muitos alunos que se lembram... E dou muitas palestras, em escolas e fora delas, uma espécie de aulas fora da escola. Como nos cursos do El Corte Inglês, por exemplo. Vou começar um em breve. 

P-  As aulas ocupam-lhe muito tempo? 

R- Sim, não apenas dar aulas, mas principalmente preparar aulas. Por cada hora de aula há várias horas de tempo de preparação, quando a aula é bem preparada. As aulas, nos anos mais avançados, têm a ver com a investigação que se faz. Gosto de dar aulasr. Pagam-me, portanto, para fazer uma coisa de que gosto. Tento não me repetir, dizendo  de cada vez coisas novas. Os alunos ajudam a que não nos cansemos, porque são sempre diferentes. O convívio em cada ano com as gerações mais novas ajuda a manter a juventude...

P-  E a escrita é uma paixão tão grande como a ciência ou é simplesmente o melhor veículo para a comunicar? 

R- Sempre gostei de ler e de escrever. Tenho aliás o vício de ler todo o material impresso que me apareça à frente e eu faço por que apareça. Sou o melhor cliente do meu quiosque. E as livrarias gostam de me ter como cliente: eu até compro livros que já tenho. Escrevo porque leio: ponho por escrito aquilo que aprendi de modo a que outros possam também aprender. Agrada-me saber que outros gostem de ler como eu. Forneço-lhes mais material, impresso em jornais, revistas ou livros ou no ecrã de computador. A escrita é uma forma muito eficaz de comunicação. Não desprezando a voz ou a imagem, eu diria que é a maneira que permite exprimir o pensamento de um modo mais claro. Escrever bem obriga-nos a pensar melhor. 

P- . Qual foi o primeiro livro que escreveu e em que ano? 

R- “Física Divertida”, em 1991, na Gradiva. Já vai na 8.ª edição, com mais de 20 000 exemplares. Já foi traduzido em vários países, incluindo a tradução em português do Brasil. Onde estava “impulsão” , a força de Arquimedes, ficou “empuxo”... 

P-  A “História da Ciência em Portugal” é o seu livro número.... ? 

R- N.º 45. O n.º 44 foi “A Biblioteca Joanina”, a biblioteca da Universidade de Coimbra que o  rei D. João V mandou fazer e que tive a honra de dirigir. A maior parte dos meus livros são escolares, ainda agora saiu um para o 8.º ano: “Universo FQ”, é o número 46. Espero chegar pelo menos à meia centena... 

P-  Em 2012 publicou «Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência». Qual o caso de falsa ciência mais prejudicial à saúde? 

R- Há tantos. Eu e o David contamos nesse livro casos disparatados, ilusões em que as pessoas acreditam pensando que é ciência. Há disparates que não fazem mal nem bem, como a homeopatia. Eu e o David no lançamento do livro tomámos uma caixa inteira de comprimidos homeopáticos e ainda cá estamos. Mas há disparates muito perigosos, como por exemplo a campanha contra as vacinas. As vacinas defendem-nos das doenças e não as tomar pode fazer mortal. 

P-  E qual o mais absurdo? 

R- Há tantos a disputar esse campeonato. A começar logo no Dia Mundial do Orgasmo Planetário, que alguém propôs... Numa escola portuguesa foram feitas experiências em que alguém queria que os alunos tivessem ideias luminosas obrigando-os a olhar para uma lâmpada! Se fosse só assim, era fácil ser um génio da lâmpada... 

P- Como homem da Ciência, o que acha dos relatos que passam de geração em geração sobre seres mitológicos que habitam o nosso país (e não só), como fadas, gigantes, lobisomens e sereias? 

R- Os mitos são consequência da imaginação humana que é extraordinária. Os navegadores portugueses viram o Adamastor quando era final um cabo, que ficou chamado da Boa Esperança. Não há nada de errado com a imaginação. Mas não se pode confundir a realidade com aquilo que se imagina. Na ciência também se imagina, mas só se acredita naquilo que é observado repetidamente e não por uma pessoa mas por todas. 

P- . É de sua autoria o artigo mais citado de um autor numa instituição nacional. Quantas citações ao certo? São quase 11 000, o que significa que há 11 000 artigos científicos que citam aquele meu artigo por, de algum modo, se basearem nela. Sobre o que versava o artigo e onde foi publicado? O artigo é de 1991, foi publicado na Physical Review, uma revista americana,e nele se propõe uma nova fórmula que ajuda a explicar a ligação entre os átomos. Ora a ligação entre os átomos aparece em muitas áreas... 

P-  Foi colaborador de várias publicações. Neste momento, escreve para onde? Escrevo regularmente para o Público. Escrevo para um jornal cultural do Porto, As Artes entre as Letras. Escrevo para “Gazeta da Física”, revista da Sociedade Portuguesa de Física. Ocasionalmente escrevo para outras publicações, ainda agora escrevi por convite para a revista dos agricultores portugueses. Cultura, mas cultura agrícola... Ah, e escrevo também no meu bloguie, De Rerum Natura..

P- Ainda é consultor das publicações Gradiva? Sim, dirijo a colecção Ciência Aberta, uma colecção iniciada pelo editor Guilherme Valente há mais de 30 anos. Já saíram mais de 200 títulos, o que a torna uma das colecções mais antigas em todo o mundo no género da divulgação científica. O último intitula-se “Experiência Antárctida” e é um relato de uma expedição de um jovem cientista português, José Xavier, à Antárctida. 

P- E qual é o seu papel na Fundação Francisco Manuel dos Santos?

R-  Dirijo a área do Conhecimento, que inclui Educação, Ciência e Inovação. Promovemos estudos e debates sobre o estado do país. A Fundação tem, a Pordata, a base de dados sobre a realidade nacional, mas também publica livros, organiza conferências, promove discussões,. Tem um site, etc. O nosso último objectivo consiste em aumentar a liberdade dos cidadãos portugueses, através do alargamento do conhecimento a respeito de Portugal. Em Janeiro passado trouxemos a Portugal Sir Paul Nurse, Nobel da Medicina e Director da Royal Society de Londres, que se pronunciou em defesa da ciência. 

P- Disse numa entrevista «Gosto de ter vários projectos ao mesmo tempo. O que me cansa é estar parado». Mas não há um princípio na Física que dita que um corpo não pode ocupar ao mesmo tempo dois lugares distintos no espaço?

R-  Sim, o meu corpo não viola essa lei da Física. Mas o conhecimento não ocupa lugar, não é bem um corpo. O nosso cérebro tem o poder de se multiplicar para o acolher be processar. E depois eu não só eu, tenho muitas pessoas com quem colaboro nos vários projectos a que me dedico. Posso estar a dormir, mas há sempre alguém acordado...

R- E além de todos os projectos referidos, que outros projectos está a desenvolver? E projectos para o futuro? 

R- Quero continuar o que estou a fazer. Além das aulas e da investigação em história da ciência (temos agora um Programa Doutoral em Coimbra e Aveiro) sobre História da Ciência, quero continuar a divulgação da ciência – o Centro Ciência Viva Rómulo em Coimbra, os livros da Ciência Aberta, etc. Quero continuar o trabalho na Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a Educação e a Ciência em Portugal, fazendo com que estas sejam mais conhecidas e mais queridas. E há sempre coisas novas: para o Ano é o Ano Internacional da Luz: não nos vamos pôr a olhar para as lâmpadas, mas vamos ter ideias luminosas. E tenho também um projecto empresarial, na área da genómica. Acredito que boa parte do futuro está nos genes. 

P- Declarou-se contra o novo acordo ortográfico. Acha que ainda é possível agir ou teremos de nos sujeitar às novas regras? 

R- Eu não me sujeito. Não percebo a lógica do acordo, de modo que só escrevo como sei escrever. Acho aliás absurdo terem avançado com um acordo que foi tão mal acordado com os outros países de língua portuguesa. Tão mal que vários não o adoptaram e digo adoptaram com um p, nem sei se o perdeu. 

P- O que é que o faz pensar muito?

R- O verbo é engraçado: “Eu matuto/ tu matutas... ” Eu matuto em questões da educação e ciência. Ultimamente dou comigo a maturar: porque é que o país não matuta mais nestas questões? Acho que sei: é um país sem batuta. E onde não há batuta não se matuta...

 PERFIL 

P- . Nasceu em Lisboa mas entretanto foi para Coimbra. Que idade tinha e porquê esta mudança de cidade? 

R- Sete anos, fui com a minha família, pois o meu Pai foi colocado em Coimbra. Nasci em Lisboa onde nasce toda a gente, na Maternidade Alfredo da Costa, mas depois acabei por estudar onde estuda muita gente, a Universidade de Coimbra. 

P-  Como era em criança e adolescente? Dizem que era um bom aluno. Lia muito. Em adolescente comecei também a praticar um desporto radical: espeleólogo, ou explorador de cavernas. Outro dia escreveu-me por email um amigo de outrora que me salvou do fundo de uma gruta... 

P-  Nessa altura, lembra-se de ter alguma brincadeira que de alguma forma “denunciasse” que um dia ia ser um homem da Ciência?

R-  Comecei a escrever sobre ciência primeiro no jornal do liceu, “O Estudante”, e depois no jornal da faculdade, “O Mocho”. Um dia o ministro Veiga Simão foi ao nosso liceu, que tinha sido o liceu dele,e cravei-lhe sete contos para o jornal. E ele deu! 

 P- Curiosamente, no liceu, as suas melhores notas não eram a Física. Quando é que surge a paixão? E porque decidiu escolher esse curso? 

R- Eram, nos últimos anos do liceu, a Ciências Naturais e a Filosofia. Fui para física por causa dos livros de divulgação de ciência, que contavam a aventura da física, por exemplo a aventura da descoberta do núcleo atómico. Era uma aventura na qual eu também queria participar. 

P-  Disse uma vez que primeiramente sentiu maior afinidade com a Química. Confirma? 

R- Desminto. Nunca tive maior afinidade com a Química, tive até poucas cadeiras de Química na Faculdade, escolhendo antes cadeiras de Matemática para me tornar físico teórico. O que se passa é que uma parte interessante da física, a física nuclear, dava-se na química.

 P-. Quais os seus hobbies? Gosto de ler e de viajar e é o que faço nos tempos livres. Também ouço música, apesar de não ter grande ouvido. Mas já sou pouco cinéfilo. 

 P- Colecciona alguma coisa? 

R- Livros, nunca mais acaba a minha colecção. Dão-me muitos, além dos muitos que compro. Estou agora a dar a minha biblioteca de ciência ao Rómulo, de modo a que ela possa ser útil a outros. 

P- Tem algum vício do qual não abdique? 

R- Tenho o vício de comprar jornais e revistas, além de livros. Nem como on-line desisti do papel. Ao fim de semana tenho de deitar muito papel fora para reciclar... É um vício caro, embora haja mais caros. E é saudável. 

P- Qual é o seu último grande projecto? 

R-  Há pouco iniciei com colegas e amigos uma empresa na área da genómica, a “Coimbra Genomics”, que se destina a fornecer aos médicos informação sobre o genoema que ajude tanto no diagnóstico como no tratamento. A empresa está no Biocant, em Cantanhede, o parque português de biotecnologia, e está já a contrariar a fuga de cérebros, contratando jovens cientistas portugueses que estão lá fora. Eu e os meus colegas fomos os primeiros portugueses a ter o seu genoma sequenciado na totalidade. A tecnologia está a ficar mais barato (a sequenciação do genoma está a custar 1000 dólares) e o acesso a essa informação vais ser corrente. Amanhã vamos viver mais e melhor e estamos já hoje a preparar o futuro...

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