domingo, 18 de maio de 2014

É importante não esquecer que as pessoas que se investigam são pessoas

"A Associação de Defesa do Consumidor pediu a colaboradores que simulassem dores de garganta, mas sem febre ou qualquer outro sintoma. Os 50 clínicos visitados "observaram a garganta e procuraram inteirar-se dos sintomas. Em 20 casos receitaram de imediato o antibiótico".
O propósito da investigação acima descrita e recentemente publicitada - saber se médicos portugueses prescrevem mais antibióticos do que é recomendável - é justificável. Já o mesmo não se pode dizer do método usado.

Eticamente é reprovável não explicitar aos sujeitos os propósitos do estudo e negar-lhe a liberdade de escolher colaborar. Mais reprovável é enganá-los. Aqui associam-se essas três faltas.

Um investigador deve conseguir ganhar a confiança dos sujeitos e garantir o seu cumprimento. Só em circunstância muitíssimo especiais este princípio poderá ser quebrado, essas circunstâncias não serão muitas mais do que aquelas em que a dignidade e a vida estão em perigo,

Daria  mais trabalho à dita entidade proceder como se recomenda? Certamente. Demoraria mais tempo a recolher os dados? Seguramente. Obter-se-iam resultados menos fiáveis. Provavelmente.

Mas, contornar trabalho, poupar tempo e almejar a verdade de qualquer maneira não podem servir de argumento. É importante não esquecer que as pessoas que se investigam são pessoas. E estas pessoas, em concreto, que foram enganadas, se se aperceberam disso, certamente não terão ficado agradadas. Nem terão ficado agradadas com os títulos que a comunicação social social fez: "médicos prescrevem mais antibióticos do que deveriam!". A suspeita a recair mais uma vez sobre todos os profissionais, ainda que a amostra não permita tal conclusão.

Com este procedimento poderá pensar-se que é possível observar-se "ao natural", "espontaneamente, como acontece na realidade", "saber-se ao certo", mas o que resulta é instalar-se uma espécie de "lei da selva" resguardada por objectivos aceitáveis.

Mais informação aqui, aqui e aqui.
Maria Helena Damião

4 comentários:

  1. A questão, neste caso, deve ser vista doutra forma: a DECO não está a produzir ciência, mas antes a defender os consumidores/utentes, neste caso os doentes. Não digo que o estudo não seja criticável eticamente, mas será equivalente a um estudo da mesma DECO em que é analisada a forma como são atendidos os clientes em lojas de electrodomésticos, em livrarias ou em qualquer outro estabelecimento comercial. Será equivalente, ainda, a estudar o atendimento em repartições de finanças, ou nas escolas. Devemos considerar se, em todos estes estudos, a análise do comportamento de quem serve o público deve ser feita com conhecimento de quem está a ser analisado — e a nossa resposta deve ter em consideração que esse conhecimento irá, certamente, influenciar os resultados desse estudo.

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  2. Que invalidade de estudo, que fraude ! ! ! . . . Se as pessoas vão queixar-se ao médico de algo tão prosaico, o que esperam que os médicos façam? Se fazem é porque fazem, se não fazem é porque não fazem. Que parvoíce!

    Trata-se apenas e só de uma grande iniciativa para desacreditar o SNS e os seus profissionais, convém à Agenda.

    Por outro lado, que fique bem claro que a DECO é uma Sociedade Comercial (de capitais maioritariamente belgas), não é uma Associação de Consumidores nem de Defesa do Consumidor, como a apresentam sempre - (verificar aqui)

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  3. pois eu acho que a coisa foi até muito bem feita. teria sido ainda mais bem feito se a seguir pedissem aos mesmos medicos para participar no tal estudo com outros utentes com as mesmas queixas, aposto que ai os dignósticos seriam bem diferentes e os medicamentos caros e desnecessarios nem apareciam nas receitas

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  4. a verdade é que há muitos médicos a fazer isto pagos pelas farmacêuticas, este estudo não permite avaliar a frequência com que isto ocorre, e muito menos poderá servir para penalizar o serviço de saúde (duvido que não hajam médicos desses no privado). Já o facto de achar que se tem de avisar os médicos da realização de um estudo que poderá indicar a sua falta de seriedade é ridículo, alguém que perceba algo de ciência sabe que o estudo realizado se tem de assemelhar o mais possível á realidade dos consultórios, pelo que não acho o método impróprio, apenas é imprópria a falta de rigor na exposição dos dados recolhidos.

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