sexta-feira, 9 de maio de 2014

"A Escola é como um ser vivo"

Terceira e última parte da entrevista/aula do Professor Veiga Simão que teve lugar há quatro anos na Universidade de Coimbra (acesso à primeira e segunda partes aqui). 

A terminar: que grandes desafios, entende o Senhor Professor, serem os da Escola neste século XXI? 

Em primeiro lugar eu diria que a Escola é como um ser vivo. Se não se der a esse ser vivo um certo grau de liberdade, ele definha. Se se colocarem as escolas numa prisão, elas não se desenvolvem e não florescem. Naturalmente que não se pode dar à escola toda a liberdade, é necessário acompanhá-la.

A autonomia, a diversidade, a flexibilidade, a disciplina quando são desequilibradas, levam a que a escola deixe de ser escola, deixe de traduzir o desejo de aprender, o desejo de estudar, o desejo de aumentar não só os meus conhecimentos, mas também o desejo de criar.

E aí, meu caro amigo, há uma questão que é decisiva: termos cada vez menos leis, e as leis serem mais simples. Já Montesquieu dizia: se queres uma lei que se cumpra, faz lei simples, se realmente queres leis inúteis, multiplica-as. No emaranhado das leis, todos têm razão e ninguém tem razão, tudo se complica.

Temos de avaliar as Escolas. Eu concordo mas não podemos aplicar metodologias de cobrança de impostos à avaliação do saber, que é a função da escola. Não podemos usar métodos de avaliação de professores iguais aos métodos de avaliação de funcionários de repartições. E os avaliadores têm fazer um trabalho com rigor, o que só pode acontecer se tiverem conhecimento suficiente e tolerância suficiente para, sem punições, perceber o trabalho daqueles que são avaliados.

Com a grande preocupação que se tem de avaliar tudo. podemos percorrer caminhos profundamente errados que vão dar origem a confusões, mesmo quando haja boas intenções.

Penso que temos um outro problema, que não é um problema menor: o problema da formação dos professores. Os professores, hoje, na sua maioria (não por culpa deles, mas porque o Estado se esqueceu deles) não têm certos conhecimentos suficientes para enfrentar tudo o que têm de fazer. Há que actualizar a sua formação através de formas que não sejam a de os brigar a pagar dos seus salários essa actualização.

Tenho muito orgulho de ter publicado um decreto-lei (que já não existe…) onde a formação a actualização do conhecimento dos professores era gratuita nas Universidades. Ainda se desenvolveram aqui na Universidade de Coimbra durante um ano os chamados Cursos intensivos de Verão. Esses cursos foram totalmente abandonados.

Tenho pena que essa medida tivesse sido esquecida. Hoje com as tecnologias de informação e comunicação poderíamos organizar tudo isso de maneira diferente. Penso que temos caminhado em sentido negativo na formação de professores e isto por várias razões… seria uma conversa longa.

A Primeira República criou as Escolas Normais Superiores… ainda é muito interessante ler o decreto-lei que as criou: numa primeira fase, como que anexas às Faculdades de Letras, as metodologias previstas, como o ensino deve ser desenvolvido… Numa simbiose com as pedagogias magistrais, estão as pedagogias que hoje consideramos mais modernas. Vislumbra-se lá o Processo de Bolonha, não é o processo administrativo de engenharia de Bolonha, que o Ministério da Ciência e do Ensino Superior fez com tanto zelo, mas antes o processo que dá condições para que realmente o ensino tutorial se possa desenvolver com eficácia. Ainda lá se pode aprender muito…Essas Escolas Normais Superiores foram extintas, num regime que não era um regime democrático.

Ainda durante a minha vigência e na sequência da Lei de Bases do Sistema Educativo, publicou-se a chamada Lei de Expansão e Diversificação do Ensino Superior mas foi muito difícil de ser promulgada. Era um dos marcos que eu considerava essenciais e fui buscar estudos bastante concretos para me basear. Durante muito tempo dialoguei com o Professor Marcelo Caetano, que me acompanhou, e criaram-se por esse decreto-lei, que julgo ser o n.º 402 de 73, várias Universidades. 

Para responder à sua pergunta, meu caro amigo: o grande desafio da Escola neste século é o da formação de professores. Os professores bem formados sabem o que fazer com o conhecimento.

Maria Helena Damião 

Nota: Condução da entrevista e transcrição realizada por Carlos Afonso e Carlos Carvalheira.

2 comentários:

  1. Por razões pessoais nunca poderei esquecer este ministro da educação. Em poucas vidas terá a sua opinião tido tanta importância. Tenho boa opinião do senhor. Foi um dos ministros do antigo regime que colheram elogios à direita e à esquerda, cujo trabalho foi apreciado antes e depois do 25 de Abril por quem tinha algum esclarecimento sob a sua actividade no ministério da educação. Também esta entrevista me parece de uma pessoa lúcida e interessada na "coisa pública".

    Concordo, a formação de professores tem sido descurada. Já foi "uma coisa qualquer" que deu para alguns professores -- os formadores - ganharem uns cobres, fazerem a apologia do sistema e seguirem em frente depois de terem ensinado nada e avaliado o nada que ensinaram não se sabe bem como. E por lá passaram e re re passaram profissionais dos vários programas tecnológicos, os quadros interactivos e mais.
    No entanto, parece que agora se estabelecem de novo alianças entre faculdades e centros de formação de professores. Esperemos que se lembrem da pedagogia e dos próprios conteúdos científicos das disciplinas. Que ajudem os professores a actualizar-se e a ensinar melhor. Porque embora a proporção entre o que se ensina e o que se aprende não esteja na razão de um para um, ensinar melhor ainda ajuda a aprender mais e também melhor.

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  2. Também não poderei esquecer este ministro da educação. Por muitas e variadas razões. Fez a reforma Veiga Simão é certo. Mas também fez o discurso de 10 de Junho de 1965 (salvo erro) a convite de Salazar. E não hesitou em pertencer a um governo que tinha a Pide a e a censura. E mais não digo: cada um que pense por si.

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