quarta-feira, 30 de abril de 2014

Prefácio a "Meu Dito, Meu escrito" de Maria de Sousa (Gradiva, 2014)


Prefácio da autora ao livro "Meu Dito, Meu escrito" de Maria de Sousa, que acaba de sair na Gradiva: 

Uma rara ocasião e um começo que habitualmente aparece no fim 

 Este livro não existiria sem a ajuda cuidada, generosa e preciosa de dois amigos, antigos alunos do curso de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto: os agora médicos Dr.s Miguel Ângelo Duarte e Helder F. Araújo. Carlos Fiolhais contribuiu com uma última dedicada leitura, transmitindo a convicção infecciosa de que valeria a pena publicar este manuscrito. Todos contribuíram com tempo e preciosa atenção dedicados a encontrar no manuscrito repetições, erros ortográficos, referências por preencher e outras incorrecções várias. Helder Araújo e Carlos Fiolhais, no entanto, juntaram a essa leitura cuidada a função de autênticos editores, figura que me habituei a respeitar e reconhecer no convívio com escritores anglo-saxónicos, mas que parece não estar disponível em Portugal. O editor, neste caso o Sr. Dr. Guilherme Valente, é a figura que persiste em acreditar que um autor amador é capaz de acabar um livro. Agradecimentos e expressões de reconhecimento, que habitualmente aparecem no fim de artigos científicos, aparecem assim no começo deste livro, num prefácio escrito em Junho de 2013. Mais agradecimentos são devidos aos que me ajudaram nas últimas revisões do texto, completados em Fevereiro de 2014. Esses aparecerão no final. Pensei que o melhor agradecimento e expressão de reconhecimento de tanto trabalho e paciência seria ter acabado o manuscrito do livro. Esse dia parece ter chegado primeiro no sábado, 22 de Junho de 2013 e voltado a chegar hoje, 31 de Janeiro de 2014, depois da leitura de Carlos Fiolhais já em 2014. Creio que a paciência e persistência do editor se estendeu, pelo menos, pelos últimos 10 anos. A entrada por 2014 permitirá incluir um texto sobre a preocupação que paira no país com o futuro da Ciência, publicado no jornal Público a 29 de Janeiro de 2014.

O facto de a preparação deste manuscrito ter levado esses longos 10, 11, ou talvez mesmo 12 anos, permitiu-me chegar a uma belíssima e muito rica surpresa ainda em Junho de 2013: receber e poder celebrar ainda neste livro o aparecimento de uma obra sobre a história da Universidade de Lisboa, uma obra inspirada pelo Professor António Nóvoa, último Reitor da Universidade dita Clássica de Lisboa, e coordenada pelos Professores Hermenegildo Gonçalves (séculos xiii-xvi), Sérgio Campos Matos e Jorge Ramos do Ó (séculos xix e xx) com a colaboração de colegas da mesma universidade (Fernandes, H. (coord.), 2013. A Universidade medieval em Lisboa. Séculos XIII-XVI. Lisboa: Tinta-da-China. e Campos Matos, S. e Ramos do Ó, S. (coord.), 2013 Universidade de Lisboa. Séculos XIX-XX. Lisboa: Tinta-da-China).

A obra, que consiste de três volumes cobrindo o período medieval (séculos xiii-xvi), o século xix  o século xx, situa-se entre as celebrações do primeiro (e único) centenário da Universidade dita Clássica de Lisboa e a sua fusão com a Universidade Técnica, fusão que teve lugar em 2013, cumprindo o conteúdo do Decreto-Lei n.º 266-E/2012, de 31 de Dezembro de 2012.

Refiro esta ocasião como rara por duas razões: pela fusão de duas universidades públicas em Portugal e pelos livros agora publicados virem precisamente ao encontro da preocupação expressa nas páginas anteriores: que possamos saber melhor de onde vimos, quem somos, do que precisamos fazer para chegar, ou não, onde outros chegaram e o que outros poderão aprender com o que nós quase esquecemos. A referida obra, agora publicada com o apoio da Universidade de Lisboa e Fundação Calouste Gulbenkian, deixa registado não só aquilo que quase esquecemos mas também as razões por que talvez muita coisa nunca se saberá ao certo, sobretudo do período medieval. Esta é a primeira ilustração de uma das verdades da ciência, que o leitor virá encontrar repetidamente neste livro: O que sabemos é a mais pequena parte do que ignoramos.  (Orta, G. d’, citado em Silva Carvalho, 1934. «Garcia d’ Orta», Separata da Revista da Universidade de Coimbra, vol. XII, n.º 1, p. 120.)

 Diz Nóvoa no prefácio:

"O esforço levado a cabo marca a necessidade de compreender uma das instituições mais antigas, a Universidade, e o seu papel ao longo dos séculos. O estudo do passado e a construção da memória são passos necessários para que as instituições adquiram a espessura e capacidade crítica, dotando-se dos instrumentos necessários a uma reflexão sobre si próprias. Dedicadas ao pensamento e ao conhecimento, nem sempre as universidades criaram as condições para se poderem pensar e conhecer." (Nóvoa, A., 2013. Prefácio. In Fernandes, H., op. cit., p. 16).

No livro sobre a universidade medieval em Lisboa, aprendemos que Garcia d’ Orta, o Ervas das páginas 181 a 186 deste livro e autor da citação sobre a dimensão do que ignoramos, foi lente de Filosofia Natural entre 1530 e 1534, de Filosofia Moral em 1534, e de Súmulas em 1533-34. O trabalho, de Silva Carvalho, que voltará a ser citado mais tarde, foi escrito em 1934 precisamente para marcar os 400 anos da partida para a Índia de Garcia d’ Orta (In Orta, G. d’, op. cit). Hermenegildo Gonçalves cita dois registos no Chartularium Universitatis Portuguensis referentes a Orta:

"ambas cartas de privilégio, as duas de Abril de 1526: pela primeira concede-lhe o rei a faculdade de andar de mula, não obstante as ordenações em contrário; pela segunda dá-lhe licença para a prática da medicina nos seus reinos, depois de já ter sido examinado pelo físico-mor. Já sobre Pedro Nunes, lente de Filosofia Moral (1528‑1529), lente de Lógica (1530-1531) e lente de Metafísica (1531‑1532), portanto contemporâneo preciso do anterior, temos um conjunto de cartas régias nomeando-o cosmógrafo régio (1529), ainda enquanto bacharel, mais tarde como doutor (1534), ao mesmo tempo que o identificam em todos os casos como membro da casa do rei." (Fernandes, H., 2013. Introdução. Op. cit., p.) 

Passei, assim, a sentir um orgulho novo por me ter licenciado em Medicina na Universidade de Lisboa em 1963, 400 anos depois da publicação do grande livro de Garcia d’ Orta, num tempo que sem o privilégio de poder andar de mula, ir do Alto do Dafundo à Faculdade de Medicina onde ainda está hoje exigia muitas horas e o uso de três meios de transporte público: eléctrico, comboio e autocarro.

Por muito orgulho que tivesse sentido em poder relacionar a minha passagem pela Universidade de Lisboa com tão notáveis antepassados, o prefácio de António Nóvoa da obra agora publicada deixa-me igualmente orgulhosa por ter o seu autor como meu preciso contemporâneo.

Deixa palavras que passo a citar, em parte por serem suas, em parte por não serem muito diferentes das de outros precisos contemporâneos (aqui citados mais tarde), sobre o futuro, o presente e a palavra escrita:

 António Nóvoa:

«A perenidade conquista-se e merece-se graças a um esforço contínuo de renovação e de mudança. É a consciência aguda do tempo e da história que nos traz a responsabilidade do presente.» (Nóvoa, A., 2013, op. cit., p. 17.)

Barack Obama (p. 243):

«O futuro é nosso, a conquistar. Mas para chegar lá não podemos ficar parados. Como Robert Kennedy nos disse, ‘O futuro não é uma dádiva. É uma conquista a cumprir [achievement, em inglês]». (Obama, B., 2011. State of the Union Speech.)

 Dominique de Villepin (p. 161):

«... as palavras ficam como as únicas e verdadeiras armas desde que a imprensa deu ao discurso os meios de permanecer um presente eterno.» (De Villepin, D., 2008. La Chute de l’Empire de la Solitude 1807‑1814.Paris: Perrin, p. 477.)

Maria de Sousa

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