terça-feira, 22 de abril de 2014

NÃO ESPALHE ESTA MENSAGEM

Excelente artigo, do jornalista Ricardo Nabais na última edição do Sol, para o qual prestei algumas declarações.




Imagine que recebe o seguinte email: «Laranja (ou Vitamina C) + Marisco, Nunca! (veneno fatal produzido no organismo…)». O que faz? a) interrompe tudo o que está a fazer e vai até à marisqueira mais próxima; b) comparece nas urgências do hospital mais próximo, em agonia, a pedir uma lavagem ao estômago; c) vai imediatamente a um notário lavrar o seu testamento.

Se escolheu as respostas b) e c) e reencaminhou o email para a maior parte dos seus amigos e conhecidos, em pânico, pode fundar uma nova igreja, pois acredita em tudo. Se os seus amigos e conhecidos tiverem a mesma reacção, parabéns, a sua igreja terá muitos seguidores.

Mas se escolheu a opção a) está no bom caminho. Será só ao paladar que laranja e marisco não combinam. De resto, ninguém encontrou uma relação tóxica ou perversa entre os dois ingredientes. E a saúde pública – felizmente – não faz os seus alertas assim, de email em email, propagando pânico sem fundamentação. 

Se, ainda assim, acredita nesta tese, basta ler as primeiras linhas daquela mensagem –  «Em Taiwan, uma mulher morreu de repente com sinais de hemorragia em seus ouvidos, nariz, boca e olhos. Depois de uma autópsia preliminar, foi diagnosticado como ‘causa mortis’ envenenamento por arsénico. Mas qual foi a origem do arsénico?». 


O mistério, claro está, é resolvido por uma autoridade, um ‘médico’, que se pronuncia da seguinte maneira: «O óbito não se deu por suicídio nem por assassinato, a vítima morreu acidentalmente por ignorância!». Isto porque «o arsénico foi produzido no estômago da vítima. A vítima tomava Vitamina C todos os dias que, por si só, não é nenhum problema. O problema é que ela comeu camarão ao jantar. Entretanto, na mesma ocasião, a vítima também tomou Vitamina C… é aí onde reside o problema». 

Como? O mail segue com a ‘fundamentação’: «Pesquisadores da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, descobriram através de experiências, que alimentos como camarão, ‘casca mole’, contém alta concentração de compostos de potássio-arsénico 5. Tais alimentos frescos, por si só, não são tóxicos para o corpo humano! Entretanto, ao ingerir a Vitamina C, devido a uma reacção química, o inicialmente não-tóxico potássio-arsénico 5 (como anidrido também conhecido como óxido arsénico - As2 O5). Este converte-se no tóxico potássio-arsénico 3 (ADB anidrido arsénico), também conhecido como trióxido de arsénio (As2 O3)». 

Veneno, talvez haja em doses maciças, mas na informação que é assim veiculada. A net alberga muitos dados úteis, mas também uma espécie de submundo tóxico que se propaga como as doenças. Eis a pseudociência no seu esplendor. «Se houvesse uma relação clara entre comer marisco e citrinos com riscos potenciais para a saúde, julgo que as autoridades de saúde pública seriam as primeiras a alertar as pessoas», diz David Marçal, bioquímico e divulgador de ciência. «Parece-me uma teoria bastante absurda», acrescenta, apresentando algumas das perguntas fundamentais que precedem qualquer estudo verdadeiramente científico: «Que estudos epidemiológicos foram feitos que demonstrem essa relação? Foram feitos ensaios clínicos, experiências em condições controladas? Qual foi a metodologia usada para se chegar a essa conclusão? Qual foi o tamanho da amostra? Aconteceu uma vez a uma pessoa? Se é isso, não prova nada».

Não se pode associar automaticamente duas coisas só por ocorrerem em simultâneo. «Por exemplo, nunca mais tive um acidente desde que tenho um carro preto. Isto significa que não se pode ter acidentes com carros pretos? Não significa nada, poderá haver outras razões para eu não ter acidentes».

Marçal já escreveu sobre o fenómeno da pseudociência, focando-se noutros exemplos, em Pipocas Com Telemóvel, a meias com o físico Carlos Fiolhais. E consegue definir alguns traços do estilo, enquanto percorre a sua própria caixa de correio electrónico, com emails deste género, muitos enviados, em tom de piada – ‘workshop de corpo e mente anticancro’, ‘ginástica modifica ADN’, ‘Convite para a celebração do dia mundial da paz interior’ são apenas algumas das pérolas.

Mas que estilo será esse, que têm em comum estes mails para dar algum grau de ‘seriedade’ a uma versátil criatividade formatada para o disparate? Para começar, há que referir uma figura de autoridade. «É uma marca habitual», diz David Marçal. «Validam as suas ideias não com as provas, porque essas não existem, mas com a autoridade de quem as valida. É como as falsas citações de Einstein na net. Aparentemente ele comentou todos os assuntos mais prosaicos e mundanos». 

Um exemplo desse atestado de validade pode encontrar-se noutro ‘estudo’ que entope caixas de correio electrónico um pouco por todo o lado – a tese de que os ímanes nos frigoríficos podem tornar tóxicos os alimentos que lá estão guardados. E quem envia a informação? Um certo ‘vice-reitorado e serviços gerias da unidade de extensão universitária da Universidade de Cuenca, em Espanha’. Uf… 

Mas há um segundo selo de autoridade, já que o vice-reitorado da universidade de Cuenca cita o estudo como sendo da autoria da prestigiada Universidade de Princeton, nos EUA, que aparentemente fez uma experiência em que até usou, como é hábito na ciência válida, dois grupos de controlo de ratinhos em laboratório. A um deles deu comida guardada num frigorífico sem ímanes e a outro as iguarias que vinham ‘contaminadas’ pelas ondas electromagnéticas dos ímanes. Resultado: o segundo grupo tinha 86% mais de hipóteses de desenvolver cancro… [que estudo é esse? Se bem me lembro, era apenas mencionada a sua existência, mas não havia uma referência concreta, para que possamos consultar a metodologia, ver se são tiradas conclusões abusivas. Ou se existe! Isto é importante]

Esmagados pela experiência, será que devemos tirar os ímanes do frigorífico? Será que se está a armar uma conspiração contra nós? Será que os responsáveis pela saúde pública querem torna-la viável recorrendo a uma redução da população? Nada disso. As teses de conspiração também fazem parte deste imaginário. É a ideia de que «‘eles’ – sejam eles quem forem, talvez o mundo racional – querem impedir que a informação seja transmitida. ‘Eles’ são os cientistas, das autoridades públicas de saúde e, claro, os jornalistas», ironiza Marçal. «Estão todos unidos em prol de um objectivo obscuro, por exemplo, disseminar o cancro através de ímanes no frigorífico».

Enquanto o assunto forem emails de um nível mais ou menos tresloucado, não parece haver problema de maior e até podemos acrescentar anedotas novas à nossa lista, como a possibilidade de cozer um ovo a partir de um telemóvel ou os malefícios do Actimel, que leva o nosso organismo a ‘esquecer’ como se ‘geram’ bactérias benéficas (ver caixas). 

O perigo é quando a mistificação se generaliza e toma conta das consciências. David Marçal lembra o informal movimento antivacinas, que se espalha um pouco caoticamente pelo mundo ocidental, justamente aquele que inventou e que mais beneficiou dos programas de vacinação. Tudo começou com um artigo científico, este sim, efectivamente publicado nos canais científicos válidos. A revista Lancet, uma referência na área da investigação médica, publicou nos anos 90 (em 1998) um estudo de Andrew Wakefield, que associava uma vacina ao autismo.

Apesar de a própria revista desmentir, mais tarde, o estudo que publicou, o autismo –não o real, o mediático e da opinião pública – já estava espalhado. «Esse artigo é paradigmático por várias razões. É um exemplo de que um artigo científico apenas não significa muito». A imprensa, recorda, levou Wakefield em ombros durante muito tempo, quase o proclamando um cruzado na batalha contra obscuras farmacêuticas que conspiravam contra nós através da vacinação. Mas os mesmos media desmontariam a fraude, através de uma investigação histórica conduzida por Brian Deer. Wakefield seria expulso da Ordem dos Médicos britânica.

O problema é que os movimentos antivacinas ainda existem hoje, passados quase 20 anos. «Nos anos 50, nenhuma mãe hesitaria em vacinar os filhos para os livrar de doenças potencialmente perigosas e até fatais». Os programas de vacinação pública levaram à erradicação de doenças como a varíola (apenas um de muitos exemplos), que durante séculos dizimaram populações. 
Esse desaparecimento das doenças leva a uma pescadinha de rabo na boca nos dias de hoje: quem é contra as vacinas alega que elas não são necessárias porque as doenças praticamente não existem. Mas elas não existem devido às vacinas… «Acho que o mundo está numa fase em que dá muito por garantido o valor da ciência e do conhecimento, de tal maneira que até os desvaloriza», conclui Marçal.

Mas, seja como for, uma dose de cepticismo e de vontade de conhecer pelos meios de que a ciência realmente se serve – consultar literatura médica, informar-se com um profissional de saúde, confrontar várias hipóteses – ainda são o melhor remédio. David Marçal acrescenta uma preocupação à receita: «Numa sociedade fortemente baseada na ciência e na tecnologia grande parte das pessoas não tem acesso ao conhecimento científico e desconhece os princípios básicos da ciência. É paradoxal e indesejável, mas é uma realidade que temos de reconhecer e de contrariar». 

1.Actimel
Segundo um mail que circula há anos pelas caixas de correio electrónico – pretensamente assinado por uma investigadora da Universidade do Algarve – este produto, cujas propriedades benéficas são largamente publicitadas – em alguns países a comunicação dessas benesses foi limitada, por não ser provada –, ao fornecer a bactéria L. casei, «gerada por 98% dos organismos», o Actimel leva a que o organismo «se esqueça» de a fabricar… David Marçal comenta:

«Esta mensagem é um disparate total. Logo no início fala de uma bactéria, Lactobacillus casei, e afirma que esta é ‘gerada por 98% dos organismos’. As bactérias não são geradas por outros organismos. São seres vivos independentes e os seres humanos são colonizados por elas desde o momento em que nascem. A incorporação das bactérias é sempre externa. Os únicos organismos que geram naturalmente bactérias são bactérias iguais, por divisão celular.
A Danone chegou a fazer alegações não fundamentadas acerca de benefícios para a saúde do Actimel e a ser condenada por publicidade enganosa em vários países por causa disso. Mas daí a dizer que o Actimel é um risco para a saúde vai uma grande distância. Não há nenhuma prova disso.
A assinatura de uma suposta investigadora da Universidade do Algarve é um mero argumento de autoridade. Mas a ciência não assenta em figuras de autoridade, assenta em provas. E essas, não são apresentadas nem referenciadas.

2.Cozer ovos com um telemóvel?
Noutro email somos tentados a fazer uma experiência, recorrendo a dois telemóveis – fazendo uma chamada de um para o outro – e a um ovo:

«Iniciamos uma chamada entre os dois telemóveis e deixamos durante 65 minutos aproximadamente… Nos primeiros 15 minutos nada acontece; aos 25 minutos o ovo começa a aquecer; aos 45 minutos, o ovo está quente; aos 65 minutos, o ovo estará cozido. Conclusão: a radiação emitida pelos telemóveis é capaz de modificar as proteínas do ovo. Imagina o que ela pode fazer com as proteínas do nosso cérebro quando falamos ao telemóvel».

David Marçal sugere que o melhor mesmo é fazer a experiência:

«A melhor maneira de perceber, para quem tem dúvidas, que as radiações dos telemóveis não servem para cozer ovos, é experimentar.

A partir daqui é tudo absurdo: o facto de os telemóveis, estarem, como sugerido, a fazerem chamadas entre eles é irrelevante, pois os telemóveis não comunicam directamente entre si. Quem quiser experimentar, pode levar os telemóveis para um sítio remoto onde não haja antenas de telemóvel, e verá que não consegue usa-los para comunicar nem para cozer ovos.

As radiações dos telemóveis são microondas, tal como as radiações dos fornos microondas. No entanto, as radiações dos fornos microondas são de um comprimento de onda específico, que faz vibrar as moléculas de água. O comprimento de onda da radiação dos telemóveis é diferente. Assim, a radiação dos telemóveis não é adequada nem suficiente para aquecer alimentos. Nem cérebros. A OMS considera o uso de telemóveis seguro. Claro que podemos sempre supor uma grande conspiração mirabolante, envolvendo fabricantes de telemóveis, neurocirurgiões e oncologistas, em prol desse objectivo espantoso que é a disseminação de tumores no cérebro. No entanto, essa conspiração, a existir, não está a resultar. Nos Estados Unidos, por exemplo, apesar do uso crescente dos telemóveis, o número de cancros cerebrais tem vindo a diminuir desde há duas décadas».

3 comentários:

  1. uma vez tentei chamar á razão um vegetariano que dizia que o leite faz muito mal e coiso e tal , dava como exemplo um copo de leite (200ml , por ai) ter cerca de 200.000 moleculas de pus. tentei explicar-lhe que 200 mil moleculas, bacterias ou whatever num copo de leite é a mesma proporção que 3 grãos de areia nas praias da costa da caparica, resultado: fui gozado pela comunidade erbivora e deixei de me preocupar com a estupidez alheia

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  2. Os problema do leite existem mas a pús não é certamente.

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  3. Se aquecesse cérebros, talvez este tipo de e-mails já se tivesse dispersado há muito tempo. Mas infelizmente, cérebros ocos não aquecem...

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