terça-feira, 18 de março de 2014

"Se não fossem as mentiras, estavam tramadas"

Paula Rego, sobre a privacidade das crianças.
Paula Rego. Crianças e suas histórias, 1989.
“É muito injusto ser criança. É a coisa mais injusta que existe. É-se pequenino, está-se nas mãos das outras pessoas (…). As crianças não têm privacidade, estão à mercê dos adultos e para se vingarem aprendem a mentir. A subversão é a única maneira que têm de poder vencer. As mentiras são coisas que lhes salvam as vidas. Se não fossem as mentiras, estavam tramadas” (Paulo Rego, 1996, 21) .

Reis, B. (1996). A história da princesa Paula. Entrevista a Paula Rego. Pública, 17-26.

4 comentários:

  1. Como não li toda a entrevista não sei se Paula Rego se refere ao imaginário infantil e à realidade maravilhosa que cria e mistura na vida como um ingrediente mais. Ou se discorre acerca da mentiras deliberada.

    Curioso, nenhuma criança sente a injustiça da idade. Pelo contrário, é na infância que existe maior capacidade para sermos felizes. Por não pensarmos nisso. A pintora faz uma análise adulta a um ser que não o é nem tem as suas caracteristicas; e que ela trata como se.

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  2. "salvam as vidas" - Que disparate!!!
    Até parece que os adultos são exemplo para alguém!
    Injustiça é crescer e optar por viver na ilusão, supostamente para sobreviver.
    Ou a vossa infância não deixou memórias ou ela não foi feliz. Seja como fôr, perderam o melhor.

    Até parece que os adultos têm um mundo de justiça, têm cada vez mais privacidade e que são um exemplo de independência. "Apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo", curiosamente o mentiroso é aquele que mais tende a crer em si mesmo, ainda que saiba não ser verdade. Chamar à criatividade e curiosidade, de subversão... Que citação tão revolucionária, credo!

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  3. Caro Leitor
    Tanto quanto percebi, na entrevista que cito, a ideia de Paula Rego é que muitos adultos não consideram a privacidade como uma necessidade estruturante do "eu" das crianças.
    E ela é de opinião contrária. Opinião que coincide com a minha.
    Assim, quando, por exemplo, em contexto escolar, se questionam as crianças sobre questões privadas e íntimas, na esperança de que elas sejam sinceras, o que é provável (e desejável) obter-se da sua parte são respostas socialmente desejáveis. Aliás, se isso acontecer é sinal de que terão feito uma aprendizagem crucial: a diferença entre o que partilharmos com os outros e o que desejamos guardar para nós; entre o que podemos partilhar com pessoas próximas e o que não queremos partilhar com as demais.
    De maneira que a "mentira" por parte das crianças nem sempre é uma maldade que deve ser castigada, mas uma defesa em benefício da construção da sua identidade e espaço próprio.
    Cordialmente,
    Maria Helena Damião

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  4. Muito interessante o texto e ironia de Paula Rego - agradeço à Prof. Helena Damião fazer-nos pensar ...
    Felizmente muitas crianças (ainda, talvez, não "estragadas" pelo meio) são sábias e sabem-se socorrer de "mentiras piedosas". Mas muitas outras, infelizmente, terão de socorrer-se (e aprender) de mentiras recorrentes para poderem sobreviver - e aí são os adultos que estão a dar o "mote" para que o façam - pelas próprias questões/comentários que fazem. Demasiados pais esquecem-se de respeitar o direito à privacidade dos seus filhos (aliás não é raro esses Pais exporem eles próprios a sua privacidade - relatando conteúdos, experiências que as suas crianças não quereriam (e certamente, não deveriam) ouvir! É terrível quando ouvimos (por exemplo em contexto clínico) "Eu conto tudo ao meu filho(a)!" Também é terrível quando os Pais tentam ser omnipresentes e omniscientes (os filhos têm direito à vida interior - e, esta, por definição, é privada!). Sábios serão os cuidadores que respeitam silêncios, angústias, dando-lhes "respostas" sem fazerem perguntas invasivas - i.e., que cuidam, estão atentos, são responsivos, sem levar/obrigar a criança a mentir.

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