domingo, 9 de março de 2014

Dois equívocos pedagógicos muito bem explicados

Imagem retirada daqui
Henrique Raposo, um cronista do jornal Expresso que gosto de ler, publicou na passada semana um texto cujo título é "Rever Clube dos Poetas Mortos é um tormento". Assente o pó de duas décadas e meia, o maravilhamento que o filme de Peter Weir lhe proporcionou, transformou-se numa "xaropada". E isto, explica, por causa de dois equívocos que só agora percebeu.
Um é que a obra dá a entender que a "poesia é apenas emoção, uma emoção anti-razão, uma emoção não filtrada pelo intelecto. É como se a poesia fosse sinónimo de sinceridade, de pureza, de mera inspiração não conspurcada pelo trabalho intelectual. É como se escrever consistisse apenas no abrir da corrente de pensamento, é como se escrever não fosse um lento garimpar das palavras. Outro é que nela se "proclama o império da criatividade sobre o trabalho disciplinado, sobre a memória, sobre o conhecimento."
Penso que ele só agora percebeu estes dois equívocos porque, apesar de terem "barbas brancas", nos anos oitenta e noventa do passado século, na altura em que o filme foi visto por toda a gente, eles estavam no seu apogeu. As antinomias: "ensino versus aprendizagem" e "criatividade versus memória", ou, por outras palavras, os alunos "só aprendem se não forem ensinados" e "só criam se não tiverem conhecimentos" eram dois lemas (melhor, dogmas) "pedagógicos" completamente infiltrados no pensamento social. Não se pensava fora destes deles. E se alguém ousasse fazê-lo era imediatamente advertido da inconveniência da sua atitude. Ainda hoje é assim, aliás. Sobretudo se falamos de poesia.

E isto tudo à revelia da investigação científica muito séria que se fazia e se faz na área da psicologia e da pedagogia sobre a aprendizagem e sobre como o ensino deve ser organizado para que os alunos aprendam, mesmo na área da poesia, que requer, claro está, criatividade.

Mas para que o alunos manifestem as suas potencialidades criativas, diz, e diz bem, Henrique Raposo, "é preciso um trabalho de apreensão de conhecimento, de memorização, um trabalho que requer humildade perante o mundo exterior ao eu".
Maria Helena Damião

4 comentários:

  1. Pois é a pura verdade, Drª Maria Helena. E essa é a causa de muita ignorância de alunos que terminam o secundário, que terminam o superior mesmo... Deixa-se a aula ao ritmo do aluno, espera-se que ele "descubra" o que desconhece e o professor esquece-se de que ele precisa de bases, precisa de conhecimentos prévios para poder concluir, para poder apreciar, para poder comentar... e o professor que diz, ou faz, o contrário, é antiquado, faz uma aula muito expositiva, não deixa o aluno espraiar-se...enfim! — Isaltina

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  2. Pouco leio Henrique Raposo - por razões subjectivas e tb por outras com maior grau de objectividade; no entanto, tem algumas crónicas interessantes. Gosto bastante do Clube dos Poetas Mortos. Provavelmente derivo entre dois preconceitos, mas não considero o filme "uma xaropada". O jornalista só agora descobriu que a poesia é trabalho; sobre trabalho; toda a escrita, aliás, o é - sendo de alguma qualidade. A criatividade, ou a inspiração se se quiser assim chamar-lhe, não brota espontânea , mas, apesar de reconhecer que não é apenas fruto de trabalho, faz-se sobre ele. É assim na ciência; é assim na literatura; é assim na arte; deve ser tal em todo o processo criativo. Porque só os deuses acertam à primeira. E ao homem - à sua inteligência discursiva - resta um caminho árduo - de aprendizagem - até à criação.

    Continuo a encontrar naquele professor diferente um incentivo a pensar diferente. Um incentivo à escrita. Um incentivo ao pensamento reflexivo e pessoal; um incentivo a fazer seus os conhecimentos papagueados sem nexo. Mas, como acima referi, sou pelo filme. E não o revi há pouco tempo, quem sabe a memória o guardou mal. É o meu filme sobre o filme. Não vejo razão para não continuar paralelo à versão reciclada Henrique Raposo.

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